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Perfis e Especiais, Povo e Cultura

Perfil: Sotera Sanches de Silva

Autor: Andriolli Costa
Livro Vozes do Artesanato
Páginas 246-251

Foto: Fábio PellegriniUm visitante desinformado poderia até não saber quem era o dono daquela casinha nos fundos de um terreno, nas imediações da Colônia Paraguaia de Campo Grande. No entanto, não teria como não perceber que ali morava alguém especial. Das colunas de madeira que sustentam o telhado da varanda brotam carrancas de bugres mais do que características. Rostos sulcados, de olhar firme e expressivo, quase como em desafio àquele que se aproxima do lugar. A madeira escura e trabalhada é o melhor cartão de visitas dos donos da casa. É lá que moram Sotera Sanches de Silva, e seu filho Mariano Antunes da Silva.

Se os frutos não caem longe da árvore, as raízes por vezes também se entremeiam. Sotera e Mariano fazem parte da família de Conceição dos Bugres, uma das mais famosas artesãs do Estado. Ela, sua nora, e ele, seu neto. Mariano, hoje, é o herdeiro dos bugres de Conceição, e replica o trabalho da avó com os mesmos formatos e materiais. Sotera foi além, e não se permitiu trabalhar à sombra de uma árvore que já havia crescido. Ganhou ela própria notoriedade com seus bugres, que esculpe nos totens enegrecidos com corante solúvel a base de água.

Com a arte que desenvolveu em 1974, Sotera ganhou notoriedade e reconhecimento – como o primeiro lugar no 5º Salão de Artes Plásticas do MS, em 1987 – e teve suas peças expostas e comercializadas em diversas partes do mundo como Turquia, Japão e Bélgica. Com o dinheiro do artesanato, chegou a comprar vários terrenos, inclusive o da casa, em que mora atualmente – e o único que lhe restou. Hoje, fazendo um balanço de tudo o que conquistou e perdeu, ela é taxativa. “Não dá mais para conseguir nada com o artesanato. Eu não espero mais nada, só continuar vivendo.”

Raízes emaranhadas
“Onde eu nasci? Sabe que eu não sei! Acho que foi em Ponta Porã, ou Pedro Juan (Caballero, no Paraguai). Bem perto dali”, relata ela, forçando a memória por mais detalhes. A fronteira está longe de ser um limite para os fronteiriços, e os territórios muitas vezes acabam se confundindo. E os irmãos? “Vixe Maria! Difícil lembrar. Já morreu quase tudo.” Eram dez no total, ela estima. Cinco homens e cinco mulheres.

Pouco parece ter ficado na lembrança de sua vida antes de chegar em Campo Grande, aos 16 anos, para trabalhar como auxiliar numa lanchonete na região da Cabeça de Boi. A pouca importância das memórias é justificável; se a vida na Capital nunca foi fácil, certamente foi menos complicada que o período na fronteira. “Minha mãe morreu quando eu tinha seis anos, e eu fui criada pelos parentes. A vida toda trabalhei de doméstica”, relembra Sotera.

Foi ainda na lanchonete que conheceu Wilson Antunes da Silva, o filho de Conceição. “Quando eu casei, minha sogra estava começando a fazer os bugres. Eu não me interessava por aquilo, não entendia. Nunca pensei que ia fazer artesanato”, assume. Ainda assim, ela não vê influência do trabalho de Conceição no seu. A vontade de modificar a madeira ela diz não ter certeza de onde veio. “Eu só estudei o 1º ano, e eu só assino o meu nome. Nasci no cafundó do Paraguai, no meio do mato, e nunca vi na minha vida um bugre de pau.” Para Sotera, sua inspiração é coisa de Deus. Coisa de outro planeta.

Mas o seu próprio contato com a madeira não veio direto com o artesanato. Wilson era motorista do Incra e, apesar de não ser artesão como a mãe, também fazia suas incursões pelo mundo do martelo e do formão – só que de maneira mais prática. “Meu marido fazia poltrona, mesa, porta e baú. Tudo rústico”, explica Sotera, que costumava ajudá-lo na produção das peças. Ela mesma começou a fazer e vender pilão de madeira, para ajudar no orçamento da casa.

Os trabalhos, nessa época, eram quase sempre utilitários. Vez ou outra, no entanto, ela juntava raízes de aroeira no mato e envernizava, e percebeu que tinha gente comprando. Expondo na Casa do Artesão desde 1973, foi só um ano depois – quando seus produtos já não estavam vendendo tão bem assim – que surgiu a inspiração para fazer os totens.

“Eu não fiz uma primeira escultura; fiz logo três de uma vez. Era só pescoço e orelha, pareciam um monte de velho. Uma coisa horrível!”, ri, em meio às lembranças. No entanto, não demorou uma semana para a Casa do Artesão retornar a ligação, informando que tudo já havia sido vendido – e pedindo mais!

Iguais aquelas primeiras peças, Sotera vendeu todas. Com o tempo, as carrancas foram se aperfeiçoando e o estilo foi modificando, mas ela se arrepende de não ter guardado ao menos uma. Anos depois, chegou a fazer uma nova peça parecida com aquela, que guarda junto do ateliê, que divide com o filho Mariano (ou Maninho, como ela o chama).

– E quanto custa?

“Não… Esse não está a venda”, informa ela um pouco sem graça. Em meio às dificuldades do dia a dia para sobreviver com o trabalho de artesão, esse é um dos poucos luxos que a artesã se permite. Ainda assim, ela evita protecionismos em relação a sua arte. “É o meu trabalho, mas eu não adoro nada disso. Para mim, por mais bonito que seja, é só um pedaço de pau.”

Madeira de construção

Foto: Fábio PellegriniHoje, tudo é material para Sotera e não há forma da madeira que ela não trabalhe. “Eu faço de galhada. Vários, um em cima do outro. É só cair um galho duma árvore boa que eu viro tudo em bugrinho.” Ipê, faveiro, aroeira ou peroba roxa são os principais materiais utilizados pela artesã na feitura de suas peças – tudo comprado em lojas de madeira de construção.

Mesmo que se quisesse, é impossível separar Sotera de Mariano. Mãe e filho dividem muito mais que a casa, mas também o trabalho. É ele quem serra as toras em pedaços menores, e entrega para a mãe entalhar. O contrário também é válido, e quando as encomendas de Mariano são muitas, é Sotera quem o ajuda na hora de encerar e lixar.

Quanto ao acabamento, os dois trabalham de maneira bastante semelhante. Com a madeira nas mãos, eles desenham as formas que pretendem liberar na peça com a maceta e o formão. Com cuidado crescente, vão tirando lascas e mais lascas até o rosto tomar forma no material. Quando preparadas as peças, Sotera finaliza tudo com xadrez preto e cera de chão. Já Mariano usa tinta preta e cera de abelha. As peças são então reservadas durante um dia inteiro para secar. “Depois de encerado eu lixo tudo para tirar o brilho, e depois encero de novo para fazer durar”, detalha Sotera. Para abreviar o tempo, a essa fase de finalização só passa quando têm várias peças prontas para serem enceradas ao mesmo tempo.

Das peças que mais lhe encheram de orgulho, ela aponta uma foto guardada num dos álbuns da família. É uma árvore inteira, toda negra, com cerca de um metro e oitenta de altura e inteiramente trabalhada em carrancas de bugre. “Essa aqui eu vendi para o Humberto Espíndola, para a minha filha casar. Comprei vestido de noiva, sapato e grinalda.” Mariano lembra bem dessa época, onde a mãe danou de fazer várias árvores e galhadas. “A cozinha aqui de casa era quase uma floresta”, brinca.

“Eu gosto de fazer peça grande. Árvore ou totem com três, quatro cabeças”, conta a artesã. “Mas esses vendem muito pouco. O que mais tem saída é o pequeno.” Pergunto dos preços, e ela relata que tem peças que saem por até R$ 1.000,00.

– E o mais barato?

“Não tem isso de mais barato. Quando você está apertado, vende até por R$ 10,00”, afirma categórica.

Sotera acredita que o artesanato teve sua fase áurea na década passada, principalmente 1996 e 1997, e hoje vive uma crise de identificação com o público. “Arte hoje em dia é para quem entende e conhece. Eu ouvi falar que teve um leilão de um bugre da minha sogra que foi comprado por R$ 30 mil. Deve valer né?”, questiona ela, também em dúvida. Em média, os bugres originais – e pequenos – de Conceição são vendidos por R$ 6 mil. Ela mesmo já chegou a ter cinco peças da sogra em seu ateliê, que vendeu por R$ 3 mil quando um comprador apareceu.

Espaços e Mercados
Gestor da Casa do Artesão de Campo Grande desde 2008, Oscar Veraldi é responsável por um espaço onde estão expostas peças de mais de 1.300 artesãos – inclusive Sotera e Mariano. Do contato direto com o setor, Oscar observa uma série de mudanças no mercado. “Uma delas é que a comercialização foi descentralizada. Hoje a Casa do Artesão é apenas uma das opções para vender a produção artesanal”, relata ele. Além do espaço, também há a feira permanente na Praça dos Imigrantes, os centros de economia solidária e as várias lojas particulares espalhadas pela cidade.

A oferta de produtos aliada à multiplicidade de pontos de comercialização pulverizaram também as vendas. É raro o artesão que consegue tirar toda sua renda de um único local. Mais comum é que ele receba pingado, recolhendo um pouco de cada local. Mais do que isso, como o maior número de vendas são realizadas para turistas – “cerca de 80%”, estima Oscar – a preferência é por peças de menor tamanho e, consequentemente, menor valor, reforçando a imagem do pagamento pulverizado. Peças grandes, como as árvores-totem de Sotera, são muito pesadas e de difícil transporte para quem vem de fora, e acabam esquecidas mesmo estando no centro da loja, confundidas com a mobília ou servindo de estante para as peças pequenas.

O transporte é um ponto fundamental na comercialização de peças dos artesãos de Mato Grosso do Sul. “Esse busto aqui, por exemplo, está vendido há quase um ano”, relata Oscar, apontando para uma peça de gesso feita por uma artesã. O busto de uma negra, cheio de detalhes e babados trabalhados, aguarda pacientemente até que sua compradora venha reclamá-lo em sua próxima viagem – desta vez de carro – de São Paulo até Campo Grande.

“As transportadoras não quiseram levar a peça, por que não queriam arcar com as despesas em caso de quebra”, relata o coordenador da Casa do Artesão. Negociações com os Correios também se provaram infrutíferas, e o destino da peça – assim como muitas outras – é esperar. “Já tivemos caso de um comprador que queria que a gente entregasse a peça na Alemanha. Mas é todo um processo de desembaraço aduaneiro que nós acabamos não conseguindo fazer”, relembra.

Se por um lado o mercado de vendas diretas diminuiu, Oscar Veraldi vislumbra outras oportunidades se abrindo para o artesanato. Uma delas é o oferecimento das peças como brindes corporativos para empresas que desejam presentear funcionários, ou homenagear personalidades com trabalhos que denotem regionalidade. Sotera e Mariano já foram contratados algumas vezes para preparar as peças para uma emissora de televisão e mais recentemente para um órgão do Poder Judiciário. “Sempre que as empresas nos procuram, nós passamos o contato direto do artesão para que os termos sejam negociados com eles. O papel da Casa do Artesão fica só em auxiliar nos trâmites financeiros, como para emitir nota fiscal”, esclarece Oscar.

O mercado de brindes corporativos vem sendo bastante incentivado pela gerência de artesanato Sebrae/MS, mas que esbarra em um ponto principal: a capacidade e logística de fornecimento do artesão. “O problema é só quando as pessoas pedem em cima da hora”, relata Sotera. “Uma vez pediram no domingo pra gente aprontar até terça, umas quarenta peças. Não dá! Tem que ser com pelo menos dois meses de antecedência.” O prazo estendido não é só para o tempo hábil de secagem e produção das peças, mas por que os anos já estão pesando no trabalho da artesã. “Deu quatro e meia da tarde e eu já não estou enxergando mais nada. Aí a gente para, né?”

Sincera e um tanto desacreditada, nada disso anima Sotera. Para a artesã, os tempos são outros, e o interesse das pessoas passou. Daqui para frente, não importa o mercado ou as novidades, as coisas vão ser cada vez mais difíceis. “Vai chegar o tempo em que nada mais vai valer nada. O artesanato já deu o que tinha que dar.”

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Sobre Andriolli Costa

Jornalista sul-mato-grossense em terras gaúchas. Atua principalmente nas áreas de jornalismo científico, cultural, rural e com estudos de Jornalismo.

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