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Artigos e Opinião

A Polícia da Fraude

A Polícia da Fraude 

Ou como se livrar do sentimento de não ser tão bom quanto os outros dizem

Exam StudiesAndriolli Costa

Em vias de conclusão do mestrado, com a dissertação finalizada e depositada no prazo correto – mas não sem muito sofrimento, encontro-me novamente com tempo e tranquilidade. Não que antes eu tivesse uma rotina extremamente fechada de estudo, leitura e escrita. Até porque isso nunca aconteceu; jamais tive tamanha disciplina. No entanto, até a última linha ser redigida e devidamente revisada, tudo aquilo que fugia do âmbito da dissertação era causa de grande peso na consciência. De sair com os amigos a ligar para a namorada, de ir ao cinema a ler um livro de ficção. Você invariavelmente acaba fazendo tudo isso, mas a culpa está sempre ali.

Durante os dois anos necessários para a conclusão de minha pesquisa, precisei lidar com um sentimento bastante nocivo que muitas vezes me afligia. Com o contato com colegas, profissionais e um pouco de pesquisa sobre o assunto, percebi que aquela sensação era mais comum do que eu imaginava. Acontece que a cada nova aprovação em eventos, a cada premiação, a cada vitória, mais do que satisfeito eu me sentia oprimido. É a sensação de sentir-se um impostor; um farsante. Como se você tivesse conquistado aquela vaga por sorte, como se tivesse aprovado aquele artigo por engano. É a pressão de não ser tão bom quanto os outros dizem que você é.

Este texto pode ser acusado de autoindulgência, mas a sensação é verídica. Quando você começa a se sentir assim, a insegurança leva a comportamentos facilmente reconhecíveis. Basta o primeiro capítulo voltar cheio de marcações em vermelho que você se frustra e desqualifica todo o seu trabalho como sendo um lixo. Logo inicia um processo de autodepreciação, numa tentativa evidente (mas por vezes inconsciente) de receber elogios que lhe afaguem o ego. A torcida dos amigos transforma-se em cobrança. Você se apega às pequenas conquistas e premiações, mas as esquece tão rápido quanto surge a primeira derrota ou recusa, por menos significantes que elas sejam.

Julgar-me incapaz de concluir meus objetivos atrasou bastante a minha escrita. Frequentemente precisei recorrer aos conselhos da orientadora para me desvencilhar daquela sensação paralisante (“Se eu não acreditasse em você não tinha investido dois anos de trabalho. Pare com essa insegurança e vá escrever!”). Foi na área da literatura, no entanto, que encontrei alento. Em mais um penoso momento de procrastinação, acabei por me deparar com o discurso motivacional que um dos meus escritores favoritos, o britânico Neil Gaiman, proferiu em 2012 para os graduandos da Universidade das Artes na Filadélfia. Em meio às palavras de encorajamento e à troca de experiências, ele alertava: “Os problemas do fracasso são graves, mas os problemas do sucesso são maiores ainda, pois ninguém te alerta sobre eles”. Gaiman, um autor aclamado pelo público e pela crítica, dizia ter demorado muito para se livrar de uma sensação muito parecida com a que eu tinha.

O problema, mesmo do mais limitado tipo de sucesso, é a inabalável convicção de que você está escapando com alguma coisa e que a qualquer momento podem te descobrir. É a Síndrome do Impostor,  algo que minha esposa Amanda batizou de Polícia da Fraude.

– Neil Gaiman (2012)

Neil-Gaiman

Neil Gaiman (52) ficou famoso na década de 1980 e 1990 com a HQ Sandman. Escreveu vários romances para jovens e adultos, como Deuses Americanos, Coraline e o recém-lançado O Oceano no Fim do Caminho

A metáfora do escritor falava sobre a expectativa de que, a qualquer momento, alguém bateria a sua porta para dizer que estava tudo acabado. “Nós o pegamos”, diriam eles, e a farsa teria chegado a um trágico final. Conviver com este pensamento é uma auto-sabotagem, que inibe diversos projetos de verem a luz do sol, e diversas pessoas de se sentirem satisfeitas e orgulhosas das conquistas do dia a dia. Assim, sempre que alguém for confrontado por este tipo de sentimento, Gaiman aconselha: Apenas faça sua arte. Independente de qualquer coisa, faça sua arte – e da melhor forma possível.

O conselho pode parecer simplista, mas é eficiente. A sensação nociva e o  pensamento autodepreciativo são alimentados por nossas próprias inseguranças. Ao tomar consciência deste processo e concentrar-se em fazer seu trabalho com dedicação, o monstro começa a ser domado pouco a pouco. Não se trata de ser aquilo que os outros acham que você pode ser, ou de fazer jus a alguma expectativa alheia. Trata-se de dar o seu melhor em qualquer situação e, vencendo ou perdendo, dormir tranquilo sabendo que usou todas as armas a  sua disposição. Funcionou para mim, talvez funcione para você.

Assista aqui ao discurso de Neil Gaiman

 

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Sobre Andriolli Costa

Jornalista sul-mato-grossense em terras gaúchas. Atua principalmente nas áreas de jornalismo científico, cultural, rural e com estudos de Jornalismo.

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