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Povo e Cultura, Vídeos

Outro Olhar: São João de Corumbá

Andriolli Costa / Revista Poranduba
Publicado em 28/06/2011

Aqueles acostumados às grandes festas juninas – como as de Pernambuco ou da Paraíba – podem ter, a primeira vista, uma visão errada do Arraial do Banho de São João, em Corumbá/MS. Mesmo com as 40 mil pessoas que estiveram no Porto Geral na noite do dia 23 para 24 de julho, dividindo sua atenção entre a descida dos andores, as barraquinhas de comida e as atrações musicais, é incorreto enxergar o evento como uma grande festa que une a cidade inteira. Mais do que isso, ele é uma soma de dezenas de pequenas e médias festas, que tem seu momento de encontro na ladeira Cunha e Cruz em direção à prainha do Rio Paraguai.

Um andor pode ser acompanhado por uma multidão de mais de 300 pessoas, descer ao som de uma banda própria e até ser iluminado por velas ou lanternas de papel. No entanto, também pode descer silencioso, quase solitário, embalado pela cantoria em voz baixa de um casal de fiéis, em sua singela demonstração de fé ao santo. Para contagiar mesmo os pequenos no clima da festa, a organização do evento apresentou uma solução: não importa o tamanho do cortejo, cada andor que desce a ladeira é recebido pelas três bandas de “cururuzeiros” – músicos de sopro — espalhadas pela descida, que entoam incessantemente, embora de maneira desencontrada, a mesma melodia.

Se São João soubesse
Que hoje era seu dia
Descia do céu a terra
Com prazer e alegria

Acompanhando os músicos, um vento frio também soprou durante a festa inteira, e conforme a noite avançava os homens pouco a pouco se rendiam. Espertos, os vendedores negociavam e levavam até os músicos uma ou outra bebida para esquentar o espírito. “Ih, lá vem o andor! Bebe depois, que ele quer filmar”, ouvi mais de uma vez, enquanto também me cansava subindo e descendo a ladeira atrás dos andores com cada vez menos frequência – até encerrar o expediente pouco depois das 23h e, finalmente, ir visitar uma das inúmeras barraquinhas de comida ao longo do Porto Geral.

“Aquilo lá virou puro comércio”, comenta o mototaxista que me levou para a festa. Dizendo-se corumbaense nativo, ele relembra o costume que acompanhou desde criança. “Antigamente o Arraial era para o povo, tinha comida para todo mundo e era tudo distribuído. Hoje, você paga por tudo!”, reclama.

Assim como ele, para muitos, a festa já foi institucionalizada – e capitalizada – demais. É a opinião do professor de história da UFMS de Corumbá, Marco Aurélio Machado, que afirma – no caso – falar não como pesquisador, mas como um festeiro que carrega o andor há mais de 18 anos. “Para mim, não é a festa de São João que representa a cultura popular corumbaense, mas sim a de São Pedro, no dia 29”, propõe. Na data, a população dos bairros ribeirinhos enchem os bares das comunidades para comer, beber e dançar. Ainda que integre o calendário de eventos de Corumbá, de acordo com o professor, essa é uma manifestação que ainda não teria sido tomada pelo poder público.

Voltando a vaca fria, atualmente o caráter comunitário do Arraial de São João é restrito aos bairros, nas festas na casa de cada um dos festeiros. Depois da descida do andor, por exemplo, Epifânia Bastos – a Dona Preta – vai oferecer um churrasco para todos os seus convidados. “Eu só não dou a bebida, mas quem quiser leva e a gente festa a noite inteira”, relata. Já na casa de Alfredo Ferraz, o jantar será algumas panelas de arroz carreteiro e cachorro quente para as crianças.

“Agora nós vamos rezar. Vamos cantar parabéns para São João e só depois comer”, pontua Alfredo com tranquilidade. “Essa mesa é para os adultos e a de trás é para as crianças. O que sobrar vocês podem levar para casa. É de vocês, e eu não faço questão”, finaliza. Palavras de quem, desde bastante criança, já testemunhou brigas, fofocas e discussões o suficiente para ficar vacinado. Mais do que isso, palavras também de quem conhece sua comunidade: quinze minutos depois, não havia migalha sobre a mesa, e as pessoas enchiam potes e sacolas sem qualquer cerimônia.

Alfredo e Epifânia são festeiros: organizadores da Festa de São João em suas respectivas comunidades. Ainda que não se conheçam, suas vidas caminham em situações convergentes. Ela, com uma bagagem de 63 anos preparando o santo para o batismo, procura em uma das netas – ainda sem sucesso – sua sucessora na organização da festa. Ele, por sua vez, aos 22 anos, acaba de assumir a tradição que iniciou com seu avô, e se depara com todas as dificuldades de organizar o evento para a sua comunidade.

– E vale a pena Alfredo?

“Com certeza”, responde, sem nem chegar a pensar. “Primeiro pelo Santo, que é muito milagroso, que sempre advoga pelas nossas causas. Segundo por que eu fico feliz vendo o povo se divertindo, a fé nas crianças e nos adultos. Só isso compensa tudo o que a gente faz”, finaliza.

Se a energia do jovem festeiro durar tanto quanto vem durando a de Dona Preta, o Banho de São João em Corumbá estará em boas mãos. Pelo menos até a próxima geração.

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Sobre Andriolli Costa

Jornalista sul-mato-grossense em terras gaúchas. Atua principalmente nas áreas de jornalismo científico, cultural, rural e com estudos de Jornalismo.

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