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Economia e Agro, Perfis e Especiais

África, a nova fronteira agrícola

Grupo brasileiro investe em tecnologia e sustentabilidade no agronegócio em terras africanas

Andriolli Costa/Rural Centro
Publicado em 12/04/2013

Foto: Levy Fonseca Neto

A terceira safra está sendo colhida agora e com grandes expectativas de lucro, mas quando o paranaense Gilson Pinesso chegou ao Sudão, em 2010, tinha uma complexa missão pela frente. Desta vez, não era apenas mais uma expansão comercial, como a que o grupo que leva seu sobrenome já havia feito no Centro-Oeste e no Nordeste brasileiro. Em uma parceria envolvendo tanto a iniciativa privada quanto o governo sudanês, o Grupo Pinesso se comprometia a levar sustentabilidade, desenvolvimento econômico e tecnologia ao agronegócio do país. Começava um novo desbravamento do continente africano, que cada vez mais vem ganhando espaço como a nova fronteira agrícola para o agronegócio mundial.

“São algo em torno de 300 milhões de hectares de terras cultiváveis, com um clima bom e solo fértil. A África é um novo horizonte e vários países estão percebendo isso”, afirma Pinesso. Atentos à carência no abastecimento de alimentos que o mundo deve enfrentar nas próximas décadas, países como China e Rússia têm investido no financiamento ao agronegócio africano. A proposta é incentivar a qualidade da produção intensiva e aproveitar melhor cada hectare disponível. É neste sentido que entra o agronegócio brasileiro, referência internacional em tecnologia de produção, e que no Sudão é representado pela criação da Brazilian Sudanese Agribusiness Company pelo próprio Grupo Pinesso.

Três anos depois o empreendimento já é considerado um sucesso. Os 600 hectares cultivados durante o projeto piloto se tornaram quase 25 mil espalhados entre Sudão e Moçambique. Há planos de chegar a 100 mil até 2014 e de iniciar projetos na Etiópia e na República Democrática do Congo. As culturas também se tornaram mais variadas e incluem algodão, milho, feijão-caupi e cultivos experimentais de soja (ainda buscando uma variedade adequada ao clima sudanês).

Gilson Pinesso

Gilson Pinesso

Os resultados se refletem em números positivos para a empresa. “O nosso faturamento na África em 2011 foi de U$ 40 milhões, o que compreende 20% do total faturado pelo grupo”, calcula Pinesso. Essa é apenas metade do que rende a colheita local, pois o restante é dividido com a sudanesa Agadi, empresa que articulou a parceria.

A produção de algodão é exportada para China, mas a de alimentos é toda voltada para o mercado interno – parte da responsabilidade social envolvida no acordo público-privado. Um montante da colheita de feijão-caupi (cultivar branca) foi inclusive distribuído entre os produtores nativos no ano passado, pois o grão é uma fonte rica em proteínas e barata de produzir.

Dados do Programa Mundial de Alimentos, da ONU, mostram que um em cada quatro sudaneses está em estado de insegurança alimentar. Para Pinesso, a transferência de tecnologia que a experiência na África proporciona é uma maneira de minimizar o problema da fome no continente. “Um produtor local produz 500, 600 kg de milho por hectare. Nós conseguimos produzir até 7 toneladas no mesmo espaço”.

Brasil volta olhares para a África
Foto: Levy Fonsceca NetoNão é somente a iniciativa privada que busca incentivar a produção agrícola na África. Em 2006, respondendo a um chamamento dos governos africanos, a Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária) iniciou uma cooperação técnica no continente. “Existe uma pressão crescente vinda da cidade para que o governo tome esse tipo de providência”, reflete o coordenador geral do programa da Embrapa em Moçambique, José Bellini Leite. “A África em 2030 será um continente urbano e essa população vai demandar muito alimento, e alimento barato”.

Bellini salienta que para caracterizar a agricultura do continente é preciso pensar em qual África estamos falando. A “África Árabe” (no Norte), rica em petróleo, teria um agronegócio mais desenvolvido, assim como a África do Sul. O restante da África Subsaariana, que compreende um grupo de 47 países, esta sim teria uma agricultura de baixa tecnologia e baseada na subsistência, que apresenta características do neolítico, onde o produtor corta, queima, explora a terra e depois a abandona e repete o processo em outra área.

Segundo o Banco Mundial, a produção agrícola ocupa mais de 60% da força de trabalho nos países africanos. No entanto, essa atividade ainda é feita de maneira não sustentável. “Em Moçambique, para você ter uma ideia, menos de 3% dos produtores usam adubo. Apenas 5% usam semente melhorada e a tração animal é rara. Somente 29% dos agricultores geram excedente comercializável”, informa Bellini. O trabalho desenvolvido pela Embrapa, segundo o coordenador, é proporcionar informação, tecnologia e organização para que o produtor tenha condições de sair dessa situação de insegurança. “O projeto não vai ficar aqui para sempre, então é preciso fundar as bases para deixar um legado que possa ser apropriado e incorporado por eles”.

Desafios e Perspectivas
Foto: Levy Fonseca NetoA pouca mão de obra especializada e uma cultura acostumada à produção com baixa tecnologia não são os únicos problemas a serem enfrentados por quem deseja investir no agronegócio africano. Coordenador geral da Brazilian Sudanese Agribusiness Company, Levy Fonseca Neto relata: “A maior dificuldade que nós encontramos na África é a mesma encontrada no mundo inteiro, que é ter acesso aos recursos no momento certo”.

Culturas como o algodão, por exemplo, não admitem o atraso nem mesmo de um dia para a aplicação de insumos, e boa parte desses produtos devem ser adquiridos no mercado externo. Outro problema, diretamente vinculado ao fornecimento, é a falta de estrutura na África Subsaariana. A estação de chuvas e a estação de seca são muito bem definidas, o que oferece aos produtores uma janela de apenas 30 dias para o plantio. “Nesse período devemos ter armazenados na fazenda todo o fertilizante, todo herbicida e todo inseticida que precisarmos, pois o acesso fica absolutamente comprometido”.

Um dos fatores que colabora para o isolamento da fazenda são os vertissolos da região, compostos por 80% de argila, diferente dos solos arenosos brasileiros, e que dificultam o trajeto dos caminhões. Fonseca Neto também esclarece outra questão em relação à fertilidade da terra no Sudão. “Existe um mito de que a terra entre o Nilo Azul e o Branco seria naturalmente fértil. Na verdade, ela tem boas características físicas, mas é quimicamente pobre. Precisamos fazer adubação com potássio, corrigir o enxofre e tomar uma série de providências antes de plantar”.

Ainda assim o investimento em terras africanas continua sendo vantajoso. Mesmo com a correção da terra, a quantidade de adubo necessária ainda é quatro vezes menor que a utilizada no Centro-Oeste brasileiro. O controle de pragas também é uma preocupação minimizada. No caso do algodão, no Brasil são necessárias até 18 aplicações de defensivos, enquanto no Sudão são apenas quatro ou cinco. A localização geográfica também é um ponto positivo, pois há muito mais facilidade em escoar a produção da África para o mercado asiático do que o Brasil, tornando o continente competitivo no mercado mundial.

Gilson Pinesso empolga-se com as possibilidades e vislumbra para o futuro uma integração direta entre os continentes. “Poderíamos abastecer a Ásia com algodão brasileiro no primeiro semestre e africano no segundo. Terminaríamos o plantio no Brasil e partiríamos para fazer lá. Então voltaríamos para a safrinha aqui e retornaríamos à África para colher…”, especula. “As terras estão praticamente abertas e num cenário futuro estaremos certamente produzindo no Brasil e na África ao mesmo tempo”

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Sobre Andriolli Costa

Jornalista sul-mato-grossense em terras gaúchas. Atua principalmente nas áreas de jornalismo científico, cultural, rural e com estudos de Jornalismo.

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