//
Você está lendo...
Matérias

Com fim da crise, dekasseguis começam a retornar ao Japão

Pequenos sinais de recuperação econômica do país oriental animam descendentes da japoneses no Mato Grosso do Sul

Autores: Andriolli Costa e Janaína Mansilha
Publicado em 17/09/2010 

Campo Grande – Até 2008, cerca de 100 milhões de dólares oriundos do Japão chegavam anualmente ao Mato Grosso do Sul. Os remetentes eram os dekasseguis – brasileiros descendentes de japoneses que voltavam ao país de origem em busca de melhores oportunidades e mandavam suas economias para ajudar as famílias que permaneceram no Brasil.

Esse valor caiu consideravelmente com a chegada da crise mundial. Em dezembro de 2009, dos 317 mil brasileiros que trabalhavam no Japão no final do ano anterior, apenas 267 mil permaneceram no país. “Aqueles que buscaram se capacitar e aprender o idioma tiveram uma redução salarial, mas conseguiram se manter por lá. Os demais acabaram voltando”, constata a especialista em relações com países asiáticos, Sayuri Higa.

O Japão ainda tenta se recuperar dos efeitos da crise, e ostenta uma taxa de desemprego de 5,3%. No entanto, o pouco de fôlego que demonstrou em 2010 foi o suficiente para estancar a evasão de brasileiros do país. Neste ano, o governo brasileiro repatriou apenas uma pessoa que desejava deixar o oriente, mas não possuía recursos para pagar o transporte. Em 2009, foram 71. Mais do que isso, de acordo com o gestor do projeto Nikkei Dekassegui, do Sebrae Mato Grosso do Sul, Jorge Tadeu Veneza, muitos dos que voltaram ao Brasil nos últimos anos, estão novamente retornando para o Japão.

A informação é confirmada por Paulino Matsubara, representante da Check-In Agência de Viagem, de Campo Grande. A empresa tem um trabalho de recrutamento para interessados em trabalhar no Japão, e encaminha todas as etapas desse contato, desde a elaboração de currículo e documentação até o contato direto com empreiteiras japonesas.

De acordo com Matsubara, essas empresas enviam informações das vagas para sua empresa, para que seja a feita a ponte com os brasileiros. “Em 2009, nem as empresas solicitavam trabalhadores e nem as pessoas nos procuravam para ir ao Japão. O movimento foi muito fraco”, relembra. No entanto, a partir de julho deste ano, as coisas começaram a mudar. “Nós recebemos muita demanda de vagas das empreiteiras. Hoje mesmo, uma está pedindo 1.700 pessoas. E com entrada imediata”.

O consultor empresarial Múcio Marinho explica que quando a crise surpreendeu os brasileiros no Japão, estes podiam ser divididos em dois grupos: os que tinham guardado algum dinheiro e os que simplesmente gastavam tudo o que recebiam e não possuíam economia alguma. “Os do último grupo quando voltaram para o Brasil estavam fora do nosso mercado de trabalho há anos, não possuíam qualificação e nem dinheiro para investir num negócio próprio. Na primeira oportunidade que tiveram de se restabelecer, voltaram para lá”, explica.

Sayuri Higa afirma que a crise teve seus benefícios para estes trabalhadores. “Serviu para chamar a atenção das pessoas”. De acordo com ela, a ideia por trás do nome dekassegui é a daquele que parte em busca de novas possibilidades, mas retorna ao Brasil trazendo o conhecimento ou o capital conquistado. “No entanto, muitos achavam que aquela vida de trabalhador braçal no Japão era para sempre. Pouquíssimos buscaram capacitação enquanto trabalhavam lá”.

Essa situação é parecida com a que vive André Hisano. O dekassegui voltou para o Brasil em 2009, depois de cinco anos trabalhando no Japão e hoje já pensa em retornar. “Não estou me adaptando aqui”, relata. “Não é nem questão de salário, mas de comportamento no emprego. Não está dando certo”.

André é filho de um horticultor, e antes de deixar o País pela primeira vez só havia trabalhado ajudando na horta, sem nenhuma experiência de trabalho formal. “Quando cheguei lá, eu – que nunca tive nada – fiquei deslumbrado com tanta novidade. Eu gastava tudo. Quando caí em mim e resolvi poupar, a crise já havia chegado e perdi o emprego”. Juntando todas as economias, André comprou sua passagem para o Brasil, mas garantiu também a volta. Hoje, ele acha que já é o momento de tentar de novo.

Oportunidades na terra natal
De acordo com Jorge Veneza, técnico do Sebrae Mato Grosso do Sul, dos dekasseguis que estavam mais preparados ao retornarem ao Brasil parte investiu no mercado imobiliário, alguns procuraram cursos para entrar no mercado de trabalho e outros utilizaram o dinheiro economizado para abrir um empreendimento em terras brasileiras.

Foi o que fez Arthur Harasaki, hoje um dos proprietários da Yamato, loja de roupas e vestuário com inspiração nas temáticas orientais. Arthur, que já havia trabalhado por duas vezes no Japão (da primeira vez por quatro anos e na outra por seis meses) voltou ao Brasil devido à crise. Junto com sua mulher, usou as economias para abrir uma empresa. “Antes, procuramos o Sebrae e as palestras de orientação”, relata. “Depois disso, tivemos acompanhamento do consultor. Ele visitou nossa loja e sugeriu mudanças para melhorar o funcionamento”.

A Yamato foi uma das empresas que participou da Mostra de Negócios Nikkei Dekassegui em Mato Grosso do Sul. O evento reuniu 38 empreendimentos de descendentes que investiram no estado após seu retorno do Japão. Já é a quarta mostra de negócios de que Arthur Harasaki participa e ele relata que já registrou um aumento de 30% nas vendas neste mês.

Mesmo com esse volume de negócios, Arthur ressalta que o dinheiro que recebe ainda não se equipara ao que ganharia trabalhando no Japão. Mesmo assim, não pretende voltar tão cedo. “A gente sabe que uma empresa, quando começa, não dá altos lucros. É um trabalho difícil, mas vamos apostar nele”.

Serviço:
Sebrae em Mato Grosso do Sul – (67) 3389-5555
Central de Relacionamento Sebrae – 0800-570-0800

Anúncios

Sobre Andriolli Costa

Jornalista sul-mato-grossense em terras gaúchas. Atua principalmente nas áreas de jornalismo científico, cultural, rural e com estudos de Jornalismo.

Discussão

Nenhum comentário ainda.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: