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Matérias, Povo e Cultura

Entre a Tradição e o Progresso

Revista Eletrônica Poranduba – 27/09/2010

Enfeites florais, fitas coloridas e adornos festivos. Uma dezena de carroças estilizadas cruza o centro da cidade de Três Lagoas/MS, anunciando o início do 25º Festival do Folclore. Muito mudou nas mais de duas décadas de festividade, a cidade cresceu e o progresso trouxe mudanças para a tradição. Entre o sopro da flauta e as ladainhas da Folias de Reis, em meio ao trotar dos cascos dos cavalos, carros de som berram propagandas eleitorais e a polícia manobra para conter o trânsito. Enquanto tradição e progresso parecem estar em lados opostos, a festa tem que continuar.

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Folia de Reis, posted with vodpod

Já de longe o som os denuncia. Uma sinfonia desencontrada de tambores, sanfonas e violas se espalha por todo o centro da cidade de Três Lagoas/MS, fazendo fregueses e lojistas esticarem o pescoço em direção a rua para vislumbrar o acontecimento. Mesmo que não houvesse o som, dificilmente um cortejo daqueles passaria despercebido. Carregadas de adornos florais, fitas coloridas e todo tipo de penduricalho, uma dezena de carroças cruza às ruas da cidade anunciando pelo 25º ano consecutivo a chegada da Festa do Folclore, que acontece entre os dias 5 a 8 de agosto.

Nesse quase um quarto de século muita coisa mudou na festividade. Melhor dizendo, a própria cidade já não é mais a mesma. Se antigamente Três Lagoas podia ser uma pacata cidadezinha do interior, onde as carroças podiam circular em pleno centro da cidade sem qualquer preocupação, hoje, o município com mais de 100 mil habitantes – de acordo com dados recentes do IBGE – precisa esquematizar toda uma estratégia para a manutenção da tradição. As ações incluem desde a logística de fechar as ruas e redirecionar o trânsito até as políticas de incentivo ao próprio desfile de carroças.

“Antigamente era fácil você achar um carroceiro na cidade”, relata a diretora de Cultura de Três Lagoas, Vickie Vituri. “Hoje a cidade cresceu, então é mais difícil encontrar alguém que trabalhe com isso”. Espécimes quase em extinção, trabalhadores como seu Moacir José Cardoso são cada vez mais raros. Ele e sua velha companheira de jornada – a égua Faísca, de 15 anos – recebem R$ 50 para participar do desfile. É o equivalente a um dia de trabalho, e mesmo assim é difícil. “Nós somos poucos, então o pessoal nos procura bastante para carregar areia, pedra, madeira. É difícil achar alguém com tempo livre”.

Mas conseguir o carroceiro é apenas a primeira etapa para realizar o desfile. Cada carroça é responsabilidade de uma entidade diferente – que pode ser desde o Rotary Club até os grupos de escoteiros ou de evangelização. Para Vickie, outra grande dificuldade do evento é conseguir mobilizar os representantes destas entidades. A saída este ano foi quase uma troca de favores. “Para poder montar uma barraca de comida do Festival era preciso se comprometer a participar do desfile”, conclui.

Compromisso firmado, 12 entidades se dispuseram a chegar com suas carroças em frente à Escola Afonso Pena para que às 7 horas da manhã o desfile começasse. Eram 6 e meia quando Cidinha Mariano, assessora de cultura do município, chegou no local combinado. De chapéu de palha de aba longa para espantar o sol, e grossas lentes de óculos escuros disfarçando às menos de duas horas de sono da noite anterior, ela anda de um lado para o outro esperando os carroceiros e os ônibus com as companhias de Folias de Reis, que participam do 6º Encontro Intermunicipal de Folias e que vão acompanhar o cortejo das carroça. Já passa do horário, e só seu Moacir está a postos.

“A polícia só liberou a participação de uma dúzia de carroças, se não seria complicado controlar o trânsito”, expõe. “E mesmo assim, nem iam precisar se preocupar. É difícil o pessoal comparecer”. Na noite anterior havia sido a inauguração da Festa do Folclore, e como boa parte dos representantes ficou até tarde trabalhando nas barracas acabam não conseguindo acordar no horário. Muitas vezes, chegam até mesmo a não participar do desfile. Segundo ela, já houve anos em que os próprios carroceiros exageraram demais nas festividades no dia do evento e não conseguirem vencer a ressaca, deixando o trabalho de lado.

São quase oito horas e três carroças estão na fila, sendo que algumas ainda recebiam os últimos retoques. Um sino no pescoço da égua, uma guirlanda ou uma estrela. Cidinha chama uma mulher que está saindo com o carro. “Ei! Cadê o seu carroceiro?”. Daqui a pouco retorna com a notícia. Ele não vem. Outra pessoa vai ter que guiar. Sem parar de andar em nenhum momento, ela explica: “O carroceiro sumiu. Disse que ia tomar um remédio em casa, porque estava com medo de ter um piripaque. Não voltou mais”.

A Chegada das Folias
Com o relógio apontando uma hora de atraso, não demora muito e chegam as folias. Pausa para organizar todo mundo. Não estão todos presentes, mas já é um começo. Parece que um dos ônibus contratados largou uma das folias no lugar errado. “Não tem problema. Ainda vai dar tempo”, reforça Cidinha.

A diferença de idade entre os recém-chegados chama a atenção. Vai facilmente de 12 a quase 80 anos de idade. Entre os garotos, muitos usam bonés de crochê, e outros se afastam para acender um cigarro num canto mais reservado. Já os mais velhos descem com dificuldade e, concentrados, começam a preparar o figurino. Aos poucos, todos se transformam. A calça jeans e a camiseta dão lugar ao terno de reis. Naquele momento, são todos foliões.

Cada companhia de folia de reis – como são chamadas – é composta por uma dúzia de pessoas, onde cada um possui uma função diferente. Mestre e Contra-mestre são os donos dos conhecimentos, os que comandam os foliões. Os Músicos dão o ritmo a ladainha, e animam o festejo. Os Porta-Bandeiras são normalmente crianças, que carregam o estandarte da companhia. Por último vêm os Cirineus – ou palhaços – o papel mais cansativo das folias. Enfurnados em roupas coloridas, rosto cerrado por máscaras carrancudas e apoiando-se em longas espadas de madeira, eles andam fora da formação, improvisando passos e danças para chamar para si a atenção dos guardas de Herodes, que deveriam matar o Menino Jesus.

Muitos motivos levam os mais jovens a participar das folias. Alguns acham bonito, outros entram pela tradição. Mas há também os casos como o de José Carlos de Souza, que participa da festa para pagar uma promessa. “Meu irmão prometeu acompanhar a Folia de Reis durante sete anos. Com três anos ele foi assassinado. Agora, eu vou terminar a promessa por ele”. Resoluto, mesmo com a manhã ensolarada beirando os 35º ele fecha a máscara e ensaia os primeiros passos. “Se fez a promessa, então tem que cumprir”, finaliza.

A Folia de Reis está na vida de Aparecida de Souza a mais de duas décadas. Faz 23 anos que ela integra a Companhia de Reis São Paulo, mas desde que era criança acompanhava seu pai, que com muito orgulho ostentava o título de guardião da bandeira. “Mais tarde, meu marido ficou doente no baço. Era tumor. Eu fiz uma promessa pra Santo Reis que se em 30 dias ele melhorasse, ia fazer essa missão. Até hoje nós dois estamos vivos!”, comemora. E continua: “Enquando Deus me der forças, eu vou continuar com a Folia”.

A família inteira acompanhou a devoção. Filhas, netos, bisnetos. Todos participam das festividades. Na contramão de muita gente, dona Aparecida não é saudosista. “Esses meninos de hoje são melhores do que a gente era. Pra gente era só brincadeira. Já eles entram com vontade! Querem realmente aprender”.

Hora da Partida
Cidinha ainda anda de um lado para o outro. Faltam muitas carroças. O atraso vai forçar o corte de boa parte da missa de Santo Reis e o padre não vai gostar nada disso. “Talvez a gente acabe cortando a missa da programação no ano que vem. Ou colocando em outro horário, para não dar esses problemas. Nós queremos manter a tradição viva. Mas também depende do povo”, desabafa Cidinha. “Nós fazemos o possível e…”.

Ponto. A conversa termina aí. Não há mais espaço para desânimo. São 9 horas da manhã e chegam as últimas carroças. Agora são dez ao todo. Está bom. A assessora ganha novo fôlego e deixa o cansaço de lado para as últimas orientações. “Em posição! Vamos sair o mais rápido possível!”

As carroças guiam o caminho, e o trotar dos cascos dos cavalos dá o tom da cantoria. Logo atrás, os foliões sopram suas flautas, tocam seus tambores e dedilham suas violas. Cirineus saltitavam de um lado para o outro, brandindo espadas e desafios contra inimigos invisíveis. Mestres e contra-mestres arranhavam as gargantas cantando as ladainhas o mais alto que os pulmões permitiam.

Viva a Deus primeiramente
Viva os três do oriente.
Viva a todos que estão aqui!

Os vivas das oito companhias de reis se fundem numa coisa só, e é difícil acompanhar a cantoria sem conhecer a letra. Ainda assim não dá para não perceber sua beleza, marcada na simplicidade de cada canto, na devoção de cada dança e de cada toque.

Cidinha apressa o passo para acompanhar o cortejo. Os olhos dançam de um lado para o outro, vislumbrando o longo cordão de pessoas que surgiram de todos os cantos. Deixaram para trás suas lojas e seus comércios, seus problemas e sua pressa. Param por um momento seus afazeres, se acotovelando para assistir ao Desfile. É a pura tradição tomando forma no meio da cidade. Cruzando os espaços entre as carroças e as folias, ela abre um sorriso. Levanta os braços como que apontando cada folião, cada carroceiro, cada expectador. Grita a pergunta, que mais parece afirmação.

– Não é a coisa mais linda minha gente?

E era.

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Sobre Andriolli Costa

Jornalista sul-mato-grossense em terras gaúchas. Atua principalmente nas áreas de jornalismo científico, cultural, rural e com estudos de Jornalismo.

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