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Economia e Agro, Matérias

Brasil pode ficar sem carne na semana da independência

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Andriolli Costa / Rural Centro
Publicado em 07/06/2013

O Brasil pode ficar sem carne na mesa durante a semana da independência do País. Ao menos esta é a ameaça levantada pela campanha Semana da Dependência, lançada por produtores rurais de Mato Grosso do Sul nesta quinta-feira (06). A proposta busca adesão nacional para suspender o fornecimento de gado para o abate durante trinta dias – entre 20 de agosto e 20 de setembro – reduzindo drasticamente os estoques de carne bovina no mercado. Produtores de carne suína e avícola também estão sendo convocados.

O advogado e produtor rural Glauco Mascarenhas é o idealizador da proposta, e esclarece que o objetivo não é prejudicar o consumidor, mas chamar a atenção do governo para as demandas da classe. A insatisfação dos produtores no Estado cresceu consideravelmente após os intensos conflitos envolvendo a demarcação de terras indígenas, o que incentiva o sentimento de mobilização. “O que culminou na união dos fazendeiros foi essa celeuma criada em cima da questão indígena. Nós não temos nada contra os índios, mas queremos que o governo se posicione para acabar com essa situação de intranquilidade”.

A campanha é um movimento independente dos produtores rurais, e ainda não buscou oficialmente o apoio das entidades rurais. Para o idealizador, no entanto, a adesão já é palpável. De acordo com ele, a Semana da Dependência já conta com o apoio da ONG Recovê, do Sindicorte/MS e dos Sindicatos Rurais de Antônio João (MS), Tacuru (MS), Guaíra (PR) e Palotina (PR). A expectativa é que até 30 de julho associações de produtores de todo o país juntem-se ao movimento. “Não forçamos ninguém, afinal não temos poder de coerção. É apenas uma sugestão, mas raros são os que são se manifestam de maneira contrária”.

A questão indígena
O conflito entre produtores rurais e indígenas vem tomando proporções cada vez maiores em Mato Grosso do Sul. Em abril o produtor rural Arnaldo Ferreira, 68 anos, foi assassinado por um grupo de indígenas na cidade de Douradina. Um mês depois, em maio, o Terena Oziel Gabriel, 36 anos, foi baleado com um tiro nas costas durante o cumprimento de um mandado de reintegração de posse na fazenda Buriti, em Sidrolândia. O ato reascendeu os ânimos dos índios, que voltaram a ocupar a Buriti e tomaram também a fazenda Cambará.

O proprietário da Cambará, Vanth Vanni Filho, esclarece que em um dos estudos da Funai a terra onde está localizada sua propriedade pertenceria aos Terena. “Nós entramos com uma ação declaratória e vencemos. A terra foi julgada em segunda instância como sendo dos fazendeiros”. A decisão surpreendeu os indígenas, que não aceitaram o veredito. “O que eles estão fazendo é autodemarcação”, critica Vanni. Desde domingo 40 índios ocupam a propriedade e iniciaram a matança dos animais de elite do local, cobrando dinheiro para cada cabeça que Vanni quiser retirar em segurança. A família aguarda providências para o desenrolar dos fatos.

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Dificuldades
O presidente da Associação Brasileira de Frigoríficos (Abrafrigo), Péricles Salazar, não acredita que o movimento arregimente o apoio necessário. No entanto, mesmo que apenas Mato Grosso do Sul interrompa o fornecimento durante o período indicado, o impacto seria considerável. “Seriam mais de R$ 500 milhões perdidos por mês. E isso pensando apenas na relação produtor e frigorífico, fora o prejuízo de toda a cadeia produtiva de processamento de subprodutos de couro, de sebo e embutidos”, lembra. O rebanho sul-mato-grossense oscila frequentemente entre a 3ª e 4ª posição entre os maiores do País – na ordem de 21,5 milhões de cabeças – e abate mensalmente cerca de 330 mil animais, que farão falta no mercado. “O preço da carne iria dobrar”, estima Salazar.

Por sua vez, o vice-presidente do Movimento Rural Brasileiro, Rafael Nunes Gratão, descartou a possibilidade de apoiar a Semana. “Devido aos contratos e compromissos firmados com as empresas e a agenda da cadeia internacional da carne, a paralização do fornecimento é inviável”, declarou. Gratão questiona também o impacto que uma ação como essa pode ter aos olhos do consumidor, visto que a falta de carne pesaria diretamente no bolso.

Glauco Mascarenhas defende que a Semana é uma mobilização pacífica, sustentável, lícita, consensual e poderosa. A proposta não é obrigar os produtores a romper contratos ou exigir comportamentos, mas promover a união da classe frente ao governo para a discussão dos problemas da categoria. “São diversos itens negligenciados: demarcação de terras, agilidade nos serviços de transporte, tecnificação do setor produtivo, alta carga tributária…”. Com essa bandeira, o produtor espera arraigar a simpatia não apenas do morador do campo. “A resolução dessas questões vai refletir positivamente para o consumidor final, na forma de um produto mais barato e de melhor qualidade”, finaliza.

A Sociedade Rural Brasileira, por meio de sua assessoria, informou que só poderá se pronunciar sobre o movimento quando for informada sobre ele oficialmente. O Ministério da Agricultura também alegou desconhecimento do movimento e não se manifestou.

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Sobre Andriolli Costa

Jornalista sul-mato-grossense em terras gaúchas. Atua principalmente nas áreas de jornalismo científico, cultural, rural e com estudos de Jornalismo.

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