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Economia e Agro, Matérias

Piscicultura é lucrativa, mas impõe entraves para pequeno produtor

Alto capital inicial, legislação ambiental e falta de acesso a mercado são entraves para o desenvolvimento da atividade

Considerando as bacias do Paraguai e do Paraná, Mato Grosso do Sul conta com mais de 360 mil quilômetros em recursos hídricos, de acordo com dados da Secretaria do Meio Ambiente (SEMA/MS). No entanto, ainda com toda sua potencialidade, estes recursos ainda são muito pouco explorados pelos produtores locais. A criação de peixes em cativeiro, por exemplo, tanto em áreas fluviais quanto em tanques escavados, conta com apenas 900 piscicultores que trabalham em 2.5 mil hectares de lâmina d’água, segundo estimativa da Seprotur. Número nada comparável à bovinocultura, que de acordo com o IBGE, em 1995 já somava aproximadamente 40 mil produtores em uma área de 22 mil hectares.

A questão ganha características culturais quando se leva em conta o levantamento da FAO (Food and Agriculture Organization), entidade ligada às Nações Unidas, que constata que em 2008 o consumo de carne bovina em todo o Brasil foi de aproximadamente 37 quilos por pessoa. Já o de pescado foi de 6,5 quilos; bem abaixo do recomendado pela organização, de 17 quilos, ou seja, de 2 a 3 vezes por semana.

Supervisor de piscicultura da Mar & Terra, empresa com mais de 132 hectares de lâmina d’água divididos entre as fazendas de Rio Brilhante e Itaporã, André Luiz Nunes relata que “a criação de peixe é muito lucrativa quando comparada com outras culturas. Um único hectare produz oito toneladas de carne. É mais do que em qualquer outra atividade”. Em 2009, a Mar & Terra obteve R$ 9 milhões de lucratividade e estima ser de R$ 14 milhões em 2010. Nunes calcula que cerca de 70% do pescado da empresa seja exportado para Estados Unidos, Chile, Japão e União Européia. Apenas 30% fica no mercado brasileiro, e destes, só 5% corresponde a Mato Grosso do Sul.

Alcindo Bork, de Mundo Novo, é criador de gado e dono de 20 hectares em tanques de piscicultura, onde produz o Cat Fish, uma variedade de peixe com boa aceitação de mercado e preço de produção bastante inferior ao das espécies normalmente utilizadas no estado, como o pacu ou o pintado. “De acordo com Bork, ainda que trabalhando com pecuária, seu lucro principal vem da piscicultura. “O ciclo de produção do boi é de quatro a cinco anos. O do peixe em é de apenas um. E eu ainda faço uma escala de produção entre os tanques, de forma que todo mês tenho pescado para vender”, confirma o empresário.

No entanto, não são todos os piscicultores do estado que tem acesso ao mercado internacional, como a Mar & Terra, ou capacidade de manejo de produção como Bork. O Técnico do Sebrae Regional Sul responsável pelo setor de piscicultura, Vamilton Junior, explica que um produtor rural consegue viver exclusivamente da criação de peixe quando possui no mínimo cinco hectares de lâmina d’água. A maioria trabalha com o peixe como forma de diversificação de produção, e não como atividade principal. No entanto, ele aposta no potencial da atividade para os pequenos produtores. “Todo negócio é viável, desde que seja encarado com profissionalismo. Não adianta jogar os peixes no tanque e voltar um ano depois, porque vai estar tudo morto”, alerta Junior. Participação em palestras e projetos de capacitação é um diferencial importante para o desenvolvimento do negócio.

O presidente da cooperativa MS Peixe, de Dourados, André Luis Melhorança, também defende o cuidado e o planejamento na piscicultura. “Um hectare de tanque escavado, custa cerca de R$ 20 mil. O capital inicial é alto, mas existem muitas alternativas de financiamento para o pequeno produtor. O lucro do pescado de um tanque no ano representa R$ 1200, 1500 por mês. É um bom salário para o pequeno produtor”, afirma. Ainda assim, Melhorança, que trabalha com dois hectares para a criação de peixe, disse nunca ter pensado em aumentar a sua produção. “Eu vou vender para quem? Frigorífico cobra frete muito caro e não compensa para quem tem pouca produção. Venda de peixe fresco direto para as feiras e restaurantes é ilegal. Meu cliente é o Pesque e Pague e os eventuais compradores de São Paulo. E eles não vão absorver tudo se eu produzir mais”.

Escoamento de produção não é o único entrave para quem quer trabalhar com pouca área para piscicultura. João Sotoya, Executivo da Câmara Setorial da Piscicultura da Seprotur, critica a morosidade do processo de licenciamento ambiental. “Para estar legalizado, precisa de uma licença que não sai por menos de R$ 1.500 e pode demorar até dois anos. É um processo caro e burocrático. Qualquer irregularidade na fazenda pode levar a negação da licença”. A coordenadora da Câmara, Aline Brun, reitera que “a criação de peixes teria mais chances de crescer se além do licenciamento ambiental, os encargos sociais e o ICMS embutidos em todo o ciclo produtivo do peixe, desde a compra do grão até a comercialização, fossem menores”.

Mesmo com todos esses entraves, os piscicultores vêem com bons olhos o futuro da atividade. Em especial após a vinda do ministro da Pesca e Aqüicultura, Altemir Gregolin, que lançou a construção de entrepostos comerciais nas cidades de Dourados e Dois Irmãos do Buriti, que vão possibilitar ao pequeno produtor todo o beneficiamento do peixe, que sairá do frigorífico pronto para a comercialização. Para André Luis Melhorança, essa mudança é essencial, pois “assim o piscicultor vai ter certeza de que tudo o que produzir vai conseguir vender”. De acordo com ele, a expectativa é triplicar os hectares de lâmina d’água na região durante os primeiros anos de funcionamento dos entrepostos.

*Texto de Andriolli Costa e Fernanda Kintschner
**Foto da Piscicultura Projeto Pacu, em Mato Grosso do Sul
*** Texto originalmente publicado no Jornal O Estado de MS em 09/08/2010

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Sobre Andriolli Costa

Jornalista sul-mato-grossense em terras gaúchas. Atua principalmente nas áreas de jornalismo científico, cultural, rural e com estudos de Jornalismo.

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