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Economia e Agro, Matérias

Manejo de abelhas pode aumentar produção de mel em 500%


Andriolli Costa / Rural Centro

Publicado em 30/01/2013

Divulgação (UFMS - CPAN / Marcelo Diamante)Manejo inspirado em técnicas argentinas deve alavancar produção de mel no MS e lança novas perspectivas para a apicultura em todo o País. Em média o brasileiro consome 160g de mel por ano, mas a demanda do mercado é tanta que entrepostos comerciais, como o Vovô Pedro, já foram obrigados a buscar mel até em Rondônia para atender os fornecedores. O produto e seus derivados também são muito procurados por suas propriedades cosméticas e nutricionais. A qualidade de vida não se limita ao consumidor, afirma Gustavo Bijos. “Com até 300 colmeias um apicultor pode trabalhar uma semana e folgar a outra”. Também apicultor, Adriano Adames concorda: “É uma atividade que se paga em um ou dois anos. Com esse manejo diferenciado não conheço nada que dê mais lucro!”, empolga-se.

Nem o calor abafado do cerrado brasileiro e nem as barreiras do idioma desanimaram Jirka Cabalka. Aos 57 anos de idade – 30 dos quais dedicados à criação de abelhas – o tcheco apenas arranha o inglês e não entende uma palavra de português, mas a tudo anotava e fotografava. Desde domingo (27) o apicultor está em Campo Grande, Mato Grosso do Sul, visitando fazendas de produção de mel e conhecendo um projeto que promete alavancar o estado para uma posição de destaque no cenário apícola nacional.

O guia de Cabalka em sua viagem é Gustavo Bijos, presidente da FAEMS (Federação de Apicultura e Meliponicultura de MS) e um dos responsáveis pela introdução no Estado de um novo método que, segundo ele, pode elevar a produtividade média em MS de 20 kg para pelo menos 70 kg de mel por colmeia/ano. “Isso em uma área ruim!”, destaca ele. “Em regiões como Três Lagoas e Brasilândia, onde as abelhas podem utilizar tanto a florada silvestre quanto a de eucalipto, a produção pode ultrapassar 120 kg”, estima. O valor representaria um aumento de 500%. Foram essas informações preliminares, divulgadas no site da Federação, que chamaram a atenção do produtor tcheco para apicultura sul-mato-grossense. Na semana anterior, Bijos também recebeu um produtor italiano curioso com a proposta.

Thaiany Regina

Apicultor tcheco Jirka Cabalka conhecendo a produção da Fazenda Vovô Pedro, maior entreposto comercial de mel em MS

O método foi adaptado de técnicas argentinas para a realidade local pelo apicultor Adriano Adames, que em janeiro de 2012 acompanhou Bijos em visita técnica aos apiários do país vizinho pelo programa MS Sem Fronteiras. “As abelhas deles são europeias e as brasileiras são africanizadas. Demorei quatro meses para conseguir aplicar na minha propriedade e o resultado foi surpreendente”. Ele, que produzia uma média de 30 kg de mel por colmeia/ano, conseguiu chegar a quase 70 kg. Empolgado com o sucesso, o produtor vendeu o pouco gado que ainda tinha e investiu tudo na apicultura. Neste ano, passou de 250 para 500 colmeias e espera tirar 90 kg de cada uma apenas com a florada silvestre.

Os valores podem parecer irreais tendo em vista que a média nacional é apenas de cerca de 20 kg. No entanto, para o inspetor de mel orgânico Paulo Dalastra os números são bastante plausíveis. Ele, que trabalha pela certificação de 72 mil colmeias espalhadas em apiários em todo o Brasil, afirma que 70% da apicultura do país é voltada para a complementação de renda. Desta forma, a atividade não recebe grandes incentivos e o próprio produtor acaba se tornando resistente a qualquer inovação. “Em relação a outros países o Brasil está na época da pedra lascada”, afirma Dalastra. No entanto, quando se leva em conta os campos apícolas, o país está em uma posição privilegiada. “No Canadá, mesmo com um inverno rigoroso, eles conseguem tirar 120 kg de mel em quatro meses. O Brasil tem a capacidade de produzir mel durante oito meses com um clima muito mais estável”.

Aperfeiçoando a Técnica

Divulgação (FEAMS)

Domínio do sequenciamento da abelha e manejo diferenciado são a base para o aumento da produtividade

O ciclo de vida da abelha operária é de 45 dias, sendo que praticamente metade disso é entre larva e pupa. “No Brasil, nós costumávamos deixar por conta da natureza o trabalho de formação dos enxames. Como nós só temos cerca de quatro meses de florada silvestre, acabávamos desperdiçando metade do período porque as abelhas ainda estavam se desenvolvendo”, afirma Adames. A técnica argentina exige um domínio avançado do sequenciamento do trabalho com a abelha. A proposta é que, em época de queda de florada, o apicultor se preocupe com a renovação dos enxames e não com a produção de mel. Desta forma, as abelhas estarão prontas para trabalhar logo no primeiro dia de primavera.

Além disso, é preciso fornecer espaços internos rapidamente e trabalhar com a reposição de favos e a troca de rainhas. Por fim, um dos segredos é a alimentação balanceada e a suplementação com o complexo de aminoácidos Promotor L, que de acordo com Bijos é um produto execrado pelo produtor brasileiro. “A apicultura no Brasil ainda é extremamente amadora e quando o produto chegou ao país foi utilizado de forma errada, o que resultou na morte dos enxames. Na proporção correta, no entanto, ele é um grande aliado”, expõe.

Multiplicação do conhecimento

Divulgação (FEAMS)

Técnicos agrícolas participam do curso para aprender a nova técnica de manejo

Dentro de 15 dias, Dalastra vai começar a aplicar a técnica de Adames nas 400 colmeias de seu apiário. Uma de suas vantagens é que ela oferece altos índices de produtividade em enxames fixos. “Eu já conseguia tirar uma média de 110 kg de mel, só que eu precisava migrar meu enxame três vezes por ano em busca de novas floradas”, relembra ele. “Agora quem começar na atividade vai ter uma nova ideia do que é a apicultura. É um grande salto, o Brasil inteiro deveria copiar esse modelo”, complementa.

No Mato Grosso do Sul a multiplicação deste conhecimento já está em andamento. Em novembro de 2012, Adriano Adames e Gustavo Bijos iniciaram um curso de apicultura gratuito com duração de um ano para 30 técnicos agrícolas, para que possam repassar as novas técnicas para os demais apicultores do estado. “É uma tentativa de nivelar esse conhecimento e mostrar resultado. Mostrar que a apicultura pode ser a principal atividade econômica de qualquer produtor”, relata Adames. Os módulos do curso acontecem no apiário da UCDB (Universidade Católica Dom Bosco, localizada na própria capital sul-mato-grossense), escolhido estrategicamente. “Nós pegamos o apiário do zero, cheio de problemas, com cera velha, enxame sem padrão… Aquilo que você encontra no dia a dia mesmo. Em 45 dias aplicando as técnicas conseguimos tirar 40 kg de mel em um período de queda de florada!”, anima-se Bijos. “Nunca vi uma coisa dessas em 15 anos de atividade”, destacou o veterinário.

Mesmo antes do início do curso, o agricultor familiar Julio César Salina, de Guia Lopes da Laguna/MS, já havia começado a utilizar parte das técnicas de Adames. Em sua propriedade, somando todas as suas 50 colmeias, ele costumava tirar 400 kg de mel. Com a orientação de Adames, o produtor buscou crédito pelo Pronaf (Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar) do Banco do Brasil e conseguiu investimento inicial para reformar 25 colmeias e adequá-las ao manejo sugerido. Desta forma, trabalhando com metade dos enxames que no ano anterior, ele finalizou 2012 com 1000 kg de mel colhidos. Para este ano, com a expectativa de dobrar esta produção, ele pretende se tornar fornecedor para a merenda escolar, que compra o mel a preço de mercado. Cada quilo do produto sai por R$ 15.

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Sobre Andriolli Costa

Jornalista sul-mato-grossense em terras gaúchas. Atua principalmente nas áreas de jornalismo científico, cultural, rural e com estudos de Jornalismo.

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