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Sinhozinho – Em Busca do Profeta

Em meados da década de 40, a cidade de Bonito/MS era o teatro de dois fantásticos personagens que se arraigaram na cultura local. De um lado, o banditismo do bando de Silvino Jacques marcava uma época de terra sem lei — quase um western pantaneiro. Ao mesmo tempo, o profeta mudo Sinhozinho reunia devotos e pregava a palavra, realizando milagres e gerando lendas e histórias que permanecem até hoje no imaginário da cidade.

E foi numa busca por essas histórias que a repórter Laryssa Caetano garimpou seus depoimentos. Difícil mesmo foi separar real do fantástico, quando mito e memória se tornam uma coisa só. Sabemos que o Sinhozinho existiu, e que deixou presenças físicas na cidade. As cruzes espalhadas por Bonito, a Capela — até hoje zelada com carinho — e a memória daqueles que em sua juventude rezaram de joelhos em frente a figura religiosa deixam isso claro. No entanto, ele também deixou marcas imateriais na vida do povo daquele local, que repassa até hoje as histórias de “ouvi dizer”.

Dizem, por exemplo, que o profeta era a reencarnação de São João Batista. A vida regrada, os carneirinhos que o acompanhavam e a alimentação minimalista — água, peixe e mel (e a mandioca, para dar um tom brasileiro) — realmente lembram o personagem bíblico. Diferente do santo, porém, o Sinhozinho não batizava ninguém. Era mudo, e só se comunicava por senhas (gestos). Mais do que isso, deixava a mostra apenas um braço;  o outro vivia escondido. O povo conta que era todo atrofiado. Ainda assim, arrebanhava multidões para as pregações silenciosas, curando doentes e incentivando os fiéis a plantar e colher. Um diálogo direto com o movimento messiânico, com representantes como Padre Cícero, Beato João Maria ou Antônio Conselheiro.

Tal como os nomes citados acima, o Sinhozinho também teria chamado a atenção — negativa — do Estado, que teve que tomar suas providências. Dizem que a perseguição ao profeta foi incentivada por farmacêuticos, que viam seu negócio às moscas graças aos milagres realizados. Outros afirmam que a ação da prefeitura era inevitável, já que as pessoas estavam fora de sua razão e já nem trabalhavam mais, apenas rezavam dia e noite. Seja qual for a versão correta, certamente uma força capaz de reunir tantos seguidores fiéis ao seu redor não era nada interessante para governante algum.

Antes de morrer — ou desaparecer, como pregam alguns — o Sinhozinho realizou a sua maior façanha. O profeta teria prendido, numa gruta da cidade, uma gigantesca serpente. Para selar o monstro, plantou na frente do local uma santa cruz, e espalhou diversas outras pelas casas da cidade. A cobra um dia irá se soltar, mas o povo conta que onde a cruz do Sinhozinho estiver presente, a besta não poderá infligir nenhum mal.

Hoje, quase 70 anos depois, a maioria das cruzes já desapareceu. Foram se perdendo com o tempo, ou depredadas por novos moradores que iam chegando. A própria santa cruz em frente ao morro da cobra foi uma das mais avariadas. Mesmo com a partida do Sinhozinho, a fama de milagreiro permanece na cidade, e muita gente buscava uma lasca da cruz para preparar um chá ou remédio para curar as dores do corpo, até o ponto do objeto quase não se manter mais em pé. Se quando isso finalmente acontecer a serpente realmente irá sair para aniquilar a cidade não há como saber. O fato é que quando cair a última cruz do Sinhozinho, terá morrido para sempre um pedaço da história do município de Bonito.

Publicado na Revista Poranduba
Texto e edição:
Andriolli Costa
Captação:
Laryssa Caetano
Arte:
Alexandre Barroso

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Sobre Andriolli Costa

Jornalista sul-mato-grossense em terras gaúchas. Atua principalmente nas áreas de jornalismo científico, cultural, rural e com estudos de Jornalismo.

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