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Artigos e Opinião

Opinião: O Fantástico na Encruzilhada

Em 2011, o diretor Martin Scorcese reviveu a memória de um dos grandes precursores da arte cinematográfica: o francês George Méliès. Neste longa-metragem o público (re)descobriu a obra do ilusionista que trocou os glamurosos palcos das casas de espetáculo pelos estúdios de cinema, e levou toda a sua magia e domínio da arte de encantar o público para a tela grande.

Scorcese recriou cenas dos grandes filmes de Méliès

Antes de Méliès, o cinema retratava apenas a “realidade”, com narrativas que abordavam situações do cotidiano. O diretor inovou ao produzir os primeiros efeitos especiais, apostando em narrativas de fantasia. Chegou a lançar quase 500 filmes, em que atuava, dirigia e roteirizava. Entre seus feitos mais memoráveis, está o de ter sido o primeiro cineasta a levar o homem à lua, ainda em 1902.

A decadência, no entanto, também bateu a sua porta. Num momento de frustração e desespero o diretor incinerou seu estúdio e todos os negativos que estavam em sua posse. Diversas que sejam as razões que levaram a este final trágico, Scorcese elege para seu filme uma bastante emblemática: a de que a crise de Méliès seria fruto do pós-guerra. “Aqueles que voltavam tinham visto tanta realidade nos campos de batalha que não tinham mais interesse nos meus filmes”, recorda Méliès de Scorcese.

Vamos nos atentar a essa a esta palavra; realidade. O que era este “real” que os ex-combatentes queriam ver nas telas de cinema? Seria a simples transposição do cotidiano, como eram os filmes anteriores a Méliès? Duvido muito. O mundo havia ficado menos inocente após os conflitos mundiais, e a Europa, berço do diretor, havia testemunhado drasticamente suas consequências. Com toda a tensão política, o pessimismo e a barbárie que se testemunhava, os filmes antigos pareciam inocentes demais. Bobos demais. O público buscava uma catarse para sentimentos que Méliès e seus truques de mágica na sala de edição não era capaz de extrair.

Este fenômeno, que marcou a primeira metade do século XX, espalhou-se lentamente e hoje pode ver percebido sem dificuldades nas narrativas de fantasia do século XXI. Não basta verossimilhança; o público exige cada vez mais que o texto fantástico, para ser crível, seja impregnado de realismo. E estas marcas do mundo real se apresentam na forma de violência, engajamento e erotismo.

Chapeuzinho Vermelho e o Lobo Mau em “A Garota da Capa Vermelha”

Exemplo disso é o grande movimento de desconstrução e atualização das fábulas e contos de fada. No cinema, filmes como A Garota da Capa Vermelha ou o seriado Grimm (2011) recontam histórias clássicas, que ganham novas roupagens cheias de batalhas sangrentas e tensão sexual. No universo das HQs, Alan Moore subverte ainda mais o gênero em Lost Girls, onde as versões adultas de Alice (do País das Maravilhas), Dorothy (de Oz) e Wendy (da Terra do Nunca), compartilham aventuras eróticas. A história é repleta de cenas de estupro, incesto, orgias e lesbianismo. Nos contos de fada modernos, a máxima do “felizes para sempre” é abandonada. Hoje, se alguém está feliz é por que ainda não chegou ao final da história.

Outro caso bastante perceptível é a mudança nas narrativas de super-heróis, o panteão do imaginário contemporâneo. Personagens como o Superman, reconhecidos por sua retidão de caráter, com fortes ideais de justiça, heroísmo e bondade, deixaram de ser sucessos comerciais e viram suas tiragens cada vez menores. O público não aceitava mais os escoteiros, os homens perfeitos. “Ninguém é tão bonzinho assim”. Deu-se a ascensão dos anti-heróis e dos personagens sombrios, violentos e carregados de dramas psicológicos.

Doutor Luz violenta mulher do Homem Elástico

Com o novo rumo escolhido pelas editoras, os quadrinhos deixaram de vez de ser produto de consumo infantil. Personagens como a Estelar, dos Titãs – que já foi protagonista de um desenho para crianças – tiveram seu apelo erótico reforçado. Com o estupro da mulher do Homem Elástico, a ameaça dos vilões deixou de resultar apenas numa troca de sopapos. Em termos comerciais a “fórmula” parece clara. No cinema. o enorme sucesso comercial do último filme do Batman (US$ 1,2 bilhões) frente ao fracasso do longa do Lanterna Verde (US$ 219 milhões) – personagens da mesma produtora e editora – fez executivos da Warner questionarem se um filme mais “sombrio e ousado” não teria feito melhores somas.

Mas será mesmo essa a resposta para tudo? Tanto o excesso de luz quanto o de escuridão cegam da mesma maneira. Elementos realistas na fantasia são interessantes e, bem construídos, são capazes de fazer de histórias simples, narrativas memoráveis. No entanto, quando a mão do artista pesa, a supervalorização dos tons de cinza pode escurecer demais o quadro.

Histórias mais simples, que não envolvem traições, conspirações políticas e personagens afetados são constantemente criticadas por serem maniqueístas, rasas e inocentes demais. No entanto, o excesso de realismo muitas vezes é cansativo, e esgota o público quando este busca na narrativa não a transcendência, mas sim o encantamento.

Estas pessoas encontram o que procuram no fantástico, que ainda mantém um quê de mágico, de lúdico e de inexplicável em sua busca última, que é a de maravilhar o espectador. É como o Méliès apresentado por Scorcese, que queria fazer de sua arte uma máquina de construir sonhos. E os sonhos nem sempre são limitados por algo tão simplório quanto a realidade.

* Andriolli Costa é jornalista de Campo Grande/MS

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Sobre Andriolli Costa

Jornalista sul-mato-grossense em terras gaúchas. Atua principalmente nas áreas de jornalismo científico, cultural, rural e com estudos de Jornalismo.

Discussão

3 comentários sobre “Opinião: O Fantástico na Encruzilhada

  1. Concordo em boa parte com o que disse. Uma trama de fantasia pode ser bem construída sem ter que se atrelar ao que seria de se esperar se acontecesse no mundo real. Verossimilhança, sim, sem dúvida, mas não podemos perder de vista o sense of wonder.

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    Publicado por Ana Lúcia Merege | março 6, 2012, 2:55 pm
  2. O fantástico tem esse encanto de trabalhar com o lúdico, o mágico e o inexplicável, como bem escreveu Andriolli Costa. Acredito que a maioria dos leitores recorre ao fantástico por esses e outros atributos. Quando isso começa a se escassear para dar lugar a atributos mais realistas, mais “terrenos”, as histórias começam a ficar sem graça.

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    Publicado por Angelo Miranda | março 10, 2012, 1:57 pm
  3. Te parabenizamos pelo artigo, muito interessante (o tema e o desenvolvimento)!
    Trata-se de uma tendência muito sentida atualmente, a do aprofundamento dos personagens e tramas, que tem muito a ver sim com o amadurecimento da concepção do ser humano e da própria sociedade ocidental. Afinal antes, na Id Média, tínhamos apenas 1 verdade, Deus – e a Bíblia -, em seguida, com a Rev Científica, essa responsabilidade, pelo menos para as classes instruídas, passou pra ciência; com o passar dos séculos, o valor maior de verdade passou pra política, e se bifurcou em 2, o capitalismo e o comunismo. hoje se tem quantas mesmo? incontáveis, já que é social e moralmente aceito que cada cultura tenha a sua verdade e seus ideais. E o que é isso senão um aprofundamento da concepção do humano e da sociedade pelos proprios humanos e sociedades?
    Também vale citar a preferência pelos temas subjetivos/imaginários que se percebe no indivíduo do século XXI (já percebeu isso? propagandas, literatura, filmes, e vários outros produtos estão incorporando essas características mais subjetivas).

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    Publicado por Mariana Travieso Bassi | março 21, 2012, 7:27 pm

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