//
Você está lendo...
Artigos e Opinião

Desculpe, amigo. O Pantanal não está aqui para servi-lo

imagem1a

Partida para a focagem de animais (Foto: Andriolli Costa)

Por Andriolli Costa

Eu não tenho certeza quando percebi que ia me incomodar com aquele casal. Já não havia simpatizado com eles, é verdade, mas só no finzinho daquele primeiro dia no hotel fazenda no Pantanal tive noção do que nos esperava. Os gaúchos – como faziam questão de lembrar a todos – chegaram atrasados ao barco para nosso safari fotográfico, ignorando os pedidos do guia para colocar os salva-vidas. Sentaram na proa, de onde era difícil ignorá-los, e começaram o show.

“Olha, um biguá!” – apontamos para o pássaro que se exibia em contra-luz, empoleirado logo na saída de nosso hotel. A esposa, soando desanimada, pediu ao marido que tirasse foto da ave.

– E eu lá quero saber de biguá? Quero bicho grande! Jacaré, sucuri, capivara! – esbravejou.

imagem2

Biguá fazendo pose (Foto; Jessika Andras)

Aquele pássaro devia ser algum tipo de batedor. Um mensageiro enviado para sondar se aquele grupo entrava pelas águas do Rio Miranda, em Mato Grosso do Sul, era merecedor do que estava por vir. Não fomos. Depois dessa recepção, foram bem uns 10 minutos sem ver animal algum. Só os ouvíamos. O passeio duraria umas duas horas, mas aquele tempo era demais para a esposa.

– Cadê os “bicho”? – Questionou a esposa, em voz alta. Como ninguém respondeu, ela insistiu, cutucando uma turista sueca que não entendeu nada. Repetindo a pergunta, dessa vez voltou-se diretamente para o guia. Ela cobrava dele uma experiência como a da TV, com revoadas de pássaros por sobre a cabeça. Logo mais, um enorme tuiuiú, com quase três metros de envergadura de asa, passa sobre nós. O marido tenta: – Olha o tuiuiú, amor. Ao que ela responde com um simples “Pffff…”.

Aquele cinismo era tão constante que estragava também nossa estadia no Pantanal. Estávamos todos os demais “fantasiados de turistas”. Chapéus engraçados, câmera no pescoço, repelente espalhado até por cima das roupas. Mais do que isso, estávamos dispostos ao encantamento. Obviamente eu também desejava o hiperbólico. Queria ver sucuris tão grandes que poderiam ser figurantes de filme de Hollywood. Queria um rio tão infestado de jacarés que, ao passar a lanterna sobre suas cabeças, veria tantos pontinhos brilhantes sobre a água escura que teria a impressão de mirar uma cidade. Mas eu sabia que não estava indo ao circo. O Pantanal não estava lá para me entreter ou me servir. Cabia a mim me permitir o maravilhamento.

Em determinado ponto, o guia desligou os motores. Era lá que costumavam avistar as onças pintadas, nos contou. Deveríamos ficar em silêncio, ouvindo a mata, aguardando sinais do felino. Na minha frente, nem bem passados cinco minutos, os gaúchos se remexiam desconfortáveis. Fechei os olhos, em determinado ponto, buscando o envolvimento com aquele ambiente. Impossível. O casal não se continha.

– Que saco ficar aqui sem fazer nada, heim? Se pelo menos a gente pudesse dar uma pescadinha – reclamava o marido. “Nossa… Nem uma capivara! Nem uma cobra! Que absurdo”, questionava a esposa. Não foi surpresa nenhuma, é claro, quando nenhuma onça apareceu. Os gaúchos ficaram revoltados. Faltaram pedir o dinheiro de volta por a natureza não ter colaborado. Como se a onça tivesse obrigação de se mostrar quando se paga R$ 200 pela diária.

Pantanal não é espetáculo, é mistério

IMG_6740

O entardecer pantaneiro (Foto: Jessika Andras)

O primeiro dia não havia nem terminado, mas já não suportávamos mais nossos companheiros de viagem. E a cereja do bolo ainda estava por vir. Durante o jantar, de volta ao hotel, o gaúcho me chama da porta do restaurante. “Ô, gordinho! Ô, gordinho!”. Pediu que eu batesse no apartamento deles pela manhã, para que não perdessem o primeiro passeio do dia. Pego de surpresa, tento ser evasivo. Digo que vou tentar. Ainda incomodado, ele comenta:

– Como foi chato o passeio de hoje, né? Nem uma capivara… – repete a ladainha.

Eu poderia ter dito muita coisa nesse momento. Para meu arrependimento, entretanto, só disse que torcia para ele gostar mais do passeio nos outros dias. Satisfeito, o gaúcho partiu e me deixou com um tormento. Aquilo havia me perturbado. Eu podia ter dito algo, mas me omiti. Fugi da discussão por pura política da boa vizinhança. Não queria ser grosseiro, e devolver patada com patada, mas ainda assim dormi culpado aquela noite.

No dia seguinte acordamos de manhãzinha e fomos direto para o restaurante. Eles já estavam lá (droga…). Mais tarde, nos reunimos no pátio para aguardar o carro para o safári terrestre. O hotel, em si, já era encantador. Carcarás caminhavam pela sombra das árvores, indiferentes aos turistas. Num comedor de pássaros, ao lado do nome do local, um anu preto tentava se enfiar na fila de ração disputada pelos periquitos. Curtíamos o ambiente quando mais uma vez chega o gaúcho, espantando todos os passarinhos com o dedo em riste e se divertindo ao vê-los fugir. Minha namorada suspira e se afasta. Ele vem dar bom dia, e repete a missa da noite anterior.
– Como o passeio de ontem foi chato, né?

Dessa vez, não pude evitar. A resposta eu tinha pronta, havia pensado nela durante toda aquela noite.

“Sabe que eu não achei?”

– Ah é? – Surpreendeu-se.

IMG_6650

O jacaré do Pantanal alcança 2 metros de comprimento (Foto: Andriolli Costa)

“É que a experiência Pantanal não se resume só a ver ‘bicho’, sabe? É claro que é legal, é bacana, mas para quem só quer ver bicho é melhor ir ao zoológico. O Pantanal não é espetáculo, é mistério. Não é só ver, é ouvir, é se conectar. É escutar um mugido na mata e pensar: ‘O que é isso? É um boi?’ Não, é um socó-boi. Um pássaro! Não é fantástico? É boiar de bruços no Rio Paraguai, com a pessoa que se ama, e se sentir parte daquilo. Se você se deixar afetar por esse ambiente, se deixar tocar pelo mistério, vai sentir que é parte de tudo isso. E essa é a magia da experiência Pantanal”.

Mais tarde a Jessika me disse que enquanto eu gastava meu latim, o gaúcho me olhava com uma expressão que poderia ser traduzido como: “Mistério? Nossa, que bichona”. Aquiescendo levemente ele me olha, concorda, e se volta para o francês ao nosso lado.

– Foi chato o passeio de ontem né? Tinha que ter mais jacaré…

Ser incomunicável não é desconhecer o falar, é não saber ouvir

10881624_10203046717563097_3382597642447075225_n

Pesca esportiva de piranhas (Foto: Jessika Andras)

Além de nós e dos gaúchos, havia um casal de franceses, outro de suecos e no outro dia chegou um de dinamarqueses. Os gaúchos insistiam em puxar assunto com eles, sem qualquer preocupação com o idioma. Nem mesmo o espanhol, que o francês também arranhava. Contentavam-se em repetir devagar e mais alto, a cada vez, e riam sozinhos da incompreensão alheia. Faltou jacaré, né? Ja-ca-ré! – e dava risada.

Mas pior do que a incapacidade de se comunicar em outro idioma, é a de não conseguir entender aqueles que falam a mesma língua que a sua. Naquela janta, comemos frango. Os gaúchos, mais uma vez, se mostraram indignados. Durante o passeio do dia, ele incomodava o guia e os turistas:

– Eu não viajei 2 mil quilômetros, lá do Rio Grande do Sul, para comer galinha! Tanto peixe nesse rio… eu quero pacu!

O guia, pantaneiro de nascença, criado nas fazendas do Passo do Lontra, bem que tentou explicar. Era época de piracema, não se podia pescar e era difícil arranjar pescado nesse período. Absurdo, bradou o gaúcho. Deveria era haver mais fiscalização, mas não impedir a pesca completamente. Durante toda a volta para o hotel, o guia explicou sobre a extensão da área, sobre a dificuldade do trabalho da polícia ambiental e todo o contexto da região. Inútil.

Na chegada, havia bife para o almoço. O casal reclamou com o garçom, falou mais uma vez dos 2 mil quilômetros, e tudo mais. Chamou a gerente. Estávamos servindo o sorvete da sobremesa, e ouvimos mais uma vez a história dos pacus.

Do mesmo modo, a esposa passou o final de semana inteiro reclamando sobre os animais. Vimos búfalos, emas, jacarés e veados – que o marido se divertiu ao espantar, brincando que mataria aquele belo “terneiro”. Não foi suficiente. Ela brigava com o guia, dizendo que deveriam avisar no site que não tinha tanto bicho assim por ali. Mais tarde, o guia contava como os “gringos” curtiam passar o dia inteiro na mata. A mulher não entendia. “Meu Deus, mas o que eles veem de tão interessante aqui?”.

Realmente. Quando não se consegue ver ou ouvir por conta própria, não adianta explicar.

a2

Anúncios

Sobre Andriolli Costa

Jornalista sul-mato-grossense em terras gaúchas. Atua principalmente nas áreas de jornalismo científico, cultural, rural e com estudos de Jornalismo.

Discussão

Nenhum comentário ainda.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Twitter

%d blogueiros gostam disto: