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Artigos e Opinião

Nem tanto ao céu, nem tanto à terra

Nem tanto ao céu, nem tanto à terra

Por uma interpretação complexa da vida

Manifestantes durante o Outono Quente. Alienados e  engajados, desorganizados e coesos. A vida é complexa demais para ser reduzida à rótulos

Alienados e engajados, desorganizados e coesos. A vida é complexa demais para ser reduzida à rótulos

Autor: Andriolli Costa

Tem me chamado a atenção nos últimos tempos o apreço do público por personagens que escapam das antigas concepções maniqueístas. Tanto no audiovisual quanto na literatura valoriza-se muito os personagens em tons de cinza (em oposição àqueles em preto e branco). Nas histórias desse tipo, existe a dúvida, o questionamento, o erro, a incoerência, a mudança e a evolução. O herói não é mais completamente bonzinho e nem o vilão inteiramente mal. Ambos podem cometer atos terríveis ou maravilhosos, guiados por sentimentos e convicções próprias. São, pois, humanos.

No entanto, é interessante notar como o mesmo maniqueísmo criticado na ficção ganha livremente espaço no mundo real. Pessoas são rotuladas e dispostas em grupos sociais de evidente oposição. Ou se é de Esquerda ou de Direita; ou Liberal ou Democrata, e o diálogo ou a simples simpatia por alguma característica de ambos os grupos é algo extremamente mal visto. Assim, chegamos à lógica de um país onde quem for a favor do casamento gay é evidentemente de Esquerda, e quem for contra as invasões de terra pelo MST é obrigatoriamente de Direita. Pelo menos segundo o teste de perfil ideológico da Folha de São Paulo.

O biólogo Paulo Nascimento, conhecido como Pirula, gravou vídeos em seu blog com ponderações equilibradas sobre testes em animais. Nem todo mundo entendeu.

O biólogo Paulo Nascimento, o Pirula, gravou vídeos em seu canal do Youtube com ponderações equilibradas sobre testes em animais. Nem todo mundo entendeu.

A sociedade está imersa em uma lógica binária, onde ou se é uma coisa ou outra, ou verdade ou mentira, ou isto ou aquilo. Aquele que não apoia os protestos violentos, o vandalismo e o ataque a funcionários de grandes instituições, é automaticamente a favor da repressão policial, da exploração capitalista, da alienação do povo pela mídia. Quem não aprova a invasão de laboratórios particulares para a libertação de Beagles é imediatamente acusado de ser favorável à tortura e à violência contra os animais. O caminho do meio desagrada igualmente todos os envolvidos, mas permite um olhar muito menos limitante.

No filme Ponto de Mutação (1990), uma cientista, um político e um poeta questionam durante toda a película o reducionismo da visão cartesiana do mundo, que o via como uma máquina cheia de pequenos componentes. Alguns personagens defendem o pensamento sistêmico, que compreende o mundo em relação e integração. É o Todo que explica as partes, sem que a soma das partes seja capaz de explicar o todo. No final, entretanto, após ficar calado por boa parte do filme, o poeta toma a palavra. “Eu me sinto tão limitado ao ser chamado de sistema quanto ao ser chamado de máquina”, pondera ele. “A vida é muito mais do que isso”.

Capa do filme Ponto de Mutação, adaptação do livro de Fritjof Capra

Capa do filme Ponto de Mutação, adaptação do livro de Fritjof Capra

Uma visão maniqueísta do mundo favorece o surgimento de grupos antagonistas. Estes rótulos são atraentes, especialmente para a mídia – tanto a dentro quanto a fora do eixo. Ouve-se os dois lados, como se existissem apenas dois, ou como se ambos fossem diametralmente opostos. É fácil, por exemplo, rotular a figura do indígena (cachaceiro, massa de manobra), assim como a do produtor rural (coronel, opressor). Mas será que reiterar estes estereótipos realmente traz algo de bom para a discussão? A comunicação, lembra Cremilda Medina, vem da comunhão e não da rejeição.

Antes de índio, fazendeiro, gay, pastor, repórter da Globo, Black Block ou Policial Militar, estamos lidando com um ser humano. Alguém que tem familiares, amigos, sentimentos. Que tem uma vida. Caso tenha errado ou cometido algum crime, então que seja julgada e talvez condenada – mas pelo que fez, não pelo grupo ao qual pertence. Não é questão de ser imparcial, mas de não ser leviano. Uma pessoa não é seu trabalho, sua ideologia, seu credo, suas opiniões. Ela é o todo resultante de tudo isso, sem que cada parte específica seja capaz de explicar o seu ser. A vida, como já dizia o poeta, é infinita como a areia incontável. A vida é simplesmente mais.

Trecho do monólogo do poeta em Ponto de Mutação, declamando Pablo Neruda

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Sobre Andriolli Costa

Jornalista sul-mato-grossense em terras gaúchas. Atua principalmente nas áreas de jornalismo científico, cultural, rural e com estudos de Jornalismo.

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