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Mídia e Jornalismo

Ronaldo Henn: O acontecimento jornalístico a partir da semiótica de Peirce

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O professor e pesquisador Ronaldo Henn analisa as reconfigurações do jornalismo contemporâneo em perspectiva com a obra de Charles S. Peirce

Por Andriolli Costa e Ricardo Machado
Dossiê Peirce na IHU On-Line 457

A semiótica de Peirce, explica o professor e pesquisador Ronaldo Henn, não se apresenta como um modelo formal de análise de produtos de linguagem, mas como uma ferramenta epistemológica mais ampla. “É dessa perspectiva que incorporo a sua teoria nos modos como investigo os processos do jornalismo. E é na linguagem que está a materialidade do jornalismo, sobretudo na sua principal articulação: a de colocar-se como uma mediação qualificada entre os acontecimentos públicos e a sociedade”, explica Ronaldo, em entrevista por e-mail à IHU On-Line.

“O que reivindico para o jornalismo são modos de abordar e narrar os acontecimentos que, em algum nível, consigam restituir algo dessa radical singularidade que se perde nas convenções da linguagem jornalística e nos enquadramentos hegemônicos”, ressalta. Segundo o pesquisador, parte dos sentidos construídos sobre o mundo tem como eixo nuclear o jornalismo. “Fazer com que essas possibilidades de sentido ampliem-se talvez seja uma necessidade contemporânea imposta ao jornalismo no momento em que outras formas de mediação consolidam-se”, sustenta.

Ao se debruçar sobre a prática jornalística, o entrevistado argumenta que o resultado final de muitos produtos jornalísticos, cujas interpretações parecem estar postas antes mesmo da apuração, emerge de uma “pré-semiotização” decorrente da engrenagem do atual sistema. “Penso que o futuro do jornalismo está na flexibilização desses processos. Coisas como o jornalismo em base de dados, construções de novas narrativas, construções coletivas e transnarrativas, incorporação de conflitos e outras dinâmicas são processos contemporâneos que podem revitalizar o jornalismo, fazendo com que supere esses modelos preestabelecidos”, projeta.

Ronaldo Henn é graduado em Comunicação Social – Habilitação em Jornalismo pela Unisinos, com mestrado e doutorado em Comunicação e Semiótica pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo – PUC-SP. Professor e pesquisador do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Unisinos, coordena o projeto de pesquisa A produção do acontecimento nas redes sociais: a emergência do ciberacontecimento. Henn lançou recentemente o livro El ciberacontecimiento: producción y semiosis (Barcelona: Editorial UOC, 2014). É autor, também, de Os fluxos da notícia (São Leopoldo: Unisinos, 2002) e Pauta e notícia, uma abordagem semiótica (Canoas: Ulbra, 1996).

Confira a entrevista.

IHU On-Line – De que forma a teoria semiótica de Peirce pode colaborar para compreender o Jornalismo?
Ronaldo Henn – A semiótica de Peirce faz parte de um projeto filosófico mais ambicioso que tem, no seu horizonte, o estabelecimento dos fundamentos sobre os quais seriam erguidos os próprios processos de conhecimento, com destaque para o conhecimento científico. Por conta disso, entendo sua semiótica não como um modelo formal, que se aplica para a análise de produtos de linguagem, mas como ferramenta epistemológica que ajuda na compreensão das lógicas implicadas na constituição das linguagens. É dessa perspectiva que incorporo a sua teoria nos modos como investigo os processos do jornalismo. E é na linguagem que está a materialidade do jornalismo, sobretudo na sua principal articulação: a de colocar-se como uma mediação qualificada entre os acontecimentos públicos e a sociedade. Isso instaura alguns problemas de largada, dentre os quais, os limites e potencialidades desse lugar de mediação, que semioses esses processos tendem a disparar e com que desdobramentos, e o que os elementos constitutivos dessa mediação revelam sobre os próprios processos constitutivos da realidade social. Por conta disso, acredito que a teoria de Peirce colabora para compreender o jornalismo porque oferece um mapa conceitual prodigioso para o entendimento dos interstícios de suas configurações pensadas em termos de acontecimento, fontes, ação dos jornalistas, enquadramentos, ação dos públicos e desdobramentos sociais.

IHU On-Line – Ao compreender a primeiridade como o acontecimento em estado puro, de que forma o jornalismo atuaria na produção de significado de determinada singularidade?
Ronaldo Henn – Peirce estabeleceu categorias fenomenológicas que correspondem às formas mais gerais de como os fenômenos acessam e processam-se na consciência. Tudo o que estaria no plano das qualidades em si mesmas, sem estarem, a rigor, encarnadas em algo, ele chamou de primeiridade. O que já é algo, na sua dimensão ainda singular, no aqui e agora, trata-se da secundidade. E quando esse algo já é traduzido em linguagem, que a forma como nós, inevitavelmente, acessamos o mundo, estamos no plano da terceiridade. Essas três categorias (que podemos, também, designar como qualidade, singularidade e generalidade) estão presentes em toda a construção filosófica de Peirce: trata-se de um pensamento essencialmente triádico. Mas elas não agem isoladamente, até porque nós, seres já formatados na consciência, estamos irremediavelmente atrelados à terceiridade e só temos lampejos ultraefêmeros do que seria um primeiro ou um segundo. Peirce dizia que suas categorias funcionam como timbres: há acentos de predominância, como, por exemplo, uma obra de arte estaria próxima da primeira categoria, enquanto um argumento, próximo da terceira. Isso não quer dizer que uma obra estética não seja concebida de um projeto codificado, o que implica numa dimensão terceira, ou que um argumento não tenha frescor estético, o que o colocaria numa dimensão primeira. É nesse sentido, inspirado em Deleuze , que imagino um acontecimento em estado puro: ou seja, na sua radical singularidade: mas isso é uma idealidade, porque todo o acontecimento, quando nos afeta, já é terceiro: precisa ser designado, instaura sentidos. O que reivindico para o jornalismo são modos de abordar e narrar os acontecimentos que, em algum nível, consigam restituir algo dessa radical singularidade que se perde nas convenções da linguagem jornalística e nos enquadramentos hegemônicos. Parte dos sentidos construídos sobre o mundo tem como núcleo o jornalismo: não é pouca coisa. Fazer com que essas possibilidades de sentido ampliem-se talvez seja uma necessidade contemporânea imposta ao jornalismo no momento em que outras formas de mediação consolidam-se.

5840726724_0e3f39652d_bIHU On-Line – Por que não é correto compreender o acontecimento simplesmente como linguagem, sendo que somente conseguimos percebê-lo a partir dela?
Ronaldo Henn – Pensar o acontecimento apenas como linguagem é negar-lhe seu vigor mais essencial: o de disparar semioses a partir da sua instauração, semioses que são inesgotáveis exatamente porque existem camadas no acontecimento que não são plenamente traduzidas, como se fugissem da linguagem, escapassem, tal como o coelho na narrativa de Alice. Entretanto, a experiência do acontecimento se dá fundamentalmente na linguagem. É através dela que ele materializa-se publicamente e os sentidos são produzidos. E é nesse jogo que, no meu entendimento, as narrativas sobre os acontecimentos ganham especial sabor e deveriam ser pensadas em potências mais complexas, como faz meu colega e amigo Fernando Resende, professor da Universidade Federal Fluminense. É desse lugar que vejo saídas para o jornalismo, no efetivo exercício da diversidade das vozes sociais e da incorporação efetiva do outro. É dessa maneira que, aquilo que escapa à linguagem no acontecimento, pode ganhar textura, vivacidade: densidades narrativas, num jogo entre tensões e fruições estéticas.

IHU On-Line – É possível pensar em graus de aproximação com o acontecimento puro? Buscar o máximo de aproximação é atributo definitivo do jornalismo?
Ronaldo Henn – Sim, é possível, e isso seria viabilizado exatamente nesse jogo narrativo de que falei antes. Existem dois aspectos importantes aqui. O primeiro está naquilo que compõe a alma das prerrogativas jornalísticas, que tem a ver com precisão e credibilidade. Se pensarmos o acontecimento como um objeto semiótico e as narrativas produzidas pelo jornalismo como semioses decorrentes desse objeto transformado em signos, teleologicamente existe um motor que faz essas semioses andarem no sentido do desvendamento pleno desse objeto: convenções, enquadramentos, interesses de diversas ordens, enfim, há uma série de entraves que inviabilizam essas semioses plenas (que, na verdade, nunca sairão da categoria da possibilidade). Mas é exatamente porque o objeto não está no signo, mas é representado por ele, que partes não narradas ainda podem ser acessadas ao longo do tempo: e isso vale tanto para o jornalismo como para a história. O outro aspecto a destacar é que se pode narrar o acontecimento de diferentes formas, e isso traz a narrativa jornalística para um plano estético, com potência de revelar camadas não dizíveis dos acontecimentos: aproximar-se da sua primeiridade, de um plano sensível, do seu estado puro ou bruto. Narrativas como as de Eliane Brum , por exemplo, são exercícios com esse porte.

IHU On-Line – Quais os riscos que estão implicados no distanciamento do acontecimento a partir da instauração de uma semiose infinita (ou absoluta)?
Ronaldo Henn – A rigor, a semiose infinita não geraria uma distância do acontecimento, na medida em que ela significaria sua plena explicação. O que pode produzir distanciamento do acontecimento é sua rápida codificação num regime de sentidos já dado, sem qualquer possibilidade de outras vozes serem incorporadas ou tensionadas. É esse o verdadeiro limite do jornalismo: as temporalidades reduzem a ampliação dos dados, checagem, diversificação de fontes. Encerra prematuramente a semiose.

IHU On-Line – Em que a chamada “morte do acontecimento” afeta o próprio contrato comunicativo estabelecido com o jornalismo contemporâneo?
Ronaldo Henn – Essa ideia de “morte do acontecimento” vem de um autor português chamado José Augusto Bragança de Miranda que, inspirado em Deleuze, fala que o acontecimento humano seria uma resposta ao acontecimento absoluto, associado à morte. Quando Peirce fala em “interpretante final”, que seria o ponto definitivo da semiose, penso que isso seria uma espécie de morte: como se todos os sentidos fossem dados numa entropia máxima. O que acontece no plano cotidiano é algo às avessas disso: são sentidos que se esvaem muito rapidamente, mas vinculados a um sentido geral já posto e indiscutível, seja ele o da “ordem mundial”, do mercado globalizado, dos fundamentalismos de qualquer matriz. E é isso que Baudrillard chama de “greve dos acontecimentos”: como se não fosse mais possível singularidades e estivéssemos condenados a uma terceiridade definitiva. Mas, exatamente porque os acontecimentos pululam em outras camadas, que essa cena não se cumpre por inteiro e está sempre à beira de ser sacudida pela emergência das singularidades.

IHU On-Line – De que forma o habitus estabelecido pela profissão de jornalista leva a um olhar já semiotizado do acontecimento— que o enquadra em modelos já preestabelecidos de cobertura jornalística?
Ronaldo Henn – Isso é da cultura profissional e também das exigências do mercado. Trata-se de uma profissão totalmente vinculada ao tempo e à velocidade dos processos. Por questão de uma economia informativa, no sentido da Teoria da Informação, é necessário uma decifração rápida do acontecimento e gerar planos muito eficazes de cobertura no menor tempo possível. Essa pré-semiotização é funcional na engrenagem do sistema, mas também altamente restritiva. Penso que o futuro do jornalismo está na flexibilização desses processos. Coisas como o jornalismo em base de dados, construções de novas narrativas, construções coletivas e transnarrativas, incorporação de conflitos e outras dinâmicas são processos contemporâneos que podem revitalizar o jornalismo, fazendo com que supere esses modelos preestabelecidos.

IHU On-Line – De quais modos a leitura dos estudos de Peirce se atualiza no contexto dos ciberacontecimentos?
Ronaldo Henn – Nos processos industriais do jornalismo, as semioses disparadas pelas narrativas do acontecimento pautavam-se por uma certa linearidade: transformação do objeto semiótico (acontecimento) em signo (narrativa jornalística) com produção de interpretantes (repercussão, afetação, agendamento). Essa lógica está na explosão. Os processos de comunicação on-line e as redes sociais digitais, que é o ambiente de eclosão disso que venho chamando de ciberacontecimento, tornam mais complexas essas semioses. O monopólio do processo de representação (geração de signos: notícias, reportagens) transtorna-se com a proliferação instantânea das semioses em redes digitais.

Isso culmina com as formas atuais de produção do acontecimento, que se instala em outra relação de mediação entre signos e objetos desconcertando as formas tradicionais de jornalismo. E os processos em rede podem render metodologias para que possamos visualizar essas semioses: elas materializam-se e são capturáveis.

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Sobre Andriolli Costa

Jornalista sul-mato-grossense em terras gaúchas. Atua principalmente nas áreas de jornalismo científico, cultural, rural e com estudos de Jornalismo.

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