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Perfis e Especiais, Povo e Cultura

Perfil: Edson Alves da Cruz

Publicado no livro Vozes do Artesanato, 2012
Autor: Andriolli Costa

O endereço estava na internet. Na verdade, era uma das únicas coisas que o usuário que procurasse por aquele nome – ao lado das palavras Corumbá e artesanato – poderia encontrar. No entanto, a casa de Edson Alves da Cruz era mais fácil de ser localizada pelo Google do que pela reportagem. “Pergunte por Edson das Capivaras”, disse ele por telefone. “Todo mundo conhece!”. No caminho, os mototaxistas davam de ombros e os vizinhos torciam a cara em interrogação. Há mais de 30 anos dedicado a retirar da madeira as formas dos bichos do Pantanal – e há 25 morando no mesmo lugar – Edson balança a cabeça ao saber das dificuldades. “Todos esses anos no trabalho e ainda passamos por isso. Não é fácil, não é fácil”.

A chateação não acompanha Edson por muito tempo. Aos 63 anos de idade, ele que já é pai de nove filhos e avô de 12 netos pode não ter ficado rico. No entanto, tudo que tem até hoje – da casa de alvenaria na Avenida General Rondon, em Corumbá, até o Chevette 1984 que está reformando desde 2009 – foi conquistado graças a sua arte. Pantaneiro robusto, com o rosto emoldurado por um bigode grisalho e um par de óculos que amenizam-lhe as feições, o maior orgulho do artesão é ter criado sua família da melhor forma possível. “Filho pra mim não é bicho. A gente precisa dar estudo, comida, saúde… Hoje pra mim é um alívio saber que tão tudo crescido e bem”.

A necessidade de ganhar mais dinheiro para sustentar a família foi o motivo que Edson apresenta para ter entrado no mundo do artesanato. Ainda assim, não se pode negar a força que a vida pantaneira, a fonte de sua inspiração, representou em seu desenvolvimento profissional. “Meu pai era peão de gado, na fazenda Paiaguás, lá no Pantanal. Ficava a um dia e meio de lancha de Corumbá”, estima Edson, usando as medidas adequadas para a planície alagada, onde o incomum é fazer o caminho por terra. Enxada e machado – muito antes de martelo e talhadeira – foram as primeiras ferramentas que desenharam a madeira nas mãos do artesão. “Eu sempre gostei de ajudar ele na empreitada. Fazia cocho, canoa…”.

Com os filhos do patrão, que o incentivava a estudar, Edson frequentou até a 8ª série na cidade de Corumbá. Depois resolveu parar, e foi fazer o que sabia melhor na época; trabalhar de peão. Foi cuidando do gado e acompanhando comitivas entre as cheias e as fazendas que Edson passou cinco anos viajando Pantanal adentro. Já na época, acrescentou novas habilidades ao seu portfólio: além de cochos e canoas, fazia gamelas e colheres de pau para a peonada toda.

“Mas essa vida de peão de fazenda não dá futuro pra ninguém. Então, vim-me embora pra cidade”, relembra ele. Mais uma vez, o chamado da madeira falou mais forte e, coincidência ou não, acabou trabalhando numa serralheria em Corumbá. “A gente morava numa vila só de serralheiro, e às vezes, pra matar a saudade, cortávamos a madeira na forma de uma mulher e ficávamos lá, só admirando”, ri o artesão, relembrando a arte tomando forma aos poucos na sua vida.

É cercado pelas memórias da época de garoto, ajudando o pai a formar curral e talhar cocho e canoa, que hoje ele desenvolve seu trabalho. A rusticidade das primeiras experiências na fazenda – basicamente cavoucar o toco para dar-lhe utilidade – deu lugar ao detalhamento e ao cuidado no talhar dos animais de madeira. Seja lixando as curvas das capivaras de madeira, seja debruçando-se sobre o tronco de ximbuva para, escama por escama, fazer surgir um jacaré, é com atenção as pequenas impressões da vida no Pantanal que Edson caracteriza sua arte.

Trabalho em Família
Edson Alvez da Cruz pode até falar com orgulho da casa que construiu com o fruto de seu próprio trabalho. Mas sua verdadeira morada, onde passa boa parte do dia em contato direto com sua família, fica mais para os fundos. É lá, em sua oficina – imersos em meio ao zunido da serra elétrica e ao pó de madeira que arde nos olhos e agarra na garganta – que ele, a mulher Janete, e o cunhado Osmair, vão fazendo aparecer as primeiras peças da encomenda que acabaram de receber.

Espalhados por todos os cantos da oficina, a família se ocupa cada qual a sua maneira. Num dos cantos, Osmair Rodrigues da Silva termina de serrar aquilo que, quando finalizado, vai se tornar mais um jacaré de madeira. Suas roupas estão esbranquiçadas com o pó que sobe da peça, mas ele parece já nem se importar. Enroscando-se embaixo da mesa, a netinha do artesão, Karine da Cruz, brinca de montar num dos lagartos já completados e espera o pai terminar o trabalho para servir o almoço.

Enquanto isso, andando de um lado para o outro, uma agitada senhora apoia um pequeno toco de madeira com a barriga enquanto talha, acumulando um punhado de lascas de madeira no vestido. A mulher é Janete Leonarda Silva da Cruz, a segunda esposa de Edson, e sua companheira desde a época em que trabalhava na serralheria. A peça que segura acabara de ser cortada por Edson, mas ele é justo. “Eu corto a madeira e dou pra eles talharem. No final eles me chamam só pra fazer o olho do bicho, mas o trabalho é todo deles” credita o artesão.

Compenetrados no trabalho – que às vezes os envolve oito a dez horas por dia – é difícil de imaginar, mas o clima de trabalho harmonioso nem sempre esteve presente. Edson conta que o artesanato, que hoje une a família, já foi motivo de muita discussão. “Eu deixei de ser peão de gado por que é uma vida que não dá futuro pra ninguém. Mas com o artesanato também não é fácil. Às vezes vende, às vezes não. E quando eu decidi viver só disso a dedicação tinha que ser muito maior”.

Se hoje as coisas não são fáceis, em 1986 elas eram ainda mais difíceis. A família morava de aluguel, estava cheia de contas para pagar, e as brigas entre o casal eram constantes. Um emprego fixo não resolveria as coisas, mas era uma garantia mensal de renda em comparação aos lucros incertos como artesão. Tomando coragem, Edson preparou durante dias uma peça para mudar aquela situação. Nada de tatus ou capivaras, desta vez – uma das poucas em que se arriscou nesse terreno – a peça escolhida foi uma Santa Ceia.

Tomando coragem, o artesão colocou o quadro em alto relevo, com quase um metro e meio de largura dentro do carro e dirigiu até a propriedade de um antigo fazendeiro da região, Laurindo de Barros. Poucas horas depois, Edson estava de volta com um cheque assinado e a esperança renovada. “O dinheiro foi suficiente pra comprar um terreno. Foi aí que eu mostrei que dava pra viver de artesanato”.

Com o tempo, Janete também acabou se convencendo. Hoje, ela que era apenas dona de casa ganha seu próprio dinheiro vendendo suas peças nas feiras, exposições e na casa do artesão de Corumbá. Mais do que isso, também passou a procurar aprimorar a técnica, frequentando oficinas e cursos de capacitação no Sebrae. Questionadora, é ela quem agora corre atrás de muita coisa para melhorar a situação do casal. “Eu já ouvi muito falar que existe uma linha de crédito nos bancos com fundo perdido para o artesanato. Mas parece que ninguém sabe onde é que acessa. E quem sabe não conta pra gente”, reclama ela.

Não é apenas Janete que com o tempo também seguiu pelos caminhos do artesanato. Os filhos de Edson, Edilene Silva da Cruz e Edilson Jesus da Cruz também se tornaram artesãos. “A Edilene faz os capivara, caititu. Tudo que eu faço também, só que pequeno. E o Edilson trabalha com argila, gesso. Ele mora lá em Albuquerque, mas de vez em quando vem aqui perguntar o que eu achei de uma peça, um trabalho dele”, orgulha-se.

Mudança de Mercado
O processo de feitura de cada peça é demorado, e começa desde a escolha dos materiais. “Aqui na cidade mesmo tem muita casa sendo construída, e as empresas derrubam as árvores para abrir o terreno. Aí eu vou lá e pego o que preciso”, relata Edson. Ainda assim, quando a necessidade surge, ele também vai a campo. A madeira preferida é a ximbuva, e é a mais fácil de conseguir. “Ninguém quer ela no mato. Faz mal para o gado; a vaca come e já aborta”. Outra árvore que o artesão valoriza também é a barriguda e a umburana, embora esta última só para peças pequenas. “Ela é muito pesada, não dá pra fazer bicho muito grande”. Com a sabedoria popular colocada em teste ele confirma: existe um período certo para juntar a matéria prima. “Tem que cortar a árvore na lua minguante. Aí ela vai ser madeira boa. Se for na lua nova, ela vai apodrecer a toa. Enche de broca e bicha tudo”.

Depois disso, vem o nada simples processo de talhamento. Cada animal tem sua própria dificuldade, mas o jacaré – a peça mais admirada – é também a mais demorada de ser feita. “É por que ele tem todas aquelas crecas”, explica Edson, sobre a complexidade dos detalhes do bicho. Depois de pronto, o artesão passa selador e cera de abelha para conservar a peça. Depois, lixa toda a cera para tirar o brilho excessivo, deixando a peça mais natural.

Quem conhece todo esse processo sabe reconhecer o trabalho dos artesãos. O jacaré, por exemplo, sai por cerca de R$ 2.500. Em compensação, peças menores, como os chaveiros de capivarinhas feitos por Janete saem a partir de R$ 2,50. Infelizmente, para eles, este público é a minoria. Grande parte das pessoas acha tudo muito caro, e não aceita pagar o preço. As próprias lojas de artesanato, sem um fluxo de caixa constante, não costumam comprar as peças e preferem expô-las em consignação – uma prática bastante questionada pelos artesãos.

Mais do que isso, Edson relata que num nível regional, os artesãos de forma geral são conhecidos num meio muito específico: o cultural. Fora dele, por mais tempo que estejam no mercado, estes profissionais vão continuar fazendo mototaxistas darem de ombros e vizinhos torcerem a cara ao ouvirem seus nomes. “Quem é da cidade mesmo não compra minhas peças. Meus principais clientes são de fora, especialmente estrangeiros”, relata.

No entanto, ao invés de apenas reclamar, Edson buscou se adaptar a essa realidade. Como uma alternativa de mercado, buscou parceria com o Hotel Nacional, onde vendeu seu primeiro jacaré, e negociou um acordo. “Sempre que o turista pergunta, eles falam do meu nome e trazem a pessoa aqui. Se vender, 10% fica com o Hotel”. Hoje, segundo ele, tem peças suas com colecionadores nos Estados Unidos, no Canadá, em Portugal e até “naquele país que o príncipe casou, sabe?”.

Foi uma boa solução, e conseguiu fazer os negócios continuarem. Ainda assim, de vez em quando a situação aperta. “Em tempo de piracema ou decoada, não vêm turista pra cá. E aí é prejuízo pra gente, quase não sai peça”. Para não depender somente dos turistas, outra experiência que vem se provando bem sucedida é o aluguel de peças para decoração de festas e eventos. Embora tenham aparecido poucos pedidos nesse sentido até hoje, a expectativa de Edson é que esse seja um interessante filão de mercado a ser desenvolvido em Corumbá nos próximos anos.

Arca de Noé

Mesmo com todas as dificuldades na comercialização, dúvidas e discussões entre a família, Edson conta que foi apenas um momento que o fez realmente botar em cheque a profissão. “Eu sempre acreditei em Deus, mas foi em 1993 que encontrei o fundamento, na Congregação Cristã no Brasil e me deparei com a seguinte passagem”:

Êxodo 20:4 Não farás para ti imagem de escultura, nem alguma semelhança do que há em cima nos céus, nem em baixo na terra, nem nas águas debaixo da terra

O artesanato já era, nessa época, a principal fonte de renda da família, concorrendo com alguns poucos pedidos de marcenaria e reforma de móveis que de vez em quando surgiam. Questionado – e questionando-se – dia após dia sobre isso, pensou em largar tudo. Como sinal da desistência, derramou tiner sobre uma Santa Ceia que tinha acabado de fazer – como aquela que lhe rendeu seu primeiro terreno – e jogou um palito de fósforo em cima. O fogo esperado não veio; o palito se apagou antes de encostar na substância. Para Edson, foi não só um sinal, mas uma certeza.

“O artesanato é um segredo, é espiritual. Ocupa o coração e a mente. É um dom que Deus me deu. Acho que é como Noé, e a arca”. No caso de Edson, no entanto, ao invés de construir a embarcação, sua arte arrebanha os animais para embarcá-los na eternidade.

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Sobre Andriolli Costa

Jornalista sul-mato-grossense em terras gaúchas. Atua principalmente nas áreas de jornalismo científico, cultural, rural e com estudos de Jornalismo.

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