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Economia e Agro, Matérias

Brasil perde 10 milhões de quilos de carne por ano por conta de lesões

Andriolli Costa / Rural Centro
Publicada em 07/05/2013
Foto: Andriolli Costa

Professor Mateus Paranhos palestrou durante o Circuito Feicorte em Palmas

A cada dois animais abatidos no Brasil, ao menos um apresenta hematomas graves. E cada um desses hematomas, quando é retirado na graxaria dos frigoríficos, implica em perda de meio quilo de carne. A informação é do professor da USP e UNESP, Mateus Paranhos, que expõe os números causados pelos maus tratos. “Levando em conta expectativas otimistas, o Brasil perde cerca de 10 milhões de quilos de carne por ano só com os hematomas”. Mais do que isso, 40% desses machucados não ocorrem durante o transporte ou abate, mas ainda dentro da fazenda.

Paranhos apresentou estes dados durante a palestra “Bem estar animal e ética na produção de bovinos” no Circuito Feicorte NFT 2013, que ocorre nestes dias 6 e 7 de maio em Palmas, no Tocantins. A proposta trazida por ele é simples: “não faça com os outros aquilo que não quer que façam com você”. Em sua fala, o pesquisador levantou questões concernentes não apenas ao manejo agressivo, mas também a até que ponto o produtor está disposto a ir para atingir bons resultados de produção.

“Vejam o Belgian Blue, por exemplo. Essa raça, do ponto de vista da produção é excelente. Ganha peso muito rápido, é um animal muito forte”, esclarece. “No entanto, ele fica tão pesado que o reprodutor não é capaz de cumprir suas funções de touro. O peso é tanto que as articulações não aguentam na hora da monta”. A reprodução da raça é sempre feita por inseminação artificial, e até na hora do parto as fêmeas precisam de intervenção – cesariana. “Isso é o que nós queremos? Será que é isso?”.

belgian-blue

Bem Estar Animal
Especializado no tratamento adequado e no bem estar do gado, Paranhos faz questão de diferenciar a preocupação com a proteção do animal das posições extremistas e ativistas – geralmente levantadas na defesa do vegetarianismo. “O importante é entender que o animal não é uma máquina”, defende ele. “A zootecnia desde o século XIX instituiu essa visão, mas precisamos compreender um animal como um ser senciente, que sente medo sim, que fica nervoso sim. Mas que também sente prazer, que também fica feliz”.

Mas como o humor do animal pode influenciar? O médico veterinário Renato dos Santos, da Beckhauser, explica que quando o animal passa por estresse, ele queima glicogênio, “que é o combustível que ele tem para sobreviver ao ambiente. E isso muda o Ph sanguíneo, o que faz as reações do ácido lático não ocorrerem como deveriam”. Desta forma, a carne sofre de rigor mortis precoce, o que faz com que ela estrague antes do tempo. Além disso, ambientes com Phs não neutros são ideais para a multiplicação de bactérias nocivas a saúde humana.

Ainda segundo Santos, quando se respeita as liberdades do animal, investindo num manejo adequado, há benefícios econômicos. “Um gado bem cuidado exige limpeza menor. É nessa hora que o produtor acusa o frigorífico de lhe estar “roubando” peso da carne, mas não tem jeito. O consumidor não vai comprar uma carne com hematomas”. As contusões no animal geram grandes perdas para a pecuária, e isso em todo o mundo. “Na Argentina e no Paraguai, respectivamente, são perdidos 6 e 7% do animal acabado. No Brasil a perda é de 10-15 kg por carcaça”, expõe o veterinário da Beckhauser.

Manejo Racional
A gerente de comunicação Mariana Beckhauser explica que a empresa que traz o sobrenome de sua família investe em um manejo racional, voltado para a preservação do animal e de quem precisa lidar com ele. Para isso, o empreendimento não se apoia somente nas linhas de controle ou nos troncos de contenção, mas também na troca e difusão de informação. “Não adianta investir no equipamento se o produtor, o peão ou o gerente do manejo não compreendem essa importância”.

Paranhos tem uma opinião bastante semelhante sobre o assunto. A legislação brasileira prevê pena para aquele que maltrata o animal, mas ele acrescenta: “Essas pessoas que erram não devem ser somente alvo de críticas, devem ser alvo de orientação”. Para ele, muitas vezes aquele que lida com o gado o maltrata sem muita reflexão sobre suas ações, apenas repete comportamentos tradicionais ou refletem o temor que o homem sente do gado. “A pessoa que tem medo acha que sendo violento ela se protege, mas é justamente o contrário. É assim que ela se expõe mais”.

Dentre as ações que podem incentivar o produtor a investir nos cuidados do animal, um dos destaques é a exigência de mercado. Paranhos cita o exemplo de um grupo de 120 produtores que forneciam para o Carrefour, em Mato Grosso do Sul. “A empresa tinha a política de não comprar as carcaças com hematomas graves e então eles nos contrataram para tentar resolver o problema”, relembra. “Em pouco mais de um ano, só investindo no manejo, eles conseguiram passar de 20% das carcaças com contusão para 1,3%”.

Ainda que possa trazer resultados vantajosos para o produtor rural, o palestrante não gosta de pensar somente nos benefícios econômicos como justificativa para investir no bem estar do gado. “O animal pode ganhar em peso? Pode, e isso é ótimo, mas é importante porque vai fazer bem para o animal e para quem trata dele também. Trate bem porque isso é bom”, finaliza.

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Sobre Andriolli Costa

Jornalista sul-mato-grossense em terras gaúchas. Atua principalmente nas áreas de jornalismo científico, cultural, rural e com estudos de Jornalismo.

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