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Economia e Agro, Matérias

Agricultura familiar ganha força com produção orgânica

Correio do Estado / Agência Sebrae – 24/05/2010

O casal Camilo e Alzira produz pelo sistema, vende tudo na feira e está satisfeito com a renda

Toda quarta-feira, a partir das 6 horas da manhã, cerca de 50 pequenos produtores rurais montam suas barracas na Feira de Orgânicos de Campo Grande – na Praça do Rádio Clube, região central da cidade. Não demora muito e as vendas logo começam. Os clientes estão atrás de toda sorte de produtos agroecológicos; produzidos sem a utilização de defensivos agrícolas. O movimento continua até as 11, e só para porque a essa hora toda a produção foi comercializada.

A representante dos feirantes, Rosa Maria da Silva, conta que no início ficou surpresa com a grande procura pelos alimentos livres de agrotóxicos, pois, segundo ela, só na sua barraca passam mais de 300 pessoas por dia. Para ela, trabalhar com orgânicos trouxe muitos benefícios para o pequeno produtor. “Quando a gente trabalhava com agricultura convencional tinha muito problema em encontrar saída para a produção”, relembra Rosa. “Hoje, a gente pode produzir com tranqüilidade, porque sabe que vai vender!”.

A consultora do Sebrae/MS, Cláudia Mattos, que acompanha o grupo, diz que se antes era um desafio para a produção familiar atingir os mercados, já dominados pela agricultura patronal – principalmente pela dificuldade em fornecer regularmente – hoje aqueles que se dedicam aos alimentos orgânicos tem toda sua colheita absorvida pela população da Capital.

“É diferente, porque a classe consumidora dos orgânicos é outra”, expõe Cláudia. “É um grupo de pessoas que se interessa com a procedência do alimento e com a sua própria qualidade de vida”. Ainda, segundo ela, a comercialização direta com o produtor também favorece o consumo desse tipo de alimento, devido ao acesso a preços bem mais baixos que no mercado tradicional.

Rosa e o grupo de produtores que representa começaram a trabalhar com o orgânico por meio do projeto de Produção Agroecológica Integrada e Sustentável (PAIS), que utiliza a tecnologia social para ensinar e estimular o cultivo livre de agrotóxicos por agricultores familiares, assentados de projetos de reforma agrária e produtores em áreas quilombolas.

Em Mato Grosso do Sul esta forma de trabalho tem ganhado força, já são mais de 340 famílias envolvidas, pois permite a moradores da zona rural o acesso à alimentação saudável e ainda a comercialização do excedente, com ganhos, segundo dados do projeto, variando entre 500 e mil reais ao mês.

“O PAIS é uma alternativa barata para trazer soluções e facilidades a quem a utiliza”, avalia a técnica do Sebrae, Roberta Marca. Ela afirma que a vantagem está na autossustentabilidade deste tipo de produção, cujas hortas são dispostas em formato de anel ao redor de um galinheiro. São as galinhas que vão produzir o esterco que, através de um processo de compostagem com outros resíduos naturais, vai se tornar o adubo da própria produção. Além de Campo Grande, o projeto já está nas cidades de Jaraguari, Miranda, Nioaque, Terenos e Sidrolândia.

Alzira dos Santos Dias conta que junto do marido utiliza a tecnologia PAIS em uma propriedade de meio hectare nas terras da antiga fazenda Eldorado – hoje chamada de Assentamento Eldorado, que abriga mais de 2,2 mil famílias. O local fica a 27 km do centro de Sidrolândia.

“Eu tenho seis filhos que foram pra cidade ganhar a vida. Agora, estão voltando pro campo porque perceberam que a situação aqui melhorou”, relata Alzira. Assentada há cinco anos no local, ela começou a trabalhar em 2009 com a metodologia e passou a vender sua produção na feira da cidade todas as terças e sextas-feiras. “Trabalhando só eu e meu marido, conseguimos tirar por dia 150 reais. Não sobra nada do que levamos pra lá!”, comemora.

O técnico da Agraer, Jovelino Caetano, lembra que o objetivo do projeto é a segurança alimentar. “A gente incentiva o plantio de vários tipos de culturas, para que o produtor possa utilizá-las na sua própria alimentação”. Ainda assim, com os excedentes da colheita, casos como o de Alzira são cada vez mais freqüentes, ajudando a fortalecer a renda dos participantes.

“Como os produtos destas unidades de produção são agroecológicos, sua venda é facilitada”, diz. Hoje já são distribuídos em supermercados, feiras, quitandas, e, mais recentemente, em cumprimento da lei n° 11.947, até mesmo escolas públicas. É que a legislação exige a partir deste ano que um mínimo de 30% dos alimentos destinados à merenda escolar venham diretamente da agricultura familiar, com prioridade para assentados, comunidades indígenas e quilombolas.

Ainda assim, produzir alimentos livres de defensivos agrícolas não é uma tarefa fácil. “Muita gente reclamava quando os insetos atacavam a plantação, e ficavam com vontade de usar veneno novamente”, comenta Jovelino. “É importante que a pessoa não pense na planta, mas na terra. E uma terra bem tratada continua sempre produzindo”.

Para minimizar os danos na colheita, antes de serem colocadas na terra as mudas ficam de 15 a 25 dias numa estufa, protegidas do sol e do vento forte, facilitando a sobrevivência da planta. Além disso, apenas as melhores são repassadas para o solo, aumentando a qualidade dos produtos. Outras táticas baratas de controle de pragas são constantemente repassadas para os produtores, empreendendo soluções baratas como a mistura de água com farinha de trigo: um eficiente repelente contra ácaros e pulgões.

Todo esse preparo torna a produção do produto orgânico muito mais trabalhosa e demorada do que na agricultura tradicional. Ainda assim, Rosa, da Feira de Campo Grande, divide sua própria experiência no assunto. Após quatro anos de cultivo tradicional, ela percebeu que depois de uma boa primeira colheita, as seguintes começaram a decair. “Quanto mais o tempo ia passando, mais a gente tinha que aumentar o uso de inseticidas. Isso gerou um descontrole financeiro na produção”. Em um comparativo com os orgânicos, ela constata: “sem agrotóxicos, você tem que tratar a terra que nem uma criança pequena. É bem mais cansativo, só que é mais sustentável”.

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Sobre Andriolli Costa

Jornalista sul-mato-grossense em terras gaúchas. Atua principalmente nas áreas de jornalismo científico, cultural, rural e com estudos de Jornalismo.

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