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Halloween é o cacete? Considerações sobre o Dia do Saci

Halloween é o cacete? Considerações sobre o Dia do Saci

A forte recepção negativa do público nas redes sociais mostra que a intolerância e a imposição não são o caminho certo

Movimento nacionalsta MV Brasil protestando pela cultura nacional. Será que a agressão é o caminho?

Movimento nacionalsta MV Brasil protestando pela cultura nacional. Será que a agressão é o caminho?

Começarei este texto invertendo um pouco a estrutura de um artigo de opinião. Isto porque, neste caso, cabe deixar claro logo de início o meu lugar de fala. Escrevo, primeiramente, como um entusiasta da tradição popular, como compilador de todo tipo de narrativa folclórica e, por que não, como associado nº 930 da Sociedade dos Observadores de Saci (Sosaci).

Por outro lado, falo também como jornalista, como ex-gestor de uma revista eletrônica sobre cultura popular, e como pesquisador que tem se dedicado a compreender as diversas formas pelas quais os mitos e lendas se manifestam nas páginas dos jornais. E é neste contexto que me peguei bastante intrigado com o que observei no último 31 de outubro, com a grande disputa ideológica entre apoiadores do Halloween e do Dia do Saci. Desta vez não na seara da imprensa, mas na das redes sociais.

Saci, José Luiz Ohi

Recepção

Durante os últimos quatro ou cinco anos venho acompanhando nas redes sociais as discussões que se seguem sempre que chegamos ao dia 31, e nunca havia visto em minha timeline tantas mensagens negativas envolvendo o Dia do Saci. Mais do que isso, a natureza das críticas me chamou bastante a atenção. Havia a desqualificação e o deboche do folclore brasileiro – como sempre houve – mas o realmente importante era a manifestação do simples desejo de festejar aquilo que bem entendessem.

Imagem Estúdio Saci

Imagem divulgada pelo Instituto Saci no Facebook foi bastante criticada pelos seguidores da página

Basta uma rápida olhada nas mensagens compartilhadas para compreender. As bem-humoradas artes da Sosaci dividiam espaço com mensagens nacionalistas que berravam: “Halloween é o cacete! Viva a cultura nacional”. Outras faziam a ligação dos sacis com os black blocs clamando “Fora Halloween”. Comentários taxavam de alienados ou de antipatriotas aqueles que comemoravam uma festa estrangeira.

A antipatia foi compreensível. “Feliz dia do pseudomoralista que diz que devemos comemorar o Saci no lugar do Halloween”, diz um tweet divulgado pela Veja SP. “Que chato esse pessoal reclamando que Halloween não é uma festa brasileira. Natal também não!”, alfineta o blogueiro gaúcho Rafael Rodrigues. A defesa da cultura local virou até mote de piada no blog Não Salvo.

Pelo Facebook, o usuário Fabio Donaire relembra que o Halloween não é uma apenas uma festa americana, mas a celebração do Samahin celta, que foi apropriado e reimaginado por diversas culturas entre elas a dos Estados Unidos. Desta forma, levando em conta que os próprios mitos brasileiros são gerados de influências indígenas, negras e europeias, Donaire conclui propondo: “Saci e Halloween são fatias do mesmo bolo”.

E arremata: “Enquanto você está aí pensando, o Saci deve estar em festa!”.

Novo clipe de Detonator e as Musas do Metal brincam com a polêmica

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Intolerância

Compreendo que as mensagens mais enfáticas em defesa do Dia do Saci vem da vontade de legitimar uma ideia frente a outra, hegemônica e internalizada. Ainda assim, com tantas reações contrárias, será que é este o caminho? Não acredito que seja possível convencer o outro a mudar de ideia – ou ao menos a simpatizar com a causa – agredindo e desqualificando seus comportamentos. A postura mais natural é que o interlocutor reaja defensivamente, e foi o que aconteceu.

O Dia do Saci não é um feriado nacional. A proposta de sua criação ocorreu em 2003, com dois projetos de lei que não foram aprovados. No entanto, de lá para cá, a data já foi instituída como feriado municipal em dez municípios, principalmente no interior de São Paulo. Isso não impediu que várias outras cidades também passassem a promover suas próprias brincadeiras em homenagem ao diabrete brasileiro. Esse é o espírito.

O desejo de festejar não deve ser imposto a ninguém. Se não for algo espontâneo, vira teatro, vira encenação. A espontaneidade, afinal, é uma das principais características da cultura popular. O fato folclórico existe a partir do povo, e acompanha esta sociedade. Quando deixar de fazer sentido, vira outra coisa. Simples assim.

Aquele que quer se vestir de Fantasma ou Vampiro e pedir doces na rua tem tanto direito de fazer isso quanto quem deseja celebrar com um gorro vermelho na cabeça. O Dia do Saci não é – ou não deve ser – um contra-ataque ao Halloween. Afinal, se o desejo é trazer mais pessoas para a “equipe Saci”, não é assim que se convence ninguém.

A "Saciata", uma passeada em um pé só organizada pelo professor de filosofia Chico Nunes

A “Saciata”, uma passeada em um pé só organizada pelo professor de filosofia Chico Nunes

Caminhos possíveis

Se uma campanha ideológica contrária ao Dia das Bruxas não é a melhor alternativa, então qual seria? Penso que há duas frentes possíveis. A primeira é a que se aproveita da data para apelar ao lúdico e à tradição, com ações divertidas e espirituosas que chamam a atenção do povo para a valorização da cultura brasileira sem agredir o interlocutor.

Em Guarulhos, por exemplo, um projetor fez o saci pular de prédio em prédio, fazendo estripulias e lembrando o Dia do Saci. Na capital paulista, o professor de Filosofia da Cásper Líbero, Chico Nunes, também chamou a atenção com duas iniciativas em comemoração a data. No dia 30, junto ao jornalista esportivo Celso Unzelte, organizou uma partida de futebol de um pé só na quadra da Faculdade. No outro dia, distribuiu gorros e promoveu uma “Saciata”, que atravessava a Avenida Paulista.

A segunda frente possível, por sua vez, busca a valorização e ressignificação da cultura popular brasileira durante todo o ano, não apenas em uma única data (ou duas, contando o Dia do Folclore, em 22 de agosto). É esta que lembra as pessoas de como o folclore faz parte de suas vidas, mesmo que muitas vezes não se apercebam, e busca dar novo sentido à manifestações que por vezes são tidas como coisa de criança.

Destaco, nesta área, o trabalho feito pelos artistas das mais diversas mídias que se apropriam da cultura popular para comunicar com todo tipo de público. O violeiro Paulo Freire, autor de Nuá – As Música dos Mitos Brasileiros, canta a beleza da cultura interiorana e cativa pelo encantamento. Animações como a série Juro que Vi, de Humberto Avelar, resgatam o lendário pela estética do maravilhoso que lembra os antigos filmes da Disney. Por sua vez, escritores como Simone Saueressig, de Contos do Sul, ou o quadrinista Giorgio Galli, de Salomão Ventura – Caçador de Lendas apostam no terror e na violência para dar novo sentido ao bestiário brasileiro. Crianças, jovens, adultos… Não há quem não seja capturado pela força das narrativas.

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Por que o Saci?

barca-e-saciO Saci é um estandarte, e um símbolo. Cansado de topar com estátuas de duendes nibelungos na cidade de São Paulo, Monteiro Lobato o elegeu como ícone de sua campanha pela valorização do folclore brasileiro. Afinal, o sincretismo do diabrete era tipicamente brasileiro: veio da mistura do Jacy Yateré dos Guarani, que mais tarde foi apropriado pelos negros e, por fim, ganha um gorro mágico típico dos duendes europeus.

Lobato convocou os leitores do jornal O Estado de São Paulo a compartilharem suas histórias sobre o negrinho. O grande engajamento do público deu origem ao livro Saci Pererê: Resultado de um Inquérito, de 1918, assinado por Lobato sob o pseudônimo de “Um demonólogo amador”. Houve, em 2006, uma tentativa de reabertura do inquérito, ainda que sem tanta participação popular.

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E por que um Dia do Saci?

Caçadores de Assombração em Mariana/MG. Foco de diversas reportagens que chamavam atenção para a cultura do município

Não posso falar sobre o que pensavam os idealizadores com a criação da data, mas sim da pertinência de sua existência a partir do meu lugar de fala já apresentado no começo deste texto:

A imprensa normalmente aborda mitos e lendas folclóricas pelo seu caráter pitoresco, pela espetacularização ou pelo absurdo. Muitas vezes estas matérias estão em suplementos infantis ou de variedades, por vezes escritas em tom irônico ou de deboche. A Veja SP, por exemplo, em uma matéria informando sobre as comemorações do Dia do Saci, pontua: “Claro, a festividade não é para ser levada tão a sério”. Claro…

Outros exemplos acompanhados, no entanto, foram bem pouco taxativos e apresentaram várias soluções para uma cobertura criativa. O Hora, de Santa Catarina, aproveitou para lembrar que em Florianópolis todo dia é das bruxas – uma referência à popularidade do mito na região. Criaram ainda uma série, onde durante um mês diversos mitos eram ilustrados no jornal. A Globo Rural relembrou Joanópolis, a cidade conhecida como a Capital do Lobisomem. Mesmo a Folha de São Paulo trouxe a matéria Homem relata encontro com saci no interior de São Paulo, com uma pequena entrevista com o presidente da Associação Nacional dos Criadores de Saci (ANCSaci)..

São pautas diferenciadas, que voltam os olhos da população para os diversos aspectos da riquíssima cultura popular brasileira. Este sim, o verdadeiro grande motivo para a criação de um Dia do Saci.

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Sobre Andriolli Costa

Jornalista sul-mato-grossense em terras gaúchas. Atua principalmente nas áreas de jornalismo científico, cultural, rural e com estudos de Jornalismo.

Discussão

Um comentário sobre “Halloween é o cacete? Considerações sobre o Dia do Saci

  1. Todo nacionalismo é quase que uma imbecilidade. Que é ser “nacionalista” no Brasil? A língua portuguesa veio da europa, a religião cristã veio junto, as religiões afros, como já está explicito, vieram da África, etc., O rock veio de fora… Enfim, os nacionalismos são anacrônicos… O que existe é o ser humano no planeta – que é uno. Apesar das diferenças de nacionalidade, raça, cultura, religião, etc…, somos mais iguais do que pensamos…

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    Publicado por Eber Benjamim | novembro 4, 2013, 4:18 pm

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