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Filosofia e Sociologia

Lewis Gordon: Para romper com a teodiceia filosófica

O filósofo e cientista político Lewis Gordon propõe repensar a relação com os clássicos canônicos e centristas, não em um movimento de recusa, mas de compreendê-los a partir das incoerências de seu tempo

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Por: Andriolli Costa / Tradução: Gabriel Ferreira
Publicado na Revista IHU 459

Nos estudos teológicos, um dos grandes dilemas diz respeito à teodiceia: como pode um Deus, que é bom, permitir a maldade no mundo? Diante destes questionamentos, surgem ressalvas que imputam à humanidade toda a culpa das injustiças, e a divindade — inalcançável — permanece além de nossa compreensão. “Deus escreve certo por linhas tortas”, alegam alguns. “Deus nos dotou de livre arbítrio, e foi nossa escolha praticar o mal”, justificam outros. Em ambos os casos, provoca o filósofo Lewis Gordon, “o Deus é deixado intacto”.

Jamaicano por nascimento, Gordon desenvolve um pensamento descolonial da própria filosofia e alerta que por vezes nós incorremos numa teodiceia do texto. “O texto, e por extensão seu autor, é como um Deus. Assim, racismo, sexismo, homofobia, classismo e toda a degradação de humanidade que nós lemos nos textos torna-se simplesmente uma falha em como nós lemos os textos”.

Em entrevista concedida por e-mail à IHU On-Line, Gordon aponta estas falácias, propondo que os autores sejam vistos não à parte de suas incoerências e preconceitos, mas a partir destas. Este, no entanto, não é um chamado para não lê-los. Ao contrário. “Denunciar as teodiceias de textos significa rejeitar essa abordagem. É um chamado a realmente ler os textos.” O filósofo reflete ainda sobre a decadência do modelo eurocêntrico de pensamento, a importância de descolonizar o pensamento e sobre os embates entre Frantz Fanon e Hannah Arendt.

Lewis Gordon é graduado em Ciência Política e Filosofia pelo Lehman College, da City University of New York. Seu doutorado foi na Universidade de Yale, em Filosofia. Escreveu em diversos veículos e periódicos, e foi o primeiro presidente da Caribbean Philosophical Association. Gordon participa de diversos grupos de pesquisa, é professor de Filosofia, Estudos Africanos, Estudos Judaicos e Vida Judaica Contemporânea da Universidade de Connecticut, nos Estados Unidos. Catedrático visitante em Eurofilosofia no departamento de Filosofia da Universidade de Toulouse, França. O pesquisador é autor, entre outros livros, de What Fanon Said: A Philosophical Introduction to His Life and Thought (Fordham University Press, 2014), La teoría política en la encrucijada descolonial (Buenos Aires: Del Signo, 2009) e An Introduction to Africana Philosophy (Cambridge University Press, 2008).

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Você afirma que, frequentemente, ao refletir sobre o pensamento de filósofos europeus, incorremos na “teodiceia do texto”. O que isso indica sobre o modo como nos colocamos como leitores frente aos pensadores coloniais?
Lewis Gordon – Teodiceia envolve a racionalização do bem e a existência de um Deus onisciente em face do mal, da injustiça e de outras infelicidades. A racionalização clássica é culpar a humanidade por esses problemas da seguinte maneira: o Deus está para além da nossa compreensão; assim, é a nossa estupidez que levanta essas questões. Ou ainda: o Deus nos dotou de livre-arbítrio e nós estragamos tudo. Em ambas, o Deus é deixado intacto.

Ora, quando eu digo “teodiceia do texto”, eu quero dizer a imposição desta racionalização em como nós lemos. O texto, e por extensão seu autor, é como um Deus. Assim, racismo, sexismo, homofobia, classismo e toda a degradação de humanidade que nós lemos nos textos torna-se simplesmente uma falha em como nós lemos os textos. Isso é uma falácia. É a deificação do texto que requer uma teodiceia para torná-lo proverbialmente kosher .

Contudo, é um erro concluir que apontar para o fato de que esses são elementos que existem nos textos escritos por seres humanos seja um chamado a não lê-los. Eu defendo que isso é falso. Denunciar as teodiceias de textos significa rejeitar essa abordagem. É um chamado a realmente ler os textos. Isso significa trazer ao primeiro plano a humanidade das pessoas que os escreveram. Significa admitir que eles não são textos perfeitos, mas textos com aquelas imperfeições humanas.

Isso é importante porque parte do colonialismo e do racismo foi tratar os autores brancos e europeus como deuses. Significou legitimar nosso trabalho através do recurso ao deles. Uma relação descolonial requer interpelar os autores europeus como seres humanos e suas ideias simplesmente como ideias sujeitas ao criticismo e à evidência como devemos fazê-lo com qualquer outro conjunto de autores e textos.

IHU On-Line – Em que medida ignorar aspectos históricos como racismo e misoginia, considerando seus contextos de emergência, pode ser considerado como uma fuga ao anacronismo? Que impactos tais negações geram no presente?
Lewis Gordon – Uma falácia de boa parte do pensamento euromoderno foi a crença de que ele poderia existir fora das relações com outros pensamentos. O que é evidenciado pela história é a relacionalidade do pensamento. Isso significa que estabelecer novas relações irá criar outras. Dessa maneira, a descolonização do pensamento também tem a ver com a produção de novas formas de pensamento, novas relações, sobre cujas consequências não há garantias de que elas sejam ideais.

IHU On-Line – É possível traçar um panorama geral da filosofia cultural africana? Em que ela se aproxima e se distancia da filosofia eurocêntrica?
Lewis Gordon – Nem todas as formas de centrismo são eurocentrismos. É eurocêntrico presumir que “centrismo” é um fenômeno europeu. Houve muitos centros ao redor do mundo e ao longo do tempo. Isso não faz deles coisas boas. Eles são simplesmente diferentes. O que é crucial sobre as questões que surgem do pensamento diaspórico africano é sua relação íntima com a emergência do pensamento europeu. Em outras palavras, ele está em uma relação dialética com o aumento das contradições do pensamento eurocêntrico. Com efeito, isso significa que um pensamento genuinamente afrocêntrico é uma contradição em termos. Como relacional, ele sempre aponta para seus limites através da admissão daquilo que o transcende.

Afromodernidade, por exemplo, levanta o paradoxo de um passado ausente e de um futuro questionável. É um passado ausente porque não havia razão para que os povos que se tornaram “africanos” e “negros” se considerassem a si mesmos como tais antes das circunstâncias históricas que produziram essa interpretação sobre eles. Há um futuro questionável porque esses são povos e identidades endêmicas ao mundo euromoderno, um mundo que os rejeita. Isso porque, como relacionais, as novas relações que passíveis de serem estabelecidas poderiam vir a criar novos tipos de seres, novos tipos de identidades ou, talvez, um novo modo de interpretar as identidades atuais.

Decadência
Com respeito a ir além da filosofia eurocêntrica, então, a questão requer o questionamento sobre a decadência da filosofia eurocêntrica. Eu tenho argumentado que sua decadência está em seu solipsismo: ela ingenuamente pensa seu universal e, assim, “o mundo”. Particularizá-lo, revelando através de uma consciência duplamente potencializada que é simplesmente uma universalidade artificialmente endossada, significa engajar-se em práticas universalizantes. Essas não são idênticas a “práticas universais”. Elas são o entendimento daquilo que significa aprender de e ir além das contradições. Portanto, defendo uma suspensão teleológica da filosofia, uma filosofia do ser humano para além da filosofia — sim, um paradoxo —, sempre buscando ir mais além por meio da ação de um entendimento intencional de uma realidade engajadora. A realidade, simplesmente, é maior do que tudo o que nós podemos pensar — incluindo a filosofia.

IHU On-Line – Como não reduzir a pluralidade do pensamento de filósofos de origem afrodescendente a um “pensamento negro”?
Lewis Gordon – O erro é fazer disso um critério precedente à ação. Nós devemos simplesmente ponderar suas ideias, ponderar as nossas e aceitar que estamos sujeitos a críticas — às evidências — na medida em que construímos um caminho. A questão, de fato, é como Jane Anna Gordon tem sustentado: a realidade humana é sempre uma mistura viva, uma pluralidade, um mundo no qual há sempre a negação do assim chamado “puro”, como até mesmo em níveis puramente metafísicos o tempo está sempre transcendendo a si mesmo no paradoxo dos presentes futuros. Mais concretamente, este é o motivo pelo qual eu defendo a importância de se compreender política como ação. Política emerge de um mundo de contingência e a pluralidade é uma função daquele aspecto da realidade. O sonho parmenidiano do ser singular requer, simplesmente, a colonização da realidade.

IHU On-Line – Em que consiste pensar a “colonização da razão”?
Lewis Gordon – A colonização da razão é a aspiração à racionalidade instrumental. A ideia é que a razão nem sempre “se comporta”. Como aquilo que também avalia a racionalidade, a questão se levanta: A razão é racional? Razão, sustento eu, como aquilo que avalia até mesmo ela própria, deve ir para além de si mesma e, portanto, não é maximamente consistente. O esforço para alcançar uma racionalidade suprema engendra a colonização da razão. Mas, como sabemos, “ela” continua a ser desafiadora.

IHU On-Line – De que modo é possível descolonizar o pensamento em uma área como a Filosofia, conhecida por seus cânones ocidentais?
Lewis Gordon – Paget Henry e eu (entre outros) temos defendido que podemos fazê-lo por não situar nossa legitimidade em tais termos. Ao invés de procurar reconhecimento de duplicação dos cânones ocidentais, é mais importante trabalhar, estudar, procurar, ver, pensar, jogar, viver, amar, sentir; em outras palavras, comprometer-se com o mundo para além de tais reduções. Essa é uma das razões pelas quais eu escrevi Disciplinary Decadence: Living Thought in Trying Times (Colorado: Paradigm Publishers, 2007). A tragédia é que esqueçamos nossa liberdade, nossa responsabilidade por nosso pensamento, por aquilo que pensamos. Em outras palavras, nós precisamos fazer o trabalho que precisa ser feito. Não há substituição. Não é suficiente dizer que há ideia e pensadores “do” e “no” Sul Global. Precisamos nos comprometer valorosamente uns com os outros e valorizar sendo valorizados uns pelos outros. Nós precisamos, em outras palavras, descolonizar as condições normativas do pensamento ele mesmo.

IHU On-Line – Na relação entre “Colônia” e “colonizado”, Frantz Fanon afirma que a violência é o remédio do colonizado contra a acusação de inferioridade. Você acredita que esta postura combativa ainda pode ser aplicada aos tempos atuais?
Lewis Gordon – Grande parte das pessoas não entende o que Fanon quer dizer por “violência”. Na verdade, ele detesta a violência. Seu ponto era este: dominadores e colonizadores consideram sua situação como sendo justa. Isso significa que eles consideram injusto qualquer esforço para mudá-la. A força justa não é considerada violência. Assim, qualquer esforço para a descolonização é considerada violenta. Provar que alguém não é violento significa, então, não engajar-se na descolonização.

O ponto de Fanon, portanto, é que a descolonização é inerentemente violenta. Ele não estava se referindo simplesmente a armas e danos físicos. Ele estava se referindo ao conceito mesmo de mudança social em nome dos danados da Terra. Gastar tempo “provando” que alguém não é violento é então uma perda de tempo. A tarefa é construir uma sociedade não baseada na contínua violência da colonização. Para o colonizado, o paraíso do colonizador é um paraíso de contínua injustiça e violência. Se nós rejeitamos a ideia de que a vida do colonizador é inerentemente mais valiosa do que a do colonizado, então devemos fazer algo acerca disso. O ponto de Fanon era sóbrio e adulto: não há tal coisa como uma descolonização sem perdedores. Mas nós devemos lembrar que Fanon não considerava a descolonização como o fim da história. Para ele, ela era simplesmente um começo do real trabalho a ser feito: inaugurar um mundo de melhores relações humanas.

IHU On-Line – De que ordem eram as críticas de Hannah Arendt a Frantz Fanon em On Violence?
Lewis Gordon – O racismo de Arendt apareceu em sua crítica em Sobre a violência. Ela realmente gastou mais tempo em Sartre do que em Fanon. Por quê? Com efeito, ela considerava o homem branco o lugar do pensamento genuíno. Se ela tivesse lido Fanon, ela teria descoberto que eles tinham muito mais coisas em comum. Por exemplo, ambos acreditavam na política, na distinção entre a vontade em geral e a vontade geral (ao modo de Rousseau), na distinção entre força e violência legítima, na questão da dignidade humana e muito mais. Mas seu eurocentrismo prevaleceu. E ainda pior, seu racismo foi tal que ela podia ver-se preocupada mais com os Boers tornando-se semelhantes às populações nativas do sul da África do que com o fato de que eles estavam colonizando e massacrando aquelas pessoas.

Simplesmente faltou a Arendt a capacidade de ver os portadores da civilização europeia como violentos, mesmo na esteira do Holocausto. Fanon, entretanto, estava entre aqueles soldados que estavam libertando os ingratos prisioneiros dos campos de concentração (ingratos porque eles teriam preferido, em alguns casos, ter sido libertados por brancos), entre aqueles que estavam trabalhando em solidariedade com os árabes que odiavam os negros, trabalhando através de lutas até mesmo contra abusos domésticos (um assunto que discuto em meu livro What Fanon Said): ele olhou para o cerne do problema da violência como uma transformação peculiarmente social de força e brutalidade.

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Sobre Andriolli Costa

Jornalista sul-mato-grossense em terras gaúchas. Atua principalmente nas áreas de jornalismo científico, cultural, rural e com estudos de Jornalismo.

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