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Mídia e Jornalismo

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Estupro no Campus – O que deu errado? Rolling Stone e a anatomia de um erro jornalístico

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Imagem original da matéria sobre o estupro. Arte de John Ritter

Por Andriolli Costa

Em novembro de 2014, a revista Rolling Stone, após meses de apuração, publicou uma grande reportagem sobre estupros dentro do campus da Universidade de Virgínia. Tinha como pedra fundamental o relato de “Jackie”, uma fonte que teve a identidade preservada e que contava uma terrível história. Ainda emocionada, relatava em ricos detalhes como havia sido violentada por sete garotos durante uma festa da fraternidade Phi Kappa Psi. Uma história chocante e emblemática, como a repórter foi pautada para encontrar. Era perfeita para a revista. Pena que era totalmente inventada. Pena que ninguém checou. Confira o texto original (já substituído) no Internet Archive.

A verdade veio a tona pouco tempo depois, quando outros veículos começaram a fazer suas próprias investigações e apontaram inconsistências no caso. Mesmo a repórter que conduziu as entrevistas já não se sentia confiante quanto à sua apuração. Como resposta, a revista procurou a Universidade de Columbia, que produziu um “relato jornalístico sobre uma falha jornalística”. Três pesquisadores analisaram todo o material coletado durante a apuração da repórter Sabrina Rubin Erdely, entrevistaram os profissionais envolvidos e – é claro – fizeram a apuração direito. E produziram este relatório, publicado na íntegra na Rolling Stone neste domingo (05/04).

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Imagem que acompanha o relatório

O relatório
“Registros da revista e entrevistas com os envolvidos mostram que a falha da reportagem ‘Um estupro no Campus’ não ocorreu devido à falta de estrutura. O problema foi de metodologia”, apontam. A repórter foi pautada para encontrar um caso que se encaixasse na narrativa pronta esperada pela revista. “Havia outros casos, mas nenhum tão dramático e chocante”, destaca a repórter. Realmente, nenhum.

Temos então uma narrativa preenchedora de aspas, que se basta no jornalismo declaratório com um mínimo de apuração. A entrevistada, Jackie, menciona pessoas, mas não fornece os seus nomes completos e nem seus contatos. Erdely, a repórter, empaca nesse detalhe. O relatório sugere que qualquer pesquisa no Facebook ou contato com outros alunos da turma poderiam ter ajudado a encontrar estas pessoas.

Ao invés disso, a publicação compra o discurso de Jackie, que faz citações indiretas (de amigos, membros da Pi Kappa Psi e representantes da Universidade). A narrativa incorpora as citações, fazendo crer que a revista ouviu os envolvidos, o que não ocorreu. Columbia chama atenção para a construção textual, que mascara os furos de apuração por meio de uso de pseudônimos ou de puros artifícios de linguagem.

Para não correr o risco de perder a colaboração de uma fonte tão rica, e que ainda manifestava o trauma de uma suposta agressão, a repórter evita confrontar a entrevistada. Uma apuração básica poderia verificar se as pessoas de quem a menina falava sequer existiam, ou faziam parte das instituições acusadas. Mas a história era boa demais. No caso da Universidade e da Fraternidade, a repórter entrou em contato pedindo genericamente um “comentário sobre uma denúncia de abuso”, sem dar detalhes. Recebeu – e usou – uma resposta evasiva padrão.

Orientações

Arte representando a fraternidade Phi Kappa Psi, acusada injustamente pela reportagem como local dos estupros

Arte representando a fraternidade Phi Kappa Psi, acusada injustamente pela reportagem como local dos estupros

O relatório chama a atenção para a necessidade de ouvir as partes envolvidas. Não era apenas questão de justiça, mas uma ferramenta de verificação que pode produzir novos dados. Alerta também para a necessidade de equilibrar a relação com a vítima com a verificação de dados. Os autores pontuam a necessidade da Rolling Stone avaliar o uso de pseudônimos e, por fim, de desenvolver um ambiente mais rígido de controle de erros.

Esta última recomendação se deve ao fato de repórteres e editores, com décadas de experiência, terem optado por desconsiderar todas as instâncias de verificação – até mesmo as sugestões do departamento de apuração. Jackie se recusava a dar o nome de seu paquera, que teria dado início ao estupro, por ainda “ter medo dele”. No entanto, menciona que contou o caso a três amigos logo depois, e que eles a desencorajaram de levar a denúncia para a frente. “A decisão de não entrar em contato com estas pessoas foi feita por editores muito acima de mim”, respondeu Coco McPherson, chefe do departamento de apuração da revista.

Resultados

Jornalismo declaratório, que ignora o princípio de ouvir o outro lado

Jornalismo declaratório, que ignora o princípio de ouvir o outro lado

O resultado da reportagem fracassada foi, dentre vários outros, o desserviço prestado quanto à importante questão dos abusos sexuais nas Universidades, “divulgando a ideia de que muitas alegações de estupro se tratam de invenção”. O relatório, por sua vez, converteu-se numa peça didática que elucida a importância do jornalismo levado a sério. E para a Rolling Stone, o que significa? Em termos de política editorial, possivelmente nada.

“Os editores sênior da Rolling Stone são unânimes em acreditar que a falha na reportagem não exige nenhum tipo de mudança em seu sistema editorial. ‘Não acredito exatamente que devemos revisar nossos processos, e não penso que precisamos necessariamente instituir novos modos de fazer as coisas”, afirma Will Dana, o editor executivo. “Só precisamos fazer o que sempre fizemos, e nos certificar de não errar novamente”. Uma explicação totalmente tautológica, como pontua Jay Rosen.

O distanciamento é uma ferramenta importante para identificação de um problema, assim como a busca por uma visão externa às rotinas. No entanto, isolar o erro não o corrige. Para isso é preciso saber ouvir os dados, e suas interpretações. Vejamos se era esse o objetivo da revista, ou apenas uma tentativa de gerar um capital simbólico em cima de sua própria falha.

O que se deve saber sobre as mudanças no Jornalismo

Por: Jay Rosen / Tradução: Andriolli Costa
Publicado no Observatório da Imprensa em 25-11-2014

Professor de jornalismo da New York University (NYU) e criador do blog Press Think, sobre crítica de Mídia, Jay Rosen compilou uma lista completa dos conhecimentos necessários para compreender as grandes tendências que vem transformando a prática jornalística. Este artigo é um guia de leitura para compreensão dos movimentos tectônicos sofridos pelo campo. O texto a seguir foi traduzido do original, com permissão do autor.

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O objetivo de minhas aulas de “Pensamento Digital” é fazer com que os alunos saiam completamente informados sobre as mudanças que estão afetando o jornalismo. Aqui estão os principais tópicos e tendências que espero que eles dominem até o final do curso,

Em cada um destes tópicos, é importante pensar: O que isso significa? Por que é importante? Para onde isto irá nos levar? Adicionei um link ou dois para ajuda-lo a começar, e fico feliz com comentários apontando o que falta nessa lista. Vamos a ela:

  1. O compartilhamento como método de distribuição nas mídias sociais, já que as plataformas sociais, especialmente o Facebook, ocupam um grande espaço na relação com os usuários. (Ver: “O uso da notícia entre plataformas de mídias sociais”)
  1. A mudança para aplicativos e dispositivos móveis, que agora ocorre em uma velocidade impressionante. (Ver “Destravando receita e audiência em dispositivos móveis: novas ideias e boas práticas”)
  1. Novos modelos de negócios para os veículos. Para além do método usual de gerar audiência para vender assinaturas e anúncios, incluindo:

* Captura de dados para anúncios direcionados e produtos personalizados.

* Venda de pesquisas e análises especializadas, seja por assinatura, como faz o GigaOm, ou por conversa, como o Techdirt.

* Eventos, aproveitando o poder convocatório do nome da empresa de notícias. (“Newsonomics do novo evento da Chattanooga Press”) (“A melhor estratégia para gerar renda por meio de eventos”)

* Publicidade nativa e modelo de agência, como fazem o Buzzfeed e a Vice. (Ver: “O BuzzFeed sabe o segredo?”).

* Modelos sem-fins lucrativos, como o ProPublica, Minn Post e Texas Tribune. (Ver: “Encontrando um ponto de apoio – Como iniciativas noticiosas sem fins lucrativos buscam sustentabilidade”)

* Financiamento coletivo (crowdfunding) e assinatura, como fazem Beacon, De Correspondent, The Guardian e Voice of San Diego.

* Faça sozinho. Iniciativas de uma única pessoa também podem funcionar.

  1. Uso do Analytics na produção de notícias. Aprender com o comportamento da audiência, sem se tornar escravo dos números. (Ver: “Preferência da audiência e julgamento editoral: Um estudo sobre a influência da defasagem de tempo nos jornais on-line”)
  1. Gerenciamento de “produto” das empresas de notícias. Integrar as equipes de tecnologia, editorial, empresarial e experiência de usuário. (Ver: ‘O condutor mestre’: Gerenciamento de produto em jornalismo)
  1. Design interativo e melhoria da experiência do usuário por meio de uma ergonomia da notícia. (Ver: “Do jornalismo à experiência do usuário. Um caminho para, talvez, nunca mais retornar”).
  1. Jornalismo de dados em todos os sentidos: coleta de dados, conexão com dados via API, visualização de dados, identificação de narrativas a partir dos dados, criação de banco de dados intuitivos a disposição da consulta do usuário, uso de sensores no trabalho noticioso. (Ver: A arte e a ciência do jornalismo de dados)
  1. Melhorias contínuas nos sistemas de gerenciamento de conteúdo e, com elas, no fluxo de trabalho conforme uma cultura de engenharia se afirma em algumas novas empresas. (Ver: “Um olhar sobre Chorus, a plataforma de publicação da nova geração da Vox Media”) (Ver: Scoop: Um olhar sobre o CMS do New York Times)
  1. Dados estruturados para obter mais valor da produção contínua de notícias (Ver: “Um motivo fundamental do porque sites jornalísticos devem mudar”) (Ver: “Na Circa, não se trata apenas de fragmentar as notícias, mas de adicionar estrutura”)
  1. Personalização dos produtos noticiosos. Por que enviar a todos a mesma reportagem? (“Como os sites noticiosos estão aumentando o engajamento com a personalização” )
  1. Transparência e confiança, conforme o clássico “confie em nós, somos profissionais” dá lugar a “nos mostre seu trabalho”. (“Caos online exige do jornalismo ações radicais para ganhar confiança”)
  1. Conteúdo gerado pelo usuário (Open Journalism), incluindo a verificação de conteúdo gerado por usuário, jornalismo com articulação em rede, financiamento coletivo e mídias sociais como ferramenta de reportagem. As pessoas, anteriormente conhecidas como “audiência”, em uma colaboração frutífera com jornalistas ao longo de todo o arco de produção – da pauta ao trabalho finalizado. (Ver: Jornalismo aberto, do The Guardian.
  1. Jornalismo robô e automatizado. Se as máquinas podem fazer um trabalho melhor e mais barato, os jornalistas humanos devem se mover mais para cima na cadeia de valor. (Ver: “A ciência de dados está levando o jornalismo robô para o mainstream”)
  1. Criação de uma cultura ágil na Redação, de modo que adaptação, colaboração e experimentação não sejam algo tão difícil. (Ver: “Como levar agilidade à redação – o que os jornalistas tem a aprender com desenvolvedores de software”)
  1. O modelo de franquia pessoal de notícias, que se baseia no acompanhamento individual de um jornalista. (Ver: 11 exemplos de recursos e detalhes do modelo de franquias pessoais no jornalismo digital)
  1. Portais verticais e jornalismo de nicho. Fazer um bom trabalho e encontrar mercado para isso, conforme avança o processo de desagregação dos grandes meios generalistas. (Ver: “Essa vida vertical: Os modelos de mídia que admiro”).
  1. O future do jornalismo contextual e explicativo, fornecendo o plano de fundo necessário para compreender as atualizações. (Ver: Um antídoto para a sobrecarga da web)
  1. “Notícias como serviço”. Mais do que um produto que aparece na agenda da empresa de notícias, um serviço que ajude o usuário a fazer algo. (Ver: “Conteúdo x Serviço – O que há, agora, para as notícias?”)
  1. Da escassez à abundância. Os jornalistas costumavam agregar valor publicando novidades. Agora eles podem servir aos usuários resgatando e organizando o melhor material a partir de um fluxo diário de conteúdo barato. Algo, por vezes, chamado de “curadoria”.
  1. Apuração de fatos e controle de rumores. A imprensa constumava lidar com informações falsas simplesmente não a publicando. Agora existe uma obrigação direta em acompanhar e acusar histórias falsas. (Ver a iniciativa Emergent.info) (Assinar o informativo semanal do Fact Checking Project)
  1. “Não estamos no comando”. No passado, empresas de mídia produziam os noticiários e possuíam seus canais de distribuição. Agora novos e importantes atores (empresas com plataformas e governos), situam-se entre usuários e jornalistas. Trabalho jornalístico passa a circular em sites sem controle de editores. Aqueles que publicam notícias precisam estar aonde está o povo, ainda que muitos destes não saibam o que está sendo feito a estas pessoas. O público deve ser alertado quanto a isso. (Ver “Os jornalistas também precisam saber tudo sobre seu ambiente midiático”)

Veja também a resposta comentada a esta lista feita pelo professor de Comunicação de Massas da Louisiana State University, Steve Buttry.

Ronaldo Henn: O acontecimento jornalístico a partir da semiótica de Peirce

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O professor e pesquisador Ronaldo Henn analisa as reconfigurações do jornalismo contemporâneo em perspectiva com a obra de Charles S. Peirce

Por Andriolli Costa e Ricardo Machado
Dossiê Peirce na IHU On-Line 457

A semiótica de Peirce, explica o professor e pesquisador Ronaldo Henn, não se apresenta como um modelo formal de análise de produtos de linguagem, mas como uma ferramenta epistemológica mais ampla. “É dessa perspectiva que incorporo a sua teoria nos modos como investigo os processos do jornalismo. E é na linguagem que está a materialidade do jornalismo, sobretudo na sua principal articulação: a de colocar-se como uma mediação qualificada entre os acontecimentos públicos e a sociedade”, explica Ronaldo, em entrevista por e-mail à IHU On-Line.

“O que reivindico para o jornalismo são modos de abordar e narrar os acontecimentos que, em algum nível, consigam restituir algo dessa radical singularidade que se perde nas convenções da linguagem jornalística e nos enquadramentos hegemônicos”, ressalta. Segundo o pesquisador, parte dos sentidos construídos sobre o mundo tem como eixo nuclear o jornalismo. “Fazer com que essas possibilidades de sentido ampliem-se talvez seja uma necessidade contemporânea imposta ao jornalismo no momento em que outras formas de mediação consolidam-se”, sustenta.

Ao se debruçar sobre a prática jornalística, o entrevistado argumenta que o resultado final de muitos produtos jornalísticos, cujas interpretações parecem estar postas antes mesmo da apuração, emerge de uma “pré-semiotização” decorrente da engrenagem do atual sistema. “Penso que o futuro do jornalismo está na flexibilização desses processos. Coisas como o jornalismo em base de dados, construções de novas narrativas, construções coletivas e transnarrativas, incorporação de conflitos e outras dinâmicas são processos contemporâneos que podem revitalizar o jornalismo, fazendo com que supere esses modelos preestabelecidos”, projeta.

Ronaldo Henn é graduado em Comunicação Social – Habilitação em Jornalismo pela Unisinos, com mestrado e doutorado em Comunicação e Semiótica pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo – PUC-SP. Professor e pesquisador do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Unisinos, coordena o projeto de pesquisa A produção do acontecimento nas redes sociais: a emergência do ciberacontecimento. Henn lançou recentemente o livro El ciberacontecimiento: producción y semiosis (Barcelona: Editorial UOC, 2014). É autor, também, de Os fluxos da notícia (São Leopoldo: Unisinos, 2002) e Pauta e notícia, uma abordagem semiótica (Canoas: Ulbra, 1996).

Confira a entrevista.

IHU On-Line – De que forma a teoria semiótica de Peirce pode colaborar para compreender o Jornalismo?
Ronaldo Henn – A semiótica de Peirce faz parte de um projeto filosófico mais ambicioso que tem, no seu horizonte, o estabelecimento dos fundamentos sobre os quais seriam erguidos os próprios processos de conhecimento, com destaque para o conhecimento científico. Por conta disso, entendo sua semiótica não como um modelo formal, que se aplica para a análise de produtos de linguagem, mas como ferramenta epistemológica que ajuda na compreensão das lógicas implicadas na constituição das linguagens. É dessa perspectiva que incorporo a sua teoria nos modos como investigo os processos do jornalismo. E é na linguagem que está a materialidade do jornalismo, sobretudo na sua principal articulação: a de colocar-se como uma mediação qualificada entre os acontecimentos públicos e a sociedade. Isso instaura alguns problemas de largada, dentre os quais, os limites e potencialidades desse lugar de mediação, que semioses esses processos tendem a disparar e com que desdobramentos, e o que os elementos constitutivos dessa mediação revelam sobre os próprios processos constitutivos da realidade social. Por conta disso, acredito que a teoria de Peirce colabora para compreender o jornalismo porque oferece um mapa conceitual prodigioso para o entendimento dos interstícios de suas configurações pensadas em termos de acontecimento, fontes, ação dos jornalistas, enquadramentos, ação dos públicos e desdobramentos sociais.

IHU On-Line – Ao compreender a primeiridade como o acontecimento em estado puro, de que forma o jornalismo atuaria na produção de significado de determinada singularidade?
Ronaldo Henn – Peirce estabeleceu categorias fenomenológicas que correspondem às formas mais gerais de como os fenômenos acessam e processam-se na consciência. Tudo o que estaria no plano das qualidades em si mesmas, sem estarem, a rigor, encarnadas em algo, ele chamou de primeiridade. O que já é algo, na sua dimensão ainda singular, no aqui e agora, trata-se da secundidade. E quando esse algo já é traduzido em linguagem, que a forma como nós, inevitavelmente, acessamos o mundo, estamos no plano da terceiridade. Essas três categorias (que podemos, também, designar como qualidade, singularidade e generalidade) estão presentes em toda a construção filosófica de Peirce: trata-se de um pensamento essencialmente triádico. Mas elas não agem isoladamente, até porque nós, seres já formatados na consciência, estamos irremediavelmente atrelados à terceiridade e só temos lampejos ultraefêmeros do que seria um primeiro ou um segundo. Peirce dizia que suas categorias funcionam como timbres: há acentos de predominância, como, por exemplo, uma obra de arte estaria próxima da primeira categoria, enquanto um argumento, próximo da terceira. Isso não quer dizer que uma obra estética não seja concebida de um projeto codificado, o que implica numa dimensão terceira, ou que um argumento não tenha frescor estético, o que o colocaria numa dimensão primeira. É nesse sentido, inspirado em Deleuze , que imagino um acontecimento em estado puro: ou seja, na sua radical singularidade: mas isso é uma idealidade, porque todo o acontecimento, quando nos afeta, já é terceiro: precisa ser designado, instaura sentidos. O que reivindico para o jornalismo são modos de abordar e narrar os acontecimentos que, em algum nível, consigam restituir algo dessa radical singularidade que se perde nas convenções da linguagem jornalística e nos enquadramentos hegemônicos. Parte dos sentidos construídos sobre o mundo tem como núcleo o jornalismo: não é pouca coisa. Fazer com que essas possibilidades de sentido ampliem-se talvez seja uma necessidade contemporânea imposta ao jornalismo no momento em que outras formas de mediação consolidam-se.

5840726724_0e3f39652d_bIHU On-Line – Por que não é correto compreender o acontecimento simplesmente como linguagem, sendo que somente conseguimos percebê-lo a partir dela?
Ronaldo Henn – Pensar o acontecimento apenas como linguagem é negar-lhe seu vigor mais essencial: o de disparar semioses a partir da sua instauração, semioses que são inesgotáveis exatamente porque existem camadas no acontecimento que não são plenamente traduzidas, como se fugissem da linguagem, escapassem, tal como o coelho na narrativa de Alice. Entretanto, a experiência do acontecimento se dá fundamentalmente na linguagem. É através dela que ele materializa-se publicamente e os sentidos são produzidos. E é nesse jogo que, no meu entendimento, as narrativas sobre os acontecimentos ganham especial sabor e deveriam ser pensadas em potências mais complexas, como faz meu colega e amigo Fernando Resende, professor da Universidade Federal Fluminense. É desse lugar que vejo saídas para o jornalismo, no efetivo exercício da diversidade das vozes sociais e da incorporação efetiva do outro. É dessa maneira que, aquilo que escapa à linguagem no acontecimento, pode ganhar textura, vivacidade: densidades narrativas, num jogo entre tensões e fruições estéticas.

IHU On-Line – É possível pensar em graus de aproximação com o acontecimento puro? Buscar o máximo de aproximação é atributo definitivo do jornalismo?
Ronaldo Henn – Sim, é possível, e isso seria viabilizado exatamente nesse jogo narrativo de que falei antes. Existem dois aspectos importantes aqui. O primeiro está naquilo que compõe a alma das prerrogativas jornalísticas, que tem a ver com precisão e credibilidade. Se pensarmos o acontecimento como um objeto semiótico e as narrativas produzidas pelo jornalismo como semioses decorrentes desse objeto transformado em signos, teleologicamente existe um motor que faz essas semioses andarem no sentido do desvendamento pleno desse objeto: convenções, enquadramentos, interesses de diversas ordens, enfim, há uma série de entraves que inviabilizam essas semioses plenas (que, na verdade, nunca sairão da categoria da possibilidade). Mas é exatamente porque o objeto não está no signo, mas é representado por ele, que partes não narradas ainda podem ser acessadas ao longo do tempo: e isso vale tanto para o jornalismo como para a história. O outro aspecto a destacar é que se pode narrar o acontecimento de diferentes formas, e isso traz a narrativa jornalística para um plano estético, com potência de revelar camadas não dizíveis dos acontecimentos: aproximar-se da sua primeiridade, de um plano sensível, do seu estado puro ou bruto. Narrativas como as de Eliane Brum , por exemplo, são exercícios com esse porte.

IHU On-Line – Quais os riscos que estão implicados no distanciamento do acontecimento a partir da instauração de uma semiose infinita (ou absoluta)?
Ronaldo Henn – A rigor, a semiose infinita não geraria uma distância do acontecimento, na medida em que ela significaria sua plena explicação. O que pode produzir distanciamento do acontecimento é sua rápida codificação num regime de sentidos já dado, sem qualquer possibilidade de outras vozes serem incorporadas ou tensionadas. É esse o verdadeiro limite do jornalismo: as temporalidades reduzem a ampliação dos dados, checagem, diversificação de fontes. Encerra prematuramente a semiose.

IHU On-Line – Em que a chamada “morte do acontecimento” afeta o próprio contrato comunicativo estabelecido com o jornalismo contemporâneo?
Ronaldo Henn – Essa ideia de “morte do acontecimento” vem de um autor português chamado José Augusto Bragança de Miranda que, inspirado em Deleuze, fala que o acontecimento humano seria uma resposta ao acontecimento absoluto, associado à morte. Quando Peirce fala em “interpretante final”, que seria o ponto definitivo da semiose, penso que isso seria uma espécie de morte: como se todos os sentidos fossem dados numa entropia máxima. O que acontece no plano cotidiano é algo às avessas disso: são sentidos que se esvaem muito rapidamente, mas vinculados a um sentido geral já posto e indiscutível, seja ele o da “ordem mundial”, do mercado globalizado, dos fundamentalismos de qualquer matriz. E é isso que Baudrillard chama de “greve dos acontecimentos”: como se não fosse mais possível singularidades e estivéssemos condenados a uma terceiridade definitiva. Mas, exatamente porque os acontecimentos pululam em outras camadas, que essa cena não se cumpre por inteiro e está sempre à beira de ser sacudida pela emergência das singularidades.

IHU On-Line – De que forma o habitus estabelecido pela profissão de jornalista leva a um olhar já semiotizado do acontecimento— que o enquadra em modelos já preestabelecidos de cobertura jornalística?
Ronaldo Henn – Isso é da cultura profissional e também das exigências do mercado. Trata-se de uma profissão totalmente vinculada ao tempo e à velocidade dos processos. Por questão de uma economia informativa, no sentido da Teoria da Informação, é necessário uma decifração rápida do acontecimento e gerar planos muito eficazes de cobertura no menor tempo possível. Essa pré-semiotização é funcional na engrenagem do sistema, mas também altamente restritiva. Penso que o futuro do jornalismo está na flexibilização desses processos. Coisas como o jornalismo em base de dados, construções de novas narrativas, construções coletivas e transnarrativas, incorporação de conflitos e outras dinâmicas são processos contemporâneos que podem revitalizar o jornalismo, fazendo com que supere esses modelos preestabelecidos.

IHU On-Line – De quais modos a leitura dos estudos de Peirce se atualiza no contexto dos ciberacontecimentos?
Ronaldo Henn – Nos processos industriais do jornalismo, as semioses disparadas pelas narrativas do acontecimento pautavam-se por uma certa linearidade: transformação do objeto semiótico (acontecimento) em signo (narrativa jornalística) com produção de interpretantes (repercussão, afetação, agendamento). Essa lógica está na explosão. Os processos de comunicação on-line e as redes sociais digitais, que é o ambiente de eclosão disso que venho chamando de ciberacontecimento, tornam mais complexas essas semioses. O monopólio do processo de representação (geração de signos: notícias, reportagens) transtorna-se com a proliferação instantânea das semioses em redes digitais.

Isso culmina com as formas atuais de produção do acontecimento, que se instala em outra relação de mediação entre signos e objetos desconcertando as formas tradicionais de jornalismo. E os processos em rede podem render metodologias para que possamos visualizar essas semioses: elas materializam-se e são capturáveis.

Os caminhos para um pós-jornalismo

new media, old media

Jornalismo pós-industrial. Por: Andriolli Costa

Por Andrioli Costa

O repórter e o robô

Na manhã do dia 17 de março de 2014, o LA Times foi o primeiro jornal a veicular a notícia sobre um terremoto ocorrido minutos antes em Westwood, Califórnia. A matéria tinha como fonte apenas a base de dados do serviço de notificação de terremotos do U.S. Geological Survey e citava ainda outros tremores ocorridos na região nos últimos 10 dias — bem como todas as localidades afetadas. A postagem tinha tudo para ser apenas mais uma, que daria sequência a uma série de novas matérias produzidas pela redação ao longo do dia. Exceto, é claro, pelo conteúdo de seu último parágrafo: “este post foi criado por um algoritmo, desenvolvido pelo autor”.

O autor em questão é Ken Schwencke, editor de conteúdo digital do LA Times. Jornalista e programador, ele é o criador doQuakebot, um “robô” programado para escrever histórias baseadas em eventos sísmicos que preencham critérios de noticiabilidade previamente configurados. O bot posta automaticamente no servidor do jornal, gera uma imagem com base em mapas do Bing e informa os editores de que o texto está pronto para ser liberado. Além do Quakebot, Schwencke desenvolveu também o HomicideReport, um bot que publica um lead básico de todas as ocorrências de homicídio registradas em Los Angeles.

Já em abril, o periódico britânico The Guardian, que circulava nos Estados Unidos apenas em edição online, divulgou o lançamento de uma edição americana impressa e mensal totalmente produzida por bots. O #Open001 consiste em uma seleção de reportagens publicadas pelo Guardian ao longo da semana, escolhidas por algoritmos de acordo com sua aceitação nas redes sociais. Com a seleção feita, ARTHR, outro bot, diagrama as notícias nas páginas, cabendo ao editor apenas dar OK nas provas e enviá-las para impressão. O processo de fechamento completo leva cerca de uma hora e, de acordo com o desenvolvedor, poderá no futuro ser feito por qualquer pessoa — mesmo as sem conhecimento formal em jornalismo.

As notícias chamam a atenção inicialmente por seu caráter pitoresco, mas ganham especial relevância no sentido em que tensionam o jornalismo em um de seus fundamentos básicos: a notícia. Conteúdo jornalístico produzido com o auxílio de softwares é utilizado há mais de 50 anos, mas a elaboração autônoma de conteúdo é novidade. Muito se diz sobre o jornalismo não ser apenas “técnica”, e da importância da sensibilidade e da subjetividade do repórter, do “faro jornalístico” apurado, do traquejo do profissional ou mesmo do simples contato humano como determinantes para a construção social da notícia. Por outro lado, os bots e o assim chamado “jornalismo semântico” são exemplos extremos de quando esta é medida totalmente pela técnica.

O que isso representa para o jornalismo? Deontologicamente, muito pouco. A produção dos bots é o hard news puro, fundamentado em um lead básico para responder da forma mais simples possível às perguntas O quê? Quem? Como? Quando? Onde? e Por quê?. O trabalho de reportagem, investigação e contextualização social do acontecimento ainda seria imprescindível à atividade jornalística. Mas será que isso é feito de maneira adequada? Em um contexto de precarização das redações, levado a cabo por um círculo vicioso entre perda de anunciantes, quedas de audiência, dificuldade de monetização em ambiente virtual e reduções massivas de custo e equipes (os famosos “passaralhos”), sabemos que este tipo de material tem cada vez menos espaço nas organizações tradicionais.

As tensões que os bots evidenciam, desta forma, se dão no nível ontológico do jornalismo. Desconstroem, de início, a concepção antropocêntrica da própria produção noticiosa. É o que mostra o pesquisador Clister Clerwall, daKarstad University na Suécia, que realizou um estudo mostrando que a percepção de uma nota de “conteúdo autônomo” é indiscernível da escrita por um jornalista. A pesquisa apontou ainda que aspectos de qualidade como “clareza” e “leitura agradável” foram ligeiramente mais destacados em textos produzidos por humanos, enquanto “confiabilidade”, “informatividade” e “objetividade” se destacaram nos textos produzidos pelos algoritmos.

Clerwall resgata ainda que o jornalismo semântico é um braço do que é conhecido como “notícias algorítmicas”. São as matérias produzidas adaptadas à lógica dos pageviews e da otimização dos sistemas de busca. Ou seja, repórteres designados para reportagens inspiradas nas buscas populares no Google ou Yahoo. “Este tipo de notícia não se preocupa com o que o público precisa saber para tomar decisões e agir como cidadão na democracia, mas sim no que o público, em determinado momento, parece ‘querer’”. É tratar o leitor como consumidor, não como cidadão.

Muitos se perguntam se a máquina pode fazer melhor seu trabalho que um jornalista, mas, dentro da lógica acima, fica a provocação: ao servir à técnica, de que forma um humano produz melhor jornalismo que um robô? Quantas vezes, dentro das dinâmicas das horas de fechamento, não nos deixamos robotizar, produzindo sem introjeção ou reflexão, repetindo fórmulas, chavões e estereótipos? Para que e a quem serve um jornalismo como esse?

Jornalismo pós-industrial
A tecnologia do jornalismo produzido por algoritmos insere-se no contexto que o Tow Center, da Universidade de Columbia, nomeou em um relatório publicado em 2012 de jornalismo pós-industrial: adaptando-se ao presente. Escrito pelos pesquisadores C. W. Anderson, Clay Shirky e Emily Bell, o relatório, “parte pesquisa e parte manifesto”, retoma o termo utilizado no contexto jornalístico pela primeira vez por Doc Searls em 2001. Pós-Industrial, para ele, era aquele jornalismo não mais organizado de acordo com a lógica do maquinário de produção. Os autores, no entanto, propõem uma expansão do conceito para pensar também o papel do jornalismo no ecossistema midiático contemporâneo.

O relatório se debruça sobre o lugar ocupado pela imprensa e pelos profissionais de jornal em um mundo permeado por uma sociedade midiatizada; pela lógica conectiva das redes sociais; pela liberdade e alcance comunicativo do público (anteriormente “audiência”); por tecnologias e narrativas inovadoras criadas por startups ou por iniciativas midiáticas independentes ou mesmo sem fins lucrativos. Não é possível, afinal, olhar para mídias tão diferentes e ver algum tipo de unidade; seja no conteúdo, na linguagem, no modelo de negócios — ou mesmo na ausência dele.

Fala-se em um mundo em que jornalistas precisam “concorrer” com conteúdo produzido por atores humanos e não humanos, que ultrapassam os limites da antiga e coesa indústria de notícias. Isso se torna muito evidente na cobertura espontânea realizada durante protestos ou manifestações, como na Primavera Árabe — onde a imprensa oficial era impedida de noticiar os acontecimentos, mas as redes sociais tornaram-se a praça pública para a discussão, mobilização e ação social.

E no contexto nacional? Em um de seus artigos, Antonio Brasil, professor de Jornalismo da Universidade Federal de Santa Catarina, dá a ver uma imagem interessante: um mundo em que a cobertura feita por “ninjas nas ruas” coexiste com a de “drones no ar”. Narrativas Independentes, Jornalismo e Ação é a sigla do coletivo Mídia NINJA, braço do Fora do Eixo que emergiu com grande repercussão durante os protestos de junho passado. Seria possível compreender a cobertura pelos ninjas como jornalismo? Ou ainda, seria esta sequer uma pergunta relevante? Talvez mais importante seja pensar nos modos como ambas as mídias dialogam e tensionam uma a outra. O portalmidianinja.org, lançado em junho deste ano, é um grande exemplo desta relação.

De maneira semelhante e igualmente provocativa Anderson, Bell e Shirky perguntam: “seria o Facebook, do modo como é constituído hoje, uma empresa de notícias?”. A resposta, de acordo com o relatório de jornalismo pós-industrial, não seria nem sim, nem não, mas mu — que em linguagem de programação indica que a pergunta, como formulada, não tem resposta razoável. “O Facebook é fundamental para o ecossistema de notícias e, ainda que organizado de acordo com linhas fora de sincronia com qualquer coisa que reconheceríamos como organização jornalística, sua mera presença altera o contexto da pergunta.”

Pós-Jornalismo?

Para entender o que é e o que não é jornalismo, primeiramente é preciso definir sua estrutura e seus fundamentos. Dessa forma, é possível avaliar de maneira adequada as mudanças estruturais sem incorrer em neopatias, buscando na história da imprensa aquilo que é e permanece sendo essencial para a atividade.

Fato é que o jornalismo sempre executou uma série de funções, sendo a informativa apenas uma delas. No entanto, como bem aponta o relatório do Tow Center, nunca se teve muita urgência para defini-las. “No período em que o discurso público era escasso (o que quer dizer, toda a história até agora), jornalismo era simplesmente o que os jornalistas faziam”. Hoje, talvez mais do que nunca, ter claros estes conceitos torna-se imperativo para os estudos do campo.

Jornalismo pós-industrial é um termo que resolve de maneira bastante eficiente os desafios e perspectivas do jornalismo no tempo presente, e os estudos buscam mapear e explorar dilemas com os quais ainda estamos nos enfrentando. Seria possível, entretanto, vislumbrar a emergência de um possível pós-jornalismo? O prefixo “pós”, neste sentido, não tem necessariamente a conotação evolutiva ou linear, mas atópica.

Não é um novo jornalismo, ou um jornalismo superior, mas um novo lugar do qual lançar os olhos sobre o objeto jornalismo – e do qual este, por sua vez, também possa lançar os olhos sobre a sociedade. Um espaço onde as tensões homem x técnica, repórter x máquina, emissor x receptor se resolvam e deem origem a novas práticas, linguagens e organizações.

Fala-se em jornalismo pós-industrial, jornalismo líquido, funções massivas e pós-massivas, pós e protojornalismo. Fala-se em ciberacontecimentos e em jornalismo de multidões. Todos são conceitos que, cada um à sua forma, tentam compreender o que vivemos hoje e dão pistas sobre o que ainda está pela frente.

Vislumbrar este lugar do “pós”, buscando conhecer um panorama de diferentes visões sobre o assunto, é o objetivo desta edição da IHU On-Line. Ainda que seja difícil, a partir do presente, chegar a alguma conclusão sobre o que virá, não acreditamos que este seja um mero exercício de futurologia. Mesmo porque, ainda no século passado, o escritor William Gibson já nos lembrava: “o futuro já chegou. Só não está igualmente distribuído”.

Cremilda Medina: O jornalista-autor e a mediação do real — Para além de novas ou velhas gramáticas

Para Cremilda Medina, independentemente do meio em que é veiculada, a reportagem densa e tensa é resultado de um autor preparado para lidar com o real com equipamento técnico eficiente, sensibilidade dialógica ou cumplicidade ética e narrativa inovadora

Por: Andriolli Costa
Revista IHU On-Line 447

Cremilda Medina

Em uma tentativa de responder à imediatez da informação nas redes sociais, organizações jornalísticas perseguem o relato em tempo real, reinventando práticas e formatos e investindo em inovações tecnológicas. Por outro lado, outras iniciativas de mídia apostam no retorno à grande reportagem e à pesquisa jornalística — práticas que perderam espaço nos veículos tradicionais devido ao alto custo e à precarização das redações. Com duas visões aparentemente conflitantes, quais características deveriam ser resgatadas e quais deveriam ser superadas no jornalismo do futuro?

Para a professora Cremilda Medina, independentemente das frentes de trabalho, empresas, instituições, redes digitais ou iniciativas autônomas, o decisivo da prática jornalística não é outra coisa que não o contato vivo do repórter, os diálogos e os afetos. Como, afinal, “nomear de comunicador aquele indivíduo que não está afeto a seu povo?”, questiona, em entrevista por e-mail à IHU On-Line. Para Medina, o repórter não é apenas aquele que informa, mas um autor que desvela a complexidade do real e a materializa em palavras, na forma de narrativa jornalística. É o profissional “preparado para lidar com o real com equipamento técnico eficiente, sensibilidade dialógica ou cumplicidade ética e narrativa inovadora”.

Em um contexto de fragmentação de informações promovida pelas redes, esta figura do jornalista-repórter-autor, “com presença legitimada, para criar a articulação complexa dos sentidos da realidade imediata, com consciência identitária e sensibilidade estética” torna-se ainda mais fundamental. E é esta característica que o distingue dos demais produtores de conteúdo. “Esse autor de formação contínua, movido pela responsabilidade social, pode ou não registrar em sua narrativa a voz coletiva, significados e comportamentos no embate dos diferentes de uma sociedade democrática”, destaca ela. “Orquestrar tudo isso foi, é e será a autoria criativa dessa difícil e conflitiva mediação que, sem dúvida, nas sociedades autoritárias, torna-se um perigoso ato de resistência cultural.”

Cremilda Celeste de Araújo Medina é graduada em Jornalismo e Letras pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul – UFRGS, com mestrado e doutorado em Comunicação pela Universidade de São Paulo – USP. Professora aposentada da Escola de Comunicações e Artes da USP, é autora e organizadora de cerca de 60 livros. Dentre estes, destacamos: Entrevista, o diálogo possível (São Paulo: Ática, 1986), A arte de tecer o presente – Narrativa e cotidiano (São Paulo: Summus Editorial, 2003) e o recém-lançado e autobiográfico Atravessagem – Reflexos e Reflexões na Memória de Repórter (São Paulo: Summus, 2014).

Confira a entrevista.

IHU On-Line – No Brasil, a Agência Pública  é um dos grandes exemplos de projetos que, em um modelo sem fins lucrativos, recusam a cobertura em tempo real para promover um retorno à grande reportagem e à interpretação. As matérias da Agência possuem grande visibilidade por meio dos replicadores, e ela coleciona exemplos de financiamento bem-sucedido via crowdfunding. O que permitiu o surgimento destas iniciativas? Por que elas foram tão bem recebidas pelos leitores?
Cremilda Medina – 
O tempo real não é incompatível com a reportagem, se a consideramos não pelo tamanho ou tempo de exibição. A reportagem densa e tensa é resultado de um autor preparado para lidar com o real com equipamento técnico eficiente, sensibilidade dialógica ou cumplicidade ética e narrativa inovadora. É claro que um produto elaborado com mais tempo pode avançar na profundidade interpretativa. Mas o que para mim é decisivo é o contato vivo do repórter, e não o isolamento sentado ou em pé operando máquinas, ou estático, vítima da inércia das facilidades claustrofóbicas das redações.

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Cremilda Medina

IHU On-Line – O retorno à reportagem, a apuração cuidadosa e o interesse público são respostas suficientes para o jornalismo dos novos tempos? O que deve ser resgatado e o que deve ser superado no jornalismo do futuro?
Cremilda Medina –
 Ao longo de cinco décadas venho afirmando, na prática e na teoria (indissolúveis para mim), o lugar de aperfeiçoamento contínuo do mediador-autor na comunicação social. Não há princípio nem fim — não acredito em “genesismos” ou fim da história —, a luta, ou saga, ou aventura, prazerosa ou dolorosa, é um processo em que se conquista a legitimidade desse autor das mediações sociais capaz de dar respostas aos desafios da narrativa da contemporaneidade. Independentemente das frentes de trabalho, empresas, instituições, redes digitais ou iniciativas autônomas, esse autor de formação contínua, movido pela responsabilidade social, pode ou não registrar em sua narrativa a voz coletiva, significados e comportamentos no embate dos diferentes de uma sociedade democrática. Orquestrar tudo isso foi, é e será a autoria criativa dessa difícil e conflitiva mediação que, sem dúvida, nas sociedades autoritárias, torna-se um perigoso ato de resistência cultural.

IHU On-Line – Como você vislumbra a emergência de um possível pós-jornalismo?
Cremilda Medina 
– Não partilho da concepção evolucionista (caricatura darwinista) dos pré, durante e pós. Como disse antes, o processo é mais complexo do que essa grade mental da linearidade. A história nos diz — como, aliás, o dizem cientistas das exatas — que as recorrências convivem com a linha do progresso, ou a seta do tempo com o ciclo do tempo. Estamos, pois, mergulhados num processo histórico de longa e curta duração. Se trabalhamos com a atualidade e a atualização da aventura humana, emergem a todo o momento recorrências que nos espantam. É caso da erupção de todo o tipo de violência no horizonte social que se comprometia com a civilização e os direitos humanos. Pelo menos era a grande promessa dos “progressistas” do final do século XIX.

IHU On-line – Pensando na participação cada vez mais ativa do jornalismo cidadão e em iniciativas como a Mídia NINJA, de que forma eles estabelecem novas gramáticas para o fazer jornalístico como um todo?
Cremilda Medina –
 Não há novidade por aí. Quem for à história do jornalismo, sobretudo ao período inaugural do rádio e da televisão, encontrará o debate e as experiências que ensaiaram deslocar o papel consagrado do jornalista na sociedade para todos os cidadãos. Com a fragmentação alucinada das informações, devido às facilidades tecnológicas da distribuição, mais do que nunca carecemos do jornalista-autor-repórter, com presença legitimada, para criar a articulação complexa dos sentidos da realidade imediata, com consciência identitária e sensibilidade estética. As gramáticas estão permanentemente em crise porque correm atrás do prejuízo: a formação contínua, insisto, do jornalista vai muito além de velhas ou novas gramáticas. A sociedade sabe reconhecer a importância e os desafios do comunicador social, profissionalizado e escolarizado. Porque essa mesma sociedade, a não ser os que cedem a impulsos juvenis, ainda não inventou outra forma de socializar e preparar profissionais de qualquer área a não ser por meio da Escola, da experiência inovadora da pesquisa.

IHU On-line – Se o jornalismo ocidental tradicional está imerso em empirismo factual e objetividade, amparado pela lógica cientificista, em que se ampara esta outra produção espontânea que tem surgido nas redes?
Cremilda Medina –
 Já contamos com uma massa crítica considerável que desconstruiu o tecnicismo, a lógica cientificista e os pressupostos da objetividade. Aliás, tenho a oportunidade de citar um dos meus livros em faço esse exercício: Ciência e jornalismo, da herança positivista ao diálogo dos afetos (São Paulo: Summus Editorial, 2008). Verifiquei, nos estudos, que essas questões não são exclusivas do jornalismo (ocidental), e sim de uma herança que perpassa todos os saberes disciplinados. Gosto de citar, na prática interdisciplinar que venho desenvolvendo de 1990 em diante, que a medicina traz muita lenha para o fogo desses debates.

Daí a importância da pesquisa que se consagrou em todas as áreas, mas em particular nas ciências da comunicação. Um autor de narrativas da contemporaneidade (ou Reportagem), filiado a um processo de pesquisa, não se entrega cego ao reducionismo técnico tradicional nem ao espontaneísmo da liberdade de expressão. Procura constituir um repertório, atuar com noções complexas, estudar a dialogia e se inspirar nos artistas com sensibilidades muito sintonizadas com o povo para então criar uma narrativa de escuta profunda. Daí o jornalista democrático migrar da Era da Liberdade de Expressão Individual para o Direito Social à Informação. Este percurso possível já está documentado, muito antes da atual euforia com as redes digitais.

IHU On-Line – No início deste ano, o QuakeBot, do LA Times, foi o primeiro a escrever uma notícia sobre um terremoto nos Estados Unidos. O HomicideReport, no mesmo jornal, escreve sobre todos os homicídios ocorridos na cidade. Como você encara esta “virada não humana” que o jornalismo semântico e de base de dados, entre outros, traz para a prática jornalística?
Cremilda Medina –
 Os dados e informações equacionados em gráficos, estatísticas, respondem a uma mentalidade que pretendia controlar os acontecimentos por meio das aparências quantitativistas. A cobertura econômica, por exemplo, padece com essa concepção exclusiva da mensuração. Não que os números e o factual esquemático sejam descartáveis numa narrativa humanizada no cotidiano, mas serão sempre informações complementares.

O jornalista, o repórter, não pode se entregar à epiderme das bases de dados: já aprendeu, na solidez histórica dos valores editoriais, que é preciso dar vida a essa pele e fazer a leitura interpretativa das estatísticas. Ou seja, levar a informação quantitativa para a vida e o protagonismo pretensamente representado em um determinado número. Dados em si não expressam social e individualmente as histórias humanas marcadas pela diferença. Podemos apelar para os historiadores que, na crise de paradigmas contemporânea, agregaram, à objetividade documental, histórias de vida, testemunhos e outras ricas leituras do acontecimento. Ora, o jornalismo sempre alimentou a polifonia e a polissemia de seu discurso com esses recursos.

IHU On-Line – Ao ser mediada pela tecnologia, com foco em números e dados objetivos, quais os perigos da desumanização da produção jornalística? Qual o espaço para o diálogo dos afetos?
Cremilda Medina –
 Na medida em não formos afetados pelas neopatias (doença ou delírio com a novidade), continuaremos afetos ao Outro e não nos encarceramos no Ego. Problema que se põe para nossos netos como para todos os profissionais. O diálogo médico-paciente, paciente-médico atesta esse desafio. E afinal, como nomear de comunicador aquele indivíduo que não está afeto a seu povo? Salvem-nos os artistas que não abdicaram dessa comunhão poética.

IHU On-Line – Buscando se adequar à lógica dos pageviews e do compartilhamento que privilegia as emoções, o storytelling, e as histórias de interesse humano, o jornalismo se rende cada vez mais a formatos típicos das redes sociais. Como equalizar relevância informativa e interesse público sem se render ao sensacionalismo?
Cremilda Medina – 
O lúdico, a emoção prazerosa é o grande ato emancipatório do ser humano. Dolorosamente descobrimos isso na arte do inconsciente que, no hospício, é a maneira sublime de transcender à internação, à esquizofrenia. Por que então “censurar” o lúdico, o emocional. Sempre provoquei essa questão em termos pedagógicos para que a narrativa jornalística conjugasse o drama social à experiência lúdica. Excessos ditos sensacionalistas é outra questão: a voz íntima e humana do repórter pode alertar para a quebra dos limites. Dificilmente os códigos de ética ou as regulações jurídicas falam mais alto do que a voz interior de um profissional consciente desses limites.

Ivana Bentes: Memética, multidão e midialivrismo – A comunicação pós-mídia de massas

Para Ivana Bentes, o mídialivrista é um corpo da multidão e a comunicação é uma das formas de mobilizar e organizá-la e expressá-la

Por: Andriolli Costa
Revista IHU On-Line 447

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Ivana Bentes

Pesquisadora e professora de Comunicação, Ivana Bentes relembra que o termo “pós-industrial” vem no lastro de transformações mais amplas no próprio campo da economia. É o próprio Capitalismo que se torna pós-industrial, que, desta forma “co-evolui com os processos de comunicação de massas”. Segunda ela, o modelo industrial fordista, fabril, mecanicista “vem dando lugar a uma problematização do vivo e das redes, paradigma biotecnológico que incide nos processos de produção de conhecimento, entre eles o jornalismo”.

Pensar que o modelo tradicional produziu e impôs uma cultura e estética próprias, implica em pensar também que o pós-industrial tem igualmente seus próprios valores. “O modelo da comunicação pós-mídia de massas é a conversação e/ou a memética, ideias replicantes, memes que buscam se reproduzir e para os quais somos meros vetores”.

Em entrevista concedida por e-mail à IHU On-Line, Bentes analisa o portal colaborativo recém-lançado da Mídia NINJA, as diferenças entre o posicionamento ideológico das mídias tradicionais e das emergentes, uma compreensão de mídia Multidão (a partir de Negri) e de seu interesse no prefixo pós em jornalismo: “apontar para a emergência desse campo aberto e desconfigurado de experiências heterogêneas e díspares de midialivrismo e midiativismo que emergiram nas redes sociais, assim como essa conversação e interconexão incessante”. Um movimento que, para ela, os conceitos clássicos de jornalismo não dão conta.

Ivana Bentes é professora e pesquisadora da linha de Tecnologias da Comunicação e Estéticas do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da UFRJ. É Doutora em Comunicação pela UFRJ, ensaísta do campo da Comunicação, Cultura e Novas Mídias. Foi Diretora da Escola de Comunicação da UFRJ de 2006 a 2013. É coordenadora do Pontão de Cultura Digital da ECO/UFRJ. Atualmente desenvolve as pesquisas: “Estéticas da Comunicação: Novos Modelos Teóricos no Capitalismo Cognitivo” (pesquisa CNPQ) e “Periferia Global” sobre o imaginário e as ações vindas das favelas e periferias na cultura brasileira e no cenário global e suas redes de articulação.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Em que consiste pensar uma comunicação pós-mídia de massas? Quais paralelos você percebe com o conceito de jornalismo pós-industrial, produzido pelo Tow Center de Columbia?
Ivana Bentes –
 O campo da comunicação e da produção de conteúdos é estruturante no capitalismo do conhecimento. Estamos falando de transformações mais amplas no próprio campo da economia no chamado capitalismo cognitivo ou pós-industrial que co-evolui com os processos de comunicação de massa. O modelo industrial fordista, fabril, mecanicista (da produção em série, da repetição, homogeneização) que produziu uma cultura, um pensamento e uma estética, vem dando lugar a uma problematização do vivo e das redes, paradigma biotecnológico (com seus processos viróticos, por contaminação), que incide nos processos de produção de conhecimento, entre eles o jornalismo.

Não que esse modelo de produção fordista deixe de existir, mas perde a centralidade com a disseminação das redes sociais, plataformas, dispositivos de publicação e difusão de conteúdos. Até a memética, teoria inspirada nos memes  replicantes proposta por Richard Dawkins , vem da biologia. Essa produção instantânea realizada por uma multidão heterogênea desloca os intermediários clássicos: a corporação jornalística, o jornalista profissional, as agências de noticias, põe em xeque a “reserva de mercado” que existia para os formadores de opinião corporativos.  Aponta para outros modelos e campos, expandidos.

A discussão que interessa é como as redes sociais, com sua miríade de singularidades e processos de subjetivação rompem com a lógica da reprodução através da informação e da comunicação que neutraliza e domestica os acontecimentos, reduzindo a imprevisibilidade, conformando ao já sabido.  Essa proliferação e disseminação pós-midias de massa já está acontecendo e criando uma nova ecologia midialivrista, uma quantidade muito de grande de coletivos, redes, grupos e também “perfis”.

Pessoas que individualmente começam a se ver e assumir como produtores relevantes de conteúdos. Essa percepção de que a mídia somos nós, esse conjunto de singularidades que podemos acessar, com quem podemos interagir e trocar realmente é uma mutação antropológica. E, mais do que isso, não é o jornalismo que se tornou o modelo das trocas nas redes. O modelo da comunicação pós-mídia de massas é a conversação e/ou a memética, ideias replicantes, memes que buscam se reproduzir e para os quais somos meros vetores.

Ivana Bentes

IHU On-Line – De que forma pensar em uma explosão de singularidades, e não na unidade da ideia de “massa”, altera ontologicamente o jornalismo?
Ivana Bentes –
 As modernas teorias da informação e da comunicação não se deram conta que a conversação é à base de uma nova erótica do contato, da contaminação, da experiência da insurgência em fluxo. Temos que compreender essa outra lógica do sentido, esse cooperação entre muitos, entre singularidades quaisquer que estabelecem uma “conversa infinita” como propunha Blanchot , uma outra comunicação, quando ela escapa ao poder.

Não se trata de se “informar” no sentido jornalístico, mas efetivamente experimentar uma prática dialógica, em que a conversação entre muitos cria pensamento. É uma experiência que altera ontologicamente o jornalismo pensado como prática de poder, que se esconde sob o manto do informar, “reportar”, reproduzir. Estamos vendo um deslocamento da comunicação para sua função expressiva e de invenção, nessa conversação de muitos com muitos. Não que essas funções clássicas desapareçam. Mas do que nos serve estar “informado” se não temos autonomia ou meios para criar conhecimentos derivados, para fazer da informação potência de transformação dos desejos e das crenças?

A mídia de massa, na sua prática pseudocientífica ou “neutra” e “imparcial” funciona com palavras de comando ou de ordem, como colocam Deleuze  e Guattari . O jornalismo e a publicidade massivos trabalham com comandos: “ordenar, interrogar, prometer, afirmar, não é informar” (…) “a informação é apenas o mínimo estritamente necessário para a emissão, transmissão e observação das ordens consideradas como comandos”, dizem de forma certeira, pois essas informações trazem pressupostos implícitos, não discursivos, obrigações sociais.

A questão hoje é menos nos informar, do que entender justamente que “palavras de ordem” e mundos estão embarcados na informação e nas controvérsias. Mapear essas controvérsias, como propõe Bruno Latour , mas para arrancar, explicitar, as palavras de ordem que as habitam. Para criar outros possíveis e sensíveis. O que entendo como comunicação “massiva” é tudo o que nos rouba a potência de efetuar outros mundos e pensamentos.

A distinção pode ser feita também nesses termos: existe um jornalismo massivo que funciona buscando a unificação e a centralização, a homogeneização, a diminuição da polifonia, que desconsidera a ruidocracia e a heterogeneidade das falas. Buscar essa unidade na variedade tem seu preço e é diferente de buscar a multiplicidade e as diferenças em si mesmas. São pressupostos realmente distintos.

IHU On-Line – Como você compreende o pós-jornalismo? O Mídia NINJA e demais experiências de midiativismo seriam suas manifestações?
Ivana Bentes – 
O prefixo “pós” é uma comodidade que indica que estamos problematizando um campo, a modernidade ou no caso o próprio jornalismo, como regime discursivo. O que me interessa no “pós” é apontar para a emergência desse campo aberto e desconfigurado de experiências muito heterogêneas e díspares de midialivrismo e midiativismo que emergiram nas redes sociais, assim como essa conversação e interconexão incessante. É um momento em que os conceitos clássicos de jornalismo não dão conta das experiências que estão sendo feitas.

IHU On-Line – De que forma essas novas articulações midiáticas espontâneas e temporárias, como nos protestos de junho passado, dialogam com o conceito de multidão de Negri ?
Ivana Bentes – 
O conceito de Multidão de Negri não esgota as possibilidades e matrizes conceituais que podemos invocar para pensar o midialivrismo, o midiativismo, ou a reconfiguração pós-mídias de massas do campo da comunicação. Mas podemos usar o conceito de Multidão para entender como pode haver sinergia e cooperação entre singularidades, entre diferentes, e distinguir multidão cooperante de uma massa amorfa e “irracional” ou do conceito de “povo” (domesticado e referente a um Estado-Nação).

Gosto da definição do Gabriel de Tarde  que diz belamente: “a sociedade é a possessão recíproca, sob as mais variadas formas, de todos por cada um”. A leitura que Maurizio Lazzarato  faz de Tarde também nos ajuda a dar carne a Multidão: “essa captura mútua estabelece fluxos de crença e de desejo que constroem imanentemente o mundo, se estabelece uma maneira diferenciada de pensar o social, pois a cooperação e a coordenação entre cérebros precede as relações entre trabalhador e capitalista, explorado e explorador, relações estas que são fundadas na primeira relação de cooperação e coordenação.”.

Pensando na mídia livre, podemos dizer que o sujeito qualquer, o mídialivrista, diferente do jornalista corporativo, não está em um protesto, ato, manifestação, apenas para fazer o registro (ou reportar) dentro de uma relação de trabalho. Ele é um corpo da multidão e a comunicação é uma das formas de mobilizar e organizar, expressar, essa Multidão.

Público
Tarde concebe também outra noção absolutamente pertinente que é a ideia de público, sublinhada por Maurizio Lazzarato. Para ele o público (a Multidão, poderíamos dizer no sentido negriano) não é nem a massa amorfa e nem um conjunto de diferentes grupos ou classes (de pertencimento exclusivo e único). Para ele o público se compõe de indivíduos que podem pertencer “simultaneamente a diferentes públicos”, caracterizando um multipertencimento.

Muitas vezes o conceito de Multidão parece abstrato e incapaz de dar conta, por exemplo, de comportamentos francamente fascistas nos protestos.  Também poderíamos continuar perguntando, essa foi uma das questões trazidas por Junho de 2013, mas como uma Multidão pode se organiza sem liderança? Essa organização, para Gabriel Tarde, se dá por influência mútua. É o que permitirá que alguma ordem, ainda que não estável, apareça.  Mas certamente existem outras formas de organização e auto-organização.

As questões que Negri traz com o conceito de Multidão já estavam presentes em Deleuze e Guattari no conceito de Rizoma e de Multiplicidade, em Mil Platôs – Capitalismo e Esquizofrenia (São Paulo: Editora 34, 2011), igualmente disruptivos e inspiradores.

IHU On-Line – É possível pensar em um jornalismo de multidão? Como seria?
Ivana Bentes –
 Mídia Multidão para mim é a possibilidade de incluir o público na produção desse pós-jornalismo (que não descarta técnicas e práticas que sempre existiram como a apuração, reportagem, pesquisa, edição, etc.). Por exemplo, as informações trazidas pelas redes (cruzadas com as informações colhidas nas ruas) funciona, nas transmissões on-line da Mídia NINJA (no ao vivo do streaming) como um GPS humano, um novo circuito rede-rua.  O chat da transmissão (onde todos comentam livremente) vira um lugar de atualização, contrafação, disputa, colaboração, uma real ruidocracia intensa e instigante. Mais do que isso, é parte de uma experiência de subjetivação coletiva singular, uma audiência que interage, comenta, informa, analisa, dialoga e interage com o cinegrafista/performer nas ruas, orienta espacialmente e subjetivamente (inclusive debochando, criticando, trazendo repertórios outros).

Esse pós-telespectador faz parte do ao vivo de forma distinta da audiência televisiva tradicional, apontando para uma televisão reversa, em que o chat de comentários, mas poderia ser uma outra câmera em diálogo, se constitui como parte de uma intensa demanda por sentido e montagem que ativa o “ex-pectador” tornado inter-ator. As transmissões ao vivo funcionam como um “material bruto” que vai sendo editado, montado, coletivamente e ao vivo. Podemos pensar esse potencial nas redes sociais também, as conversas infinitas e diálogos que se dão junto às postagens originais e que rivalizam, complementam, perspectivam o dito. Conceitos como o de polifonia em Mikhail Bakhtin , a teoria P2P, o perspectivismo são arsenais conceituais para pensarmos essas experiências no que tem de potenciais e radicais. Pois obviamente podem também se apresentar como novos processos de massificação, centralização e homogeneização.

IHU On-Line – Recentemente, o Mídia NINJA estreou um portal colaborativo. Em junho passado, a cobertura feita pelo grupo foi criticada por fugir de preceitos do jornalismo – não apenas em termos de imparcialidade, mas também quanto à própria forma. Fotos e vídeos sem edição, áudios ruidosos, streamings infinitos, sem necessariamente a preocupação com o relato jornalístico. Por outro lado, esta estética foi aplaudida por outros grupos que enxergavam nela uma “anti-narrativa”, diferente do padrão de qualidade das mídias tradicionais – sendo inclusive incorporada por estas em sua cobertura. Em seu portal atual, no entanto, percebe-se texto enxutos e informativos, fotos bem editadas, etc. Como você entende estas aproximações inevitáveis entre dois modelos tão distintos e por vezes conflitantes?
Ivana Bentes –
  A principal diferença  a meu ver é entre uma mídia que monopoliza e controla a produção de mundos e os processos de subjetivação e outras práticas e conceitos que apontem para a emergência de uma “intelectualidade de massa” e uma cultura popular digital, ou seja, a distribuição da inteligência humana, com as transformações na forma de sentir, ser e conhecer.

Concretamente, vejo que as postagens da Mídia NINJA e de outros coletivos, mesmo quando não vem assinadas, explicitam sua parcialidade e de onde se fala. Funcionam muito mais como crônicas, parciais e subjetivas, do que textos informativos. Carregam mundos possíveis dentro de cada enunciado.  Cada “matéria” traz uma causa, um afeto, um horizonte de mundos em torno da “notícia”.  Essa comunicação por afetação e não por discurso de verdade é uma distinção. Buscam essas diferentes modulações subjetivas por isso a Mídia NINJA vem enfrentando o desafio de produzir narrativas plurais, alternando perspectivas, o que mesmo certo ativismo não admite. Ficam prisioneiros de um discurso de verdade.

Por exemplo, em plena Copa das Confederações, em 2013, no auge dos movimentos e protestos que explodiram no Brasil, a Mídia NINJA cobriu as manifestações anti-Copa, foi pra linha de frente entender a linguagem da violência dos Black Bloc, mas também fez a etnografia reversa mostrando os mundos fabulados pela Juventude católica que veio ao Brasil acompanhar a visita do Papa e se confrontou com outros valores, por exemplo, ao cruzar a Marcha das Vadias que fazia um uso erótico de cruzes e signos católicos, podendo [essa juventude] se deixar contaminar ou não por essas derivas. Narrar esse “choque” de mundos, perspectivar é realmente sair da prisão dos guetos.

Ou seja, vejo um midiativismo que não se fechou em uma narrativa “monolinguistica” que só fala para um grupo, atravessou mundos apontando como grupos distintos veem-se a si mesmos e aos outros no mundo. A troca de pontos de vista entre singularidades em luta podendo constituir um Comum, além de apontar, de fato, para a “possibilidade de sermos outros do que somos”, como no perspectivismo de Eduardo Viveiros de Castro .

Essa mobilidade subjetiva, esse colocar-se em outro “ponto de existência” me parece decisivo para um novo ativismo. A nova plataforma da Mídia N iNJA trouxe esse respiro, conseguindo expressar com a intensidade necessária. A disputa de mundos contida no enunciado necessário e provocador do #NãoVaiTerCopa e a palavra de ordem do #VaiTerCopa efetuando diferentes possíveis. A Mídia NINJA imbricou e implicou, nas crônicas e coberturas em rede, perspectivas aparentemente inconciliáveis entre manifestantes e torcedores na Copa do Mundo de 2014 em curso, mostrando que o dilema manifestar ou torcer era redutor e empobrecedor. Essa mobilidade, essa capacidade de entrar e sair das controvérsias construindo lugares Comuns de lutas me parece decisiva para o midiativismo. Essas ideias sugerem uma possibilidade de redefinição relacional de dualismos estéreis a partir do conceito de perspectiva ou ponto de vista. Ou seja, particularmente acho a teoria do perspectivismo do Viveiros de Castro, muito mais inspiradora que o conceito (quando usado de forma abstrata) de Multidão.

IHU On-Line – Embora os modos tradicionais de fazer jornalismo estejam, de alguma forma comprometidos com o mercado e seus anunciantes, iniciativas “independentes” também dependem, por sua vez, de financiamento governamental, de grupos ou de entidades filantrópicas. Em última instância dependem, ao menos, do interesse do público em acessar sua produção. O que muda na ideologia das novas possibilidades de produção jornalística?
Ivana Bentes – 
A Mídia Livre e o midiativismo é resultado do trabalho de seus colaboradores. A Mídia NINJA, por exemplo, que acompanho de perto e da qual sou uma entusiasta, conta com a estrutura e força de trabalho da rede Fora do Eixo para realizar suas atividades, além de organizações internacionais que se interessam em custear a formação de novos agentes de comunicação e a produção de conteúdos ligados às questões socio¬ambientais e culturais. Ou seja, tem autonomia conceitual, politica e financeira, em relação aos poderes econômicos.

Não existe financiamento ou alinhamento ideológico com nenhum partido politico, o compromisso é com a luta por direitos fundamentais e mais do que direitos é uma luta para dar visibilidade e efetuar a infinidade de mundos possíveis que precederam e ultrapassaram o que chamamos hoje de capitalismo. As causas se transformam em pautas e vice-versa. É um esforço enorme para a construção de um Comum, de um solo de lutas, que não “centraliza”, nem unifica, mas potencializa diferenças. Isso é criar autonomia. A palavra independente é um equívoco porque tudo se comunica e somos co-dependentes uns dos outros. A ecologia midiativista e esse outro jornalismo só existem porque emergiu uma miríade de mídias e coletivos em todo o Brasil e no mundo.

Mas, se formos radicalizar, o que financia o novo jornalismo ou midiativismo? A própria vida de cada um. Pois se trata de atividades que excedem e rompem a relação trabalhista ou de subordinação a um patrão ou centralidade. A cooperação entre cérebros, a transferência de conhecimentos e a produção entre pares, a cooperação livre, a gestão compartilhada com a comunidade de produtores de conteúdos. Essas são as características de um pensamento e cultura P2P (peer to peer), entre pares, que ai sim podemos dizer que é “alternativa” ao modelo fordista.

Sobre modelos de financiamento, existe toda uma nova economia do comum e das redes que vai desde o financiamento coletivo, crowdfounding, doações, cooperativismo. Mas é preciso pressionar por politicas públicas para a Mídia Livre.  Os grandes veículos de comunicação sobrevivem com alto investimento público, tanto em publicidade quanto com crédito e financiamento, assim como renegociações de dívidas tributárias. Por outro lado, não existe nenhum tipo de politica pública que democratize investimentos destinados às redes, blogs, sites, plataformas de Mídia Livre. É preciso que a Mídia Livre se constitua como campo e como sujeito politico novo reivindique politicas especificas para fortalecer essa. A distribuição dos desejos mudou. O possível foi criado, ou seja, novas possibilidades de vida estão se expressando e se trata de efetuá-las.

André Lemos: Mídias massivas e pós-massivas no fluxo das redes

Pesquisador de cibercultura, André Lemos defende uma distinção entre funções midiáticas para compreender a complexidade do atual ecossistema de mídia

Por: Andriolli Costa
Revista IHU On-Line 447

Referência brasileira na pesquisa em cibercultura, André Lemos aponta ser impossível compreender o atual ecossistema midiático tendo em vista apenas a visão tradicional de comunicação de massas. Afinal, como seria possível observar, sob a mesma ótica, um jornal impresso, um programa de TV, um canal do Youtube e um perfil do Facebook? Certamente os padrões não seriam os mesmos.

“Não se trata de uma mídia necessariamente contra a outra”, esclarece ele, “embora tensões e investimentos publicitários possam vir a matar uma ou outra, mas de uma expansão do ecossistema midiático”. Lemos fala, dessa forma, de mídias de função massiva e de função pós-massiva. As primeiras, normalmente concessão do Estado, controlam o fluxo da informação — “que deve passar pelos mediadores profissionais”. São mantidas por verbas publicitárias, grande empresas e grupos políticos.

Já as de função pós-massiva, potencializadas pela articulação e globalização das redes telemáticas, descentralizam o fluxo informativo (que escapa aos profissionais institucionalizados). “A emissão é aberta, sem controle, mais conversacional”. A distinção, no entanto, vai além da simples antítese entre analógico e digital. “Podemos encontrar função pós-massiva em fanzines e rádios-pirata, e função massiva em usos do Facebook ou do Twitter por empresas jornalísticas, por exemplo.”

Em entrevista concedida por e-mail à IHU On-Line, André Lemos discorre sobre a incorporação da função pós-massiva pelos meios tradicionais, os formatos de associação (como o crossmídia e o transmídia), a inteligência coletiva das redes e a necessidade de qualificar as associações, sob o risco do surgimento de uma estupidez coletiva. Trata ainda da internet das coisas e o modo como sua emergência gera mudanças tectônicas no jornalismo. “Com a expansão da internet para os mais diversos objetos, vamos ver uma ampliação de formatos jornalísticos usando Big Data”, acredita. E finaliza: “Estamos caminhando para um fluxo gigantesco e em tempo real de dados sobre o mundo, e o jornalismo deve adaptar-se a esta nova situação”.

André Lemos é graduado em Engenharia Mecânica pela Universidade Federal da Bahia – UFBa, com mestrado e doutorado em Sociologia pela Université Paris Descartes – Paris 5. É professor da Faculdade de Comunicação e do Programa de Pós-Graduação em Comunicação e Cultura Contemporâneas da UFBa e coordenador do Grupo de Pesquisa em Cibercidade (GPC). Atualmente debruça-se sobre a pesquisa A comunicação das coisas: Internet das coisas, big data e smart cities. Entre diversos livros, Lemos é autor de A Comunicação das Coisas. Teoria Ator-Rede e Cibercultura (São Paulo: Annablume, 2013), O Futuro da Internet. Em direção a uma ciberdemocracia planetária (São Paulo: Editora Paulus, 2010), que escreveu junto com Pierre Lévy, e Cultura das Redes. Ciberensaios para o século XXI (Salvador: Edufba, 2002).

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Você propõe uma distinção entre mídias de função massiva e pós-massiva. Em que consiste cada uma?
André Lemos –
 Como é dito, trata-se mesmo de uma função. As mídias de função massiva são, em sua maioria, concessão do Estado, controlam o fluxo da informação que deve passar pelos mediadores profissionais, instituem e alimentam um público (audiência, consumidores, massa) e são mantidas por verbas publicitárias, grandes empresas e grupos políticos. Estas mídias criaram a esfera e a opinião públicas modernas. São mídias de informação. As mídias de função pós-massiva surgem com as possibilidades ampliadas de circulação da informação com a globalização das redes telemáticas. O fluxo é descentralizado, típico de uma rede heterogênea, sem centro. A emissão é aberta, sem controle, mais conversacional. São pequenas, médias e grandes empresas que funcionam sem, no entanto, serem concessão do Estado. Embora as funções remetam para uma diferença entre mídias analógicas e digitais, podemos encontrar função pós-massiva em fanzines e rádios-pirata, e função massiva em usos do Facebook ou do Twitter por empresas jornalísticas, por exemplo.

IHU On-Line – De que forma a emergência de uma tensiona a outra no ecossistema midiático?
André Lemos –
 O que estamos vendo hoje é uma remediação (para usar o termo de Bolter e Grusin ) de uma estrutura sobre a outra. Não se trata de uma necessariamente contra a outra, embora tensões e investimentos publicitários possam vir a matar uma ou outra, mas de uma expansão do ecossistema midiático com formas ampliadas de mediação massiva e pós-massiva. Novos formatos de associação emergem, como os ditos crossmídia ou transmídia e novas práticas conversacionais e informacionais surgem.

André Lemos

André Lemos

IHU On-Line – Com os leitores/usuários exigindo conteúdo e tratamento cada vez mais personalizado e individual, ainda faz sentido produzir na lógica da comunicação de massas?
André Lemos –
 Sim, temos lógicas de massa em mídias digitais como Twitter e Facebook. Muitas empresas jornalísticas e políticos usam estas mídias sociais como se estivessem usando a televisão, o rádio ou o jornal. Falam para uma massa, passam “informações” e não querem muita conversação. É uso de função massiva em mídias que pode desempenhar funções pós-massivas, já que em redes telemáticas. Querem apenas se fazer presentes no novo ambiente, mas o usam de forma tradicional. Por outro lado, o uso massivo é importante para criar a esfera e a opinião públicas mais homogêneas, menos fragmentadas e mais comunitárias, locais. Embora as novas mídias sejam sempre um reforço da experiência de localização da informação, as mídias tradicionais de função massiva ainda fazem isso muito bem. Acredito que mais rico será este ecossistema se mantivermos fluxos massivos e pós-massivos livres, cada um na sua modalidade de liberdade.

IHU On-Line – Tendo em vista a ubiquidade da tecnologia, a facilidade cada vez maior de produção e distribuição de conteúdo por qualquer pessoa e o acesso ao big data, qual a participação do usuário na produção noticiosa atual? E quais as perspectivas para este envolvimento no futuro?
André Lemos –
 Temos uma expansão de fontes de informação pela ampliação da esfera conversacional, como mostrei mais acima. Cada pessoa hoje pode produzir e distribuir informação ao vivo de forma intencional. E cada pessoa hoje gera muitos dados de forma também involuntária, pelo simples fato de usar tecnologias e serviços digitais (Big Data). E os objetos também passam a gerar muitos dados, a trocar informações de forma autônoma entre eles. Os dados (todos estes três tipos) podem gerar notícias no que se chama de Data-Driven Journalism (o The Guardian é um dos pioneiros no uso dos dados para produzir as narrativas) ou Database Journalism (que é o uso dos dados para organizar a informação, sendo BBC, The New York Times e The Guardian exemplos interessantes).

Com a expansão da internet para os mais diversos objetos, vamos ver uma ampliação de formatos jornalísticos usando Big Data. Os dados gerados pelos usuários de forma intencional (vídeos no YouTube, posts no Twitter e Facebook, queixas em sites de relacionamento com empresas, fotos no Flickr ou Instagram) serão importantes, mas não tanto quanto os dados gerados involuntariamente por eles, ou em fluxo contínuo pelas coisas (estradas, pontes, carros, posts de luz, eletrodomésticos). Estamos caminhando para um fluxo gigantesco e em tempo real de dados sobre o mundo, e o jornalismo deve adaptar-se a esta nova situação.

IHU On-Line – Em que consiste pensar a inteligência coletiva das redes? Quais os avanços e limites desta inteligência no que tange à informação?
André Lemos –
 A coletividade pode ser emancipadora ou muito conservadora e retrógrada. A rede é sempre, em sua estrutura mesma, ecumênica, colocando em princípio todos e tudo em contato com todos e tudo (vejam a nova dimensão da internet das coisas ). Inteligência, para existir, precisa ser sempre coletiva ou fruto de “pontualizações” de uma coletividade. Isto dito, muito há de ser feito para transformar potência em realização. Produzir inteligência requer muito esforço. É preciso proporcionar e cultivar boas associações, ou seja, aquelas que serão produtoras de processos de emancipação e sustentabilidade.  A internet é uma rede que ampliou de forma planetária as formas e qualidades de associações. Precisamos qualificá-las e valorizá-las, ou tudo pode desaguar apenas em estupidez coletiva.

André Lemos

IHU On-Line – A desconfiança em relação aos meios tradicionais, junto à articulação conjunta de usuários, apontou diversos equívocos e incongruências em matérias veiculadas no jornalismo diário. No entanto, por vezes, estes mesmos grupos de usuários da rede fazem circular e recircular informações falsas e conclusões precipitadas . Quais os perigos da inteligência coletiva das redes quando todos não apenas se tornam emissores, mas também assumem o papel de “especialistas”?
André Lemos 
– A pluralidade de vozes é sempre algo bom, e os que estão em uma determinada ação ou polêmica podem e devem falar até mais do que os especialistas. São eles que sabem dos problemas, e não os especialistas. Devemos estar sempre com os pés no chão e deixar falar os que estão envolvidos sem passar sempre por tradução dos experts. A internet possibilita esta explosão de vozes e permite visualizar as diversas associações de pessoas e coisas. Veja, por exemplo, as diversas formas existentes hoje de mapeamento de dinâmicas sociais em redes (pelas mídias ditas “sociais” — e aqui voltamos a primeira questão: para ser “mídia social” deveria estar desenvolvendo funções pós-massivas, o que nem sempre é o caso), com imagens muito interessantes das mediações (grafos e plotagens as mais diversas, mostrando as topologias sociais das redes sociais). Estas imagens mostram (não sem problemas e vieses) o social se fazendo nas associações. O que vai nos ajudar a compreendê-lo em sua dinâmica. Agora em relação ao jornalismo, que parece ser o específico da sua questão, voltamos à dinâmica do massivo e do pós-massivo. O trabalho especialista, profissional é muito importante e deve ser valorizado.

IHU On-Line – De que formas a mídia locativa tem sido utilizada para a produção jornalística? O que ela pode agregar do ponto de vista informativo?
André Lemos –
 Informação é o que “dá forma” a algo que só faz sentido se for localizado e localizável, por e para quem produz, distribui e consome. Os novos dispositivos e redes sociais produzem e distribuem cada vez mais informações localizadas (um post no Twitter ou no Facebook, um “check in” no Foursquare, uma foto no Instagram…). Ora, os veículos jornalísticos sempre fizeram isso. Produzem informações locais e veiculam informações globais. As mídias locativas só ampliam os instrumentos para o exercício do jornalismo. Jornalismo em base de dados e jornalismo com mídias locativas estão em desenvolvimento com veículos (o The Guardian, por exemplo), explorando as novas possibilidades, como dissemos acima.

IHU On-Line – É possível pensar que esta integração entre espaços físicos e virtuais — promovida pelo documentário situado, a realidade aumentada e outros formatos — representa um novo tipo de experiência de mundo mediada pela técnica?
André Lemos –
 A Amazon acaba de lançar o seu smartphone  que será uma espécie de leitor do mundo para comprar coisas na megaloja virtual. Parece ser um excelente equipamento com o que há de mais avançado na tecnologia dos celulares, com tela 3D inclusive. Mas o que mais me chamou a atenção foi o Firefly, um sistema que permite ao smartphone identificar qualquer coisa para a qual ele aponte: um QR Code, um número de telefone ou qualquer objeto. Ora, esta integração é mesmo algo fantástico, pois parece ser mesmo o que faltava para este dispositivo, que está sempre colado ao nosso corpo: criar uma interface total para com o mundo.

Olho para uma árvore e aponto para saber que árvore é esta, para um objeto exótico e descobrir seu nome, para um monumento e ver a sua história, sem precisar ter aplicativos específicos que fazem isso, mas que requerem diversas ações até chegar à informação. Vejam que isso foi construído por uma megaloja que vende desde clips de papel a submarinos de brinquedo. Assim sendo, ao apontar para alguma coisa, posso achar rapidamente esta coisa para comprar na Amazon. Mas o que está em jogo é o princípio de mediação e conexão entre o mundo real e o informacional.

A integração vem desde as primeiras técnicas que fizeram e continuam a fazer a mediação e construir a relação do homem com o mundo. Esta mediação produz o mundo. E isso não é ligado ao falso, ao simulacro, ao desvio nefasto do artifício. O que devemos perguntar é se a construção pela mediação é boa ou não. Mas é real o que é produzido na mediação. Hoje, com as técnicas informacionais, estamos vendo a integração ampliada das informações do mundo sobre o mundo. E devemos destacar duas coisas aqui: que não sabemos o que é o mundo, e este definitivamente não é apenas o que a nossa mente produz e acessa sobre ele (a fenomenologia clássica, ou a epistemologia científica). E outra que a informação nunca é uma visão total do objeto, já que é a produção de uma “in-formação”, de uma “formação”. É, portanto, uma narrativa que deve ser sempre remetida em causa, politizada.

Joshua Benton: O lugar da informação no ecossistema midiático

Para Joshua Benton, a ideia de uma organização de notícias universal estará limitada a um pequeno número de grandes atores

Por: Andriolli Costa / Tradução: Moisés Sbardelotto
Revista IHU On-Line 447

Joshua Benton

Ao traçar um panorama do ecossistema midiático contemporâneo, o relatório Jornalismo Pós-Industrial afirma ser impossível olhar para instituições tão diferentes como o Texas Tribune, o blog da Suprema Corte dos Estados Unidos e as redes sociais e enxergar alguma coerência. Da mesma forma, é igualmente impossível lançar os olhos sobre iniciativas de jornalismo sem fins lucrativos, financiamentos via Kickstarter ou cobertura de protestos via telefone celular e convencer-se de que “tornar informações públicas ainda pode ser feito somente por profissionais e instituições”.

Neste contexto de pluralidade de emissores, em que o monopólio da difusão de informação escapa aos meios tradicionais, qual seria o papel do jornalismo? Fazer a curadoria de informações relevantes? Congregar o debate público? Atuar como mediador da sociedade? Para Joshua Benton, diretor do Nieman Lab, o jornalismo sempre exerceu diversos papéis, não apenas o de informar, e continuará a desempenhá-los. “Esse purismo em busca do fato não é útil para as publicações de notícias que tentam sobreviver à transição.”

Em entrevista por e-mail à IHU On-Line, Benton fala da relação que sempre existiu entre jornalismo e emoção e sobre o modo como cada veículo encara suas próprias definições de “interesse público” e “interesse do público”. Trata ainda do relatório de Inovação do The New York Times, que descreveu como “um dos documentos mais importantes desta era midiática”.

Joshua Benton é graduado em História pela Yale University. Possui 10 anos de experiência como jornalista profissional, passando por veículos como o The Dallas Morning News. É fundador e diretor do Nieman Journalism Lab, laboratório de qualidade no jornalismo na era digital da Universidade de Harvard criado em 2008. Entre os projetos que desenvolve no Nieman está o Fuego, um bot que rastreia no Twitter o que se fala sobre o futuro do jornalismo (http://bit.ly/fuegonlab).

Confira a entrevista.

IHU On-Line – O Nieman Lab existe desde 2008, com uma equipe dedicada a pensar o jornalismo em tempo integral. De lá para cá, você percebeu mudanças na relação do jornalismo com as novas mídias? O projeto Riptide  foi capaz de dar bons insights sobre isso?
Joshua Benton – 
Muitas mudanças. De modo geral, as empresas de notícias perceberam que seus modelos antigos não funcionarão para sempre e que o ajuste a um futuro digital não é uma opção, é uma necessidade. É claro que essas mudanças estão acontecendo em velocidades diferentes entre países, entre meios de comunicação e entre publicações, mas estão acontecendo em todos os lugares. Há também uma nova classe de organizações noticiosas nativas digitais que não existiam na mesma quantidade em 2008. Essas organizações estão traçando uma série de caminhos a seguir que podem ser sustentáveis.

IHU On-Line – Em texto publicado no Nieman Lab, você descreve o relatório vazado do New York Times como “um dos documentos mais importantes desta era midiática” . Em que o relatório é tão revelador?
Joshua Benton –
 É revelador porque ele não era para consumo público (ou mesmo para o consumo da redação do Times), por isso ele é incomumente honesto em detalhar as questões culturais no cerne de qualquer organização noticiosa tradicional que tenta se tornar mais digital. As lutas pelo poder, as regras antigas que permanecem inflexíveis, os fluxos de trabalho e as prioridades de natureza centrada na imprensa — tudo isso existe em milhares de redações ao redor do mundo. O relatório pode servir como consultoria gratuita para as redações do mundo.

IHU On-Line – No relatório do Times, descobrimos que a maioria dos acessos do jornal não vem mais da homepage. Buscar a “primeira página”, como na lógica do impresso, ainda faz algum sentido? Em que isso pode implicar no fluxo de trabalho das redações?
Joshua Benton –
 Os números variam de site para site, mas, em termos gerais, a distribuição social está aumentando, e isso acontece no nível da página do artigo com mais frequência. Então, certamente não há nenhuma garantia de que o seu leitor está acessando todo o pacote que você montou para ele. Isso sempre foi verdade — mesmo na imprensa, havia pessoas que pulavam direto da capa para a seção de esportes, por exemplo — mas, no ambiente online, isso é cada vez mais verdadeiro. O relatório do Times tem uma boa seção sobre a tirania da página 1 impressa como uma força organizadora do dia — a página inicial do site [homepage] não tem exatamente o mesmo impacto, mas ainda é uma força organizadora, cuja importância varia da redação para a audiência. Cada história, até certo ponto ao menos, luta pela sua própria vida.

IHU On-Line – Pensando nos compartilhamentos sociais como determinantes para a circulação e recirculação dos conteúdos, e tendo em vista sites como Buzzfeed e Upworthy, percebe-se que o engajamento se dá mais pelas emoções geradas  (tanto positivas quanto negativas) do que pelo valor-notícia do acontecimento. O jornalismo dos novos tempos deve redefinir seu conceito de notícia para se enquadrar na lógica do compartilhamento?
Joshua Benton –
 Primeiramente, é falso acreditar que a emoção não era uma grande impulsionadora de notícias antes da web. Basta ler qualquer jornal tabloide ou assistir a um gato sendo resgatado de uma árvore em um programa de televisão. Sempre houve uma audiência que quer sua notícia de forma direta e sem emoção, mas essa audiência também sempre foi menor do que a audiência que quer algo mais. Cada organização de notícias decidirá por si mesma onde quer ficar nesse espectro. Mas, de um modo geral, a postura “objetiva” e reservada de algumas organizações tradicionais de notícias é mais propensa a ser desafiada no ambiente online. Isso não significa que todo mundo se torne Upworthy, mas significa, sim, que vale a pena assisti-los.

JoshuaBentonIHU On-Line – Se informar prova-se insuficiente, qual o papel do jornalismo hoje? Fazer a curadoria de informações relevantes? Congregar o debate público? Atuar como mediador da sociedade?
Joshua Benton –
 Eu não concordo com esta premissa. O jornalismo sempre fez um monte de coisas e desempenhou muitos papéis. Ele vai continuar a fazer um monte de coisas e a desempenhar muitos papéis, inclusive os que você menciona. Esse purismo em busca do fato não é útil para as publicações de notícias que tentam sobreviver à transição.

IHU On-Line – Equalizar “interesse público” e “interesse do público” sempre foi uma constante na imprensa. É mais difícil realizar esta equação no ambiente digital com as métricas de pageviews? Como escapar da redução ao sensacionalismo, às soft news e aos fait divers?
Joshua Benton –
 Novamente, eu não concordo com a premissa. Ela nem sempre tem sido uma constante. Diferentes organizações de notícias, incluindo diferentes organizações de notícias muito boas, tiveram ideias muito diferentes sobre o que era de “interesse público” ou de “interesse do público”. Os jornais publicavam horóscopos, dicas de jardinagem, anúncios classificados, receitas, colunas esportivas, histórias em quadrinhos, reportagens investigativas, relatórios de vigilância. Cada publicação terá que definir o valor que proporciona à sua audiência.

IHU On-Line – Com a pluralidade de vozes da internet — muitas destas de especialistas em seus respectivos nichos — que alcance resta a uma imprensa que ainda busca realizar uma comunicação massiva?
Joshua Benton –
 A mídia de massa não está morta, mas está sendo concentrada em novas formas. A geografia, por muito tempo uma restrição para a distribuição de ambos os modelos, impresso e de radiodifusão, está diminuindo em importância, o que incentiva novos atores de nichos nacionais e globais. Em grande parte, isso é uma coisa boa, uma vez que os interesses de um indivíduo são definidos para além da sua latitude e longitude. A ideia de uma organização de notícias universal estará limitada a um pequeno número de grandes atores.

IHU On-Line – Quais ações de inovação você tem acompanhado para o jornalismo para TV ou para rádio? O futuro é a convergência para os meios digitais?
Joshua Benton –
 A TV e o rádio não foram tão afetados quanto os jornais, por isso tem havido menos inovação por lá. E as primeiras gerações da web favoreceram o texto como formato, de modo que os maiores inovadores online tinham mais em comum com uma herança impressa do que com a da radiodifusão. A televisão também é protegida por um custo mais alto de acesso para a produção de vídeo de qualidade e por uma complexa rede de relações de negócios com anunciantes e plataformas de distribuição. Os próximos cinco a dez anos serão fundamentais.

Luiz Martins da Silva: Jornalismo, pós-jornalismo e protojornalismo. Uma imprensa de múltiplas camadas

Luiz Martins da Silva faz a distinção entre categorias teóricas de compreensão do jornalismo que coexistem, por vezes, até na mesma página

Por: Andriolli Costa
Revista IHU On-Line 447

Luiz Martins da Silva

A história da imprensa mostra que o jornalismo, tal qual o conhecemos hoje, não foi sempre assim. Formatos que hoje facilmente seriam atribuídos à imprensa, como a entrevista ou a manchete de primeira página, instituíram-se principalmente a partir do século XIX. O mesmo se pode dizer sobre características como objetividade, factualidade ou isenção. Até meados de 1800, a imprensa nos Estados Unidos era fundamentalmente partidária e parcial. Mais tarde, na chamada penny press, apelava a boatos e ao sensacionalismo para chamar a atenção do público. É notória, por exemplo, a cobertura feita pelo The Sun em 1835 sobre a descoberta de homens-morcego vivendo na lua — além de toda uma vasta fauna digna de clássicos da ficção científica.

Este jornalismo sensacionalista, no entanto, não deixou de existir com a emergência de novos formatos e valores para o fazer jornalístico. Em verdade, ainda hoje encontra espaço no ecossistema midiático, coexistindo com um jornalismo objetivo e factual, ou com aquele que busca o serviço e a contextualização. Por vezes no mesmo jornal, ou mesmo em uma única página. Com isso em vista, o professor e pesquisador Luiz Martins da Silva fundamenta a divisão em três categorias teóricas de compreensão de orientações enunciativas: protojornalismo, jornalismo e pós-jornalismo.

Em entrevista concedida por e-mail à IHU On-Line, ele esclarece que, atualmente, em um universo de informações disponíveis na rede, não basta mais oferecer ao público o factual. “É preciso agregar serviço, utilidade, interpretação, análise, dicas, contatos, seção de ‘para saber mais’, infografias”, entre outros. Para ele, os jornalistas alinhados ao pós-jornalismo arvoram-se “à condição e ao dever de missionário”, fornecendo o contexto necessário para que o cidadão use as informações disponibilizadas como produto básico para gerir o cotidiano. Mas complementa: “na nossa análise, o que mais marca o pós-jornalismo é uma nova forma de engajamento. Se nos primórdios da imprensa havia um engajamento político-partidário, hoje esse engajamento está mais para temas novos e legitimadores, como cidadania, ecologia, sustentabilidade, etc.”.

Luiz Martins da Silva é graduado em Jornalismo pela Universidade de Brasília – UnB, com mestrado em Comunicação e doutorado em Sociologia pela mesma universidade. Desde 1988 é professor da UnB, onde coordena atualmente o Programa de Pós-Graduação em Comunicação. Silva coordena, ainda, o Grupo de Pesquisa Jornalismo e Sociedade e desenvolveu uma série de projetos de pesquisa com apoio do CNPq, entre eles A ideia do pós-jornalismo (2010-2013). É autor, entre outros livros, de Teorias da Comunicação no século XX (Brasília: Casa das Musas, 2009) e Ética na Comunicação (Brasília: Casa das Musas, 2008).

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Você faz uma distinção entre protojornalismo, jornalismo e pós-jornalismo, que conviveriam no mesmo ecossistema midiático. Como você as compreende e como elas se apresentam na imprensa?
Luiz Martins da Silva –
 São mais categorias teóricas de compreensão de orientações enunciativas do que propriamente estruturas puras e estanques. Podemos, no entanto, identificá-las por meio de três formas de enunciação: sensação, informação e comunicação. A presença do sensacionalismo no jornalismo marcou toda uma etapa, digamos, de uma fase primitiva do jornalismo, em que a informação era muito mesclada à sensação, a um formato, digamos, de “encantamento” do mundo no que ele tem de mágico, mítico e até de bizarro. A segunda fase corresponde a um momento em que o jornalismo quer se diferenciar desse seu lado próximo ao fantástico (leia-se “conto maravilhoso” ). Trata-se do advento de uma ideologia jornalística, aquela segundo a qual o jornalismo trabalha com fatos e não com ficção ou opinião.

IHU On-Line – Você descreve o pós-jornalismo  como aquele que supera a função informativa para envolver também os contextos e serviços. Neste modelo, os jornalistas “arvoram-se à condição e ao dever de missionário”. Tendo em vista que a imagem do jornalista como watchdog da sociedade e do jornalismo como um quarto poder, que equilibra os demais, se manifesta desde o início do século XX, até que ponto esta proposta ainda não pertence ao modelo tradicional de jornalismo?
Luiz Martins da Silva –
 A partir do momento em que o jornalismo procura ultrapassar o fato enquanto valor-notícia e procura se diferenciar em termos de fornecimento de um produto, produto esse que passa a contar com um valor-agregado. Não basta mais oferecer ao público a informação factual. É preciso agregar serviço, utilidade, interpretação, análise, dicas, contatos, seção de “para saber mais”, infografias, contexto e, por vezes, toda uma “tradução” do acontecimento, às vezes meramente geográfica [o típico quadradinho no mapa mundi]. Mas, na nossa análise, o que mais marca o pós-jornalismo é uma nova forma de engajamento. Se nos primórdios da imprensa havia um engajamento político-partidário, hoje esse engajamento está mais para temas novos e legitimadores, como cidadania, ecologia, sustentabilidade, etc.

IHU On-Line – Se o jornalismo é fruto da modernidade nos séculos XVII–XVIII, de que maneira o pós-jornalismo dialoga com a pós-modernidade?
Luiz Martins da Silva –
 No sentido da hibridização de gêneros — profissionais e redacionais — e no sentido da própria embalagem do produto jornalístico: mix de linguagens e de suportes, hipermidiáticos, hipertextuais, etc. E também uma hibridização entre informação, educação e diversão. O radiojornalismo, por exemplo, mescla-se, hoje, com outros suportes e linguagens. A TV, por sua vez, espera que o telespectador interaja, que obtenha mais detalhes no site da emissora e até vote em favor de algum tipo de preferência.

sensacionalismo

IHU On-Line – Dentro desta lógica (do pós), para que serve e a quem serve o jornalismo?
Luiz Martins da Silva –
 Para que a informação seja o produto básico a partir do qual o consumidor e o cidadão poderá mais facilmente gerir o seu cotidiano: clima, impostos, trânsito, finanças, concursos públicos e todo um tipo de assessoramento, por exemplo, de saúde. Há, hoje, um fenômeno que já foi denominado de mídia consultório. A informação factual, sozinha, ficou ainda mais descartável. A parte de serviço serve mais à gestão do cotidiano (conscientização em torno de participação, direitos e deveres). A segmentação dos temas funciona também como um cardápio: da política aos esportes, passando por ciência, tecnologia e, claro, toda a herança antiga que ainda sobrevive (crimes, sexo, fofocas, etc.).

IHU On-Line – Como você percebe a influência das novas mídias, tecnologias e redes sociais no modo de fazer jornalismo?
Luiz Martins da Silva –
 O jornalismo, enquanto profissão, prossegue sendo uma atividade própria e apropriada, com relação aos jornalistas. Lidar com a informação e com a circulação da informação, local, nacional e globalmente, há muito deixou de ser um monopólio dos jornalistas e dos aparatos jornalísticos. O jornalista não é mais o senhor e o principal protagonista dos cenários midiáticos. Em algumas circunstâncias, diria, os indivíduos e os coletivos até são mais profícuos em termos de criação e difusão de acontecimentos midiáticos e de fatos (impregnados de valor-notícia).

IHU On-Line – Qual o papel a ser assumido pelo jornalista, que deixa de ser o gatekeeper  em um contexto de ranço contra as grandes organizações midiáticas, do surgimento de iniciativas de mídia independente e da proliferação de múltiplas vozes pela internet?
Luiz Martins da Silva –
 Eu diria que o papel de gatekeeper até ficou mais fortalecido, pois os editores continuam como peritos institucionais na seleção e na hierarquização dos acontecimentos midiáticos e dos fatos jornalísticos. A comunicação à base do few to many já não é predominante, mas a comunicação à base do many to many ainda é muito caótica. Os jornalistas ainda mantêm muito da sua competência, enquanto experts, não só temáticos, mas na embalagem da informação jornalística. O seu lastro institucional, do passado e do presente, contribui, é claro, com maior credibilidade, quando a narrativa é procedente de uma fonte jornalística profissional e empresarial, embora se saiba de grandes barrigas desse jornalismo juramentado e de megatendências políticas, nacionais e internacionais.

IHU On-Line – No contexto das redes, onde as fronteiras entre emissor e receptor são borradas, a notícia escapa aos meios jornalísticos? Ou para ser notícia é preciso que o fato seja interpretado por um profissional de imprensa?
Luiz Martins da Silva –
 Há toda uma apropriação mútua, mas eu diria que a maior apropriação ainda se dá dos fatos a partir, digamos, da chamada “grande imprensa”. Os fatos originalmente carimbados como “jornalísticos” passam por todo um reaproveitamento por parte das redes sociais. A própria mídia não vive, hoje, sem essa sua extensão, que são as redes sociais. Ultimamente, no entanto, há toda uma guerra de tendências de opinião e militância nas redes sociais. Sabe-se que em Brasília, por exemplo, há equipe de “profissionais” de comunicação trabalhando a serviço de candidatos, cuja tarefa básica consiste em fazer “bombar” o que há de positivo em torno de um candidato e “queimar” o filme do concorrente.

IHU On-Line – Em 1690, Tobias Peucer  escreve Os Relatos Jornalísticos, texto considerado seminal para a Teoria do Jornalismo. Nele, aponta ainda no surgimento da imprensa características presentes como: atualidade, novidade, utilidade, as pressões econômicas do negócio e a necessidade de satisfazer a curiosidade humana. É possível compreender as mudanças estruturais no jornalismo mais como atualizações do que como novidades?
Luiz Martins da Silva –
 Tobias Peucer continua atual e necessário, pois falar de jornalismo e de produtos jornalísticos é, ao mesmo tempo, discorrer ainda sobre categorias de informação: desde as últimas novidades até as novidades últimas (o necrológio ). Desde as informações descartáveis ou imediatamente perecíveis até o colunismo que se esmera em ser o oráculo de Delfos. Há, portanto, o jornalismo que se ocupa do que já foi noticiado. Coisas do tipo: “às dez horas da noite você já está informado, mas precisa saber mais”. Há de se perguntar sobre que tipo de iluminismo faz com que os jornalistas sejam capazes de dar explicações adicionais sobre a ‘realidade dos fatos’. É uma espécie de metajornalismo, jornalismo sobre jornalismo, metalinguagem jornalística.

IHU On-Line – Deseja acrescentar mais alguma coisa?
Luiz Martins da Silva –
 O jornalismo, os jornalistas e o negócio jornalístico nunca passaram por mudanças estruturais tão radicais, tão próximas e tão impactantes. O jornalismo, no entanto, é uma categoria social, tanto quanto a arte, a literatura, o folclore. E é por isso que ele sobrevive e sobreviverá. O cotidiano precisa de uma representação de si próprio, ainda que na aldeia todos já saibam o que aconteceu. A representação midiática é tão importante para a compreensão da realidade quanto a própria.

John Pavlik: Entretenimento e informação no envolvimento da audiência

John Pavlik trata dos esforços para promover a interatividade e capturar a atenção do público em direção ao terceiro estágio do jornalismo online

Por: Andriolli Costa / Tradução: Andriolli Costa
Revista IHU On-Line

Em 2001, John Pavlik descreveu o que seriam os três estágios de evolução do jornalismo digital. O primeiro se caracterizaria, basicamente, pela replicação do mesmo conteúdo da edição impressa na versão online. O segundo pelo uso de hiperlinks, da produção de conteúdo diferenciado e de uma interatividade básica com o leitor. O terceiro, por fim, seria aquele jornalismo de conteúdo original, com narrativas não lineares e experiências únicas.

Hoje, 13 anos depois, o pesquisador acredita que ainda vivemos o segundo estágio, com a emergência de conteúdos digital first e novas experiências proporcionadas pelo jornalismo de base de dados. “No entanto, a maior parte do conteúdo atual ainda não está adequadamente otimizada para utilizar as capacidades do ambiente digital em rede.”

Em entrevista concedida por e-mail à IHU On-Line, ele considera que envolver a audiência é um dos imperativos do jornalismo nos dias de hoje. Dessa forma, o chamado infotenimento — união de informação e entretenimento — direciona boa parte dos esforços da redação. “Para chamar a atenção das pessoas, muitas vezes é necessário produzir notícias agradáveis e, por vezes, divertidas. O problema ocorre quando histórias importantes perdem espaço para notícias de celebridades e fofocas.”

Pesquisador do impacto das novas tecnologias na mídia, Pavlik desenvolveu, ainda nos anos 1990, diversos softwares para comunicação, como o Fire! and Fatal!, um simulador de notícias para DOS; o Native Voices, um diretório de mídia de indígenas americanos; e o Media Technology Chronology, uma base de dados para a evolução de novas tecnologias. Já nos anos 2000, foi cocriador do Documentário Situado, que une dispositivos móveis e realidade aumentada para construir narrativas hiperlocais, revelando as informações conforme o usuário passeia a câmera pelo local do acontecimento.

John V. Pavlik é graduado em Jornalismo e Comunicação de Massas pela University of Wisconsin–Madison, com mestrado e doutorado em Comunicação de Massas pela University of Minnesota. É professor do Departamento de Jornalismo e Estudos de Mídia da Escola de Comunicação e Informação na State University of New Jersey e professor assistente na Columbia Institute for Tele-Information (CITI). Atuou em diversas instituições dos Estados Unidos, tendo sido inclusive pesquisador associado da Northwestern University, no Qatar. Entre suas publicações destaca-se Journalism and new media (New York: Columbia University Press, 2001) e o mais recente, Converging Media (Oxford: University Press, 2012).

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Quais as características do atual momento do jornalismo digital?
John Pavlik –
 Esta é uma boa pergunta, mas também é muito ampla. Poderíamos escrever um livro inteiro sobre este tópico. Para responder de maneira sucinta, eu diria que há três características gerais do jornalismo digital. Primeiramente, o crescimento da interação, com inputs do público na forma de repórteres cidadãos e mídias sociais. Com relação a isso, percebemos que as notícias da era digital são muito rápidas, quase sempre em tempo real, e muitas vezes carecem de apuração.

Em segundo lugar, temos o crescimento da multimídia, com áudio, vídeo e outras formas de conteúdo emergentes — como a realidade aumentada. Em terceiro, é o crescimento do jornalismo orientado por base de dados (data-driven), com Big Data e algoritmos empregados via códigos de computador para identificar e relatar histórias, produzindo visualizações baseadas em dados e semelhantes.

Este jornalismo digital é normalmente desenvolvido por profissionais do fazer jornalístico que sejam éticos e capazes de, cada vez mais, colocar as histórias em um contexto mais amplo. Ainda assim, a incerteza do estado financeiro do jornalismo digital é uma grande preocupação da área.

IHU On-Line – Você diria que vivemos um terceiro estágio do jornalismo digital, como descrito em Journalism and new media? Ou a emergência das redes sociais, do jornalismo semântico, entre outras inovações, dão indícios de um novo estágio?
John Pavlik –
 Eu diria que estamos principalmente vivendo no segundo estágio do jornalismo digital, com a abordagem geral das publicações sendo a produção de conteúdo original voltado primeiramente para o digital (digital first). No entanto, a maior parte do conteúdo atual ainda não está adequadamente otimizada para utilizar as capacidades do ambiente digital em rede.

IHU On-Line – De que formas as narrativas jornalísticas vêm sendo alteradas pelas novas mídias? Quais exemplos você destacaria?
John Pavlik –
 Um dos melhores exemplos de como a narrativa está evoluindo por causa da nova mídia, ou permitida pelo uso inovador das novas mídias, é a narrativa orientada por base de dados (data driven). A seção The Upshot , recentemente lançada pelo The New York Times, é um bom exemplo disso.

IHU On-Line – De que forma os novos meios e modos de contar histórias e a emergência de uma sociedade midiatizada promovem uma outra relação do cidadão com a democracia?
John Pavlik –
 Os cidadãos ao redor do globo não são mais receptores passivos de mídia. Pelo contrário, são participantes ativos e contribuintes de um discurso público animado sobre grandes e pequenos assuntos. E isto se deve muito às mídias sociais e aos dispositivos de mídia móvel.

IHU On-Line – Narrativas como os newsgames ou o documentário sitiado permitem dizer que, em tempos de conectividade, a experiência é mais relevante que a informação?
John Pavlik –
 Newsgames são uma oportunidade cada vez mais interessante para que jornalistas inovadores envolvam a audiência com a notícia por meio de técnicas interativas. A proposta ainda está em fase inicial, mas é muito promissora — especialmente como modo de envolver cidadãos mais jovens e usuários de dispositivos móveis.

johnpavlik

John Pavlik

IHU On-Line – O futuro do jornalismo é o infotenimento?
John Pavlik –
 Isto é inevitável, uma vez que os cidadãos não precisam se envolver com o noticiário. Dessa forma, para chamar a atenção das pessoas, muitas vezes é necessário produzir notícias agradáveis e, por vezes, divertidas. O problema ocorre quando histórias importantes perdem espaço para notícias de celebridades e fofocas. Existe, é claro, um lugar para estas notícias de “veja que cachorrinho bonitinho”, mas isso não deve superar o relato de histórias com implicações importantes para o mundo.

IHU On-Line – De que forma o pensamento de Marshall McLuhan se atualiza neste novo ecossistema midiático?
John Pavlik –
 As ideias de McLuhan são bastante relevantes para o jornalismo digital. Talvez o mais relevante seja sua noção de aldeia global. Hoje, com 5 bilhões de pessoas conectadas via redes de comunicação digital em todo o mundo, as notícias e informações também podem ressonar globalmente — sobretudo por meio das mídias sociais e dispositivos móveis. Veja o caso do #bringbackourgirls , na Nigéria, por exemplo.

IHU On-Line – Em um contexto de aldeia global, como explicar a força emergente de um jornalismo hiperlocal?
John Pavlik –
 Este é um ótimo exemplo do adágio “Pense globalmente, aja localmente”. Usar as redes de mídia para relatar e explorar histórias locais, mas conectadas a temáticas e comunidades mais abrangentes, potencialmente globais, farão com que o jornalismo digital torne-se mais importante e que implique em mais consequências no século XXI.

IHU On-Line – Deseja acrescentar alguma coisa?
John Pavlik –
 Fazer boas perguntas e manter a inovação, mas de maneira ética e por meio do envolvimento do público, com comprometimento com a liberdade de expressão. Este deve ser o mantra do jornalista digital.