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Artigos e Opinião

“A gente não morre, fica encantado”

10277346_10201796903878536_3231607410095372842_nFoi com meus avós que aprendi a gostar de ouvir e contar histórias. Ela, com a paciência que só uma vó pode ter, embalava meu sono contando e recontando os mesmos causos ao longo da noite. Ele, com sua sabedoria tipicamente sertaneja, me convidava desde cedo a dar valor não só ao que a escola ensinava, mas também a abrir os ouvidos para o que o povo tinha a dizer.

É engraçado falar de ouvido, já que meu avô não escuta palavra desde que me entendo por gente. Sempre recusou o aparelho. Dizia que para algumas coisas no mundo, era melhor ser surdo mesmo. O vô não ouvia, mas adorava falar. Encarrapichado em sua chacrinha, sozinho com a esposa e os bichos, ele se regozijava quando recebia visitas. No fim de ano então, quando o velho galpão ganhava clima de festa, aí mesmo que ele gastava a língua. Falava por horas a fio, dos mais variados assuntos. Às vezes mais de uma vez.

Das poucas palavras que captava da horas de prosa, e das cenas que pescava da televisão, construía um mundo costurado por sua própria lógica. Tinha teorias para tudo: do fim do mundo em 2012 à renuncia do Papa; do futuro do jornalismo ao casamento gay. Por vezes, como numa brincadeira de telefone sem fio, o acontecimento original ganhava ares ainda mais fabulosos em sua cabeça. Mesmo assim, e isso era o que mais me divertia, de uma forma ou de outra aquilo tudo acabava fazendo sentido. Algum sentido.

Uma vez o vô contou uma história, daquelas que pega todo mundo de surpresa e que ninguém sabe de onde veio. Dizia de um homem que fez um acordo com Deus: só seria levado para o céu ou para o inferno por alguém que fosse justo. Ao longo dos anos várias entidades visitaram o homem, mas nenhuma era justa o bastante para que o acordo fosse cumprido. Nem os anjos, nem os santos, nem o próprio Jesus. Até que um dia, a Morte em pessoa veio buscá-lo. “Com você eu vou”, disse o homem. “Para você não existe homem ou mulher, rico ou pobre, preto ou branco. Diante da Morte, somos todos iguais”. E subiu, enfim, para o reino dos céus.

Meu avô está com câncer.

10174797_10201796657192369_3131435643898499472_nA descoberta veio no mesmo dia da cirurgia de emergência, pois a metástase já havia devorado todo seu intestino. Ao longo de seus imprecisos 80 e tantos anos, o Vô já disse vários “nãos” para a morte (ou seriam “sims” para a vida?). Oliveira Serafim da Costa, cearense orgulhoso e devoto do padrinho Padre Cícero, misturava veneno para a lavoura com as mãos nuas e sem camisa. Sobreviveu à uma queda quando criança que lhe partiu a cabeça; à fome e à seca do nordeste e à insuportável dor que é a saudade da família e da terra natal. Após tantos “nãos”, torço de todo o coração para que o câncer seja mais um dos injustos que veio tentar te levar. E que ainda restem vários anos até que alguém digno finalmente apareça. Ainda assim, vô, penso em um final diferente para sua história.

Esses dias li uma frase que se encaixa perfeitamente neste momento. “A gente não morre, fica encantado”, recitou João Guimarães Rosa em seu discurso de posse na Academia Brasileira de Letras. Três dias depois, ele próprio encantou-se. Assim será com você, vô. Quando sua hora chegar – e que não seja agora, você viverá para sempre em nossas memórias, e nas histórias que contaremos a partir delas. O corpo se vai, mas as histórias são eternas. Eu já rezei por sua saúde do jeito tradicional, como aprendi na igreja, mas acho que esta é a oração mais poderosa que posso fazer em seu nome. Não se preocupe, querido avô. A gente não morre. A gente não morre…

(Andriolli Costa)

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Sobre Andriolli Costa

Jornalista sul-mato-grossense em terras gaúchas. Atua principalmente nas áreas de jornalismo científico, cultural, rural e com estudos de Jornalismo.

Discussão

Um comentário sobre ““A gente não morre, fica encantado”

  1. Essa sua homenagem é um presente lindo pra ele e, como o nosso relógio do tempo não está em nossas mãos, desejo que Deus seja a força e alento pra ele e pra toda a família. Um abraço.

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    Publicado por Sara Cavenaghi | maio 3, 2014, 10:09 pm

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