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Povo e Cultura

Livro resgata histórias esquecidas das salas de cinema de MS

Escola da Prática – 31/08/2008

Cineasta Abboud Lahdo comenta o Sala de Sonhos

O Memorial da Cultura e da Cidadania recebeu na noite de 6 de agosto o lançamento do livro-reportagem Salas de Sonhos: Histórias dos Cinemas de Mato Grosso do Sul, da jornalista Marinete Pinheiro. O livro é a segunda edição de um projeto que começou em 2005 como trabalho de conclusão de curso, e que relata, por meio das histórias dos seus personagens, fotografias e documentos oficiais, como foram os anos de ouro do cinema da Campo Grande, nos 100 anos da primeira exibição cinematográfica na cidade, ocorrida em 1910.Marinete Pinheiro, que escreveu a primeira edição voltada somente para os cinamas da capital com a colega Neide Fischer, explica que a publicação demorou pois por duas vezes o projeto não foi contemplado nos fundos de incentivo à cultura do estado e do município. Foi somente em 2008 que Salas de Sonhos: História dos Cinemas de Campo Grande ganhou as livrarias, abrindo espaço para que no ano seguinte, ela tivesse aprovado o projeto que abordaria uma pesquisa em todo o estado.

Na década de 70, Campo Grande chegou a ter sete salas de cinema ao mesmo tempo, sendo duas distantes do centro – respectivamente nos bairros Santo Amaro e Nova Campo Grande. Este número impressionou a autora, que no começo da pesquisa, receava a escassez de material. Hoje, ela relata:  “Quando você começa a pesquisar um assunto, as coisas começam a brotar de forma incrível. Descobri que o cinema em Mato Grosso do Sul tem muita história, e muita coisa para ser mostrada”.

Para o cineasta Abboud Lahdo, diretor e ator principal de Paralelos Trágicos (1965), o primeiro longa-metragem inteiramente feito em Campo Grande, o livro Salas de Sonhos superou em exatidão todos os demais que tratam de cinema na Capital. “Como primeiro trabalho, elas têm muito mérito”, constata Lahdo. Mas ressalta:“A obra deixou espaço pra outros escreverem com mais detalhes e com mais verdades. Seu conteúdo não esgotou todas as histórias que os cinemas locais têm para contar”.

Um dos personagens presentes no livro é Alexandre de Oliveira Couto. Natural de Três Lagoas, Alexandre Couto foi durante 20 anos o pintor dos cartazes dos filmes da empresa teatral Pedutti, que era dona de praticamente todas as salas de cinema da capital. Além de desenhar para todas as salas locais da Pedutti, era ele quem enviava o material gráfico para as praças de Três Lagoas, Ponta Porá (MS) Valparaíso e Ilha Solteira (SP).

“Naquela época, o nome do artista era o importante”, relembra ele. “Quando se fazia um cartaz, não se colocava o nome do filme em evidência, mas sim o do ator. Colocava assim: ‘John Wayne’, grandão, e o nome do filme pequeno. Hoje é o contrário, o ator faz um filme só e na seqüência já não aparece mais”.

José Reinaldo dos Santos Durval aprendeu com Alexandre Couto a profissão de artista plástico que exerce até hoje. Nos anos que trabalhou no cinema, foi faxineiro, operador cinematográfico, e uma função hoje praticamente extinta; lanterninha. “A gente tinha que arrumar o lugar pras pessoas, e também cuidar dos casais mais calorosos”, recorda. “As vezes a gente tinha até que por pra fora”.

Reinaldo, como prefere ser chamado, diz que dependendo do dia, podia até mesmo apanhar durante as sessões. “O Rialto era o cinema da elite. O Alhambra era médio, mas no Santa Helena o piseiro era grande. As vezes você tinha que sair correndo do Alhambra e ir pro Santa Helena resolver confusão no meio do cinema! Acontecia muito isso quando era época de ‘baixão’ de quartel, os soldados juntavam e entravam todos dentro do cinema. Normalmente eram eles que causavam problema.”

Mais do que a exibição dos filmes, o cinema era um local de convívio social. Alexandre Couto lembra que as crianças se reuniam na frente do cinema para trocar revistas em quadrinhos, e os casais – que naquela época não podiam namorar livremente nas ruas – procuravam no escurinho das salas um lugar mais reservado.“No Rialto, as pessoas só podiam entrar se estivessem com paletó; gravata… A caráter mesmo!”.

Cada espaço possuia seu próprio ritual para a exibição do filme, e Reinaldo relembra tudo com detalhes. “O Alhambra tinha uma cortina grandona, que tinha que abrir direitinho e fechar no final do filme. Não é como hoje que você vai no cinema, está a tela lá e pronto. A cortina ficava fechada e quando o filme ia começar, tocava uma música na vitrola”. Depois de aberta, a cortina só fechava após o último crédito ter subido dos filmes. Mesmo que saísse alguém. “ E muitas vezes o pessoal ficava até o fim”, continua Reinaldo. “Naquela época, eles tinham paciência.”

Para José Reinaldo, foi a chegada do VHS, na década de 80, que marcou o fim da era de ouro do cinema em Campo Grande. “O conforto de você pegar um filme e levar pra sua casa era uma super novidade”. Tal mudança causou uma grande transformação no próprio conceito de sala de cinema, que de acordo com Marinete Pinheiro, está “shoppinizado”. Isto é, se restringe aos frequentadores de shopping. “Encarar o cinema como está registrado no livro, como um espaço de convivência, é nostalgia pura. O cinema que poderia ser uma grande escola passou a ser somente entretenimento. Uma atividade comercial que cada dia perde mais espaço devido à banalização do acesso aos filmes”.

Pouco sobrou do passado do cinema em Campo Grande. Dentre os muitos destinos, o cine Rialto, por exemplo, tornou-se um templo de Seicho-no-ie. O Santa Helena acabou derrubado para a construção de um pátio comercial. O Alhambra foi demolido para que em seu lugar fosse erguido um prédio – cujas obras estão paralisadas desde 1993. O cinema do bairro Nova Campo Grande virou local de criação de chinchilas e o Acapulco foi incendiado em circustâncias não esclarecidas.

O cineasta Abboud Lahdo, um dos proprietários dos cinemas Jalisco, Acapulco e Plaza, acredita que em Campo Grande, não houve a preservação da história do cinema porque não havia interesse político na cultura. “Infelizmente, os cargos da secretaria da cultura eram políticos. Por isso não houve preservação. É preciso que a prefeitura crie uma secretaria que atenda a cultura, e não a política do governante”. E finaliza: “Arte não tem língua, não tem cor e nem fronteira. Nós precisamos de pessoas que incentivem a arte dessa forma”.

Com o fim dos cinemas, muitos rolos de filmes foram parar no lixo. Dos que foram poupados, grande parte acabou perdida por mau armazenamento. O próprio Alexandre Couto relata: “Lá em casa eu tinha quase 200 rolos de fita do Alhambra. Ficou comigo quase quatro anos. Apodreceu e eu ia fazer o que com aquilo? Acabei jogando no lixo! Se o governo não tinha interesse, o que é que eu podia fazer?”

José Reinaldo acredita que é a idéia de modernização constante que não permitiu a preservação do cinema local. Com a necessidade de sempre buscar o novo, o antigo acaba deixado de lado e torna-se obsoleto. Marinete Pinheiro concorda, e propõe: “Não haverá valorização enquanto a sociedade, e principalmente o poder publico, não enxergar a cultura como atividade econômica geradora de recursos e fundamental para formação pessoal dos indivíduos”.

Marinete conta que os dois livros que escreveu não devem ser encarados como um projeto saudosista. “Acredito que que é através do conhecimento do passado que compreendemos o presente”. E finaliza: “A professora Maria da Glória Sá Rosa diz que ‘a vida só vale a pena quando uma corrente ligada a arte, a cultura, dá suporte as ações’. Concordo plenamente”.

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Sobre Andriolli Costa

Jornalista sul-mato-grossense em terras gaúchas. Atua principalmente nas áreas de jornalismo científico, cultural, rural e com estudos de Jornalismo.

Discussão

3 comentários sobre “Livro resgata histórias esquecidas das salas de cinema de MS

  1. Bom dia

    gostei muito do texto, sou academica de arquitetura e meu trabalho de conclusão de curso e a requalificação do antigo Autocine, o texto me ajudou muito a entender ainda mais, a história do nosso cinema, se voces poderem me ajudar no tema fico no aguardo.

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    Publicado por Priscyla Ferreira | fevereiro 28, 2013, 1:43 pm
  2. Agradeço se o colega puder informar o e-mail ou outro endereço digital da autora Marinete Pinheiro que escreveu dois livros sobre o cinema de Mato Grosso do Sul. Estou realizando uma pesquisa sobre o empresário Emilio Pedutti que foi proprietário de grande rede de cinemas em diversas partes do País, com destaque para São Paulo. E, pelo que sei ele também teve diversas salas de projeção no seu Estado. Assim, gostaria de conversar com a autora para saber mais sobre as fontes primárias de sua pesquisa para os livros, quem sabe auxiliando no meu trabalho sobre o senhor Pedutti. Meu E-mail: pauloantunes@uol.com.br e meu celular (11) 973371155. Sou jornalista aposentado que atualmente me dedico a pesquisas sobre histórias de cinema. Entre elas a das salas de cinema do Brasil, distribuidores, projecionistas etc. Agradeço, Paulo Antunes

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    Publicado por Paulo Antunes | maio 13, 2014, 11:12 pm

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