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Perfis e Especiais

Só por Hoje Evitarei a Primeira Aposta

Legalização de jogos de azar volta à discussão. Proposta promete empregos e lucro para MS, mas e quanto aos jogadores?

Matéria Publicada no Jornal Laboratório Projétil – Edição 63 (06/2009)
Autor: Andriolli Costa (Acadêmico)
“Véspera de Natal eu fui pro bingo. Dia das Mães? Bingo! O jogo tira todo seu sentimento de comunidade”

“Véspera de Natal eu fui pro bingo. Dia das Mães? Bingo! O jogo tira todo seu sentimento de comunidade”

No estacionamento do Cepol (Centro de Polícia Especializada de Campo Grande), os carros dividem o espaço da cobertura com centenas de máquinas caça-níqueis. Pedaços de madeira soltos, componentes eletrônicos arrancados e anos de poeira acumulada trataram de esconder seus botões coloridos; mas a velha forma do maquinário permanece inconfundível.

A situação não é muito diferente no gabinete do delegado Silvano Mota. Todo o lado esquerdo e a parte traseira da sala estão tomados pelas videoloterias. Os modelos variam bastante: do tradicional ao portátil, disfarçado em forma de mala, até os mais recentes, com tela de LCD e formato de um pequeno computador. Na sala, as formas, cores e estilos dos aparelhos podem variar, mas a procedência é a mesma: são todos frutos de apreensão da operação Las Vegas.

Iniciada em 20 de maio, e deflagrada pelo Gaeco (Grupo de Ação e Repressão ao Crime Organizado), com o apoio das polícias Federal e Militar, a operação prendeu 20 pessoas em Campo Grande e Corumbá. Também apreendeu 18 veículos e um avião particular, além de R$ 77 mil e US$ 1,7 mil. A ação desmantelou a quadrilha de jogos de azar liderada pelo major aposentado da PM, Sérgio Roberto de Carvalho. O militar já havia sido preso em 2007 durante a operação Xeque- Mate, que decretou o fim da era dos bingos na Capital. Outros dois policiais militares faziam parte da quadrilha: o capitão Paulo Roberto Xavier e o cabo Marco Massaranduba.

Durante a Las Vegas, foram fechados dois cassinos em Campo Grande: o Casarão, na Vila Planalto, e o Caju, no Jardim São Bento. No total, foram encontradas 97 computadores e máquinas caça-níqueis. De lá para cá, a perseguição às videoloterias se tornou cada vez mais frequente, e todas as apreensões são enviadas para a sede da Polícia Civil. As constantes movimentações da polícia na repressão ao jogo de azar reacenderam o antigo debate da legalização dos cassinos e bingos, abandonado desde 2004. Em 3 de junho, o site da Câmara Federal apontava a legalização dos jogos de azar como uma das pautas da Comissão de Finanças.

A proposta foi votada no dia 17 do mesmo mês, mas apenas os bingos foram legalizados. Cassinos permanecem na ilegalidade. O jogo tornou-se ilegal no país em 1946, durante o governo do marechal Eurico Gaspar Dutra, pelo Decreto-Lei nº 9.215. Nele, justifica-se a proibição considerando que “a tradição moral, jurídica e religiosa do povo brasileiro é contrária à prática e à exploração de jogos de azar”. Jogador e empresário da jogatina se enquadram na lei, que estabelece reclusão de três meses a um ano, podendo se estender a perda dos móveis da propriedade.

O delegado Silvano Mota ressalta: “As pessoas que jogam não apresentam perigo à sociedade. A máquina (caça-níquel) é a mais lesiva. Seu hardware é programado para só liberar o prêmio depois que juntar dinheiro suficiente para dar lucro ao empresário”. Defensores do jogo de azar afirmam que a legalização poderia ser a maneira de vistoriar as máquinas, tornando-as mais seguras. No artigo A Legalização dos Cassinos no Brasil e América Latina, publicado em 2006, o coordenador do Curso de Turismo da Universidade Positivo (PR), Dario Luiz Paixão, apresenta outro argumento a favor da legalização: “é voz corrente que em mais de 50% dos países do mundo, os cassinos se apresentam como eficaz meio de obtenção de divisas. Quem duvida que a reabertura dos cassinos no país representaria não só a construção de grandes e novos complexos hoteleiros e geraria milhares de empregos?”. O artigo cita diversas cidades que prosperaram devido ao turismo gerado pelos cassinos. Um exemplo clássico é o de Las Vegas, construída no meio do deserto de Nevada, e tornada uma potência turística mundial.

O projeto aprovado na Câmara Federal ainda precisa passar por outras instâncias para se tornar lei. Se aprovado, os estabelecimentos não poderão se localizar a menos de 500 metros de igrejas ou estabelecimentos de ensino e nem poderão ser visualizados da via pública. As apostas poderão ser feitas somente a vista, para evitar dívidas. É proibida a presença de menores de idade, assim como de pessoas viciadas em jogos de azar, que serão identificadas através da criação de um cadastro nacional de dependentes, que deverá ser criado em 180 dias após a aprovação da proposta.

Videoloterias empilhadas no estacionamento do Cepol

Videoloterias empilhadas no estacionamento do Cepol

Vidas por trás dos números
“Os anos que eu passei jogando, vivi um inferno muito grande”, relembra João*. “Eu comecei a jogar em 1994 e em oito anos eu estava completamente falido. Hoje, eu penso como é irracional um ser humano passar das 11h até a madrugada do dia seguinte no jogo, sem se preocupar com nada! Eu andava com o sapato furado, a roupa toda rasgada… Para você ver, na véspera do Natal eu fui pro bingo. No Dia das Mães? Bingo! O jogo tira de você todo o sentimento de comunidade…”.

João é um jogador compulsivo, daqueles que terão que se identificar caso o projeto de lei seja aprovado. Sem apostar desde o final de 2003, organizou em parceria com Cláudia*, em 19 de abril de 2004, a primeira reunião dos Jogadores Anônimos (J.A) de Campo Grande. Iniciado em Los Angeles, nos Estados Unidos, em 1957, baseado nos 12 passos do Alcoólicos Anônimos, o J.A busca ajudar pessoas a superar a dependência do jogo. “É um programa de recuperação”, explica João, “mas recuperação do que? De dinheiro? Não. Da dignidade, da autoestima, de uma vida familiar saudável”.

Todas as quintas-feiras, a campainha toca pontualmente às 19 horas, indicando o início da sessão. A neblina e o feriado de 11 de junho intimidavam, mas sete participantes estavam presentes. Sentada à mesa, Cláudia, a única jogadora na sala inicia a sessão. “Não somos filiados a nenhuma seita ou organização, nem combatemos ou defendemos nenhuma causa. Nosso propósito é um só: levar uma vida equilibrada e feliz”. A palavra passa para cada um dos presentes. Todos têm dez minutos para falar de sua recuperação. Sentados em círculo nas cadeiras de plástico, entre goles nervosos de café, eles ouvem em silêncio as histórias de seus companheiros. Diferem na etnia, classe social e religião, mas se identificam no relato dos colegas.

“O jogo na minha vida foi pior do que qualquer droga ou qualquer bebida poderia ter sido”, testemunha Cláudia. “Eu tinha uma loja, e bem do lado abriram um local que tinha uma maquininha de jogo. Um dia, fui lá com R$ 1 e voltei com R$ 40! É incrível como você sempre ganha na primeira! Você vê o quanto rendeu e pensa que vai ganhar sempre. Eu era dependente do meu marido e queria minha autossuficiência. Comecei a ir ao bingo, e só voltava para casa às 2 da manhã. Cheguei a deixar meus filhos para a diretora da escola levar para casa, porque eu ficava jogando”.

Matheus* também comenta sua recuperação e conta que na família só quem jogava era sua mãe. “Ela ia direto ao bingo e eu sempre ia buscá-la. Foram só dez anos depois que eu comecei a ir para jogar. Vintão, trintão, e isso aqui pode render? Beleza né!” E continua: “o pior do jogador é a mentira. Ela desgasta qualquer relacionamento. A gente mente para o chefe, mente para a mulher… Eu chegava a deixar uma camisa limpa no porta-malas do meu carro, mas não adiantava. Existe um cheiro do jogo. Aquele cheiro de cigarro impregnado naquele ambiente fechado não sai da gente. Minha esposa sempre sabia quando eu tinha ido jogar. Quase deu separação”.

Este é seu quarto retorno ao grupo. “O jogo é uma coisa muito forte em mim. Se eu não deixar ele estacionado, eu sei que ele volta”. Os períodos de abstinência dos participantes são variáveis: alguns anos, meses ou dias. Não importa. “O passado ficou para trás, e o futuro ninguém conhece. O importante é o hoje”, comenta Alberto*, sentado ao lado de sua esposa. Seus cálculos são precisos: “não aposto nada há dois anos, nove meses e 11 dias, nem mesmo par ou ímpar!”. Ainda assim, diz saber que possui um jogador compulsivo dentro de si. “Essa nossa doença é crônica, e o J.A é nosso remédio para a vida toda. Estou parado só até agora. São 24 horas de cada vez. Esse é nosso lema: Só por hoje, evitarei a primeira aposta”.

A primeira vez que João entrou num ambiente de jogo foi em 1994, na inauguração do Real Bingo. Curioso com a movimentação, perguntou aos seguranças do local do que se tratava. Era um ambiente festivo e cheio de luzes, onde desfilavam belas mulheres de vestido longo, empresário e deputados. “Só gente ricaça!”. Garçons circulavam constantemente pelas mesas, levando uísque e refrigerante de cortesia. “Parece que é aquilo que me fazia ser gente”.

Alberto não ligava para o ambiente do bingo. “Olha, eu nem sei o que me atraía. Não era o glamour, não era nem vontade de ganhar. Se eu ganhasse, ótimo, mas o negócio é que eu tinha prazer em jogar. Eu jogava porque eu ficava encantado quando o meu número aparecia no telão. Parecia que eu tinha um orgasmo quando via as figurinhas todas enfileiradas nas máquinas caça-níqueis, sabe? Nosso dinheiro parece que é só um pedaço de papel. Uma nota do Banco Imobiliário”.

A psicóloga Eleide Lopes Félix destaca que a compulsão ao jogo vem de uma busca para aliviar uma ansiedade ou uma carência. “O jogador compulsivo é uma pessoa emocionalmente fragilizada. O ambiente do cassino e a possibilidade de vitória mexem com a ideia de poder e onipotência”. É difícil saber quais pessoas têm tendência a se tornarem compulsivas, uma vez que, por vezes, a falta de contato com o jogo não permite que o vício latente se desenvolva.

O jogo patológico afeta cerca de 4% da população mundial, podendo chegar a até 17% em países como a Austrália, onde o jogo é legalizado. Os dados são da dissertação Jogos de Azar: Análise do Impacto Psíquico e Sócio Familiar do Jogo Patológico a partir das Vivências do Jogador, defendida na UCDB (Universidade Católica Dom Bosco) em 2007 por Sálua Omais. A autora cita estudos que mostram que em países que legalizaram os cassinos, como Estados Unidos e Canadá, houve grande aumento no número de pessoas viciadas em jogo. Muitas vezes, é o jogo social que acaba servindo como pontapé inicial para o jogo compulsivo.

A legalização dos cassinos e bingos no Brasil pode gerar empregos, promover o desenvolvimento turístico e trazer divisas para o Estado. No entanto, a exposição e a publicidade em torno dos jogos de azar deverão atingir um número maior de brasileiros com tendência ao vício, o que acabará gerando novos problemas para a população. Sálua Omais conclui sua pesquisa dizendo: “torna-se impossível aferir o tamanho real do impacto do jogo sobre o indivíduo, a família e a sociedade, tendo em vista que os prejuízos emocionais da identidade e da autoestima, a distância afetiva, as mágoas e as agressões extrapolam qualquer tentativa de se mensurar as reais dimensões desse problema”.

Como entidade, o J.A não se posiciona sobre nenhuma questão, mas, como envolvidos, seus participantes desaprovam fortemente a legalização dos jogos de azar. João se manifesta: “Eu vejo isso como uma aberração do ponto de vista humano! Não se pode saber quem é um jogador compulsivo. Pode ser um pai de família que passa o dia inteiro quebrando asfalto, ganha R$ 400, e vai acabar deixando tudo numa máquina de jogo”. Caso as previsões provem ser corretas ou não, João ressalta: “qualquer pessoa, não importa: idade, classe social, raça ou religião que tenha problema com qualquer tipo de jogo, que nos procure. Não só eles, como também seus familiares. Nós os receberemos com o coração aberto”.

“Vinte e quatro horas para todo mundo”

* Os nomes foram alterados para preservar a identidade das fontes.

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Sobre Andriolli Costa

Jornalista sul-mato-grossense em terras gaúchas. Atua principalmente nas áreas de jornalismo científico, cultural, rural e com estudos de Jornalismo.

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