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Meu filho vai ter nome de craque

* Matéria aprovada em 1º lugar na Oficina de Reportagens da jornalista Eliane Brum.
Objetivo: escrever texto “ao estilo reportagem” sobre a origem do seu nome e como se relaciona com ele.

Andriolli Costa

O pai bem que tentou. Afinal de contas, em Mato Grosso do Sul, todo campo-grandense que batia uma bolinha no final de semana sabia que o filho do “Magrão” tinha que ser um craque da bola. Estava no sangue! É, foi com esse espírito que Edgar Aparecido da Costa preparou a chegada de seu primogênito. Ansioso, cobriu o berço ainda vazio com o manto do tricolor das laranjeiras e – como que para deixar bem claro – pregou na parede do quarto o escudo feito de gesso esmaltado de seu time do coração: o Fluminense.

Em 24 de outubro de 1989, o garoto que seria vestido de vermelho e verde pelos próximos dez anos veio ao mundo já com nome de craque. Bom, pelo menos era a aposta que se fazia na época… Andriolli de Brites da Costa foi batizado em homenagem a um prodígio da escalação do time naquele ano, o meiocampista Paulo Andrioli. “Era um jogador bastante promissor na época, mas que não desabrochou”, relembra Edgar, que sem ter como prever o futuro tomou emprestado do boleiro o sobrenome. No cartório, ainda se permitiu dobrar um L, “para dar um ar mais italianizado”, brinca.

Talvez se a homenagem fosse mais acertiva, e outro craque eleito (um Rivellino, por exemplo) o resultado fosse outro. Fato é que se Paulo não desencantou para se tornar um grande ídolo do futebol, Andriolli nem chegou a tentar. Pouco habilidoso, desajeitado e acima do peso, não houve álbum de figurinhas da Copa de 98, camisa oficial do time e nem bolas da Topper de presente de aniversário que chamassem de fato o interesse do garoto para o futebol. Tão logo foi capaz de tomar suas próprias decisões, chutou de uma vez o esporte para o escanteio da sua vida.

Do craque de quem ninguém mais se lembra, restou ao garoto apenas o nome com jeitão de sobrenome. Tanto que vira e mexe recebe pelas redes sociais mensagens de membros da família Andriolli (e suas variações) questionando sobre seu ramo na árvore genealógica. Em verdade, a sucessão dos sobrenomes nunca foi muito respeitada em sua família, de modo que qualquer pesquisador de heráldica entraria em parafuso. O próprio “Aparecido” no nome de seu pai não foi herança de família, mas sim resultado de uma promessa à Nossa Senhora.

Para Andriolli o nome diferente, no entanto, também trazia suas vantagens. Nenhum apelido recebido durante a infância e a juventude realmente colou. Alguns grudavam nele durante um dia ou dois e logo acabavam caindo por terra. Claro que isso não impedia os colegas de continuarem tentando, e brincadeiras envolvendo nomes de massas italianas (como ravióli ou o rondeli) volta e meia eram ressuscitadas. Até mesmo alimentos menos sofisticados como os rissoles da cantina serviam de inspiração para o “bullying” diário.

Mas o tempo passa e as referências também avançam. Hoje, aos 22 anos de idade, os trocadilhos com comida ficaram para trás. Deram lugar à comparações com o “Andriole” do repórter do CQC ou do baixista do Angra – dependendo do nicho. Mas o rapaz sabe que não é nenhum deles. Não é nem mesmo o “Andrioli”, do zagueiro do Fluminense. É Andriolli, com “L” duplo, é único, é ele mesmo. E se um dia cresceu para ser espelho de seu pai, hoje orgulha-se em saber que é fruto de suas próprias escolhas e ações.

Satisfeito, relembra que pode chegar a essa percepção sem conflitos e nem discussões. Se algum dia sentiu que havia decepcionado seu pai por ter se tornado tão diferente do que ele havia planejado, isso logo passou. Desapareceu ainda cedo, lá pelos 12 anos de idade, quando o pai – professor universitário – o apresentava aos alunos estufando o peito e dizendo: “Esse é o meu filhão, Andriolli. Vai ser maior do que eu em tudo, até em inteligência”. Um desafio e uma missão aceitos de coração aberto e que o rapaz carrega com orgulho até hoje.

Autor: Andriolli Costa

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Sobre Andriolli Costa

Jornalista sul-mato-grossense em terras gaúchas. Atua principalmente nas áreas de jornalismo científico, cultural, rural e com estudos de Jornalismo.

Discussão

Um comentário sobre “Meu filho vai ter nome de craque

  1. Muito legal a história.
    Tamo junto familia Andriolli.

    Curtir

    Publicado por Vitor Almeida Andriolli | outubro 8, 2016, 12:25 am

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