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Matérias, Povo e Cultura

Caçadores de Mitos

Grupo planeja a captura de monstros do imaginário mineiro, lançando novos olhares sobre o folclore regional

A notícia veio caminhando lá pelo meio de julho. Começou a aparecer aqui e ali nos jornais do interior do estado de Minas Gerais. A novidade ganhava a boca do povo, foi só questão de tempo, talvez um dia ou dois, para os âncoras dos principais telejornais brasileiros anunciarem: A Associação dos Caçadores de Assombração (ACAM) oferecia R$ 10 mil para quem fotografasse o Caboclo D’Água, uma criatura bastante conhecida no imaginário local.

O anúncio trouxe uma semana movimentada para o município de Mariana, a 114 km de Belo Horizonte, onde fica a sede da Associação. Contatos vieram dos Estados Unidos, da Inglaterra e até do Nepal. Um entra e sai de repórteres, cinegrafistas, produtores e até mesmo simples curiosos chegavam na cidade a procura dos fundadores do grupo: o jornalista Leandro Henrique dos Santos e o professor universitário Milton Brigoline.

Leandro é o diretor de um jornal local, O Espeto, e conta que os relatos de aparições de criaturas como o Caboclo D’Água sempre foram encarados como lendas e eram sempre retratados numa coluna própria, a Nossos Causos. Com o tempo, no entanto, as notícias tomaram um rumo diferente. “Assombrações e monstros começaram a atacar as pessoas, e muitos casos envolviam até mesmo a polícia militar e atendimento hospitalar!”, relata ele.

O mais alardeado destes ataques, de acordo com os fundadores da ACAM, foi realizado contra um rapaz, cujos testículos teriam sido arrancados por uma dentada da criatura. Estiveram presentes o Corpo de Bombeiros e a Polícia, e a conclusão, para Leandro Henrique, era previsível: atacado por um “animal”. Foi a gota d’água.

Mobilizando a equipe, e com apoio da Universidade Federal de Ouro Preto, o grupo não apenas ofereceu a alardeada recompensa pela fotografia, como também passou a tentar capturar a criatura. “Começamos a organizar caçadas e instalar armadilhas”, relembra Leandro. “Logo, decidimos expandir a busca por outros casos de assombrações e monstros que tem aparecido na região há cerca de 300 anos, mas nunca foram estudados”. A nova proposta rendeu novas matérias jornalísticas, divulgando perfis e “retratos falados” de diversos mitos e lendas mineiros pela internet.

Quando questionado, Leandro Henrique nega que a Associação tenha outro objetivo que não caçar as criaturas que assolam o povo. Ainda assim, é inegável como a iniciativa pode promover o turismo no município e lança um novo olhar sobre a cultura popular da região. Uma tradição que não faz parte de um passado distante, mas que está presente no cotidiano, que se manifesta concretamente na vida das pessoas. “Para mim, o folclore não tem que ser preservado, mas sim alimentado”, afirma o jornalista.

A Associação dos Caçadores de Assombração já colaborou na gravação de dois documentários sobre o Caboclo D’água. Mas Leandro garante que evita interferir na produção. O objetivo não é esse. “No município de Barra Longa existe uma festa para o Caboclo D’água. Até estátua para ele foi construída! Mais do que publicar livros ou fazer filmes, é esse ambiente cultural que temos que fomentar. É deixar as pessoas festejarem sua cultura”.

A grande missão da Associação, no entanto, ainda está por vir. Em janeiro haverá uma grande caçada com balsa, onde a equipe de caçadores ficará 10 dias percorrendo o Rio do Carmo para capturar o Caboclo D’água. Em nome da Revista Poranduba, boa caçada a todos!

Leandro Henrique dos Santos é jornalista e diretor do jornal O Espeto, membro fundador e assessor de comunicação da ACAM

Poranduba: Atualmente, quantos caçadores fazem parte da Associação? O que é preciso para integrar a equipe?
Leandro: São 56 caçadores e mais os colaboradores. Primeiro é preciso ser colaborador para depois poder se tornar um caçador. Para fazer parte é importante não ter medo de nada, precisa ter disponibilidade aos fins de semana e ser bastante curioso.

Poranduba: Qual a fonte de rendas da ACAM? Ela recebe auxílio do Poder Público ou está ligada a algum projeto de extensão?
A ACAM é mantida pela doação de colaboradores e caçadores. No entanto, a associação é secreta, e guarda em segredo o nome de seus participantes. Apenas a diretoria tem seus nomes divulgados. Desta forma, ela não pode ser registrada, ter CNPJ, receber verba pública ou ajuda financeira de quem não membro. Considerando esta implicação não nos relacionamos com qualquer outra instituição formalmente.

Ainda assim, a Associação tem como parceira a UFOP (Universidade Federal de Ouro Preto), que em diversas caçadas colaborou com material e permitiu que as pesquisas da ACAM sejam realizadas em seus laboratórios. Um exemplo de fruto desses estudos é a criação de um líquido com cheiro de bezerro que usamos para atrair o Caboclo D’água.

Poranduba: Alguém até agora já apareceu para tentar receber o prêmio dos R$ 10 mil pela foto do Caboclo D’água?
Sim, duas fotos foram apresentadas. Uma descartada e outra está em análise, mas o primeiro parecer de equipe técnica constatou que era foto de outra assombração, não do caboclo d’água.

Associação acompanha entrevista da Globo

Poranduba: Com a grande exposição na mídia das lendas mineiras a partir do trabalho da Associação, de que formas os municípios de Mariana e arredores poderiam se utilizar desta divulgação, com ações que valorizassem o turismo, por exemplo, a partir do imaginário?
Nós nos Preocupamos com a divulgação desses avistamentos como lendas apenas. Temos casos de pessoas que ficaram cegas por quatro dias por avistarem a Mãe do Ouro, uma bola em chamas grande que vem do céu e desce nos garimpos. Por causa dela, vários garimpos foram abandonados. Coisa que nem a Polícia Ambiental conseguiu fazer! Até a prefeita, Terezinha Ramos, já cuidou do seu irmão que foi atacado pela Mãe do Ouro. Ele ficou em casa sem poder ver a claridade por seis dias.

Tivemos avistamentos que foram perseguidos. No caso da Maria Sabão, por exemplo, ela entrou no rio e saiu na outra margem e as três pessoas que a seguiam não conseguiram atravessar o rio devido a fundura e correnteza! Outros já tentaram até mesmo seguir a Mulher de Branco, que foi direto para o cemitério.

Poranduba: Mitos e lendas são patrimônio imaterial de uma comunidade. Qual a importância que você vê em sua preservação?
Não falamos em preservar e sim em alimentar nosso folclore, nossa identidade, nossa cultura. Ao contar causos e lendas estamos também contamos parte de nossa história que faz parte da formação de nosso carácter. Muitas vezes a criançada cresce tendo como referência desenhos animados e filmes de outros países. Conhecer e valorizar outras culturas é importante, mas temos também nossa prória cultura, com nossos mitos e lendas que revelam de onde somos, como chegamos até aqui, e isso tem que ser alimentado.

Poranduba: A Associação age principalmente nos municípios de Mariana, Diogo Vasconcelos e Barra Longa. Você acha que é no interior que essas lendas estão mais vivas? Nas grandes cidades, elas ainda tem lugar?
Na cidade os perigos são outros, mas essas lendas são inerentes ao ser humano. Vou te dar um exemplo: quando os jornalistas vinham conhecer e filmar a história do caboclo d’água, a noite na beira do Rio do Carmo, nosso vice-presidente fazia questão de jogar uma pedra do rio. Com o barulho todos corriam! Se achavam que o Caboclo D’Água não existe, por que correram?

Poranduba: Você tem conhecimento das outras associações com objetivos semelhantes, como a dos Criadores de Lobisomem em Joanópolis (SP), dos Criadores de Saci no Paraná e dos Criadores de Mula Sem Cabeça (MG)?
Ainda não temos nenhum tipo de relação com essas associações, apesar de achar a idéia maravilhosa de alertar as pessoas sobre o perigo dessas assombrações com esse tipo de abordagem. Seus fundadores estão de parabéns. Aqui em Mariana e região preferimos caçar e expulsar as assombrações, numa luta sem fim.

Publicado na Revista Poranduba
Texto e arte:
Andriolli Costa

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Sobre Andriolli Costa

Jornalista sul-mato-grossense em terras gaúchas. Atua principalmente nas áreas de jornalismo científico, cultural, rural e com estudos de Jornalismo.

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