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Conjuntura

Um Olhar sobre o IDE

Instituto apoiado pelo Criança Esperança encara as dificuldades para, ano após ano, levar formação profissional, cultural e religiosa para jovens e crianças da periferia de Campo Grande

Autor: Andriolli Costa (Acadêmico)
Publicada em 25/05/2008

Os garotos correm empolgados em direção ao campinho de terra vermelha. Em meio a algazarra, uma certa ordem aparece quando o instrutor comanda a divisão dos times. Meninas para um lado, meninos para o outro. Crianças de seis a 16 anos se espalham de cada lado do campo. “Não chuta forte!”, reclama uma. “Essa bola tá muito cheia!”, acusa o outro. Problema resolvido; recomeça a partida. Vinte minutos de corre-corre depois, e o instrutor apita. Avisa que está na hora da aula de informática, e que outra turma vai usar o campo. Empapadas de suor e terra até os cabelos, elas se limpam como podem e seguem para a próxima atividade sem reclamar. Se tem uma coisa que gostam tanto quanto futebol é de computador.

Saindo do quintal, as crianças entram na casa do Instituto do Desenvolvimento Evangélico (IDE). Sediada no bairro Caiobá desde 2006, o Instituto é uma casa alta, com telhado de zinco e a pintura gasta, já bastante avermelhada pela poeira constante do bairro não-asfaltado. Nos portais de entrada do Instituto estão pichadas as palavras “Atitude”, “União” e “Humildade”. O local recebe as crianças do bairro durante o contra-turno escolar. As atividades são rotacionais, de forma que todos possam participar de tudo. Além do escritório, abarrotado de armários com brinquedos usados, pinceis e lápis coloridos, o interior contém uma sala com uma pequena TV de 20 polegadas, outra sala para artesanato, mais uma para aulas de reforço e uma para informática. Na ponta, um espaço maior, foi destinado para a cozinha da instituição.

É com essa estrutura simples, mas com muita força de vontade, que o IDE conseguiu em 2008 ser o único projeto social aprovado pelo Criança Esperança em Campo Grande. Em 2009, também foi contemplado, sendo que este ano a capital conta com mais um, o Projeto ECOA. Fundado por Enéias (37) e Manoel de Andrade Barbosa (35), o IDE, que hoje atende quase 200 crianças por ano, começou mais por insistência que por planejamento. Ter sido aprovado no edital foi uma conquista toda especial para o projeto.

“A gente veio para cá em 2006 com três meses de casado. O terreno foi cedido pela igreja. Não tinha nada aqui antes, nem luz elétrica. A molecada pulava o muro e fazia o que queria”, conta a esposa de Enéias, Josiliete Candelar da Guia Ferreira (35), – a Josi, como gosta de ser chamada. E continua “O dinheiro que tinha, era o da minha pensão. A gente até teve que morar na instituição por algum tempo porque não tinha condições”. De início, o projeto atendia 30 crianças e funcionava apenas no período da tarde. Era Josi quem fazia as vezes de professora nas aulas de reforço, instrutora nas brincadeiras no quintal e ainda era ela quem corria para preparar o lanche da turma toda nos intervalos. O projeto cresceu rápido, e graças à visibilidade gerada pelo Criança Esperança, conseguiu fechar parcerias a pagar outros funcionários. Hoje, o IDE conta com dois bolsistas para apoio pedagógico, dois instrutores de informática, dois de educação física, uma cozinheira e uma professora de artes, sem contar os diversos voluntários que aparecem esporadicamente. Na última convocação, somaram quase 30 pessoas.

Josi foi coordenadora do IDE até o ano passado, e só se afastou porque ficou grávida de seu terceiro filho. O cargo foi passado para Glauber Frederico de Miranda (24). Acadêmico do 5º semestre de serviço social na Uniderp Interativa, Glauber conta que desde os 17 já trabalha com causas sociais. Vendo a situação do instituto, o coordenador decidiu abrir mão de metade do seu salário, de R$ 800, para que o dinheiro fosse usado no projeto. “Eu prefiro receber menos e o negócio funcionar, do que continuar a receber e ver que não está dando certo. Eu sou casado, então às vezes eu falo pra minha véia: segura as pontas aí, que esse mês não dá”. Para completar a renda, Glauber dá aulas de bateria em casa; assim ele poder continuar trabalhando no instituto. “Na minha profissão, a gente vê cada coisa que acaba ficando com o coração meio calejado. Mas quando eu vi esses toquinhos de gente sem nada para comer… Criança é outra coisa”. O dinheiro do edital do Criança Esperança não pode ser usado para compra de comida ou para reforma da infra-estrutura do prédio. Os R$ 53 mil devem ser usados exclusivamente para compra de materiais, prestação de serviço e recursos humanos.

Até o ano passado, a situação da comida era menos problemática no IDE. Parcerias com a prefeitura, com o Mercado do Produtor e a própria horta nos fundos da instituição garantiam a fartura de alimento. Era tanto, que para ajudar a comunidade, foram montados kits de verdura que eram distribuídos semanalmente para a população. Mas com uma condição; segundo Enéias, para receber o kit, a pessoa tinha que se comprometer a assistir pelo menos duas palestras no IDE. Os temas das palestras eram voltados especificamente para a realidade da população local, indo desde orçamento do lar até a economia de luz e violência contra a mulher. Enéias garante que a iniciativa teve resultados “Depois o pessoal te para na rua e conta que sentiu a diminuição da conta, que caiu a ficha”.

Crianças e jovens interagem nas atividades do IDE

O tempo das vacas gordas acabou esse ano, quando o Mercado do Produtor não renovou a parceria e a prefeitura parou de enviar alimento. “O que teve de gente que veio atrás do kit verdura esse ano… Mas a gente não tinha mais condições” relata Josi. Sem alimento nem para as próprias crianças o IDE está sempre correndo atrás de apoio, seja da padaria do bairro, que doa 90 pãezinhos por dia, até grandes redes de supermercado. O Wal-Mart ofereceu suas instalações para a realização de um Sábado Solidário, arrecadando alimentos como doação para as crianças da instituição. No final, foram recebidos mais de 500 kg em donativos, que segundo Josi vão poder alimentar as crianças durante um mês e meio.

De parceria em parceira, o IDE vai sobrevivendo mês após mês. Até mesmo a horta vai voltar a funcionar esse ano mesmo. Pergunto se as crianças não poderiam ajudar na manutenção da horta. Josi responde que os menores de idade não podem tomar parte em atividades braçais. O trabalho infantil é uma realidade constante no bairro, e mesmo quando evitado, muitos dos jovens tem vontade de trabalhar, e entram no mercado assim que completam 16 anos.

É Enéias quem explica, “o pessoal quer trabalhar desde cedo para ajudar os pais, ou para ter aquilo que não tem em casa, comprar uma roupa, um celular. Mas se você recebe de graça comida, educação e lazer, você consegue evitar que a criança comece a trabalhar muito cedo”. O IDE oferece duas refeições para as crianças que freqüentam a instituição no período matutino, e uma para as do período vespertino. Além das atividades tradicionais como as aulas de reforço e computação, o instituto também oferece aulas de hip hop, baixo, bateria, violão e flauta doce.

Em uma comunidade carente, como é o caso do Caiobá, oferecer as crianças um espaço de convivência regrado é uma forma de preservá-la não apenas do trabalho infantil, mas também de diversas situações de perigo.“O negócio aqui é cabuloso”, relata Glauber. A necessidade leva muitos pais a enfrentarem jornadas de trabalho de várias horas, sobrando pouco tempo para cuidados com a criação dos filhos. Sem a instituição, acabavam deixando-os aos cuidados de parentes ou conhecidos. No IDE, há dois casos registrados de meninas que foram abusadas sexualmente pelo padrasto e pelo vizinho, pessoas que deveriam cuidar das crianças enquanto as mães passavam o dia fora.

A ausência dos pais, refletida na falta de educação, abre caminho para a violência e para as drogas, especialmente numa região periférica. Manoel conta que uma das meninas que freqüentava o instituto era filha de um traficante da região. “Uma vez ela recebeu uma bronca, e disse ‘você não sabe quem é meu pai?’. No outro dia, o pai dela foi bater lá. Depois da conversa, acabou dando razão para a gente. O Enéias tem muito jogo de cintura”. Glauber também conta sua história; diz que acabou de conversar meia hora com um jovem de 15 anos, tentando acalmá-lo. “Ele disse que ia pra casa pegar uma arma e pregar um tiro num moleque ali pra cima. Eu fiz ele sentar e me contar porque ia fazer isso”. Josi lamenta “por aqui, é fácil conseguir uma arma mesmo. A maioria dos mais velhos já tem uma”.

A ex-coordenadora reclama “a família acaba deixando a educação dos filhos só pra escola e para as instituições. Uma vez, uma criança caiu e se machucou. A gente tentava ligar, mas os pais davam número de telefone errado ou não queriam nem vir. Eles sabem os filhos que têm”. Para Josi, o papel do IDE é transformar essas crianças em cidadãos corretos e justos, e poder oferecer uma palavra amiga que eles possam repassar. Enéias completa “como cristão, eu iria dizer que o principal papel do Instituto do Desenvolvimento Evangélico é desenvolver o lado espiritual dessas crianças. Mas vendo as coisas que eu vejo aqui, eu digo que o principal é o lado social”.

E é assim, com muita paciência, força de vontade e jogo de cintura que o projeto vai se mantendo dia após dia. “Sempre me perguntam se o projeto continua ano que vem”, diz Enéias, “Eu respondo que eu não sei. Depende da ajuda de muita gente. Mas quando eu vejo essas pessoas, o que elas passam… Não tem como não se esforçar para fazer dar certo”.

 

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Sobre Andriolli Costa

Jornalista sul-mato-grossense em terras gaúchas. Atua principalmente nas áreas de jornalismo científico, cultural, rural e com estudos de Jornalismo.

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