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Matérias, Povo e Cultura

Entrevista: Lobisomem Existe!

Revista Poranduba/Andriolli Costa
Publicado em 02/07/2011

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Dez anos atrás, os então acadêmicos de jornalismo Paiva Junior e Silvana Godoy surgiram com uma proposta diferente em seu trabalho de conclusão de curso na PUC de Campinas. Um livro-reportagem em que o personagem principal não seria ouvido em nenhum momento, mas sim descrito e apresentado em suas várias versões por cada um dos entrevistados. Um livro sobre lobisomens.

Joanópolis, no interior de São Paulo, foi o palco escolhido para o trabalho – caracterizado pelos autores como uma aventura jornalística. A cidade é considerada a capital nacional do Lobisomem desde a década de 80. A fama foi abraçada pelos habitantes da cidade, que se reinventou para aproveitar a oportunidade turística. Por todos os lados, artesãos oferecem peças inspiradas na criatura. Circulando pelo município é fácil encontrar bares e pousadas trocaram de nome para fazer referência ao licântropo. Mais do que isso, é lá que se encontra a Associação dos Criadores de Lobisomem, que organiza expedições de caça à besta, enquanto contam histórias que encantam os visitantes.

Silvana Godoy é jornalista formada pela PUC de Campinas, e desde a faculdade trabalha na agência Sygma Comunicação. Atualmente, atua principalmente em assessoria de imprensa e edição de conteúdos para publicações, especialmente livros didáticos.

Silvana Godoy é jornalista formada pela PUC de Campinas, e desde a faculdade trabalha na agência Sygma Comunicação. Atualmente, atua principalmente em assessoria de imprensa e edição de conteúdos para publicações, especialmente livros didáticos.

O livro, entitulado “Lobisomem Existe!” foi orientado pelo professor Celso Falaschi, um dos fundadores da Academia Brasileira de Jornalismo Literário, e ficou entre os cinco melhores trabalhos do Expocom 2001, recebendo uma menção honrosa. Hoje, tanto Silvana quanto Paiva trabalham em outras áreas do jornalismo, e não há previsão de o retomarem numa nova edição. O conteúdo porém, está disponível na íntegra na internet, e pode ser acessado aqui.

Confira abaixo a entrevista exclusiva da jornalista Silvana Godoy para a Revista Poranduba, e conheça um pouco mais da produção do livro-reportagem:

Poranduba: O que levou você e o jornalista Paiva Junior a escolherem o tema para o livro reportagem?
Silvana: Procurávamos um tema original e que, ao mesmo tempo, nos motivasse a produzir o livro, nos desse interesse e fôlego para cumprir a missão. O tema lobisomem/folclore representou isso e abraçamos a ideia. Estudantes de comunicação, especialmente de jornalismo, têm uma tendência de atuar em temas sociais, não que estes não sejam relevantes e interessantes, pelo contrário. Mas, sempre havia mão de obra excedente voltada para esses assuntos. Procurávamos algo diferente, mas que pudesse funcionar como resgate. Encontramos o lobisomem.

P: Como trabalhar jornalisticamente – isto é, com âncoras na realidade e objetividade – com um personagem, como o Lobisomem, que em sua essência está fundado no imaginário? Vocês tiveram alguma dificuldade para encontrar o caminho para o trabalho?
S: Está fundado no imaginário?! Diz isso porque não conheceu, pessoalmente, vários dos personagens que entrevistamos em Joanópolis! Jornalisticamente é possível trabalhar, desenvolver qualquer tema. Presos muitas vezes nas redações e nos acontecimentos cotidianos, nos esquecemos, do ponto de vista profissional, de outros assuntos que não sejam factuais. O texto jornalístico, principalmente nos dias atuais, permite diversas abordagens, incluindo a literária, que foi a que usamos no livro. Essa forma é, inclusive, um meio de lidar com temas como esse. É possível, entretanto, encontrar outros jeitos, pautados na realidade e na objetividade do jornalismo cotidiano. É possível (e um dever do jornalista) retratar as pessoas, as comunidades, suas tradições e crenças. Métodos não faltam.

Sobre dificuldades de encontrar um caminho, não tivemos. Tudo foi bastante simples. Tanto eu quanto o Junior já tínhamos experiência de redação, então localizar fontes e fazer abordagens a elas não foi difícil. Com a ótima orientação que tivemos do professor/orientador Celso Falaschi, também foi simples encontrar o estilo que pretendíamos trabalhar: um livro em que o lobisomem fosse o personagem central, com conteúdo leve e coloquial, baseado nas histórias que as pessoas tinham para contar.

P: O livro é descrito em sua apresentação como uma “aventura jornalística”. De fato, na narrativa, os próprios repórteres se tornam personagens em uma “busca” pelo lobisomem que revela os detalhes pela cidade. Incluir vocês mesmos no texto já foi pensado desde o início?
S: Na verdade não, foi resultado do estilo de texto que buscávamos e das experiências que vivenciamos. Queríamos uma obra que estimulasse o leitor a continuar a virar as páginas e que desse a ele a dimensão da busca por esse personagem, que o levasse junto nessa busca. Também tivemos várias aventuras, de fato, durante as entrevistas e na produção de imagens e, então, decidimos contá-las. Esse aspecto da narrativa nasceu, portanto, a partir das nossas experiências.

P: Qual a história de Joanópolis que mais lhe marcou durante a reportagem?
S: Não uma história em sim, mas o comportamento das pessoas. Algumas falavam do lobisomem com entusiasmo, não pensavam duas vezes em nos atender. Ficavam realmente satisfeitas por poder falar das suas lembranças, das suas crenças. Outras, porém, tinham aversão ao assunto, mesmo algumas pessoas ligadas a histórias conhecidas na cidade, histórias que eram relacionadas ao lobisomem. Isso demonstra as muitas reações que um mito pode despertar e as facetas da cultura popular.

17P: Com a sua experiência na cidade, você acredita que a cultura popular é um elemento efetivo que pode ser usado para o desenvolvimento da atividade turística de um local? Conhece outros exemplos de cidades assim?
S: Sem dúvida. Joanópolis, na época, tentava (e conseguia de vários maneiras), ser conhecida, desenvolver seu potencial turístico. Muito disso pelas histórias do lobisomem, mas muito também em razão da Casa do Artesão e da Associação de Criadores de Lobisomem (!), organizações que aparecem no livro e que foram criadas por pessoas interessadas na preservação folclórica e no desenvolvimento turístico local.

Na época em que estavamos produzindo o livro, houve até um evento bem engraçado e inusitado. O pessoal dessa associação uniu-se com a Associação de Criadores de Mula sem cabeça, de uma cidade mineira, chamada Barão de Cocais. Eles fizeram o casamento dos dois mitos e uma grande festa para comemorar. Nada mais que uma iniciativa para a cultura e o turismo locais. Isso foi notícia em um quadro do programa Fantástico, da Globo, chamado Me leva Brasil. Era apresentado pelo Maurício Kubrusly.

P: Lobisomem Existe teve alguma repercussão quando foi lançado? Ele chegou a ser publicado em formato impresso?
S: O Lobisomem existe foi finalista em um prêmio universitário nacional, conhecido no meio acadêmico de comunicação, o Expocom. Em 2001 a final foi em Campo Grande, MS, e viajei para lá. Não ficamos com o primeiro lugar, recebemos menção honrosa, mas já foi excelente termos sido selecionados entre os cinco melhores livros-reportagem do gênero no país.

Em março de 2010 o livro também foi citado pela revista Super Interessante. A seção Oráculo, cujo título era ‘Sobre espirros e lobisomens’, mencionou o livro para responder a uma dúvida de um leitor do Ceará. Foi uma breve menção, mas ficamos obviamente satisfeito dado o renome da revista e pelo fato de o livro ser citado tanto tempo depois de sua publicação.

O Lobisomem existe! foi publicado sim no formato convencional, mas com uma tiragem limitada (questão financeira de dois estudantes!). Inicialmente, a impressão era necessária para atender a uma exigência da faculdade. Tínhamos de apresentar o livro para a banca examinadora e fornecê-lo para arquivo e biblioteca da universidade. Os trabalhos produzidos são utilizados como base de pesquisa para os estudantes de jornalismo e outros que tenham interesse. Os outros 90% do montante impresso foram destinados a pessoas da cidade, amigos e apoiadores da ideia, entre outros tantos que tinham interesse em conhecer o livro.

No mais, a repercussão foi muito interessante, a começar quando decidimos pela produção de um livro-reportagem com o tema lobisomem. A reação das pessoas diante da nossa escolha era bem interessante. Alguns professores chegaram a criticar a escolha, mas, no final, eles próprios nos cumprimentaram pela iniciativa (e por que não dizer ousadia), de tratar daquele assunto.

P: Quando eu li o livro, percebi certos momentos em que a narração manifesta claramente a opinião dos repórteres, como em:

“Revezava: comendo pimenta que tirava de um vidro, daqueles grandes, antigos, de maionese, falando sobre o lobisomem, e de minuto em minuto comendo uma batatinha frita que, no percurso entre o prato e sua boca, tinha que balançar a danada para pingar o excesso de óleo. E que excesso. Era quase uma sopa. Ele podia até saber de lobisomem, mas não sabia fritar batatas.” (p.61)

Hoje, 10 anos depois, você considera essa exposição do ponto de vista do repórter prejudicial a obra ou necessária para a proposta? Tem algo que vendo o trabalho hoje você pensa em ter feito diferente?

S: Necessária para a proposta, certamente. As observações do jornalista, desde que feitas com adequação, ambientam o leitor, ajudam a entender o perfil do personagem. No estilo literário que escolhemos, observações assim, informais, coloquiais, em que buscávamos traçar uma ideia do entrevistado e do seu cotidiano, eram permitidas. Quando se fala de cultura popular é necessário mostrar as pessoas como elas são, na sua simplicidade ou não, no seu habitat.

Sobre fazer o trabalho diferente, penso que não. Naquele momento o Lobisomem existe estava contextualizado ao que vivíamos, estudantes, cheios de ideias e alimentados por uma proposta de um jornalismo pautado em uma linguagem literária, um estilo que começava a ganhar terreno. Hoje, talvez, com as novas vivências profissionais que temos, o livro teria outro perfil. Mas, foi ótimo tê-lo feito da forma como fizemos

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Sobre Andriolli Costa

Jornalista sul-mato-grossense em terras gaúchas. Atua principalmente nas áreas de jornalismo científico, cultural, rural e com estudos de Jornalismo.

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