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Artigos e Opinião

Ela veio me ver (por dentro)

A

Cavaleiro Guaicuru, no Parque das Nações

Por Andriolli Costa

Toda semana, duas ou três vezes pelo menos, ela vinha me ver. A casa no centro de São Leopoldo também era nova para mim, e aos poucos ela percebia os rastros do meu eu que iam surgindo nos cômodos. Quadros de Zagor na paredes, inspirados pela coleção de quadrinhos que “herdei” de meu pai; um chapéu de palha no quarto, da época que cobria jornalismo rural; uma receita infalível de sopa paraguaia na cabeça, que servi com menos de um mês de namoro. Eram as minhas pegadas, que percorriam toda a trajetória que hoje me trouxe até o Rio Grande do Sul – e me fizeram conhecer a Jessika.

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Morada dos Baís

Nestas férias de dezembro, no entanto, decidimos percorrer o caminho de volta. Por quase 20 dias, caminhamos intensivamente por terras sul-mato-grossenses. Ao seu lado, redescobri com outros olhos o que sempre me foi familiar: comer espetinho com mandioca e shoyo na Feira Central; experimentar tereré de vários sabores (até de Red Bull) lá no Mercadão; passar a tarde no Parque das Nações admirando as capivaras. Até do Hino do meu Estado eu me lembrei – e de como eramos obrigados a decorá-lo durante 4ª série. Eram coisas que eu sempre fazia, ou que há muito deixara de fazer por não ser mais novidade. Com ela, tudo parecia novo.

“Eram coisas que eu sempre fazia, ou que há muito deixara de fazer por não ser mais novidade. Com ela, tudo parecia novo.”.

Ela veio me ver. Veio me ver por dentro. O movimento foi revigorante e, para dizer o mínimo, revelador – tanto para mim, quanto para a Jessika. Mato Grosso do Sul, a cada dia, mostrava mais sobre mim do que eu queria admitir. Facetas minhas que fugiam do meu controle. Ao mesmo tempo em que eu podia ver tanta coisa com a qual me identificava (que vão desde expressões como, “estar na pica do saci” a gostar de comer a sambiquira do frango), também me deparava com aquilo que me fez ir embora. Com aquilo que me frustra, irrita e incomoda. E que me fez buscar em outros lugares a oportunidade de fazer diferente.

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Provando Tereré

Talvez esta seja uma sensação comum a todos que já moram sozinhos, mas nunca me sinto a vontade quando volto para a casa do meu pai ou da minha mãe. As regras são outras, a rotina é diferente e eu sempre me sinto ocupando um espaço que não me pertence mais. Por isso gosto de estar sozinho, para fazer minhas próprias regras. No entanto, o retorno a minha verdadeira casa – a interior, não a física – é inevitável.

Eu nunca gostei muito de pequi, nem guariroba, mas era inevitável sentir um pouco de nostalgia quando encontrava esses ingredientes pelo Sul. Também nunca escutei muito Almir Sater ou Paulo Simões. Ainda assim, quando eu estava sentado, morrendo de nervoso aguardando ser chamado para a entrevista do Doutorado, cantarolava mentalmente um trecho do Trem do Pantanal. “Ele agora sabe que o medo viaja também sobre todos os trilhos da Terra”. Uma lembrança inconsciente de que aonde quer que estejamos, nossas inseguranças vão conosco. E talvez o retorno a nossa casa interior, com tudo que há de bom e de ruim, seja a melhor fonte de energia para os desafios que virão.

Falando sobre casas, não existe lugar em que eu me sinta mais a vontade em todo o Mato Grosso do Sul do que a chácara da minha avó. É a familiaridade do frango frito e do doce de leite no tacho de cobre; do cheiro das vacas cagando no mangueiro; do ronco dos bugios a tardinha na beirada do córrego – que parece as portas abertas do inferno, diga-se de passagem. Sons, cheiros e imagens que fazem parte da minha vida desde a infância.

9Lá eu vi muito do que faço: o jeito do meu pai rosnar para os cachorros, protegendo sua comida; o modo como a Vó espanta os cachorros da varanda; o jeito de falar do Vô, que incorporo inconscientemente no dia-a-dia. Não importa o momento, ou onde eu more, lá sempre será meu lugar.

E justamente por isso, fiquei tão feliz ao ver a Jessika se sentir em casa lá. Ao vê-la dando comida para o gado, armando comigo formas de colher uma jaca, levantando a saia para enfiar o pé no brejo e se espreguiçando toda na rede. Aquele não era só meu lugar, era o nosso.

No dia que estávamos para ir embora, enquanto sincronizava minha respiração com a dela para embalar o sono, a Jessika faz o balanço de nossa viagem. Vendo minha alegria pelo momento, ela reflete:

“Sabe, eu não tenho nenhum lugar como este para te apresentar. Nada que me faria ficar tão contente em te mostrar; que seja meu porto-seguro”, lamentou.

Sei de um lugar que pode ser seu porto seguro, amor – disse a ela.

Do meu lado.

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Sobre Andriolli Costa

Jornalista sul-mato-grossense em terras gaúchas. Atua principalmente nas áreas de jornalismo científico, cultural, rural e com estudos de Jornalismo.

Discussão

3 comentários sobre “Ela veio me ver (por dentro)

  1. Lindo…

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    Publicado por JANAÍNA | janeiro 20, 2015, 4:05 pm
  2. Que texto lindo! Tão pessoal, verdadeiro e feliz! Parabéns! Felicidades!

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    Publicado por Stephanie | janeiro 22, 2015, 5:48 pm
  3. Oi primo, manda depois essa receita de sopa paraguaia… Parabéns!

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    Publicado por Renan | fevereiro 4, 2015, 10:46 pm

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