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Meio Ambiente

Roessler e o pioneirismo ambiental no Rio Grande do Sul

A historiadora Elenita Malta Pereira resgata o histórico de lutas de Henrique Luiz Roessler, fundador de uma das primeiras entidades de proteção à natureza do País e precursor de discussões que ainda hoje permanecem atuais

Por: Andriolli Costa
Publicado em 02/12/2013
Revista IHU On-Line 433

CapaRoeslerA defesa do meio ambiente, a preocupação com a preservação da natureza e a busca por minimizar os impactos causados pelo homem ao equilíbrio natural da vida podem parecer preocupações contemporâneas, ligadas ao ambientalismo ou às recentes discussões de sustentabilidade. No entanto, de acordo com a historiadora Elenita Malta Pereira, a proteção da natureza já era um debate levantado desde o início do século XX por uma série de organizações, políticos e intelectuais. Neste contexto, ganha destaque a figura de Henrique Luiz Roessler, cuja morte completa 50 anos em 2013. Natural do Rio Grande do Sul, filho de imigrantes alemães, ele é tido por muitos como o pioneiro da ecologia e precursor do ambientalismo no Brasil. Elenita prefere outro termo: “Protetor da natureza”.

A historiadora é autora de uma biografia lançada em novembro deste ano que resgata o histórico de lutas de Roessler, sua relação com o meio ambiente — especialmente na cidade de São Leopoldo, onde cresceu —, os conflitos em que se envolveu e a sua visão de mundo. “Roessler construiu um discurso crítico à forma como o progresso era conduzido: as pessoas erravam ao priorizar os bens materiais, a técnica, o ganho imediato, em vez de procurarem uma ligação maior com a natureza.”, afima ela em entrevista concedida por e-mail à IHU On-Line. O protetor da natureza denunciava caça e pesca ilegais, militava pelos direitos dos animais, pela educação e proteção ambiental e uma série de outros temas bastante contemporâneos. Engajado, frequentemente escrevia para políticos e presidentes cobrando atuação mais presente nas questões ambientais. “Muitos desses temas permanecem atuais, porque, infelizmente, passados 50 anos da morte de Roessler, os problemas não foram resolvidos.”

Elenita Malta Pereira é graduada, mestre e doutoranda em História pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul – UFRGS. Sua dissertação intitula-se Um protetor da natureza: trajetória e memória de Henrique Luiz Roessler, que deu origem ao livro Roessler: O homem que amava a natureza (São Leopoldo: Oikos, 2013). A publicação teve lançamentos oficiais na Feira do Livro de Porto Alegre e em São Leopoldo.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – O que fez com que você desenvolvesse este trabalho? O que lhe chamou a atenção na vida de Roessler?
Elenita Malta Pereira – Ainda na graduação em História, comecei a pesquisar na linha da História Ambiental, área que tenta compreender as relações homem-natureza ao longo do tempo. Meu primeiro tema foi a Associação Gaúcha de Proteção ao Ambiente Natural (AGAPAN) e, ao entrevistar um dos principais fundadores, Augusto Carneiro , entrei em contato com a figura de Roessler, que é patrono da entidade. Também em 2005, o professor de História da UFRGS Benito Schmidt publicou um artigo no jornal Zero Hora sobre dez personalidades gaúchas que ainda não tinham biografia. A partir desse estímulo e interesse iniciais, lancei-me à tarefa em minha dissertação de Mestrado.

Num primeiro momento, ao ler os textos de Roessler, escritos nos anos 1950, fiquei impressionada com a atualidade de suas ideias. No entanto, acompanhando sua trajetória, compreendi que os problemas ambientais já existiam naquela época — hoje só se agravaram. Também me interessei pela memória construída sobre Roessler, de “visionário”, “pioneiro da ecologia”, “pioneiro do ambientalismo”, etc. Como demonstrei na pesquisa, o próprio Roessler já construía uma memória positiva de si mesmo para a posteridade, o que a historiadora Ângela de Castro Gomes chama de “construção de si”. Pude entender que ele não era um visionário, mas sim um observador de olhar aguçado sobre seu próprio tempo.

IHU On-Line – Quais são as origens do ambientalismo no Brasil? De que forma essas iniciativas influenciaram Roessler?
Elenita Malta Pereira – Na verdade, o que se pode chamar de “ambientalismo” só surge no Brasil nos anos 1970, com a AGAPAN, que influenciou uma série de outras entidades no Rio Grande do Sul e no resto do país. No início do século XX, havia indivíduos (como Euclides da Cunha , Hermann von Ihering , Alberto Löfgren e Alberto Torres , entre outros) e algumas entidades civis preocupadas com a devastação das florestas, proteção aos animais, criação de parques naturais, que poderíamos definir como defensores de um preservacionismo e/ou conservacionismo .

Entidades como o Centro Excursionista Brasileiro , fundado em 1919; a Sociedade dos Amigos das Árvores, fundada em 1931 pelo botânico Alberto Sampaio; e a Sociedade Amigos de Alberto Torres , de 1932, foram importantes centros de incentivo à proteção do ambiente natural. Nos anos 1930, houve um intenso debate no centro do país sobre “proteção à natureza”, que resultou na publicação de uma série de leis ambientais durante o governo Vargas e na realização de um importante evento: a Primeira Conferência Brasileira de Proteção à Natureza, em 1934, no Rio de Janeiro. Antes disso, nos séculos XVIII e XIX, havia discursos críticos à devastação (como o de José Bonifácio , por exemplo), que podem ser considerados uma espécie de “crítica ambiental”, no entanto, de viés utilitarista: era preciso preservar a natureza para o bem da economia nacional.

A publicação das leis ambientais a partir de 1934 (Códigos Florestal, das Águas, Caça e Pesca, lei de proteção aos animais, etc) foi muito importante, pois motivou o oferecimento de Roessler para fazer parte da polícia florestal que estava sendo organizada com o objetivo de dar cumprimento ao Primeiro Código Florestal Brasileiro. Ele assumiu o cargo de Delegado Florestal em 1939 e de Fiscal de Caça e Pesca em 1944, ambos vinculados ao Ministério da Agricultura (na época, responsável pela proteção à natureza).

Também as entidades que já existiam no Rio de Janeiro e São Paulo inspiraram Roessler na fundação da primeira associação de proteção ambiental em sentido mais amplo do RS, em 1955. Para não cair em anacronismo, considerei mais adequado chamar seu trabalho de “proteção à natureza”, conceito que o próprio Roessler utilizou no nome da entidade e que define bem as atitudes que tomou em prol da natureza ao longo da vida. O projeto defendido por Roessler estava no ponto de transição entre um discurso preservacionista/conservacionista e um mais político, ambientalista.

IHU On-Line – Em uma época em que o progressismo e a industrialização do País eram a norma, o que levou Roessler a ter as atitudes e iniciativas pelas quais ficou conhecido?
Elenita Malta Pereira – Em primeiro lugar, a observação do desmatamento das matas ciliares do rio dos Sinos, no cargo de Capataz do Ministério da Marinha (que ele assumiu em 1937), aliado à publicação das leis referidas acima, motivaram que ele acumulasse os cargos de fiscalização das florestas, da caça e da pesca. Além disso, Roessler era uma pessoa sensível e conhecia muito bem o rio, pois morou na Rua da Margem durante a infância e seu pai era condutor de barcos que faziam a viagem entre Porto Alegre e São Leopoldo, pelo rio dos Sinos. Um fator importante é que Roessler gostava de estar bem informado, assinava e lia jornais e revistas de circulação nacional importantes de seu contexto, como Caça e Pesca , Chácaras e Quintais e Fauna . Sempre que possível, também lia periódicos europeus, que citava em suas crônicas no jornal Correio do Povo, já nos anos 1950-1960. Essas publicações tratavam de temas como orientações a caçadores e pescadores, devastação e necessidade de proteção florestal, agricultura, cuidados com os pássaros, etc. Pesquisando textos da época e discursos de deputados na Assembleia Legislativa – RS, pude verificar que já havia um debate incipiente sobre proteção à natureza, sobre os problemas ambientais daquela época. Dessa forma, com a bagagem cultural formada nos anos como fiscal, observando a realidade do Estado, aliado às leituras realizadas, Roessler construiu um discurso crítico à forma como o progresso era conduzido: as pessoas erravam ao priorizar os bens materiais, a técnica, o ganho imediato, em vez de procurarem uma ligação maior com a natureza.

IHU On-Line – Qual era a relação de Roessler com o governo nacional, de Vargas a JK? Ele era apoiado ou perseguido?
Elenita Malta Pereira – Um aspecto interessante que a pesquisa revelou foi o bom relacionamento de Roessler com os políticos, especialmente do Partido Trabalhista Brasileiro (o antigo PTB). Ele era admirador fiel de Getúlio Vargas e sentiu sua morte como “um duro golpe”. Em momentos difíceis, solicitou a ajuda de “correligionários” para defendê-lo, como no processo judicial movido por caçadores de passarinhos de ascendência italiana, em 1954. No entanto, Roessler mantinha relações com políticos de outros partidos também. Por exemplo, admirava Jânio Quadros , pois publicara leis protecionistas como governador de São Paulo (1955-1959). Quando foi empossado Presidente, em 1961, Roessler chegou a enviar-lhe carta solicitando que tomasse medidas para proibir e punir o despejo de detritos in natura nos rios — naquela época, os maiores responsáveis pela poluição eram as indústrias, especialmente os curtumes, no caso do rio dos Sinos. Jânio Quadros atendeu seu pedido, publicando uma portaria que foi transformada em decreto (50.877/61), estabelecendo punição mais rigorosa dos estabelecimentos que lançassem resíduos nos rios. Se Roessler teve inimigos, não foram políticos; seus maiores oponentes, como o livro demonstra, foram os caçadores de passarinhos — os chamados passarinheiros —, com quem ele teve vários embates físicos e verbais.

IHU On-Line – Roessler fundou em 1955 a União Protetora da Natureza – UPN, em São Leopoldo, considerada uma das primeiras entidades de proteção à natureza do País. Como se deu esse processo?
Elenita Malta Pereira – Um novo estatuto dos funcionários públicos foi publicado em 1952, que não admitia funções públicas não remuneradas. Por isso, Roessler e outros fiscais florestais foram destituídos de seus cargos, no final de 1954. O afastamento da fiscalização motivou Roessler a fundar a UPN, a primeira entidade civil de defesa ambiental do Rio Grande do Sul, seguindo o modelo de associações europeias e brasileiras. Os principais objetivos da entidade eram a educação de crianças e jovens para a proteção da natureza e o incentivo ao aprimoramento das leis ambientais. A UPN era mantida pelas mensalidades de sócios e doações de empresas e pessoas que admiravam o trabalho de Roessler. Como fundador e único presidente da entidade, ele empreendeu uma campanha educativa através da distribuição de panfletos, proferimento de palestras em escolas e clubes como Lions e Rotarys , e publicou cerca de 300 crônicas no jornal Correio do Povo entre 1957 e 1963, ano de seu falecimento.

IHU On-Line – Quais eram as temáticas tratadas na produção escrita de Roessler?
Elenita Malta Pereira – Em seus textos, Roessler denunciava a degradação do ambiente e oferecia soluções, relatava as atividades da UPN e conclamava os leitores à ação. Os temas mais frequentes eram a poluição das águas, a questão florestal (desmatamento, queimadas, reflorestamento), a caça — especialmente de passarinhos —, os direitos dos animais (seu uso como cobaias e a vivissecção), a pesca predatória, a educação para a proteção ambiental, o questionamento da noção de progresso, a vida nas grandes cidades e a alienação humana perante a natureza. Muitos desses temas permanecem atuais, porque, infelizmente, passados 50 anos da morte de Roessler, os problemas não foram resolvidos.

IHU On-Line – Henrique Roessler nasceu em Porto Alegre, mas morou a maior parte da vida em São Leopoldo. Seu nome é inclusive utilizado para batizar ruas, pontes e outros monumentos. Como foi a relação dele com a cidade? Você acredita que a figura de Roessler e sua história são lembradas no Rio Grande do Sul?
Elenita Malta Pereira – Ele se relacionava muito bem com autoridades (policiais, políticos, etc.), empresários, pescadores e caçadores, desde que agissem de acordo com as leis. Pelo que alguns entrevistados me relataram, Roessler não gostava de festas, agitação, era uma pessoa calma que preferia o sossego do convívio familiar. Por seu trabalho de proteção à natureza, foi homenageado pela cidade em 1953, ganhando o título de “cidadão Leopoldense” e a medalha “Honra ao Mérito” de São Leopoldo.

Pelo que pude averiguar, analisando os “lugares de memória” dedicados a Roessler, apesar de existirem várias iniciativas nesse sentido, o esquecimento não foi evitado. Por exemplo, Roessler batiza a área de Novo Hamburgo conhecida como “Parcão” — nome inscrito numa grande placa na entrada do local. Quando estive lá, apenas uma pequena folhinha A4 mencionava as regras do “Parque Henrique Luiz Roessler”. A população da cidade continua chamando o local de “Parcão”, a maioria nem sabe seu nome de fato.

IHU On-Line – Como acredita que a biografia que escreveu é capaz de colaborar para a memória do ambientalista?
Elenita Malta Pereira – Não tenho a pretensão de fixar uma memória sobre Roessler, mas se de alguma forma seu trabalho em prol da natureza tornar-se mais conhecido entre estudantes, professores, ambientalistas e público em geral por causa do meu livro, será uma satisfação para mim. Certamente, os três anos de pesquisa terão valido a pena.

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Sobre Andriolli Costa

Jornalista sul-mato-grossense em terras gaúchas. Atua principalmente nas áreas de jornalismo científico, cultural, rural e com estudos de Jornalismo.

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