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Tradução: Os ares de um Papa que oxigena a Igreja

Todd A. Salzman e Michael G. Lawler analisam o pontificado pela perspectiva das mudanças que Francisco propõe. Mudanças que ainda não se efetivaram, mas que indicam movimentos

Papa-Francisco-ciencia

Publicada na Revista IHU On-Line 465
Por: Márcia Junges e João Vitor Santos
Tradução Andriolli Costa

“A maioria vê Francisco como um sopro de ar fresco”. Assim Todd A. Salzman e Michael G. Lawler definem como o atual pontificado é visto nos Estados Unidos. Para eles, é mais ou menos isso que Francisco faz com conceitos e posições da Igreja. Ele não os modifica, mas é como se abrisse uma janela. Por essa abertura há entrada de oxigênio, capaz de alimentar e trazer luz às discussões. É um começo. Um exemplo é quando os professores tratam do ensino moral segundo a leitura de Bergoglio. “Há certamente uma evolução no tom de Francisco quando se trata do ensino moral”, argumentam. Porém, alertam: “Para que tal evolução ocorra, no entanto, Francisco precisa traduzir esta ternura e amor de uma perspectiva pastoral em mudanças substantivas no ensino doutrinal”.

Os teólogos refletem sobre o papel da mulher na Igreja. “Papa Francisco tem pedido por uma ‘teologia das mulheres’, o que é um passo encorajador. No entanto, este pedido negligencia o fato de que não são poucas as fontes sobre teologia feminista e teologia das mulheres que claramente articulam o papel e a função das mulheres na Igreja ao longo da história.” E também passam por temas como a configuração das famílias nos dias de hoje. “‘Família é família’, e devemos nos envolver com a realidade em que vivemos, não no modo como desejamos que ela seja”, destacam ao pontuarem a necessidade de compreender as pluralidades que constituem as famílias hoje.

Num tom sóbrio, sempre destacando os avanços de Francisco sem desconsiderar os desafios que precisa enfrentar para a efetivação das suas ideias na prática, os entrevistados ainda comentam sobre união homoafetiva, mudança de uma ética sexual para social, misericórdia popular, acolhimento a divorciados e comunidade LGBT, entre outros temas. Para entender o que inspira o Papa, os professores ainda buscam referências no Concílio Vaticano II.

Todd A. Salzman é Ph.D pela Universidade Católica de Louvain, na Bélgica. Michael G. Lawler é graduado em Matemática pela Universidade de Dublin e em Teologia pela Pontifícia Universidade Gregoriana – PUG, em Roma. É Ph.D em Teologia Sistemática pelo Instituto Aquinas de Teologia, em Saint Louis. Ambos lecionam no departamento de Teologia da Universidade de Creighton, nos Estados Unidos. Ambos são autores do importante livro A Pessoa sexual. Por uma antropologia católica renovada, traduzido para a língua portuguesa e publicado, em 2012, pela Editora Unisinos.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Quais aspectos do Papado de Francisco são os mais relevantes em relação ao magistério moral?
Todd A. Salzman e Michael G. Lawler –
Há dois aspectos fundamentais no Papado do Papa Francisco relevantes para o magistério moral. O primeiro aspecto é a mudança da eclesiologia de Francisco da de seus predecessores (como veremos na última questão). Quando comparada com a eclesiologia mais hierárquica e autoritária dos Papas João Paulo II e Bento XV , a eclesiologia de Francisco é uma tentativa de realizar a autêntica visão eclesiológica do Concílio Vaticano II , com sua ênfase na fraternidade ou na eclesiologia do povo de Deus. A visão eclesiológica de Francisco é evidente em sua ênfase de que o clero e os episcopados precisam escutar e servir os fiéis.

Francisco “exortou os sacerdotes do mundo a levarem a cura da graça de Deus a todos os necessitados, a estarem próximos dos marginalizados e a serem ‘pastores que vivem com o cheiro de suas ovelhas’”. Criticou também a cúria romana, afirmando que era a lepra do Papado: Ela cuida dos interesses do Vaticano que ainda são, em grande parte, interesses temporais. Essa visão vaticano-cêntrica negligencia o mundo ao seu redor, e diz que vai fazer de tudo para mudá-la. Suas tentativas de centrar tanto o clero quanto o episcopado no serviço ao povo de Deus pode ter profundas implicações sobre o ensino moral. Quando os clérigos são encarregados de viverem com as ovelhas, essa experiência não pode deixar de transformar suas perspectivas e, com sorte, talvez o modo como pensam sobre questões morais de maneira pastoral e sobre os ensinamentos da moral do magistério passe a ser visto à luz desta perspectiva transformada.

Da ética sexual a ética social
Em segundo lugar, a própria mudança de Francisco de uma ética sexual para uma ética social é uma mudança extremamente necessária na perspectiva do magistério moral. Ele percebe que a Igreja se tornou “obcecada” com questões como o abordo, contracepção e casamento gay. Ao invés disso, ela precisa se focar em servir os pobres e oprimidos, e a confrontar o pecado social que leva e perpetua a pobreza. Há muito se diz que o magistério moral possui duas abordagens éticas fundamentalmente diferentes, dependendo do fato de responderem à ética social ou à ética sexual. A abordagem da ética social está evoluindo (historicamente consciente) em diálogo com contextos sociais, históricos e culturais, e fornece princípios gerais (como bem comum) para guiar as pessoas na hora de discernir ações moralmente responsáveis. A abordagem da ética sexual é estática (classicista), restritiva a um modelo único, não considera contextos sociais, históricos e culturais e fornece normas punitivas absolutas que comandam pessoas a não realizarem certas ações.

O exemplo filipino
A tragédia da inconsistência de abordagens entre a ética social e sexual é resumida na viagem do Papa Francisco às Filipinas. Nesta viagem, uma jovem garota filipina – que sobreviveu nas ruas recolhendo comida do lixo e dormindo sobre papelão, perguntou: “Por que Deus deixou isso acontecer conosco?”. A pobreza é endêmica nas Filipinas; uma nação de cerca de 100 milhões de pessoas, em que mais de um quarto da população vive na linha da pobreza, e 36% das crianças permanecem em condição de miséria. Muitas destas crianças vivem nas ruas, uma vez que suas famílias não têm condições de sustenta-las em casa.

Por outro lado, os bispos das Filipinas tem combativo a legalização de medidas contraceptivas no país durante anos. O acesso a tais medidas não apenas ajudaria a promover a paternidade responsável e a reduzir o número de crianças desabrigadas, mas ainda poderia reduzir a mortalidade durante o parto – devido a complicações relacionadas à gravidez. O acesso legal à contracepção poderia permitir aos pais o controle de natalidade, de modo a limitar o tamanho de suas famílias e reduzir a mortalidade infantil e a mendicância por pobreza. O ensino social católico promove esta lei; o ensino sexual católico proíbe tal lei.

Abertura para diálogos e discernimentos
A mudança de foco de Francisco para uma ética social pode ajudar a direcionar esta desconexão ao permitir uma maior integração do ensino social e sexual católico, que observa contextos econômicos, culturais, sociais e políticos e apresenta princípios para guiar os fiéis católicos para a paternidade/maternidade responsável, com uma consciência bem formada dentro destes contextos. A mudança eclesiológica e o foco na justiça social pode abrir oportunidades para diálogos e discernimentos sobre o conteúdo do ensino sexual do magistério. É esse ensinamento que continua a alienar muitos dos fiéis.

IHU On-Line – Em que sentido você percebe uma evolução e quais pontos precisam de mais atenção do pontífice?
Todd A. Salzman e Michael G. Lawler –
Há certamente uma evolução no tom de Francisco quando se trata do ensino moral. Algo que o cardeal Kasper chama de “revolução da ternura e do amor”. Esta revolução pode indicar uma evolução no conteúdo do ensinamento moral. Para que tal evolução ocorra, no entanto, Francisco precisa traduzir esta ternura e amor de uma perspectiva pastoral em mudanças substantivas no ensino doutrinal. O Sínodo da Família 2015 vai fornecer uma indicação clara da evolução no ensinamento moral da Igreja sobre sexualidade, ou se este permanecerá como é, embora com uma ênfase na misericórdia e compaixão.

Acreditamos que se uma evolução não ocorrer no ensino sexual católico, especialmente no que diz respeito a contracepção, homossexualidade, divórcio e novos casamentos, o entusiasmo dos fiéis para com as mensagens positivas de ternura, amor e misericórdia do Papa Francisco vão perder seu momento. E as pessoas continuarão a deixar a Igreja Católica para procurar em outro lugar alguma tradição que encarne amor, ternura e misericórdia em relação às normas sexuais morais.

Mulher na Igreja
O papel e função das mulheres na Igreja também precisa de mais atenção. Papa Francisco tem pedido por uma “teologia das mulheres”, o que é um passo encorajador. No entanto, este pedido negligencia o fato de que não são poucas as fontes sobre teologia feminista e teologia das mulheres que claramente articulam o papel e a função das mulheres na Igreja ao longo da história e fornecem perspectivas teologicamente fundadas sobre como incluir vozes femininas nas estruturas de governança e ministérios eclesiais, o que inclui a ordenação de mulheres ao diaconato e ao sacerdócio.

IHU On-Line – Quais são os pontos mais importantes nos quais Francisco demonstra um entendimento alternativo dos ensinamentos da Igreja sobre sexualidade?
Todd A. Salzman e Michael G. Lawler –
As declarações recentes do Papa Francisco sobre complementaridade indicam uma evolução em seu pensamento sobre este conceito em relação ao entendimento do Papa João Paulo II. Pode indicar uma compreensão alternativa sobre a antropologia sexual e, por consequência, uma compreensão alternativa sobre as normas que guiam a sexualidade humana.

Para João Paulo, a complementaridade significava que duas realidades estavam interligadas, produzindo um todo que nem é e nem pode estar sozinho. Ele desenvolve esta noção seguindo linhas de gênero culturalmente baseadas de masculino/feminino que ele apresenta como linhas biologicamente baseadas como masculino/feminino. As implicações normativas do entendimento biológico da complementaridade de João Paulo significa que apenas atos sexuais do tipo heterossexual, matrimonial e reprodutivo eram moralmente aceitáveis. Todos os outros atos sexuais eram intrinsecamente ruins.

Papa Francisco abre seu tratamento da complementaridade com uma descrição genérica, que “se refere a situações em que um, de dois elementos, adiciona, completa ou preenche uma lacuna do outro”. Mais do que isso, ele acrescenta que a complementaridade “é muito mais do que isso”. Ele fornece quatro nuances para nós pensarmos teologicamente sobre este “mais”. A primeira nuance é uma nuance das escrituras. Uma referência à carta de São Paulo aos Coríntios, que celebra o fato de que “o Espírito dotou cada um de nós com diferentes dons, de modo que, da mesma maneira como os membros do corpo humano trabalham em conjunto para o bem do todo, os dons podem trabalhar em conjunto para o benefício de cada um (cf.1 Cor 12).”

A segunda nuance de Francisco é uma ênfase na complementaridade como uma ideia dinâmica e em evolução, não a “ideia simplista de que todos os papeis e relações entre dois sexos estão fixados em um padrão único e estático”.

A terceira nuance diz respeito à “crise ecológica” que aflige o casamento e a família. “Ecologia” é originalmente um conceito biológico que se refere às relações entre organismos vivos e seu ambiente, mas foi estendido em nosso tempo para incluir as relações entre grupos humanos, os padrões sociais criados por estas relações e os recursos materiais disponíveis para eles. Francisco claramente tem em mente este significado contemporâneo de ecologia, a inclusão da ideia de complementaridade na ecologia humana e o papel da complementaridade nas crises presentes nesta ecologia. Ele nos convida a refletir sobre complementaridade e o modo como os pecados sociais limitam sua plena realização e impacto para “promover uma nova ecologia humana”. Pecados sociais que criam uma ecologia social que restringe o impacto total da complementaridade incluem a pobreza, o racismo, o sexismo, a homofobia, a discriminação, o patriarcado e toda outra realidade social que frustrar e vai contra a dignidade e o relacionamento humano. O convite do Papa é para que encontremos uma definição mais complete e dinâmica da complementaridade que, simultaneamente, exponha estas ameaças à harmonia social, marital e familiar, e responda a elas.

A quarta nuance de complementaridade de Francisco é um foco na família como “fato antropológico”, que não pode ser qualificada “com base em noções ideológicas ou conceitos importantes apenas em determinado momento na história”. Experiências em nível mundial mostram que a família é definida e influenciada por instâncias culturais, históricas, sociais e legais.

Revendo conceito de família
Enquanto uma pessoa pode certamente conceber e apresentar uma noção “ideal” de família como um homem, uma mulher e seus filhos, a história e a realidade de famílias são muito mais complexas. Hoje há famílias de pais solteiros, famílias de padrastos ou madrastas, famílias adotivas, famílias de responsáveis, famílias de pais monogâmicos e não-monogâmicos e famílias de pais do mesmo sexo. Em cada um desses casos, “família é família”, e devemos nos envolver com a realidade em que vivemos, não no modo como desejamos que ela seja. Também devemos avaliar a natureza das relações entre pais e seus filhos, com base em evidências científicas, não em preconceitos especulativos injustificados.

Enquanto o discurso do Papa Francisco se foca na complementaridade como aplicada ao casamento entre homens e mulheres, as quatro nuances que ele introduz abrem a possibilidade de uma reflexão teológica e antropológica contínua sobre esses conceitos e suas implicações normativas para todas as relações humanas, heterossexuais, homossexuais e bissexuais.

IHU On-Line – Até que ponto a posição de Francisco sobre pessoas LGBT e sobre as mulheres trazem novas perspectivas às suas vidas?
Todd A. Salzman e Michael G. Lawler –
Por meio de palavras e ações, Francisco tem demonstrado uma inclusão e aceitação muito maior de membros da comunidade LGBT. De sua declaração sobre fieis gays (“quem sou eu para julgar…”) às suas reuniões e acolhidas com um homem trans, suas declarações e ações indicam uma Igreja inclusiva que acolhe todas as pessoas, especialmente aquelas que foram marginalizadas, em parte, devido ao ensino do magistério. Estes gestos fornecem uma perspectiva positiva e bem-vinda que pode transformar as perspectivas de muitos dentro da comunidade LGBT, que passam por julgamento e condenação pela Igreja.

Para completar o processo de inclusão, no entanto, Francisco deve se mover para além das interações sociais e mudar a linguagem do ensinamento oficial da Igreja em relação a homossexualidade. Classificá-la como orientação homossexual, inclinação ou tendência “objetivamente desordenada” com uma forte propensão para “atos intrinsecamente malignos” comunica uma forte mensagem de julgamento e condenação sobre a própria identidade sexual de alguém.

A preocupação de Francisco com as mulheres (e seus filhos), especialmente em termos de pobreza, e seus alertas para responder a estruturas sociais que perpetuam a pobreza e a opressão trouxeram esperança para muitas mulheres. Como afirmamos na segunda questão desta entrevista, seu pedido por uma “teologia das mulheres” deve ser seguido de um maior diálogo e integração mais completa de mulheres em papeis ministeriais e de liderança na Igreja.

IHU On-Line – Levando em conta o livro “A Pessoal Sexual” (“The Sexual Person”) , quais aspectos deste e de outros pontos de vista do Papa Francisco apontam para uma nova moralidade sexual mais aberta na Igreja?
Todd A. Salzman e Michael G. Lawler –
Em nosso livro, “A Pessoa Sexual”, destacamos uma antropologia sexual fundamentada em uma “complementaridade holística”. Esta complementaridade inclui orientação, complementaridades pessoais e biológicas e a integração e manifestação de todos os três acima em atos sexuais honestos, apaixonados e comprometidos que facilitam a capacidade de uma pessoa de amar a Deus, o próximo e a si mesmo de uma maneira mais profunda e santificada.

Duas implicações imediatas para a ética sexual católica se seguem caso se abraça a complementaridade holística como nosso principio fundamental para atos sexuais verdadeiramente humanos. O primeiro é que a norma moral absoluta do magistério que proíbe atos homossexuais deve, no mínimo, ser reexaminada. Sem uma consideração prévia da orientação sexual de uma pessoa, um ato sexual que viola a complementaridade hetero-genital não pode mais ser considerada ipso facto intrinsicamente ou objetivamente desordenada. A complementaridade genital é moralmente relevante para determinar a moralidade de atos sexuais verdadeiramente humanos, mas não é fundamental. A moralidade da complementaridade genital em atos sexuais deve ser determinada primariamente sobre a luz da orientação e da complementaridade pessoal.

A segunda implicação para uma ética sexual católica que se segue à primeira é que a fundamentação das normas morais sexuais pode precisar ser redefinida. Atualmente, o ensino do magistério pressupõe, tanto para homossexuais quanto para heterossexuais, uma relação intrínseca entre complementaridade pessoal e biológica, na qual a complementaridade hetero-genital é primária e fundamental. Nesta fundamentação, certos atos sexuais são, ipso facto, imorais por violarem a complementaridade hetero-genital – independentemente da orientação sexual e do sentido relacional do ato para a complementaridade pessoal.

Relação entre orientação e complementaridade pessoal e genital
Na complementaridade holística, há uma relação intrinsecamente integrada entre orientação e complementaridade pessoal e genital que serve como fundamento para normas sexuais. Nesta relação, tanto heteros quanto homossexuais, a orientação e a complementaridade pessoal são primárias, e são o que determinam o que constitui uma autêntica complementaridade genital em um ato sexual particular. Caso a complementaridade da orientação indique que uma pessoa é de orientação homossexual, então a complementaridade pessoal deve indicar que a complementaridade genital autêntica seria masculino-masculino ou feminino-feminino.

Atualmente, no ensino do magistério, a complementaridade hetero-genital é a fundamentação de dimensão primária para a relação essencial entre complementaridade biológica e pessoal. Em nosso modelo de complementaridade holístico, a orientação e complementaridade pessoal são as dimensões fundamentais para uma relação essencialmente integrada. As nuances do Papa Francisco ao termo complementaridade, discutidas na terceira questão, abrem caminho para o diálogo entre nossa e a sua compreensão de complementaridade, que teria profundas implicações normativas para uma moral sexual renovada na Igreja.

IHU On-Line – Vocês acreditam que uma nova moralidade sexual renovaria o desejo dos fiéis em procurar a Igreja? Por que?
Todd A. Salzman e Michael G. Lawler –
Acreditamos que a Igreja não precisa de uma nova moralidade sexual, mas de uma nova abordagem para a moralidade sexual. A atual, alega a Igreja, é baseada na lei natural, mas baseada em ações físicas e biológicas (atividade sexual, contracepção, por exemplo). Há outra abordagem sendo seguida por teólogos morais contemporâneos, incluindo nós mesmos. Desenvolvemos uma abordagem baseada não nas ações, mas nas pessoas que fazem estas ações. Acreditamos que esta abordagem é mais verdadeira para a realidade humana, porque leva em conta não apenas as ações físicas, mas também os significados pessoas tidos ao fazer estas ações. O julgamento moral envolvido, então, deve levar em conta não apenas a ação, mas o contexto da ação. Matar uma pessoa inocente é sempre imoral; matar em legítima defesa ou em situação de guerra legítima não. Assim também deve ser com o intercurso sexual.

Forçar o intercurso com uma mulher ou homem que não o deseja é sempre imoral; intercurso entre casais que se amam mutuamente pode ser perfeitamente moral, com todos os sentidos no contexto sendo positivos. A abordagem atual da Igreja é absoluta; realizar uma ação proibida, ipso facto, é imoral; nossa abordagem proposta é relacional, permitindo que a ação possa ser moral ou imoral, dependendo do contexto e sentido do ato sexual para as pessoas. Há sinais de que o Papa Francisco reconhece a legitimidade de nossa abordagem. Seu comentário sobre os gays (“Quem sou eu para julgar?”) reconhece a impossibilidade, e a imoralidade, de fazer julgamentos sem conhecer todo o contexto da ação. Acreditamos que muitos dos fiéis estão machucados e feridos, em muitos casos devido aos ensinamentos da Igreja sobre sexualidade humana (ex: membros da comunidade LGBT e pessoas divorciadas e que casaram novamente) e uma abordagem fundamentada nas pessoas para julgamentos morais pode ser a cura para estas feridas, resgatando alguns fiéis para a Igreja.

O divórcio com a Igreja
Há diversas evidências estatísticas, por exemplo, de que o tratamento de pessoas divorciadas e que se casaram novamente sem anulação levou milhares para longe da Igreja. Eles não abandonaram a crença em Cristo, apenas a crença na Igreja, que não aprendeu com o próprio Cristo. O Papa Francisco parece reconhecer isso. Sua carta anunciando o Jubileu da Misericórdia para 2016, ensina que “a própria credibilidade da Igreja é vista no modo como ela demonstra amor misericordioso e compassivo”. Acreditamos que muitos desses fiéis estão procurando por uma abordagem significativa para a sexualidade humana, fundada em pessoas e relações, não em ações e na biologia, e nossa abordagem proposta – acreditamos – permitiria que a Igreja destacasse este amor misericordioso e compassivo. Na complexidade da realidade humana, uma resposta única para tudo é insuficiente”.

IHU On-Line – Como vocês percebem o fim da controvérsia entre a LCWR e o Vaticano? O que ela significa?
Todd A. Salzman e Michael G. Lawler –
Acreditamos que a resolução desta controvérsia é resultado do “feminismo” do Papa Francisco. Ele tem sido bastante enfático sobre a igualdade entre mulheres e homens e, inclusive apontou mulheres para posições sênior no Vaticano. O exame e julgamento de mulheres religiosas foi iniciado por uma administração – tanto americana quanto romana – que era notavelmente patriarcal e que acreditava e exigia a submissão feminina para com os homens, mesmo no caso de religiosas mulheres para com bispos que não eram nem tão inteligentes e nem tão reconhecidos como cristãos pela comunidade quanto elas. Essa discrepância, na verdade, incomodou bispos americanos, que pressionaram o Vaticano para abrirem investigação contra freiras americanas. Houve ainda, como via de regra é o caso nos Estados Unidos, um fator econômico. Certos bispos americanos, cujos fundos diocesanos foram bastante prejudicados devido a pagamentos de processos de homens e mulheres abusados sexualmente por padres, queriam o controle dos fundos em posse da LCWR.

O julgamento que exonerou a LCWR e as religiosas mulheres dos Estados Unidos de todas as acusações indica que elas podem dar prosseguimento, sem preocupações, a todas as suas diversas ações cristãs fundamentais pela a Igreja, pela educação, saúde e, acima de tudo, pelo atendimento aos marginalizados; um grupo cada vez maior nos Estados Unidos.

IHU On-Line – De que forma os Estados Unidos vê/compreende o Papa Francisco?
Todd A. Salzman e Michael G. Lawler –
Não há duvidas de que a maioria vê Francisco como um sopro de ar fresco. A postura condenatória das administrações recentes foi substituída pelo “amor misericordioso e compassivo”, que mostra as pessoas que Francisco compreende e aprecia a complexidade e dificuldade de suas vidas. Um exemplo da mudança na visão dos católicos americanos diz respeito ao casamento gay. Em 2004, 36% dos católicos apoiava o casamento gay; em 2015, o número é de pouco menos de 60%.

Não temos duvidas de que a abordagem compreensiva e piedosa de Francisco (“Quem sou eu para julgar?”), frase que pode ser vista até mesmo no para-choque de carros nos EUA, tem contribuindo para a mudança.

Há, obviamente, uma minoria de católicos que se incomodaram e opuseram ao que eles temem seja um abandono da moralidade sexual católica tradicional. Muitas destas pessoas estão em posições de poder na Igreja e na sociedade secular americana, e tiveram influência no Vaticano no passado (e ainda têm, por meio do cardeal Burke). Esta minoria já está fazendo lobby para não levar a sério o que Francisco falar em sua visita aos Estados Unidos. Eles até mesmo o acusaram de dizer uma coisa por outra. Entretanto, ainda são minoria, e podem ser superados pelo apoio a Francisco e suas posições pela maioria dos católicos de base.

IHU On-Line – Quando Francisco visitar os EUA por ocasião do Encontro Mundial de Famílias, quais novas perspectivas devem ser abertas?
Todd A. Salzman e Michael G. Lawler –
Esta é uma pergunta difícil de responder com precisão. Espera-se, como mencionado acima, duas reações para presença de Francisco no País: a de uma grande maioria e a de uma pequena, mas poderosa minoria. Como Francisco articulará para atender as expectativas de ambos os grupos? Será que ele deseja fazer isso? Não há dúvidas de que a família, como tradicionalmente compreendida, está sendo problematizada nos EUA, como abordaremos na próxima questão.

Americanos, de maneira geral, e católicos, em particular, precisam ouvir uma mensagem forte sobre o valor da família, o valor da estabilidade familiar e parental para as crianças, e as implicações negativas de divórcios mais ágeis e facilitados. Temos duvidas de que, em uma sociedade em que o valor inalienável da liberdade individual é tão enraizado, se qualquer mensagem sobre esses problemas será seguida a longo prazo. Haverá, sem dúvidas, entusiasmo imediato. Mas esse entusiasmo rapidamente desvanecerá se aqueles responsáveis pelas doutrinas familiares não aceitarem o desafio e não responderem a ele ao longo do tempo.

Esperamos por uma grande e importante questão; que Francisco estenda a definição do que inclui a família para quem Deus criou os bens do mundo. Toda mulher e homem nesta família ampliada possui um direito inalienável de compartilhar dos bens do mundo. Caso não possam fazê-lo, tem igualmente o direito de esperar que aqueles que possuem acesso a estes bens – por vezes, inclusive, mais do que o seu quinhão – compartilhem com os desprovidos.

Se o discurso de Francisco sobre a família puder estender a visão dos americanos e dos católicos americanos para além da perspectiva “eu sozinho no mundo” para uma perspectiva “nós, juntos no mundo”, isso seria de grande benefício tanto para as pequenas unidades de famílias, individualmente, quanto para a grande unidade que é a família da humanidade.

IHU On-Line – Como vocês avaliam o progresso feito até hoje do pontificado de Francisco no Sínodo dos Bispos sobre a Família? Vocês acreditam que a instituição da Família está em crise? Por quê?
Todd A. Salzman e Michael G. Lawler –
Acreditamos que e Francisco avançou bastante com o Sínodo dos Bispos. No Sínodo de 2014, ele permitiu uma discussão aberta e abrangente sobre uma diversidade de tópicos relacionada a ética sexual católica. Esta discussão trouxe a tona uma série divergência de opiniões no tópico da contracepção, intercurso sexual e casamento após divórcio sem anulação. Claramente, Francisco queria tal discussão. Ele não fez nada para interferir nela, como teriam feito Bento XVI e João Paulo II. O Sínodo sobre a Família de 1980 recomendou a João Paulo um estudo da antiga prática Ortodoxa da oikonomia, que permite o casamento após divórcio depois de um período aceitável de penitência e reconciliação. Esta reconciliação não exige a rejeição da segunda esposa.

No entanto, nem João Paulo e nem Bento fizeram nada sobre esta recomendação sinodal. A Familiaris consortio de João Paulo foi sua reação oficial para o Sínodo e suas recomendações e, ainda que nele houvessem muitas coisas boas, tudo que fazia a respeito do divórcio e do segundo casamento sem anulação era reafirmar a doutrina tradicional. Francisco parece mais aberto à discussão desta questão. Ele apontou homens e mulheres leigos para que respondessem ao Sínodo. Agora, tudo que precisa fazer é fornecer a eles o direito de votar.

Crise na família
Não há dúvida de que a instituição da família está em crise profunda. No mundo Ocidental, a maioria dos jovens estão preferindo morar juntos ao invés de se casarem, e mesmo aqueles que optam por se casar, mais tarde, acabam optando pelo divórcio em grande escala – o que traz graves impactos negativos para o casal (especialmente as esposas) e seus filhos. Judith Wallerstein em Second Chances: Men, Women, and Children a Decade after Divorce, detalha este impacto negativo e propõe questões realistas que precisam ser resolvidas antes que a situação possa melhorar.

Será que o próximo Sínodo se atentará a esta situação ou vai apenas, mais uma vez, simplesmente repetir palavras piedosas sobre ser fiel à palavra de Jesus – mesmo que regimes de casamento/divórcio da Igreja remetam a outras realidades históricas antes de serem palavras de Jesus-? A prática Ortodoxa da oikonomia na fidelidade, alegam eles, vem das palavras de Jesus. Os ignorantes teológicos, dos quais nem todos são leigos, é claro, não compreendem a História.

IHU On-Line – Como avaliam a atual política do Vaticano sobre o abuso sexual cometido pelo clero?
Todd A. Salzman e Michael G. Lawler –
A política atual do Vaticano sobre o abuso sexual cometido pelo clero é bastante forte, se for cumprida. Há uma anunciada tolerância zero para padres abusadores, e há diversos exemplos internacionais desta política sendo aplicada. A política funciona apenas, é claro, até o ponto em que cada bispo individualmente a segue, e tem havido diversos casos bem noticiados nos EUA de bispos que ignoraram ou falsearam esta política. Na análise final, uma política forte é apenas uma medida paliativa para reduzir o abuso sexual cometido por clérigos e não-clérigos.

Muito mais importante que isso é a educação, que vai na raiz do problema em cada caso individual. Educação sobre igualdade de dignidade, incluindo a dignidade sexual, de todas as pessoas humanas é necessária para todos os homens e mulheres. É necessária, ainda, educação específica para o clero sobre como a dignidade sexual de cada homem e mulher se relaciona aos seus votos de celibato. Houve casos em que padres abusadores argumentaram que sua conduta abusiva não representava uma violação de seus votos de celibato pois este estava relacionado apenas a conduta sexual com mulheres. Não acreditamos, como alguns tem tão contundentemente sugerido, que o celibato está na raiz do abuso sexual cometido pelo clero, mas sim na compreensão ingênua do que ele significa, bem como do significado de uma relação sexual.

Além disso, a contínua prática de proteção institucional da Igreja para além de crianças e jovens inocentes e vulneráveis reflete uma eclesiologia que está sendo transformada no Papado de Francisco. Sua mudança de foco eclesiológico de uma Igreja de poder, autoridade e controle, para uma Igreja de serviço, diálogo e comunhão, prioriza a segurança, proteção e assistência às crianças do que segurança, proteção e assistência à reputação institucional da Igreja. Francisco é um defensor convicto dos pobres e vulneráveis, especialmente das crianças, e as políticas sobre abuso sexual devem ser cumpridas com a rápida remoção de um sacerdote que cometa abuso infantil, assim como bispos que no passado, presente ou futuro tentem dar cobertura aos abusadores – ou que utilizem meios jurídicos para oprimir e assediar as vítimas do abuso sexual.

IHU On-Line – Como teólogos da lei moral católica, qual é a Igreja que gostariam de ver destacada pelo pontificado de Francisco e as novas configurações de família?
Todd A. Salzman e Michael G. Lawler –
Há dois modelos principais da Igreja em atividade no catolicismo contemporâneo. Um é o modelo hierárquico, que é praticamente uma pirâmide, com os episcopados em um pontiagudo topo e os leigos em uma larga base. Este modelo é autoritário e todas as decisões, teológicas ou não, são tomadas pelo Magistério episcopal. O outro é um modelo de comunhão, em que os fiéis, “dos bispos até o último membro dos leigos” (Lumen gentium12), estão ativamente envolvidos nas políticas da Igreja e não podem errar quando mostram “concordância universal em assuntos de fé e morais” (ibid.). A Igreja foi o principal objeto de atenção do Concílio Vaticano II. O documento do Concílio na Igreja, Lumem gentium, é seu documento principal, e a fundação deste texto central, por concordância quase unânime, é a noção teológica da comunhão.

Francisco já deu sinais de que aprecia este modelo de comunhão, e gostaríamos que ele continue a desenvolver este modelo encontrando maneiras de envolver os leigos, tanto progressistas quanto conservadores, nas políticas da Igreja. Percebemos que uma Igreja organizada em um modelo de comunhão é muito mais difícil de ser comandada, mas apenas esta Igreja – na qual todos estão comprometidos com o “amor misericordioso e compassivo” para cada um e para todos os seus irmãos e irmãs – será capaz de superar as atuais divisões burocráticas, alheias a caridade e não-cristãs que hoje apresentam o Corpo de Cristo ao mundo.

O modelo de comunhão eclesiológica também fornece maior consideração e autoridade para uma consciência bem informada dos fiéis. Reconhecendo que a autoridade desta consciência possui profundas implicações no modo de vida dos católicos e suas famílias. Os dados sociológicos sobre católicos e suas posturas sobre assuntos como relacionamento homossexual, casamento com pessoas do mesmo sexo, contracepção, pessoas que vivem juntas sem estarem casadas, divorciados e aqueles em segundo casamento, mostram que muitos católicos vivem segundo suas consciências, independente da condenação consistente destes atos. Uma comunhão eclesiológica respeita a autoridade da consciência bem informada e promove diálogos e discernimento de modo a respeitas as perspectivas destas consciências.

Por sua vez, uma hierarquia eclesiológica tenta negar e suprimir a autoridade da consciência bem informada quando as conclusões a que chega discordam das normas restritivas e absolutas do magistério hierárquico sobre as questões sexuais e familiares. Esperamos que Francisco encoraje os fiéis a se informarem para desenvolver suas consciências, e a se empoderar para segui-las, mesmo que estas posturas vão de encontro aos ensinamentos falíveis do magistério sobre normas sexuais. A tensão criada por conflito pode ser ocasião para diálogo e discernimento, o que é encorajado pelo Papa Francisco no Sínodo ordinário e extraordinário da Família.

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O que se deve saber sobre as mudanças no Jornalismo

Por: Jay Rosen / Tradução: Andriolli Costa
Publicado no Observatório da Imprensa em 25-11-2014

Professor de jornalismo da New York University (NYU) e criador do blog Press Think, sobre crítica de Mídia, Jay Rosen compilou uma lista completa dos conhecimentos necessários para compreender as grandes tendências que vem transformando a prática jornalística. Este artigo é um guia de leitura para compreensão dos movimentos tectônicos sofridos pelo campo. O texto a seguir foi traduzido do original, com permissão do autor.

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O objetivo de minhas aulas de “Pensamento Digital” é fazer com que os alunos saiam completamente informados sobre as mudanças que estão afetando o jornalismo. Aqui estão os principais tópicos e tendências que espero que eles dominem até o final do curso,

Em cada um destes tópicos, é importante pensar: O que isso significa? Por que é importante? Para onde isto irá nos levar? Adicionei um link ou dois para ajuda-lo a começar, e fico feliz com comentários apontando o que falta nessa lista. Vamos a ela:

  1. O compartilhamento como método de distribuição nas mídias sociais, já que as plataformas sociais, especialmente o Facebook, ocupam um grande espaço na relação com os usuários. (Ver: “O uso da notícia entre plataformas de mídias sociais”)
  1. A mudança para aplicativos e dispositivos móveis, que agora ocorre em uma velocidade impressionante. (Ver “Destravando receita e audiência em dispositivos móveis: novas ideias e boas práticas”)
  1. Novos modelos de negócios para os veículos. Para além do método usual de gerar audiência para vender assinaturas e anúncios, incluindo:

* Captura de dados para anúncios direcionados e produtos personalizados.

* Venda de pesquisas e análises especializadas, seja por assinatura, como faz o GigaOm, ou por conversa, como o Techdirt.

* Eventos, aproveitando o poder convocatório do nome da empresa de notícias. (“Newsonomics do novo evento da Chattanooga Press”) (“A melhor estratégia para gerar renda por meio de eventos”)

* Publicidade nativa e modelo de agência, como fazem o Buzzfeed e a Vice. (Ver: “O BuzzFeed sabe o segredo?”).

* Modelos sem-fins lucrativos, como o ProPublica, Minn Post e Texas Tribune. (Ver: “Encontrando um ponto de apoio – Como iniciativas noticiosas sem fins lucrativos buscam sustentabilidade”)

* Financiamento coletivo (crowdfunding) e assinatura, como fazem Beacon, De Correspondent, The Guardian e Voice of San Diego.

* Faça sozinho. Iniciativas de uma única pessoa também podem funcionar.

  1. Uso do Analytics na produção de notícias. Aprender com o comportamento da audiência, sem se tornar escravo dos números. (Ver: “Preferência da audiência e julgamento editoral: Um estudo sobre a influência da defasagem de tempo nos jornais on-line”)
  1. Gerenciamento de “produto” das empresas de notícias. Integrar as equipes de tecnologia, editorial, empresarial e experiência de usuário. (Ver: ‘O condutor mestre’: Gerenciamento de produto em jornalismo)
  1. Design interativo e melhoria da experiência do usuário por meio de uma ergonomia da notícia. (Ver: “Do jornalismo à experiência do usuário. Um caminho para, talvez, nunca mais retornar”).
  1. Jornalismo de dados em todos os sentidos: coleta de dados, conexão com dados via API, visualização de dados, identificação de narrativas a partir dos dados, criação de banco de dados intuitivos a disposição da consulta do usuário, uso de sensores no trabalho noticioso. (Ver: A arte e a ciência do jornalismo de dados)
  1. Melhorias contínuas nos sistemas de gerenciamento de conteúdo e, com elas, no fluxo de trabalho conforme uma cultura de engenharia se afirma em algumas novas empresas. (Ver: “Um olhar sobre Chorus, a plataforma de publicação da nova geração da Vox Media”) (Ver: Scoop: Um olhar sobre o CMS do New York Times)
  1. Dados estruturados para obter mais valor da produção contínua de notícias (Ver: “Um motivo fundamental do porque sites jornalísticos devem mudar”) (Ver: “Na Circa, não se trata apenas de fragmentar as notícias, mas de adicionar estrutura”)
  1. Personalização dos produtos noticiosos. Por que enviar a todos a mesma reportagem? (“Como os sites noticiosos estão aumentando o engajamento com a personalização” )
  1. Transparência e confiança, conforme o clássico “confie em nós, somos profissionais” dá lugar a “nos mostre seu trabalho”. (“Caos online exige do jornalismo ações radicais para ganhar confiança”)
  1. Conteúdo gerado pelo usuário (Open Journalism), incluindo a verificação de conteúdo gerado por usuário, jornalismo com articulação em rede, financiamento coletivo e mídias sociais como ferramenta de reportagem. As pessoas, anteriormente conhecidas como “audiência”, em uma colaboração frutífera com jornalistas ao longo de todo o arco de produção – da pauta ao trabalho finalizado. (Ver: Jornalismo aberto, do The Guardian.
  1. Jornalismo robô e automatizado. Se as máquinas podem fazer um trabalho melhor e mais barato, os jornalistas humanos devem se mover mais para cima na cadeia de valor. (Ver: “A ciência de dados está levando o jornalismo robô para o mainstream”)
  1. Criação de uma cultura ágil na Redação, de modo que adaptação, colaboração e experimentação não sejam algo tão difícil. (Ver: “Como levar agilidade à redação – o que os jornalistas tem a aprender com desenvolvedores de software”)
  1. O modelo de franquia pessoal de notícias, que se baseia no acompanhamento individual de um jornalista. (Ver: 11 exemplos de recursos e detalhes do modelo de franquias pessoais no jornalismo digital)
  1. Portais verticais e jornalismo de nicho. Fazer um bom trabalho e encontrar mercado para isso, conforme avança o processo de desagregação dos grandes meios generalistas. (Ver: “Essa vida vertical: Os modelos de mídia que admiro”).
  1. O future do jornalismo contextual e explicativo, fornecendo o plano de fundo necessário para compreender as atualizações. (Ver: Um antídoto para a sobrecarga da web)
  1. “Notícias como serviço”. Mais do que um produto que aparece na agenda da empresa de notícias, um serviço que ajude o usuário a fazer algo. (Ver: “Conteúdo x Serviço – O que há, agora, para as notícias?”)
  1. Da escassez à abundância. Os jornalistas costumavam agregar valor publicando novidades. Agora eles podem servir aos usuários resgatando e organizando o melhor material a partir de um fluxo diário de conteúdo barato. Algo, por vezes, chamado de “curadoria”.
  1. Apuração de fatos e controle de rumores. A imprensa constumava lidar com informações falsas simplesmente não a publicando. Agora existe uma obrigação direta em acompanhar e acusar histórias falsas. (Ver a iniciativa Emergent.info) (Assinar o informativo semanal do Fact Checking Project)
  1. “Não estamos no comando”. No passado, empresas de mídia produziam os noticiários e possuíam seus canais de distribuição. Agora novos e importantes atores (empresas com plataformas e governos), situam-se entre usuários e jornalistas. Trabalho jornalístico passa a circular em sites sem controle de editores. Aqueles que publicam notícias precisam estar aonde está o povo, ainda que muitos destes não saibam o que está sendo feito a estas pessoas. O público deve ser alertado quanto a isso. (Ver “Os jornalistas também precisam saber tudo sobre seu ambiente midiático”)

Veja também a resposta comentada a esta lista feita pelo professor de Comunicação de Massas da Louisiana State University, Steve Buttry.

John Pavlik: Entretenimento e informação no envolvimento da audiência

John Pavlik trata dos esforços para promover a interatividade e capturar a atenção do público em direção ao terceiro estágio do jornalismo online

Por: Andriolli Costa / Tradução: Andriolli Costa
Revista IHU On-Line

Em 2001, John Pavlik descreveu o que seriam os três estágios de evolução do jornalismo digital. O primeiro se caracterizaria, basicamente, pela replicação do mesmo conteúdo da edição impressa na versão online. O segundo pelo uso de hiperlinks, da produção de conteúdo diferenciado e de uma interatividade básica com o leitor. O terceiro, por fim, seria aquele jornalismo de conteúdo original, com narrativas não lineares e experiências únicas.

Hoje, 13 anos depois, o pesquisador acredita que ainda vivemos o segundo estágio, com a emergência de conteúdos digital first e novas experiências proporcionadas pelo jornalismo de base de dados. “No entanto, a maior parte do conteúdo atual ainda não está adequadamente otimizada para utilizar as capacidades do ambiente digital em rede.”

Em entrevista concedida por e-mail à IHU On-Line, ele considera que envolver a audiência é um dos imperativos do jornalismo nos dias de hoje. Dessa forma, o chamado infotenimento — união de informação e entretenimento — direciona boa parte dos esforços da redação. “Para chamar a atenção das pessoas, muitas vezes é necessário produzir notícias agradáveis e, por vezes, divertidas. O problema ocorre quando histórias importantes perdem espaço para notícias de celebridades e fofocas.”

Pesquisador do impacto das novas tecnologias na mídia, Pavlik desenvolveu, ainda nos anos 1990, diversos softwares para comunicação, como o Fire! and Fatal!, um simulador de notícias para DOS; o Native Voices, um diretório de mídia de indígenas americanos; e o Media Technology Chronology, uma base de dados para a evolução de novas tecnologias. Já nos anos 2000, foi cocriador do Documentário Situado, que une dispositivos móveis e realidade aumentada para construir narrativas hiperlocais, revelando as informações conforme o usuário passeia a câmera pelo local do acontecimento.

John V. Pavlik é graduado em Jornalismo e Comunicação de Massas pela University of Wisconsin–Madison, com mestrado e doutorado em Comunicação de Massas pela University of Minnesota. É professor do Departamento de Jornalismo e Estudos de Mídia da Escola de Comunicação e Informação na State University of New Jersey e professor assistente na Columbia Institute for Tele-Information (CITI). Atuou em diversas instituições dos Estados Unidos, tendo sido inclusive pesquisador associado da Northwestern University, no Qatar. Entre suas publicações destaca-se Journalism and new media (New York: Columbia University Press, 2001) e o mais recente, Converging Media (Oxford: University Press, 2012).

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Quais as características do atual momento do jornalismo digital?
John Pavlik –
 Esta é uma boa pergunta, mas também é muito ampla. Poderíamos escrever um livro inteiro sobre este tópico. Para responder de maneira sucinta, eu diria que há três características gerais do jornalismo digital. Primeiramente, o crescimento da interação, com inputs do público na forma de repórteres cidadãos e mídias sociais. Com relação a isso, percebemos que as notícias da era digital são muito rápidas, quase sempre em tempo real, e muitas vezes carecem de apuração.

Em segundo lugar, temos o crescimento da multimídia, com áudio, vídeo e outras formas de conteúdo emergentes — como a realidade aumentada. Em terceiro, é o crescimento do jornalismo orientado por base de dados (data-driven), com Big Data e algoritmos empregados via códigos de computador para identificar e relatar histórias, produzindo visualizações baseadas em dados e semelhantes.

Este jornalismo digital é normalmente desenvolvido por profissionais do fazer jornalístico que sejam éticos e capazes de, cada vez mais, colocar as histórias em um contexto mais amplo. Ainda assim, a incerteza do estado financeiro do jornalismo digital é uma grande preocupação da área.

IHU On-Line – Você diria que vivemos um terceiro estágio do jornalismo digital, como descrito em Journalism and new media? Ou a emergência das redes sociais, do jornalismo semântico, entre outras inovações, dão indícios de um novo estágio?
John Pavlik –
 Eu diria que estamos principalmente vivendo no segundo estágio do jornalismo digital, com a abordagem geral das publicações sendo a produção de conteúdo original voltado primeiramente para o digital (digital first). No entanto, a maior parte do conteúdo atual ainda não está adequadamente otimizada para utilizar as capacidades do ambiente digital em rede.

IHU On-Line – De que formas as narrativas jornalísticas vêm sendo alteradas pelas novas mídias? Quais exemplos você destacaria?
John Pavlik –
 Um dos melhores exemplos de como a narrativa está evoluindo por causa da nova mídia, ou permitida pelo uso inovador das novas mídias, é a narrativa orientada por base de dados (data driven). A seção The Upshot , recentemente lançada pelo The New York Times, é um bom exemplo disso.

IHU On-Line – De que forma os novos meios e modos de contar histórias e a emergência de uma sociedade midiatizada promovem uma outra relação do cidadão com a democracia?
John Pavlik –
 Os cidadãos ao redor do globo não são mais receptores passivos de mídia. Pelo contrário, são participantes ativos e contribuintes de um discurso público animado sobre grandes e pequenos assuntos. E isto se deve muito às mídias sociais e aos dispositivos de mídia móvel.

IHU On-Line – Narrativas como os newsgames ou o documentário sitiado permitem dizer que, em tempos de conectividade, a experiência é mais relevante que a informação?
John Pavlik –
 Newsgames são uma oportunidade cada vez mais interessante para que jornalistas inovadores envolvam a audiência com a notícia por meio de técnicas interativas. A proposta ainda está em fase inicial, mas é muito promissora — especialmente como modo de envolver cidadãos mais jovens e usuários de dispositivos móveis.

johnpavlik

John Pavlik

IHU On-Line – O futuro do jornalismo é o infotenimento?
John Pavlik –
 Isto é inevitável, uma vez que os cidadãos não precisam se envolver com o noticiário. Dessa forma, para chamar a atenção das pessoas, muitas vezes é necessário produzir notícias agradáveis e, por vezes, divertidas. O problema ocorre quando histórias importantes perdem espaço para notícias de celebridades e fofocas. Existe, é claro, um lugar para estas notícias de “veja que cachorrinho bonitinho”, mas isso não deve superar o relato de histórias com implicações importantes para o mundo.

IHU On-Line – De que forma o pensamento de Marshall McLuhan se atualiza neste novo ecossistema midiático?
John Pavlik –
 As ideias de McLuhan são bastante relevantes para o jornalismo digital. Talvez o mais relevante seja sua noção de aldeia global. Hoje, com 5 bilhões de pessoas conectadas via redes de comunicação digital em todo o mundo, as notícias e informações também podem ressonar globalmente — sobretudo por meio das mídias sociais e dispositivos móveis. Veja o caso do #bringbackourgirls , na Nigéria, por exemplo.

IHU On-Line – Em um contexto de aldeia global, como explicar a força emergente de um jornalismo hiperlocal?
John Pavlik –
 Este é um ótimo exemplo do adágio “Pense globalmente, aja localmente”. Usar as redes de mídia para relatar e explorar histórias locais, mas conectadas a temáticas e comunidades mais abrangentes, potencialmente globais, farão com que o jornalismo digital torne-se mais importante e que implique em mais consequências no século XXI.

IHU On-Line – Deseja acrescentar alguma coisa?
John Pavlik –
 Fazer boas perguntas e manter a inovação, mas de maneira ética e por meio do envolvimento do público, com comprometimento com a liberdade de expressão. Este deve ser o mantra do jornalista digital.

Ramón Salaverría: Jornalismo, compartilhamento e credibilidade no contexto pós-industrial

Para Ramón Salaverría, os meios tradicionais têm muito a aprender com os meios nativos digitais, com o desafio de não se descaracterizarem, mantendo seu prestígio informativo

Por: Andriolli Costa / Tradução: Andriolli Costa

Revista IHU On-Line 447

Ramón Salaverría

Em maio deste ano, o Buzzfeed, site especializado em conteúdo viral, vazou um relatório de inovação produzido pelo The New York Times avaliando as perspectivas do jornal frente às novas mídias. O relatório aponta, entre outras informações, que o Times pratica o “melhor jornalismo do mundo”, mas seus concorrentes o superam em conteúdo compartilhável e engajamento. Dados do próprio estudo mostram que, enquanto o site do NYT possui cerca de 30 milhões de visitantes únicos por mês, o próprio Buzzfeed soma mais do que o dobro. Já o Huffington Post, referência entre os chamados meios “nativos digitais”, chega a 100 milhões de acessos ao mês.

Vários são os motivos para a boa performance destes últimos. As notícias são frequentemente estruturadas em um modelo mais informal, privilegiando conteúdo de interesse humano, recorrendo à emoção e à sensibilidade. As chamadas são normalmente superlativas, histórias edificantes que vão “mudar sua vida”, ou com a já clássica clickbait “você não vai acreditar no que esta pessoa fez”. Em entrevista concedida por telefone à IHU On-Line, o pesquisador Ramón Salaverría, referência mundial em jornalismo na internet, apoia a iniciativa do jornal.

“Não significa que o New York Times tenha que se tornar o Buzzfeed, mas que algumas peculiaridades do Buzzfeed podem ser aproveitadas pelo NYT”, defende. Para Salaverría, os meios tradicionais têm muito a aprender com os nativos digitais, especialmente no que diz respeito aos formatos e à relação com a audiência. Afinal, estes são “muito mais ágeis e adaptativos à mudança das formas de acesso e de consumo informativo dos usuários na internet”. Nesta entrevista, o pesquisador trata ainda da mudança do conceito de notícia no ambiente web, fala da importância da credibilidade independente do meio em questão e explora as perspectivas de um “jornalismo líquido” como manifestação do pós-jornalismo.

Ramón Salaverría possui graduação e doutorado em Jornalismo pela Universidade de Navarra – Unav, na Espanha. Atualmente é professor titular da Faculdade de Comunicação da mesma universidade, além de Diretor do Departamento de Projetos Jornalísticos. Um dos maiores especialistas em webjornalismo do mundo, é professor convidado em diversas universidades em todo o mundo. Entre seus livros, destacamos: Periodismo integrado: convergencia de medios y reorganización de redacciones (Barcelona: Editorial Sol 90, 2008), Redacción periodística en Internet (Pamplona: Eunsa, 2005) e Manual de redacción ciberperiodística (Barcelona: Editorial Ariel, 2003).

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Você teve contato com o relatório Jornalismo pós-industrial produzido pelo Tow Center, de Columbia? Acredita que as observações feitas no relatório dão conta dos dilemas que o jornalismo vive em nível mundial?
Ramón Salaverría –
 Sim. Penso que é uma boa interpretação para alguns problemas que atualmente afetam o jornalismo internacional. De início, o próprio título do relatório é bem acertado porque, basicamente, aborda uma alteração no processo de produção da informação. Isso é algo que não é considerado em muitas ocasiões, mas neste relatório se coloca de maneira destacada como fator essencial das mudanças em curso. Concordo bastante com esta visão.

O principal não é que os hábitos de consumo estejam mudando ou nem sequer que as próprias tecnologias de produção e de função informativa estejam passando por uma evolução tão rápida. O fundamental é que está mudando todo o processo de apropriação da informação por parte da sociedade contemporânea. Nesse sentido, penso que uma boa maneira de denominar esta nova situação é “jornalismo pós-industrial”, devido aos novos processos de produção e difusão de conteúdos informativos.

IHU On-Line – No relatório de estratégia digital do The New York Times , vazado há algumas semanas, existem apontamentos que indicam a necessidade de buscar a aproximação com a lógica do compartilhamento nas redes sociais. Diversos jornais brasileiros já têm seguido o modelo Buzzfeed  ou Huffington Post  de produção de conteúdo: galeria de GIFs animados, listas e histórias edificantes que vão “mudar sua vida” — especialmente com a chegada das versões em português desses sites . Render-se à estrutura dos blogs e redes sociais é a melhor alternativa para o jornalismo na internet?
Ramón Salaverría – 
No relatório, o New York Times efetivamente coloca estes sites nativos digitais como referências de uma nova forma de consumo de informação que seriam oportunas ao NYT, mas não para que todo o jornal adote esta estrutura e modelo de composição informativa. Na verdade, me parece que a proposta é aproveitar tudo que seja útil e eficiente desses modelos, ao mesmo tempo preservando alguns valores e características de conteúdos que esses meios nativos digitais não tenham. Não significa que o New York Times tenha que se tornar o Buzzfeed, mas que algumas peculiaridades do Buzzfeed podem ser aproveitadas pelo NYT.

Nesse sentido, penso que muitos meios que vêm de uma trajetória ou tradição analógica, e que estão acostumados com um tipo de edição e de relacionamento com a audiência muito determinadas, têm muito a aprender com os meios nativos digitais — os quais são muito mais ágeis e adaptativos à mudança das formas de acesso e de consumo informativo dos usuários na internet. As redes sociais e os meios nativos digitais nos mostram que há formas de apresentar e distribuir a informação que permite multiplicar a influência, o acesso e a importância dessas notícias. Parece-me que o grande desafio, para os meios tradicionais, é tratar de manter seu prestígio informativo e suas características de fonte principal de informação e, ao mesmo tempo, adaptar-se a modelos muito mais apropriados as formas de consumir a informação por parte dos usuários da internet.

Ramon Salaverria

Ramon Salaverria

IHU On-Line – Dentro dessa lógica, como evitar o sensacionalismo, visto que conteúdos com essas características sempre atraíram público e são, portanto, facilmente convertíveis em pageviews e compartilhamentos?
Ramón Salaverría –
 Penso que conteúdo e forma são duas questões distintas. Obviamente que é preciso combiná-las, mas há características formais dos meios nativos digitais que podem ser aproveitadas para fazer um tipo de jornalismo absolutamente fiel às características do conteúdo de máxima qualidade. A questão é saber adaptar-se aos modelos de consumo informativo, às linguagens, aos ritmos, aos dispositivos que estão demandando os usuários da informação nas redes digitais, mas colocando essas características a serviço de uma informação compreendida como de absoluta qualidade. Nesse sentido, penso que pode haver uma informação que apele ao interesse das pessoas sem necessariamente cair em um jornalismo sensacionalista.

IHU On-Line – Ainda que o resultado para fins de compartilhamento seja alto, por outro lado há ainda muitas respostas negativas de usuários que simplesmente não reconhecem o que está sendo publicado como notícia. Se o leitor não reconhece como tal, ainda é notícia?
Ramón Salaverría –
 Penso que algo que está sendo revisto e revisitado é o próprio conceito de notícia. No âmbito do jornalismo, o termo notícia se refere, classicamente, a dois sentidos: ao acontecimento informativo, como em “ocorreu uma notícia”, e ao relato informativo, o gênero jornalístico, a notícia que se escreve sobre determinado acontecimento. Do meu ponto de vista, essas duas concepções de notícia estão sendo revisitadas no jornalismo contemporâneo.

Por um lado, estamos assistindo a uma revisão de conceito de acontecimento informativo, porque as novas coordenadas temporais e espaciais que aportam na internet fazem com que esse conceito de informação seja modificado. Vemos isso claramente, por exemplo, nas redes sociais. Hoje, para pequenos grupos de amigos, um acontecimento ocorrido nessa esfera limitada será notícia. Uma notícia reduzida a um grupo limitado de pessoas com algum tipo de vínculo entre si. Desse ponto de vista, essas pessoas atuam diante deste acontecimento noticioso como atuariam diante de notícias tradicionais.

É como no caso do nascimento de um bebê; há toda uma série de pessoas — familiares, conhecidos, amigos — que, diante desta notícia, atuam de determinada maneira e utilizam os meios digitais para informar-se e responder a ela. Por outro lado, da mesma maneira que o conceito de notícia pode ser reduzido a um nível menor, também podem ser expandido a um nível macro. Os usuários de internet estão acostumados a conviver em um contexto internacional, onde não há barreiras espaciais. Portanto, o que acontece em um país muito distante pode ser bastante relevante para mim — caso eu esteja interessado.

O conceito de acontecimento noticioso experimentou uma amplificação no âmbito da internet, mas ao mesmo tempo se produz uma reconfiguração do conceito de notícia como relato, como gênero jornalístico. A notícia tradicional, dos meios impressos, é baseada na lógica da pirâmide invertida, com características formais, com um tipo de tamanho, de titulação, etc. Mas no âmbito da internet o relato noticioso se multiplica. E como se multiplica? Por meio da hipertextualidade; da multimidialidade — isto é, a possibilidade de combinar elementos textuais, gráficos e sonoros; e da interatividade — a possibilidade de que o público intervenha e contribua com seus próprios aportes informativos. Portanto, efetivamente, acredito que a notícia no âmbito da internet está se reconfigurando nesse duplo sentido.

IHU On-Line – O maior capital do jornalismo é a credibilidade? No jornalismo pós-industrial também seria?
Ramón Salaverría – 
Certamente o que garante a um meio de comunicação, ou mesmo a um usuário na rede, a capacidade de atrair o interesse e a confiança por parte dos públicos é a credibilidade. A credibilidade informativa é algo muito difícil de construir, que necessita grandes esforços e tempo para tal, mas, curiosamente, é algo que se pode romper muito rapidamente. Quando alguém comete algum tipo de deslize, de erro na hora de difundir a informação, pode romper rapidamente com toda a credibilidade que custou meses e anos para construir. Penso que hoje em dia o valor fundamental para que um meio digital alcance a reputação e o apoio por parte do público ainda é o fator da credibilidade.

IHU On-Line – Em época de globalização, o jornalismo passa a compartilhar mais do que nunca características transnacionais. No entanto, a conectividade e a articulação em rede permite o surgimento de diversas iniciativas independentes de mídia, que investem na produção de conteúdos hiperlocais, dando voz a comunidades e grupos sociais com uma proximidade que o jornalismo dificilmente conseguiria. Como estes dois polos tensionam um ao outro?
Ramón Salaverría –
 A rede possui várias características e uma delas é efetivamente a ruptura dos limites espaço-temporais. Quanto ao tempo, apesar de se dizer que a internet é o espaço do instantâneo, ela também é a plataforma onde podemos recuperar conteúdos mais antigos, então ela é enormemente elástica do ponto de vista temporal. Ocorre o mesmo no caso dos limites espaciais: no âmbito da rede, podemos acessar os conteúdos geograficamente mais próximos e os conteúdos geograficamente mais distantes sem nenhum tipo de diferença. O que acontece na rede é a criação de uma série de comunidades cujo denominador comum já não é geográfico, mas temático e, em outros casos, linguístico. Uma vez conseguida a condição linguística, isto é, que os membros de um determinado tipo de audiência sejam capazes de entender os conteúdos distribuídos neste idioma, o único limite é de caráter temático; é ter interesse nesse tipo de conteúdo.

Isto possibilitou, por uma parte, o surgimento de meios hiperlocais — pois podemos criar uma audiência muito próxima não apenas do ponto de vista geográfico, mas que tenham interesse no conteúdo daquele local mesmo que não estejam fisicamente presentes. Deste ponto de vista, se multiplicam as possibilidades de composição informativa, mas também os desafios para os editores desse tipo de conteúdo que devem saber se situar diante destas audiências cada vez mais diversas.

IHU On-Line – Alguns pesquisadores falam de um “jornalismo líquido”. Como você vislumbra esta ideia? Seria este que representaria um emergente pós-jornalismo?
Ramón Salaverría – 
O termo jornalismo líquido tem a ver, fundamentalmente, com a questão temporal. Quer dizer, o conceito está associado ao de fechamento contínuo, de que não há um trabalho cíclico, mas que o conteúdo jornalístico está sendo atualizado constantemente. Do meu ponto de vista, esta visão do jornalismo líquido é uma visão reduzida, limitada da verdadeira dimensão desse conceito.

Uma das facetas sobre as quais incide o jornalismo líquido é o processo de difusão informativa que, efetivamente, pode vir a ser um tipo de produção informativa temporalmente informativa. Mas ele deveria ser entendido em outros âmbitos, como, por exemplo, o de multiplataformas. É o fato de que o jornalismo pode ser acessível por dispositivos distintos ao mesmo tempo, fazendo com que o conteúdo seja líquido entre todas as plataformas.

Liquidez dos produtos
Também penso ser oportuno interpretar a liquidez do jornalismo do ponto de vista das formas de produção informativas. Até agora, os padrões de produção de conteúdo jornalístico eram muito determinados. Havia uma série de esquemas no acesso, na elaboração e na distribuição dos conteúdos jornalísticos. Agora passamos a estruturas onde encontramos, por exemplo, redações descentralizadas, conectadas por meio da tecnologia — ao invés de uma disposição física — com modelos de teletrabalho por parte dos jornalistas.

Parece-me que todos estes elementos e mais alguns outros compõem o verdadeiro conceito de jornalismo líquido. Mas, atualmente, quando se fala deste conceito, entende-se de uma maneira limitada como uma questão restrita ao ciclo editorial, e penso que esta é uma visão um pouco reducionista.

IHU On-Line – Em entrevistas, você já defendeu a circulação de jornais impressos apenas três dias na semana — especialmente sexta, sábado e domingo. No entanto, em termos de análise e reportagem em profundidade, as revistas semanais também têm caído constantemente de circulação. Mudar o paradigma de publicação não seria o início do fim?
Ramón Salaverría –
 Sou muito pouco partidário da palavra “fim” em jornalismo. Se existe algo que a história do jornalismo nos ensina é que esta é uma profissão cíclica, em que aspectos que parecem perder a vigência, em condições distintas, alcançam uma nova vida, um novo desenvolvimento. Desse ponto de vista, penso que a informação da internet e, muito particularmente, as publicações diárias têm, efetivamente, um novo cenário informativo e um novo cenário editorial.

Vejamos alguns exemplos: Nos Estados Unidos existem periódicos que anteriormente eram editados sete dias por semana, mas que hoje possuem edições distintas. É o caso do Times Picayune , de New Orleans, que, após 175 anos, hoje circula quatro dias em versão impressa e três  dias em versão digital. Já em Lisboa, por exemplo, há cerca de um mês o semanário Expresso lançou uma edição diária  e vespertina para tablets, chamada Expresso Diário; temos então uma revista impressa semanal que passa a ter uma edição diária digital. Vemos como as duas linhas de evolução tendem a se sobrepor, o que permite pensar uma adaptação dos ciclos editoriais para os hábitos de consumo do público.

Isso quer dizer que os jornais diários impressos vão desaparecer? Eu, particularmente, não acredito nisso. A Associação Mundial de Periódicos (World Association of Newspapers and News Publishers), em seu relatório World Press Trends, aponta que ainda há um aumento da circulação dos jornais em territórios como a Ásia e a América Latina, enquanto na América do Norte e na Europa Ocidental estão caindo. Penso ser mais provável que vejamos essa diminuição, mas não o desaparecimento, dos diários impressos, e o fortalecimento dessas novas formas editoriais em que se compatibilize o impresso com o digital.

C. W. Anderson: Jornalismo Pós-Industrial – Crises permanentes, turbulências constantes

Para C. W. Anderson, a relação entre imprensa, tecnologia disruptiva e novas formas de participação social fará com que nos acostumemos a um mundo onde a indústria de notícias seja mais fraca e sempre envolta em constante turbulência

Por: Andriolli Costa / Tradução: Andriolli Costa

Revista IHU On-Line 447

C. W. Anderson

Jornalismo pós-industrial: adaptando-se ao presente. Este é o título do relatório, “parte pesquisa e parte manifesto”, publicado pelo Tow Center da Universidade de Columbia em 2012. Desde as primeiras páginas, o documento já afirma que aquela não era uma tentativa de especular o jornalismo do futuro ou de salvar a indústria de notícias. Primeiramente porque “o futuro já havia chegado”. E em segundo lugar porque não havia mais uma “indústria de notícias”. Afinal, com a notícia escapando à centralidade das antigas e consolidadas organizações jornalísticas, pensar o jornalismo dentro dos limites aos quais sempre esteve reservado torna-se hoje insuficiente.

Em um estudo bastante completo sobre práticas profissionais, modos de produção e o papel social da imprensa, os autores C. W. Anderson, Clay Shirky e Emily Bell traçam um diagnóstico do jornalismo neste novo e complexo ecossistema midiático. Em entrevista concedida por e-mail à IHU On-Line, Anderson afirma que desde a publicação do relatório o campo jornalístico passou por várias mudanças. No entanto, o argumento central “de que as organizações noticiosas estão com problemas para mudar suas práticas profissionais de modo a acomodar a realidade digital, e que diversas novas organizações noticiosas estão desestruturadas, permanece amplamente verdadeiro”.

O pesquisador aborda ainda sua visão sobre a crise no jornalismo que, para ele, está relacionada a uma crise geral das instituições, como o governo, a igreja ou o exército. Defende ainda que os desafios do jornalismo estão “tão relacionados aos processos organizacionais pelos quais as empresas jornalísticas são conduzidas quanto pelo modelo de negócios ou a tecnologia.” Neste contexto, Anderson afirma não enxergar uma resolução para o tensionamento entre novas e velhas mídias. “É muito mais provável que nós, como sociedade, simplesmente nos ‘acostumemos’ com um mundo onde a indústria de notícias seja mais fraca e sempre envolta em uma constante turbulência.”

C. W. Anderson é graduado em Ciência Política pela Indiana University, onde estudou a circulação de notícias na Rússia pós-soviética. Concluiu, na Columbia University, seu mestrado e doutorado em Comunicação. Anderson é um dos pioneiros na pesquisa e prática do jornalismo cidadão, dirigiu entre 2001 e 2008 o NYC Independent Media Center, uma das primeiras experiências de jornalismo “do-it-yourself”. Atualmente é professor do Departamento de Cultura de Mídia na City University of New York – CUNY. É autor de Rebuilding the News: Metropolitan Journalism in the Digital Age (Filadélfia: Temple University Press, 2013).

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Em que consiste pensar um jornalismo pós-industrial? Por que retomar o termo usado por Doc Searls  em 2001?
C. W. Anderson – 
Ao nomear o relatório de “Jornalismo pós-industrial”, quisemos algo especialmente claro. Boa parte das discussões mais frequentes a respeito do futuro da indústria de notícias tende a falar ou sobre uma crise econômica (“os jornais precisam encontrar seu modelo de negócios”) ou sobre uma crise tecnológica (“um tsunami de tecnologia digital está varrendo a indústria de notícias e não há nada que possamos fazer sobre isso”). Já nós, baseados em muita pesquisa, pensamos que os problemas no mundo do jornalismo estão tão relacionados aos processos organizacionais pelos quais as empresas jornalísticas são conduzidas quanto pelo modelo de negócios ou a tecnologia. Dessa forma, quisemos escolher o título “pós-industrial”, para chamar atenção para este aspecto do relatório.

IHU On-Line – De onde surgiu a inquietação para a produção do relatório? O cenário midiático mudou desde a sua publicação?
C. W. Anderson – 
O novo centro de pesquisas da Universidade de Columbia, o Tow Center, quis celebrar seu lançamento encomendando uma série de novos artigos para analisar as mudanças na indústria de notícias. Publicou-se, então, uma série deles: The Reconstruction of American Journalism , por Len Downie  e Michael Schudson ; The Story So Far: What We Know About the Business of Digital Journalism , por Bill Grueskin , Ava Seave  e Lucas Graves ; e, por fim, nosso relatório.

Acredito que várias coisas específicas mudaram no jornalismo desde que nosso relatório foi publicado, mas penso que os argumentos gerais — de que as organizações noticiosas estão com problemas para mudar suas práticas profissionais de modo a acomodar a realidade digital e que diversas novas organizações noticiosas estão desestruturadas — permanecem amplamente verdadeiros. A maior diferença que eu apontaria é o fato de que há algum dinheiro do Vale do Silício sendo derramado no ecossistema noticioso. Isso pode dar às novas organizações um grande impulso e pode ajudá-las a se institucionalizar mais rapidamente.

IHU On-Line – O termo “jornalismo pós-industrial” descreve a atualmente conturbada relação entre imprensa, tecnologia disruptiva e novas formas de participação social. Mas como você vislumbra a emergência de um possível “pós-jornalismo”, em que estas relações se resolvam?
C. W. Anderson 
– Na verdade eu não tenho certeza se estas tensões um dia serão resolvidas. É muito mais provável que nós, como sociedade, simplesmente nos “acostumemos” com um mundo onde a indústria de notícias seja mais fraca e sempre envolta em uma constante turbulência.

IHU On-Line – Tendo em vista a discussão de Philip Meyer  – Os jornais podem desaparecer? (São Paulo: Contexto, 2007), de que maneira os modelos de negócio tradicionais do jornalismo desgastaram a credibilidade dos jornais e quais novos modelos surgem como alternativas à recuperação da credibilidade?
C. W. Anderson – 
Concordo com Philip Meyer que os modelos de negócios tradicionais do jornalismo são (parcialmente) responsáveis pelo declínio da credibilidade da imprensa, e penso que é possível que novos modelos possam ajudar a recuperá-la. Mas também é possível que novos modelos tornem as publicações e organizações noticiosas ainda mais confiáveis do que antes. Com tudo isso dito, penso que o declínio da confiança dos americanos no jornalismo é, na verdade, apenas parte de um declínio geral da confiança dos americanos em diversas instituições anteriormente autoritárias: o governo, os militares, as empresas, a igreja e assim por diante.

IHU On-Line – Existe uma crise do jornalismo? Ou uma crise das organizações jornalísticas?
C. W. Anderson – 
Ambas, acredito. Eu tendo a discordar com o chavão de que existe uma crise das organizações, mas não do jornalismo. Penso que, mesmo agora, as organizações noticiosas tradicionais produzem a maior parte do jornalismo — especialmente nas cidades dos Estados Unidos — e, dessa forma, qualquer crise nas organizações jornalísticas inevitavelmente afetará o modo como o jornalismo é produzido.

Rebuilding the News – Metropolitan Journalism in the Digital Age

IHU On-Line – Em Rebuilding the News, você questiona a autoimagem dos jornalistas, que se enxergam como referências informativas definitivas, que reportam em nome de um público massivo, o que impediria o diálogo comunicacional. No entanto, critérios como audiência e linguagem são insuficientes para distinguir o jornalismo da cobertura feita por blogs ou comunicadores não profissionais. O que distingue (ou deveria distinguir) o jornalismo pós-industrial dessas demais produções de conteúdo?
C. W. Anderson – 
Penso que, no final, o ato de fazer reportagens originais alçadas a um nível que pessoas normais podem entender, e que seja relevante para elas, permanece como aquilo que deve distinguir jornalismo de outras formas de comunicação, seja a comunicação digital ou alguma outra.

IHU On-Line – Ao pensar o jornalismo semântico, muitos se perguntam se um algoritmo pode fazer uma notícia de maneira mais eficiente que um repórter humano. Não seria mais adequado pensar em quantas vezes não permitimos que o próprio fazer jornalístico se robotize, nos deixando levar pela técnica, pelo declaratório ou pelo senso comum, sem a devida introjeção e reflexão da experiência?
C. W. Anderson –
 Penso que esta é uma ótima pergunta. Não é mais importante tornar os jornalistas mais humanos do que tornar o jornalismo mais robótico? Concordo com este sentimento de todo o coração. O problema, claro, é que o jornalismo localiza-se estranhamente entre o “trabalho industrial” e a “arte”. Em outras palavras: devido aos deadlines de produção e outras noções do que o jornalismo deveria ser, algumas pessoas o encaram como algo que um computador pudesse ou devesse fazer. E a velocidade da internet só tornou as coisas ainda piores. Ainda assim, eu concordo com você. Cabe a todos nós, que atuamos como jornalistas ou que ensinamos jornalistas a manter o aspecto “humano” do jornalismo em mente.

IHU On-Line – É possível entender que a alternativa para o futuro do jornalismo seria promover um retorno à grande reportagem e à apuração cautelosa em detrimento da cobertura em tempo real? Ou estas também já não são mais soluções que dão conta da complexidade do ecossistema midiático atual?
C. W. Anderson –
 Acredito que sim, mas penso que devemos ter em mente a existência de diferentes camadas em cada história noticiada, e que algumas coberturas em “tempo real” inevitavelmente vão incorrer em erros. As organizações jornalísticas sempre tentarão ser tão rápidas quanto podem ser, e o que precisamos fazer é educar o público sobre como o jornalismo funciona e por que a primeira publicação de uma notícia nem sempre será a mais precisa.

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