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Filosofia e Sociologia

A Companhia de Jesus no Império Russo – Da Rússia Branca à Restauração

Marek Inglot - Foto Andriolli Costa

Por Andriolli Costa
Publicado na edição 459 da IHU On-Line

Às margens congelantes do rio Duína, sob o solo gelado e pálido da Bielorrúsia, a Companhia de Jesus encontrou o terreno adequado para florescer novamente. Após o breve papal de 1773, que suprimiu as atividades da Ordem de Santo Inácio, foi na região conhecida como Rússia Branca e sob o abrigo da czarina Catarina II que os pouco mais de 200 jesuítas restantes — de um total de 23 mil — puderam manter viva sua missão.

O trajeto histórico da Companhia pelo Império Russo foi relatado pelo historiador e jesuíta Marek Inglot, da Pontificia Università Gregoriana, especializado no período. Inglot ministrou a conferência A Companhia de Jesus no Império Russo (1772-1820) na quinta-feira, 13, encerrando o XVI Simpósio Internacional IHU: Companhia de Jesus. Da Supressão à Restauração, evento que se estendeu durante a semana na Unisinos.

O historiador frisa a importância que foi para a sobrevivência da Companhia o acolhimento por um soberano luterano (Frederico II, da Prússia) e de uma soberana ortodoxa (Catarina II, da Rússia). Detalhe que foi inclusive apontado pelo próprio Papa Francisco, durante seu discurso de 27-09-2014 para os jesuítas. A supressão da Companhia, decretada por Clemente XIV, necessitava que fosse aprovada pelos governantes locais, e que o bispado comunicasse a decisão papal à comunidade eclesiástica. A Prússia postergou a decisão de 1773 até 1782. Já a Rússia ignorou a decisão durante todos os 41 anos de sua vigência.

“Graças à intervenção da imperatriz russa, os 201 jesuítas em seu domínio não tiveram a mesma sorte dos outros 23 mil, suprimidos. Lá a decisão nunca foi canonicamente promulgada”, relata. “Catarina teve a tarefa histórica de assegurar a continuidade da ordem, que foi informalmente reconhecida por Pio VI em 1801 e restaurada universalmente em 1814 por Pio VII.”

Inglot relembra que ainda ignorando o breve, a decisão de manter a Companhia em atividade no império Russo gerou polêmica. Os jesuítas, diferentes das demais ordens, possuem um chamado 4º voto. Além dos votos de castidade, pobreza e obediência (ao seu Geral), assinam ainda o voto de obediência ao Papa. Como, desta forma, ignorar uma decisão formal? Mesmo com a permissão, o historiador afirma que muitos abandonaram a ordem — especialmente os jovens.

Do impasse entre o breve papal e a demanda da czarina, superiores da época, como Stanislaus Czerniewicz, optaram por não fazer nada que mudasse o “Status quo ante”. Assim, os jesuítas na Rússia “não abriram novos noviciados, nem retomaram os estudos em teologia e filosofia. Não concederam novos votos aos padres, nem elegeram novos reitores”. Durante três anos os números na Companhia só decaíram, restando 145 jesuítas. No entanto, o incentivo de Catarina II e o apoio dos jesuítas a Czerniewicz fez com que, sete anos após a supressão, os jesuítas abrissem um noviciado. “Os sacerdotes terminaram os estudos de teologia antes da supressão. Foram ordenados 20 jovens jesuítas. O passo definitivo foi o congregação geral em Pollocks, em que Stanislaus Czerniewicz foi eleito o primeiro Geral da Companhia depois da Supressão.”

O retorno da atividade jesuítica
Mas qual era o interesse da soberana em permitir — e incentivar — a atividade jesuítica? Vários eram os motivos. Em seu reinado como imperatriz, a czarina abriu a Rússia para o Ocidente e deu forte impulso à educação. Em 1772, um ano antes da Supressão, Áustria, Prússia e Rússia dividiram entre si o reino da Polônia, e a região da Rússia Branca ficou sob os cuidados de Catarina II. Com pouco mais de 1 milhão de habitantes, a região contava com 900 mil católicos. Manter os jesuítas atuando era uma forma política de servir aos anseios espirituais do povo, ao mesmo tempo que dar a eles o comando dos Colégios era garantir a formação de uma elite intelectual russa.

A influência jesuíta na educação teve crescimentos impressionantes. “Em 1801 o colégio de Polostk tinha 30 alunos em três meses de atuação. No outro ano eram mais de 100 e, no seguinte, 200”. O ciclo de ensino durava seis anos, onde se dava especial foco — a mando da czarina — não apenas em filosofia e teologia, mas nas línguas modernas e nas ciências aplicadas. O ensino era feito em russo. “No ano da morte de Catarina, 726 alunos estudavam em Polostk gratuitamente, e em 1814 eram cerca de 2 mil”, relata o historiador.

Outra conquista importante foi a restauração da atividade missioneira. “De 1803 em diante, seis novos importantes centros de missão foram fundados.” Os destaques eram para as missões na região do Rio Volga; em Odessa, na região do mar Negro, e em Astrakhan, na região do Mar Cáspio. “Em 1811 foram inauguradas missões na Sibéria, a 1 mil km de distância uma da outra.”

Caminhos para a restauração
Com a retomada das atividades da Companhia, era questão de tempo até que o papado a reconhecesse canonicamente. Para Inglot, um dos grandes colaboradores para a restauração foi o padre Gabriel Grubert. Conselheiro fiel do Czar Paulo I, com quem tinha audiências diariamente, incentivou-o a escrever uma carta ao papa solicitando o reconhecimento da Companhia. “O soberano sabia que isso traria os ex-jesuítas para a Rússia, e ele desejava aumentar seu corpo para confiar toda a educação do país aos jesuítas”. Como Pio VII era favorável, reconhece a ação da companhia na Rússia. Demorariam ainda 13 anos para que finalmente a restauração total fosse proclamada.

“A aprovação foi o primeiro passo. Em 1804, o papa também restitui a ordem no reino das duas Sicílias. A supressão não foi revogada antes devido às tormentas revolucionárias, mas com a volta do Papa da prisão e do exílio imposto por Napoleão, não tarda para que em 1814 a restauração permita o retorno da Companhia de Jesus a partir do império Russo.”

Quem é Marek Inglot?
Marek Inglot, jesuíta desde 1980, é doutor na História da Igreja pela Pontificia Università Gregoriana, onde é professor na Faculdade de História e Bens Culturais da Igreja; também foi Decano no período de 2003 a 2009. Foi membro do Instituto Histórico da Companhia de Jesus e membro da Academia Russa de Ciências de Moscou. É colaborador da Academia Russa de Ciências de Moscou. Marek é ainda autor do livro La Compagnia di Gesù nell’Impero russo (1772-1820) e la sua parte nella restaurazione generale della Compagnia (Roma: Editrice Pontificia Università Gregoriana, 1997), já traduzido em russo e em ucraniano.

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Sobre Andriolli Costa

Jornalista sul-mato-grossense em terras gaúchas. Atua principalmente nas áreas de jornalismo científico, cultural, rural e com estudos de Jornalismo.

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