//
Você está lendo...
Filosofia e Sociologia

Flavia Costa: “Vivemos uma hipocondria generalizada”

foto0.517316001414425080

Por Andriolli Costa
Na IHU On-Line 457

Em nossa sociedade contemporânea, parece não haver espaço para as emoções — em especial para as emoções negativas. Ao ser humano, não resta mais a possibilidade de sentir-se triste ou cansado. O mero vislumbre dessas sensações gera a urgência da medicação, dos psicofármacos. “Vivemos uma era de hipocondria generalizada”, alerta a cientista social Flavia Costa.

O sentir-se mal com o corpo torna-se, assim, apenas sensação provisória. Se antes era possível aplicar correções mínimas, com produtos cosméticos ou ortopédicos, hoje as novas tecnologias, em relação ao corpo, orientam uma nova modelagem de si mesmo, um novo cuidado de si. “A biotecnologia aparece facilitando condições deste ser corrigido, transformado, otimizado.”

Estas ideias foram apresentadas pela professora Flavia Costa na conferência Corporeidade e biotecnologias, no dia 22-10-2014, como parte da programação do XIV Simpósio Internacional IHU – Revoluções Tecnocientíficas, Culturas, Indivíduos e Sociedades. A modelagem da vida, do conhecimento e dos processos produtivos na tecnociência contemporânea.

Tributária da obra de diversos pensadores, Costa retoma o italiano Giorgio Agamben. Ele reflete que a base da democracia moderna não é o homem livre, com “suas prerrogativas e os seus estatutos. (…) O corpus é o novo sujeito da política”. Esta relação biopolítica ganha suas dimensões a partir do estabelecimento de uma visão tecnificada do corpo e do eu. Pensa-se a eficiência, a performance, a financeirização.

“Facebook e Apple se oferecem para pagar congelamento de óvulos de suas funcionárias. O motivo é para que elas não precisem engravidar tão cedo — deixando de render o quanto poderiam no trabalho, sem perder qualidade de material genético”, menciona a professora. O congelamento custa cerca de 10 mil dólares, com a manutenção custando 500 dólares por ano. De acordo com a empresa, até 20 mil dólares podem ser gastos por funcionário.

“A tecnologia opera de maneira direta sobre a vida e a morte. Mais do que isso, operam inclusive sobre protovidas”, destaca Costa, referindo-se a moléculas, genes, células-tronco ou mesmo ao material reprodutor. “Isso apenas se fortalece à medida que os novos processos capitalistas estimulam a marcha de processos de subjetivação.”

319080__vector-minimalism-sadness-bachelor_p-1200x500_c

Corpo e corporalidade

A professora chama a atenção para duas distinções fundamentais. Enquanto “corporeidade” diz respeito àquilo que o corpo é, “corporalidade” é a reflexão que fazemos sobre o corpo. Em um mundo onde princesas têm seu sangue enviado para bancos de células de cordão umbilical , ou em que homens e mulheres investem fortunas para transformar-se em bonecos de plástico, quais os limites para a atuação humana? Qual é a reflexão sobre o corpo a que nos propomos?

Filósofo e doutor em Teologia, o professor José Roque Junges, do programa de pós-graduação em Saúde Coletiva da Unisinos, fez uma intervenção. Retoma, deste modo, a obra Adeus ao corpo (Campinas: Papirus, 2009), de David Le Breton. Para o antropólogo francês, o discurso científico contemporâneo vislumbra o corpo como mero suporte, algo que pode e deve ser aprimorado, o qual a tecnociência parte em socorro. Seria a tese de Breton confirmada pela visão de corpo de Rose? Para a professora, a resposta é imprecisa. “Breton, como antropólogo, pensa o corpo como experiência”, pontua ela. Já o indivíduo somático de Rose — cuja conduta de vida atribui um lugar central à existência corporal, tem uma concepção muito mais biológica.

Quem é Flavia Costa?

Flavia Costa é doutora em Ciências Sociais pela Universidad de Buenos Aires (UBA). Professora e pesquisadora da Faculdade de Ciências Sociais da UBA e do Instituto de Altos Estudios Sociales (IDAES) da Universidad Nacional de General San Martín (UNSAM). Costa é editora da revista eletrônica Papeles de trabajo e é uma das tradutoras para o espanhol dos livros de Giorgio Agamben.

Anúncios

Sobre Andriolli Costa

Jornalista sul-mato-grossense em terras gaúchas. Atua principalmente nas áreas de jornalismo científico, cultural, rural e com estudos de Jornalismo.

Discussão

Nenhum comentário ainda.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Twitter

%d blogueiros gostam disto: