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Filosofia e Sociologia

Luiz Felipe Pondé: Mística e a noite escura da alma

Para o filósofo Luiz Felipe Pondé é a consciência da condição ontológica humana que nos prepara para conhecer o divino

Autores: Andriolli Costa e Márcia Junges
Revista IHU On-Line 435
Publicado em 16-12-2013

Durante muitos anos o filósofo Luiz Felipe Pondé se considerou um ateu. Não que tivesse atingido o ateísmo como conquista da razão, mas sim com a simples naturalidade do cotidiano. No entanto, tão logo iniciou seu doutoramento em uma universidade francesa e aprofundou seus estudos em Pascal, passou a ter experiências místicas de fundo religioso. “O que aconteceu comigo e o que me levou a estudar mística foi que comecei a ter aquilo que a tradição chama de visitas de Deus”, relembra ele, em entrevista à revista Sacrilegens . “Fui estudar mística para saber o que estava acontecendo comigo.”

Já na entrevista desta edição, concedida por e-mail à IHU On-Line, o filósofo discorre sobre algumas das suas reflexões posteriores aos seus encontros iniciais com o pensamento místico – e sobre o modo como aliou o pensamento dos filósofos pessimistas e niilistas com os quais já trabalhava. A mística, em Pondé, reforça uma compreensão já presente em seus trabalhos que é a do “descentramento do eu” e do rompimento com a percepção do ser humano como centro do mundo. É o “homem insuficiente”, que, incapaz de atingir sozinho a salvação, depende fundamentalmente da intervenção divina. “A alma para de temer porque carrega o vazio em si, e este vazio se faz leveza”, pontua ele.

Luiz Felipe Pondé leciona na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo – PUC-SP e na Universidade Federal de São Paulo – Unifesp, entre outras instituições. É graduado em Medicina pela Universidade Federal da Bahia e em Filosofia Pura pela USP, mestre em História da Filosofia Contemporânea pela USP e em Filosofia Contemporânea pela Université de Paris VIII, França. Doutor em Filosofia Moderna pela USP e pós-doutor pela Universidade de Tel Aviv, Israel, escreveu O homem insuficiente (São Paulo: Edusp, 2001); Crítica e profecia. Filosofia da religião em Dostoievski (São Paulo: Editora 34, 2003); Conhecimento na desgraça. Ensaio de epistemologia pascaliana (São Paulo: Edusp, 2004); e Do pensamento no deserto: ensaios de filosofia, teologia e literatura (São Paulo: Edusp, 2009).

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Qual é a peculiaridade do conceito de amor em Kierkegaard ?

Luiz Felipe Pondé – Sua caracterização é do amor como incognoscível e conhecido só pelos frutos. Ele usa trechos do evangelho e tira conclusões técnico-filosóficas, como o fato de ser conhecido pelos frutos enquanto prova de sua incognoscibilidade. E mais: o amor é apresentado como atitude epistêmica, ontológica e ética que é impermeável ao mal nas suas diversas formas.

IHU On-Line – Um ser cujo tecido é a angústia e a “liberdade infinita” é nossa condição primordial, aponta Kierkegaard. Quais são os grandes “perigos” e as grandes bem-aventuranças que nos aguardam a partir dessa constatação?

Luiz Felipe Pondé – Podemos nos perder na falta de limites, na substância da angústia como infinitas possibilidades, na responsabilidade existencial por elas. De positivo há o fato de que somos livres como Deus, esta é a aventura. Mas ao mesmo tempo o único limite que temos é o limite negativo, a finitude.

IHU On-Line – Em que medida pode-se falar numa espiritualidade da agonia e qual é a sua relação com a mística?

Luiz Felipe Pondé – Espiritualidade da agonia é noite escura da alma, momento de consciência da condição ontológica humana que nos prepara para ver a distância para Deus, e com isso nosso aparelho cognitivo entra na correta perspectiva para conhecer Deus na via mística.

IHU On-Line – Como podemos compreender o fato de sermos seres “rasgados pela transcendência”? Em que medida o Mistério que nos atravessa é o mesmo Mistério que nos constitui?

Luiz Felipe Pondé – Sem o mistério, caímos de quatro. Não porque não seja possível uma ética sem o mistério, mas esta será apenas um contrato. Sem mistério só resta a política, e esta nos deforma quando é a única dimensão de compreensão da vida. A teologia mística fala da aspiração experimentada de que somos mais do que animais apenas.

IHU On-Line – Por que o ser humano se torna disfuncional quando se distancia do Mistério de Deus? Em que aspectos a Mística ocasiona um descentramento do ser humano como “eixo do mundo”?

Luiz Felipe Pondé – A mística não teme o niilismo porque ele é passo filosófico essencial pra a confrontação com Deus, sem a ilusão de que Deus exista pra nos servir como autoajuda. Todo historiador de ideias religiosas sabe que experiência direta produz descentramento, libertando o Eu da ilusão de que ser centro significa valor. Descentrar produz leveza d’alma.

IHU On-Line – Acolher o Mistério nos arranca do Nada? Por quê? 

Luiz Felipe Pondé – Porque vemos que nossa raiz ontológica está na vontade livre de Deus; quando queremos fundamentar nossa existência ontológica em nós mesmos ou na matéria, somos obrigados a constatar o nada. Como diz Berdyaev , toda experiência da aristocracia espiritual (mística) começa da percepção de nosso parentesco com o nada. Enquanto negamos e tememos o niilismo, não deixamos de ser espiritualmente imaturos. Não se pode começar a via mística pela assunção do valor a priori do homem, mas sim pela percepção do seu vazio.

IHU On-Line – Qual é a contribuição da filosofia religiosa pessimista para romper com “a ilusão naturalista que implica o esquecimento da presença ativa do Transcendente no homem”, conforme suas próprias palavras?

Luiz Felipe Pondé – A mesma importância que qualquer introdução ascética tem na via mística. Assim como exercícios físicos preparam o corpo, o pessimismo prepara a alma e liberta a espiritualidade do que em epistemologia se chama “begging the question”. Ou seja, a alma para de temer porque carrega o vazio em si, e este vazio se faz leveza.

IHU On-Line – Em que medida a Mística se contrapõe ao advento e às manifestações pós-modernas do “pequeno eu” e seu ruído incessante? Nesse sentido, como podemos compreender o aniquilamento e o desprendimento como superação e obsessão do “eu por si mesmo”?

Luiz Felipe Pondé – O pequeno Eu é “brega” em sua demanda de autoestima. A mística precisa do silêncio do ego e suas demandas por “direitos ontológicos”. Estes termos são os nomes medievais para superação dos ruídos egoicos que pedem direitos ontológicos para o homem. Estes direitos são ridículos.

IHU On-Line – Gostaria de acrescentar algum aspecto não questionado?

Luiz Felipe Pondé – O amor em Kierkegaard pressupõe tudo isso acima. Por isso ele pressupõe o niilismo pra depois sorrir dele e de sua presunção em ser a resposta última para a alma consciente do nada que nos constitui.

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Sobre Andriolli Costa

Jornalista sul-mato-grossense em terras gaúchas. Atua principalmente nas áreas de jornalismo científico, cultural, rural e com estudos de Jornalismo.

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