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Halloween é o cacete? Considerações sobre o Dia do Saci

Halloween é o cacete? Considerações sobre o Dia do Saci

A forte recepção negativa do público nas redes sociais mostra que a intolerância e a imposição não são o caminho certo

Movimento nacionalsta MV Brasil protestando pela cultura nacional. Será que a agressão é o caminho?

Movimento nacionalsta MV Brasil protestando pela cultura nacional. Será que a agressão é o caminho?

Começarei este texto invertendo um pouco a estrutura de um artigo de opinião. Isto porque, neste caso, cabe deixar claro logo de início o meu lugar de fala. Escrevo, primeiramente, como um entusiasta da tradição popular, como compilador de todo tipo de narrativa folclórica e, por que não, como associado nº 930 da Sociedade dos Observadores de Saci (Sosaci).

Por outro lado, falo também como jornalista, como ex-gestor de uma revista eletrônica sobre cultura popular, e como pesquisador que tem se dedicado a compreender as diversas formas pelas quais os mitos e lendas se manifestam nas páginas dos jornais. E é neste contexto que me peguei bastante intrigado com o que observei no último 31 de outubro, com a grande disputa ideológica entre apoiadores do Halloween e do Dia do Saci. Desta vez não na seara da imprensa, mas na das redes sociais.

Saci, José Luiz Ohi

Recepção

Durante os últimos quatro ou cinco anos venho acompanhando nas redes sociais as discussões que se seguem sempre que chegamos ao dia 31, e nunca havia visto em minha timeline tantas mensagens negativas envolvendo o Dia do Saci. Mais do que isso, a natureza das críticas me chamou bastante a atenção. Havia a desqualificação e o deboche do folclore brasileiro – como sempre houve – mas o realmente importante era a manifestação do simples desejo de festejar aquilo que bem entendessem.

Imagem Estúdio Saci

Imagem divulgada pelo Instituto Saci no Facebook foi bastante criticada pelos seguidores da página

Basta uma rápida olhada nas mensagens compartilhadas para compreender. As bem-humoradas artes da Sosaci dividiam espaço com mensagens nacionalistas que berravam: “Halloween é o cacete! Viva a cultura nacional”. Outras faziam a ligação dos sacis com os black blocs clamando “Fora Halloween”. Comentários taxavam de alienados ou de antipatriotas aqueles que comemoravam uma festa estrangeira.

A antipatia foi compreensível. “Feliz dia do pseudomoralista que diz que devemos comemorar o Saci no lugar do Halloween”, diz um tweet divulgado pela Veja SP. “Que chato esse pessoal reclamando que Halloween não é uma festa brasileira. Natal também não!”, alfineta o blogueiro gaúcho Rafael Rodrigues. A defesa da cultura local virou até mote de piada no blog Não Salvo.

Pelo Facebook, o usuário Fabio Donaire relembra que o Halloween não é uma apenas uma festa americana, mas a celebração do Samahin celta, que foi apropriado e reimaginado por diversas culturas entre elas a dos Estados Unidos. Desta forma, levando em conta que os próprios mitos brasileiros são gerados de influências indígenas, negras e europeias, Donaire conclui propondo: “Saci e Halloween são fatias do mesmo bolo”.

E arremata: “Enquanto você está aí pensando, o Saci deve estar em festa!”.

Novo clipe de Detonator e as Musas do Metal brincam com a polêmica

Novo clipe de Detonator e as Musas do Metal brinca com a polêmica

Intolerância

Compreendo que as mensagens mais enfáticas em defesa do Dia do Saci vem da vontade de legitimar uma ideia frente a outra, hegemônica e internalizada. Ainda assim, com tantas reações contrárias, será que é este o caminho? Não acredito que seja possível convencer o outro a mudar de ideia – ou ao menos a simpatizar com a causa – agredindo e desqualificando seus comportamentos. A postura mais natural é que o interlocutor reaja defensivamente, e foi o que aconteceu.

O Dia do Saci não é um feriado nacional. A proposta de sua criação ocorreu em 2003, com dois projetos de lei que não foram aprovados. No entanto, de lá para cá, a data já foi instituída como feriado municipal em dez municípios, principalmente no interior de São Paulo. Isso não impediu que várias outras cidades também passassem a promover suas próprias brincadeiras em homenagem ao diabrete brasileiro. Esse é o espírito.

O desejo de festejar não deve ser imposto a ninguém. Se não for algo espontâneo, vira teatro, vira encenação. A espontaneidade, afinal, é uma das principais características da cultura popular. O fato folclórico existe a partir do povo, e acompanha esta sociedade. Quando deixar de fazer sentido, vira outra coisa. Simples assim.

Aquele que quer se vestir de Fantasma ou Vampiro e pedir doces na rua tem tanto direito de fazer isso quanto quem deseja celebrar com um gorro vermelho na cabeça. O Dia do Saci não é – ou não deve ser – um contra-ataque ao Halloween. Afinal, se o desejo é trazer mais pessoas para a “equipe Saci”, não é assim que se convence ninguém.

A "Saciata", uma passeada em um pé só organizada pelo professor de filosofia Chico Nunes

A “Saciata”, uma passeada em um pé só organizada pelo professor de filosofia Chico Nunes

Caminhos possíveis

Se uma campanha ideológica contrária ao Dia das Bruxas não é a melhor alternativa, então qual seria? Penso que há duas frentes possíveis. A primeira é a que se aproveita da data para apelar ao lúdico e à tradição, com ações divertidas e espirituosas que chamam a atenção do povo para a valorização da cultura brasileira sem agredir o interlocutor.

Em Guarulhos, por exemplo, um projetor fez o saci pular de prédio em prédio, fazendo estripulias e lembrando o Dia do Saci. Na capital paulista, o professor de Filosofia da Cásper Líbero, Chico Nunes, também chamou a atenção com duas iniciativas em comemoração a data. No dia 30, junto ao jornalista esportivo Celso Unzelte, organizou uma partida de futebol de um pé só na quadra da Faculdade. No outro dia, distribuiu gorros e promoveu uma “Saciata”, que atravessava a Avenida Paulista.

A segunda frente possível, por sua vez, busca a valorização e ressignificação da cultura popular brasileira durante todo o ano, não apenas em uma única data (ou duas, contando o Dia do Folclore, em 22 de agosto). É esta que lembra as pessoas de como o folclore faz parte de suas vidas, mesmo que muitas vezes não se apercebam, e busca dar novo sentido à manifestações que por vezes são tidas como coisa de criança.

Destaco, nesta área, o trabalho feito pelos artistas das mais diversas mídias que se apropriam da cultura popular para comunicar com todo tipo de público. O violeiro Paulo Freire, autor de Nuá – As Música dos Mitos Brasileiros, canta a beleza da cultura interiorana e cativa pelo encantamento. Animações como a série Juro que Vi, de Humberto Avelar, resgatam o lendário pela estética do maravilhoso que lembra os antigos filmes da Disney. Por sua vez, escritores como Simone Saueressig, de Contos do Sul, ou o quadrinista Giorgio Galli, de Salomão Ventura – Caçador de Lendas apostam no terror e na violência para dar novo sentido ao bestiário brasileiro. Crianças, jovens, adultos… Não há quem não seja capturado pela força das narrativas.

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Por que o Saci?

barca-e-saciO Saci é um estandarte, e um símbolo. Cansado de topar com estátuas de duendes nibelungos na cidade de São Paulo, Monteiro Lobato o elegeu como ícone de sua campanha pela valorização do folclore brasileiro. Afinal, o sincretismo do diabrete era tipicamente brasileiro: veio da mistura do Jacy Yateré dos Guarani, que mais tarde foi apropriado pelos negros e, por fim, ganha um gorro mágico típico dos duendes europeus.

Lobato convocou os leitores do jornal O Estado de São Paulo a compartilharem suas histórias sobre o negrinho. O grande engajamento do público deu origem ao livro Saci Pererê: Resultado de um Inquérito, de 1918, assinado por Lobato sob o pseudônimo de “Um demonólogo amador”. Houve, em 2006, uma tentativa de reabertura do inquérito, ainda que sem tanta participação popular.

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E por que um Dia do Saci?

Caçadores de Assombração em Mariana/MG. Foco de diversas reportagens que chamavam atenção para a cultura do município

Não posso falar sobre o que pensavam os idealizadores com a criação da data, mas sim da pertinência de sua existência a partir do meu lugar de fala já apresentado no começo deste texto:

A imprensa normalmente aborda mitos e lendas folclóricas pelo seu caráter pitoresco, pela espetacularização ou pelo absurdo. Muitas vezes estas matérias estão em suplementos infantis ou de variedades, por vezes escritas em tom irônico ou de deboche. A Veja SP, por exemplo, em uma matéria informando sobre as comemorações do Dia do Saci, pontua: “Claro, a festividade não é para ser levada tão a sério”. Claro…

Outros exemplos acompanhados, no entanto, foram bem pouco taxativos e apresentaram várias soluções para uma cobertura criativa. O Hora, de Santa Catarina, aproveitou para lembrar que em Florianópolis todo dia é das bruxas – uma referência à popularidade do mito na região. Criaram ainda uma série, onde durante um mês diversos mitos eram ilustrados no jornal. A Globo Rural relembrou Joanópolis, a cidade conhecida como a Capital do Lobisomem. Mesmo a Folha de São Paulo trouxe a matéria Homem relata encontro com saci no interior de São Paulo, com uma pequena entrevista com o presidente da Associação Nacional dos Criadores de Saci (ANCSaci)..

São pautas diferenciadas, que voltam os olhos da população para os diversos aspectos da riquíssima cultura popular brasileira. Este sim, o verdadeiro grande motivo para a criação de um Dia do Saci.

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Testemunhas invisíveis na América Latina

Publicado em 15/10/2013
Revista IHU On-Line
Autores: Andriolli Costa e Ricardo Machado

Frente - rafael - Cópia

Leia o começo da reportagem Mundo em Fuga

Eles chegam sem fazer alarde, quase que pedindo licença para entrar. São seis ao todo. De pele escura e modos contidos, o grupo entra entusiasmado pelas portas da Igreja Pompeia, em Porto Alegre/RS. Colombianos. Silenciosos e humildes, mas visivelmente felizes, exibem com satisfação os documentos recém-assinados junto à Polícia Federal brasileira. Hoje são oficialmente e legalmente considerados refugiados. E exatamente por isso terão suas identidades preservadas e seus nomes trocados nesta reportagem.

De acordo com dados do Comitê Nacional para Refugiados – Conare, o Brasil abriga mais de 4,5 mil refugiados de 77 nacionalidades diferentes — a maioria de origem colombiana. Isto, é claro, levando em conta apenas aqueles que tiveram o status reconhecido, e não aqueles que ainda são solicitantes de refúgio. A tragédia recente em Lampedusa voltou os olhos do Brasil e do mundo para a situação insustentável daqueles refugiados, mas por vezes esquecemos da própria insegurança vivida por nossos vizinhos.

Emílio, 35 anos, não tem como esquecer. O camponês traz no rosto as terríveis marcas da violência que toma conta do sul e sudeste da Colômbia. Após recusar-se a servir à Guerrilha, em um dos vários atentados que sofreu, estilhaços de granada laceraram parte do seu nariz. O homem registrou boletins de ocorrência de cada encontro com os guerrilheiros, e há três anos conseguiu um documento do governo colombiano que confirmava sua perseguição e solicitava proteção constante para ele, a mulher e os três filhos. A ajuda nunca veio.

“O governo espera que usemos o papel para parar as balas”, desdenha Ramón, 45 anos. Ele, que é marinheiro há mais de duas décadas, também foi abordado pelos guerrilheiros, mas por motivos de estratégia militar. “Queriam que levássemos pelo mar a droga da Colômbia até o México, e de lá trouxéssemos armas para o nosso país. É assim que a guerrilha se sustenta”, relata. Após a recusa inicial, o grupo matou o capitão do barco em que Ramón atuava como imediato e ofereceu a ele uma mala com 25 maços de 7 mil dólares cada. O homem nem chegou a pensar. Guardou a maleta e, quando o grupo retornou já com a rota planejada, devolveu todo o dinheiro.

“Com essa gente não se brinca, meu amigo. Ou você é um deles ou está contra eles”. O marinheiro teve um dia para escapar. Partiu de sua cidade e espalhou amigos e familiares para bem longe dali o mais rápido possível. Foi bem a tempo. “Explodiram a minha casa e destruíram minhas motos, que eu gostava tanto”, lembra ele. O arrependimento é momentâneo. “Isso se compra de novo. Segurança não se compra”.

Emílio e Ramón não se conheciam na Colômbia e também nunca haviam se visto no Equador, de onde solicitaram refúgio para o Brasil. Um vivia da terra, em sua fazenda, e o outro, do mar. Mundos e vidas totalmente diferentes, unidas hoje pela mesma tragédia.

A Guerrilha

Os conflitos internos na Colômbia começaram a ganhar a faceta atual a partir da segunda metade do século XX, quando a guerrilha camponesa, influenciada pela Revolução Cubana, deu origem à entidade conhecida hoje como as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia – Exército do Povo, ou Farc-EP. Fundado em 1964, o grupo recebeu apoio do Partido Comunista Colombiano, iniciando quase desde o começo suas frentes de atuação militares e políticas. Desde a década de 1980, as Farc utilizam tráfico de drogas, sequestros e “impostos” (vacuna) cobrados forçosamente de moradores, empresários e comerciantes da região para financiar suas ações.

Emílio foi uma das vítimas da vacuna. Em 2009, ele e a família moravam na zona rural de Santiago de Cáli, a terceira maior cidade da Colômbia, com mais de 2 milhões de habitantes. Natural de Buenaventura, a 145 km de distância, decidiu passar as férias com os familiares. Quando retornou, veio a surpresa: seu sítio havia sido reclamado pela Guerrilha. Para continuar nele era preciso pagar uma taxa que, ele sabia, aumentaria a cada mês. “Quando eu recusei, tentaram me convocar. Disseram que eu tinha porte físico, que podia chegar a um posto de comando. Eles partiram e me deram três dias para decidir”, relembra. A ideia era recrutar igualmente seus dois filhos mais velhos: Pablo, de 16, e Esteban, de 14 anos. Emílio também não chegou a cogitar outra alternativa. Tirou as crianças da escola e partiu imediatamente junto da esposa Maria, 38, e do caçula Adrian, de apenas três anos de idade. Quem fica para trás, ou é morto ou é escravizado pelos guerrilheiros, e é levado a fazer trabalhos forçados até o fim da vida.

Desde o início do ano, entrou em vigor uma lei que tem como meta devolver entre 1,5 e 2 milhões de hectares de terras àqueles desalojados durante os conflitos internos da Colômbia. A estimativa é que sejam indenizadas mais de 4 milhões de pessoas vítimas de grupos guerrilheiros, paramilitares e agentes da força pública desde 1985, e que as cerca de 400 mil famílias desalojadas desde 1991 sejam restituídas. Emílio não quis aguardar. “Aos mortos não pagam”, esclarece, lacônico.

“A Colômbia tem três problemas principais”, explica Ramón. “A Guerrilha, os Paramilitares e o Exército”. Para o marinheiro, a violência instituída praticada pelas forças armadas alimenta de forma permissiva os demais grupos. “Se você tem algum amigo, parente ou mesmo cliente que entra para a Guerrilha ou para a Milícia, o exército te acusa publicamente de também ser um partidário do grupo”. Isso faz com que a pessoa não apenas seja alvo de investigação, como também tenha que lidar com o assédio da força opositora. E os paramilitares de direita podem ser tão ou mais violentos quanto os próprios guerrilheiros.

Um relatório publicado este ano pela ONG Corporación Nuevo Arco Íris afirma que, desde 2008, as ações violentas realizadas a cada ano por grupos paramilitares e neoparamilitares têm ocorrido em maior número do que as realizadas pelas Farc. Outra estimativa apontada pelo documento é que tais grupos contariam com 11 mil membros em atividade, contra 8,5 mil das Forças Revolucionárias e 2,2 mil do Exército de Libertação Nacional – ELN — outro grupo guerrilheiro, de orientação guevarista. Em sua origem, os paramilitares eram grupos formados por ex-oficiais e policiais contratados e financiados por grandes empresários, fazendeiros ou políticos. Durante o governo Álvaro Uribe (2002-2010), foram realizadas diversas ações de desmobilização destes grupos. Hoje, reorganizados, formam os neoparamilitares e, tal como as Farc, lucram com o narcotráfico na região.

O refúgio

costas - rafael

Durante mais de dois anos, Emílio e sua família tornaram-se nômades dentro do próprio país. Não demorava muito e os guerrilheiros logo os localizavam novamente, e ele tinha que partir mais uma vez. “Já no primeiro contato, eles tomaram nossos documentos, para dificultar nossa circulação pelo país”, afirma ele. Foi só com o tempo que Emílio tomou conhecimento da condição de refugiado e fugiu para o Equador. Uma vez em Tulcán, na fronteira com a Colômbia, solicitou junto ao país o reconhecimento da condição de refugiado. Mesmo com todos os documentos que comprovavam a perseguição, a aprovação foi recusada.

Para dificultar ainda mais a história da família, mesmo em outro país, os cinco foram localizados pelos perseguidores. “A Guerrilha tem um grande sistema de informantes. Pode ser um policial, pode ser um comerciante, pode ser o seu familiar”, relata ele. Foi só então que os colombianos procuraram a Acnur, que mediou a saída do grupo do Equador. De lá para cá, foram nove meses de espera até a vinda definitiva para o Brasil.

Abraçada com as crianças, Maria conta que estava tão desesperada que pela primeira vez contemplou o suicídio. A guerrilha já havia assassinado sua irmã, e eles sabiam do que os guerrilheiros eram capazes. Além disso, a vida no Equador não era nada fácil. “Eu quase fiquei louca. Tudo isso que nós estamos recebendo agora não tivemos nada naquele país. Os equatorianos são pessoas muito más”, lamenta.

“Lá, se você é branco, eles te tratam muito bem. Mas quem é negro não tem direito a nada”, afirma Pablo, o filho mais velho do casal. Ramón, por outro lado, não teve problemas em sua estadia no país. A profissão de marinheiro é muito requisitada, e o homem conseguiu entrar no Equador com uma proposta de emprego. Uma vez lá, dirigiu-se para uma região onde havia mais negros e solicitou refúgio. Foi aprovado.

Karin Wapechowski , coordenadora do Programa Nacional de Reassentamento Solidário da Associação Antônio Vieira – ASAV , em Porto Alegre, afirma que a impressão da família tem razão de ser. “Já colhemos relatos de mulheres que foram obrigadas a parir na rua, em frente ao hospital. Não puderam entrar justamente porque eram colombianas”. Ela, que é uma das responsáveis pela vinda de Emílio e Ramón para o Rio Grande do Sul, esclarece que é da prerrogativa de cada país aceitar ou não os refugiados sem necessidade de justificativa. “No caso da mediação pela Acnur, a agência apresenta os casos para vários países. Quando há o aceite, inicia-se uma série de entrevistas para confirmar o status de refugiados”, esclarece. Ramón, por exemplo, conta que sua solicitação de abrigo foi aceita pelo Canadá, pela Noruega e pelo Brasil. Escolheu o Brasil, tanto pelo clima quanto pelo medo do preconceito.

Aqueles que são aceitos como refugiados e passam a fazer parte do programa de reassentamento recebem uma bolsa mensal durante um ano, que varia de acordo com o número de membros da família. Só no Rio Grande do Sul, são 268 pessoas reassentadas, de acordo com Wapechowski. Após quatro anos de estadia no país, o refugiado pode fazer uma nova solicitação e tornar-se apenas um estrangeiro residente no Brasil. “A diferença entre um migrante e um refugiado é que, com o refúgio, o país se compromete a fornecer proteção legal e física da pessoa”, esclarece. Durante o primeiro ano, a pessoa precisa se manter na cidade onde foi alocada, mas depois é livre para ir a qualquer parte do território nacional.

O futuro
Recém-chegado a uma cidade no interior do Rio Grande do Sul, Ramón afirma se sentir completamente à vontade no Brasil. No entanto, vai apenas esperar acabar o período necessário para buscar o mar. Afinal, é dele que depende o seu ofício de mais de duas décadas e de onde é capaz de tirar seu sustento. “Como marinheiro eu recebia 3,5 mil dólares por mês e usava camisas de 100 dólares. Hoje dependo de doações para ter o que vestir”, lamenta ele. Enquanto isso, colegas que aceitaram o convite da Guerrilha estão ganhando 300, 400 mil por mês. Se ele se arrepende? “Nem um pouco. Eu pelo menos posso dormir tranquilo”.

A vaidade pessoal não é o único motivo que incentiva o marinheiro a buscar uma fonte de renda própria. “Eu vivia no mar. Ficava meses, às vezes quase um ano longe das minhas filhas. Meu vínculo com a família era o dinheiro”, relembra. Hoje, sem os recursos de antes disponíveis na conta, Ramón sente a fragilidade do laço que havia construído e o peso da responsabilidade. Sem ser capaz de cumprir o papel de provedor do lar, ele reflete sobre uma nova aproximação. “Hoje elas dependem de mim tanto afetivamente quanto economicamente”, pondera.

menino - rafaelEmílio e a família, por outro lado, já decidiram ficar. Os garotos também gostaram da cidade, dizem que Porto Alegre parece com a Europa. A sorte, de qualquer forma, parece estar se voltando para o lado deles. Em menos de oito dias no Rio Grande do Sul, tanto Emílio quanto Ramón já possuem um emprego à vista. O próprio motorista da prefeitura da cidade onde estão alocados os indicou para um empresário amigo seu, que lhes ofereceu as vagas. “Não existe um sistema formal de incentivo à contratação de refugiados. O que existe é uma rede de solidariedade, totalmente informal e espontânea”, esclarece Karin. Tranquilidade, felicidade, vontade de seguir adiante. É tudo o que os seis colombianos esperam para o futuro.

Na sala da entrevista, o pequeno Adrian encontra e imediatamente desembrulha um pacote com um pequeno caminhão de brinquedo. “De quem é?”, pergunta a mãe, preocupada. “É de Deus, pode ficar”, responde uma das irmãs da Igreja Pompeia. Alheio às terríveis lembranças da família, o garoto brinca. Rola as rodinhas de plástico pela mesa; empilha os boizinhos multicoloridos na caçamba; faz barulho de buzina com a boca. É um dia de paz. A vida continua.

Serviço aos refugiados

Na Igreja Pompeia, onde o grupo de colombianos foi acolhido, funciona o Centro Ítalo-Brasileiro de Assistência e Instrução às Migrações – Cibai. Fundado em 1953 para atender as migrações do pós-guerra — especialmente italianos —, nos últimos anos passou a atuar principalmente no apoio aos imigrantes hispano-americanos. Refugiados e solicitantes de refúgio também recebem orientação e caridade. Mais sobre o Centro está disponível aqui: http://bit.ly/cibai2013.

Também em parceria com a ASAV e a ACNUR, outra forma de apoio é a desenvolvida pelo Grupo de Assessoria a Imigrantes e Refugiados – Gaire, que faz parte do serviço de assessoria jurídica universitária da UFRGS. Atuando desde 2007, o Gaire oferece assistência jurídica, psicológica e social todas as terças-feiras, das 10h às 12h. Além da advocacia, o grupo conta com alunos de Relações Internacionais, Direito, Psicologia, Ciências Sociais e Serviço Social. O trabalho é totalmente voluntário. Para 2014, a proposta é desenvolver um curso de formação de novos grupos como o Gaire em outras universidades que já contam com serviços de assistência judiciária gratuita. Há mais sobre o grupo no link http://bit.ly/GaireUFRGS.

Para discutir a questão dos refugiados no meio acadêmico, a Unisinos possui a Cátedra Sérgio Vieira de Mello, co-coordenada pelos cursos de Filosofia e Relações Internacionais, na figura dos professores Inácio Helfer e Gabriela Mezanotti. De acordo com a professora, a cátedra reúne a pesquisa e o ensino a uma prática social de proteção a estas pessoas. “Estamos trabalhando para desenvolver um centro de atenção a refugiados na Unisinos, que incluirá a participação direta de alunos de vários cursos em parceria com a ASAV”, relata Mezanotti. Para a professora, este trabalho engaja os participantes não apenas academicamente, mas também pela expectativa de agir diretamente na integração destas pessoas na sociedade brasileira. Mais informações estão disponíveis em http://bit.ly/CSVM2013.

Mundo em Fuga – A saga dos refugiados e a luta para recomeçar

Publicado em 15/10/2013
Revista IHU On-Line
Autores: Andriolli Costa e Ricardo Machado

Foto - Wikimedia Commons

Era maio de 2011, e as águas do Mediterrâneo estavam agitadas naquele dia. Uma falha no motor havia deixado o barco à deriva em meio à tempestade, fazendo as centenas de pessoas apinhadas na velha embarcação verem o sonho da nova terra cada vez mais distante. Eram refugiados; os boat people, como são conhecidos. Os relatos falam de quase 400 pessoas naquele barco, que deixaram a Líbia em busca de refúgio na ilha italiana de Lampedusa. Porta de entrada para a Europa, distante apenas cerca de 100 km da costa africana, a pequena ilha de menos de 20 km² tem sido inundada por refugiados vindos do mar nas condições mais precárias. Insolação, desidratação e mesmo intoxicação pela fumaça dos motores afligem aqueles que fazem a travessia clandestina. No entanto, estes não são os únicos perigos. O desespero evoca tradições antigas; é preciso aplacar a tempestade, afastar os demônios. Até o fim daquela viagem, 12 pessoas foram lançadas ao mar; sacrifícios humanos para acalmar o oceano.

O relato acima, colhido pela ONG Save the Children, repercutiu em toda a imprensa internacional — e era apenas uma das várias vezes em que tragédias envolvendo a ilha e os refugiados ganhariam as páginas dos jornais. A mais recente ocorreu na primeira semana de outubro deste ano, quando uma embarcação que transportava 500 pessoas naufragou pouco antes de chegar à ilha. Apenas 155 refugiados sobreviveram, e a busca pelos corpos ainda continua. A própria entrada dos barcos em território italiano tem sido questionada, e há inclusive denúncias de que a marinha do país esteja interceptando e impedindo a passagem dos refugiados, fazendo a situação da ilha ser comparada à da fronteira do México com os Estados Unidos. Vista pelos fugitivos como um paraíso prometido, Lampedusa hoje tem recebido outra alcunha: Inferno no Mediterrâneo.

Ainda assim, as viagens continuam ocorrendo. Afinal, uma vez na ilha, os refugiados passam a ter os direitos amparados pela legislação da Comunidade Europeia, e de lá são encaminhados para Roma ou outros destinos italianos. Segundo informações do Alto Comissário das Nações Unidas para Refugiados – Acnur, desde o início do ano cerca de 30 mil pessoas chegaram à Itália em embarcações vindas do norte da África e do Oriente Médio. Fogem dos constantes conflitos armados que sempre assolaram seus países, mas que tomaram novas proporções nos últimos anos. Um povo que deixou para trás suas casas, suas famílias e suas raízes para recomeçar a vida em terra estrangeira. A busca agora não é por oportunidades de trabalho ou renda, mas sim pela paz e segurança.

A chegada desse contingente imenso voltou à atenção do mundo para a questão dos refugiados. Como devolver a estas pessoas seus direitos básicos? Como lidar com suas necessidades? Como compreender as demandas sociais que acompanham o processo de globalização? Este é o tema da discussão desta semana da IHU On-Line.

Mudanças forçadas
afghanistan-refugees-home-300633-oExistem aproximadamente 43,4 milhões de pessoas na condição de refugiados ou que solicitaram refúgio em todo o mundo. Metade desse contingente vem de quatro países: Afeganistão, Somália, Síria e Sudão, de acordo com o relatório Tendências Globais, produzido pela ONU em 2012. Engana-se quem pensa que o destino da maioria dessas pessoas são os países mais ricos. Ao contrário, cerca de 80% dos refugiados são recebidos em regiões em desenvolvimento, sendo que o Paquistão é o país que mais os recebe.

Vale notar que todo esse forçoso movimento migratório ocorre em um período de “paz” — haja vista que não existem guerras mundiais declaradas como no século XX. Dizer “sim ao estrangeiro” (Oui à l’étranger), como propôs o filósofo Jacques Derrida, é, sem dúvida, o desafio das primeiras décadas do século XXI e que já começa a se desvelar. Pela primeira vez, um papa não europeu assumiu o pontificado, e é igualmente simbólico como, em sua viagem inaugural fora de Roma, foi escolhida justamente a ilha de Lampedusa para receber a visita papal de Francisco. O convite ao Vaticano foi feito por carta pelo padre Stefano Nastasi, pároco de Lampedusa.

Antes da viagem, logo após assumir o pontificado, o papa já havia aceitado o convite do padre jesuíta Giovanni La Manna para conhecer o Centro Astalli, uma iniciativa da Companhia de Jesus, localizado em Roma. Longe do Mediterrâneo, mas próximo à central de poder italiana, o Centro Astalli tornou-se ponto de referência de abrigo aos refugiados. “As mortes, no mar, de gente tentando vir até nós, fugindo da guerra, pesam em nossas consciências”, lamentou La Manna pelo Twitter. Atuante e engajado, o padre vem brigando por melhores condições para os refugiados, e foi isso que o incentivou a convidar o pontífice a conhecer o Centro que dirige há dez anos. “Papa Francisco nos lembra que não somos chamados a ser apenas testemunhas ou mestres. As pessoas estão cansadas de palavras bonitas”, escreveu também no microblog.

Desde 1981, o Centro abriu suas imponentes portas verdes de madeira para acolher imigrantes e solicitantes de refúgio, fornecendo alimentação, orientação, apoio espiritual e psicológico. Para estas pessoas, o Astalli torna-se o mais próximo possível de um “lar”, e não apenas no sentido figurado. Isto porque, para a formalização do status de refugiado, a União Europeia solicita uma série de documentos, inclusive um comprovante de residência. Como a maioria dos refugiados não possui mais estes dados à disposição, a via degli Astalli 14/A tornou-se a casa comunal de mais de 500 refugiados.

Além de fornecer assistência, o Centro, na figura do padre La Manna, tem se posicionado também politicamente sobre o assunto. “Outros refugiados chegaram por mar. Não esperem por outra tragédia e estabeleçam imediatamente canais humanitários seguros para aqueles que fogem da guerra”, apelou o diretor nas redes sociais. A presença do papa na ilha trouxe junto com ele os olhos do mundo, que passaram a dar mais atenção ao que ocorria lá. A expectativa é que essa atenção resulte em ações efetivas. “Que a tragédia de Lampedusa não se torne uma triste lembrança. O sacrifício destes refugiados levará à mudança de nossa política e da União Europeia”, previu La Manna.

Direito à vida
DN-SN-84-09740Atualmente, de acordo com as convenções internacionais, nenhuma organização pode incentivar uma pessoa a deixar seu país de origem. Aqueles que, em sua terra natal, são vítimas de perseguição por razões de raça, religião, grupo social, nacionalidade ou opinião política podem solicitar refúgio apenas quando já estiverem em terra estrangeira. Esta é uma das críticas apontadas pelo padre La Manna, que teme que a insegurança da trajetória da fuga continue a gerar tragédia em cima de tragédia — e não apenas no caso de Lampedusa.

No entanto, nem todos compartilham da política humanitária defendida pelo Centro Astalli. Desde o início do ano, mais de 15 mil boat-people chegaram à Austrália aportando na Ilha Christmas, localizada no Oceano Índico e mais próximo da Indonésia do que da Austrália. O fato levou o primeiro-ministro do país, Tony Abbott, a iniciar uma campanha contra a chegada dos refugiados, direcionando os recém-chegados para o repatriamento na Indonésia.

Para a professora de Relações Internacionais da Unisinos, Gabriela Mezanotti, a mobilidade humana faz parte da lógica da globalização tanto quanto a movimentação de bens, serviços e capitais. Para ela, catástrofes como a recente em Lampedusa apenas confirmam que a questão da migração, dos refugiados e da ação humanitária ainda tem muito que se desenvolver. “De quem é o dever de proteção dos direitos humanos? A resposta ainda é vaga e nossa realidade confirma que nós ainda não levamos os direitos a sério”.

Os conflitos armados, para a professora, são marcas do século XXI. Neste contexto, “os refugiados são o produto dos piores instintos da humanidade e a manifestação da instabilidade das relações internacionais”, pontua ela. “Eles são ao mesmo tempo invisíveis e testemunhas, seguindo a perspectiva de Giorgio Agamben. Não são vistos ou ouvidos, mas estão em todos os lugares. São testemunhas ao resistir, por existir”.

Durante a Segunda Guerra Mundial, foram mortos cerca de 53 milhões de pessoas, entre membros das forças Aliadas, do Eixo e civis. Outros milhares de sobreviventes, sobretudo judeus, eslavos e ciganos, se espalharam, inicialmente, pela Europa e depois para outras partes do mundo em busca de abrigo. Naquele momento, nenhum deles era legalmente considerado refugiado.

O termo, em sua conotação sociopolítica, surgiu na Convenção das Nações Unidas sobre o Estatuto dos Refugiados, em 1951, mas só entrou em vigor em 1954. Inúmeras guerras se sucederam nas décadas seguintes, o que criou regiões de conflito, levando os povos a migrações forçadas. O termo boat people, inclusive, foi utilizado pela primeira vez para se referir aos refugiados da Guerra do Vietnã, que preferiam partir para a incerteza do oceano a viver na insegurança da terra firme.

No Oriente Médio, a instabilidade social que leva às migrações forçosas que vemos hoje iniciou com conflitos internos, agravados com a intervenção estrangeira. Na segunda metade dos anos 1970, começa a Guerra Civil no Líbano e, em 1979, a Revolução Iraniana, que derrubou um regime monárquico pró-Ocidente, dando lugar a um governo voltado à tradição Islã. Nos anos 1990, os Estados Unidos invadem o Iraque durante a Guerra do Golfo, cena que se repetiu mais de uma década depois, em 2003, com a alegação de que o então presidente Saddam Hussein mantinha um arsenal de armas químicas que ameaçavam a paz mundial. Nenhuma arma foi encontrada, mas o ditador foi capturado, julgado e executado.

Recentemente, uma nova investida americana estava sendo planejada, sob a alegação de levar a “democracia” aos povos do Oriente Médio. Estados Unidos, Inglaterra e França defendiam uma intervenção militar na Síria, movidos pelos conflitos internos entre rebeldes e o exército do país, enquanto a Rússia entendia o contrário. O presidente sírio Bashar al-Assad, em acordo mediado por Estados Unidos e Rússia, comprometeu-se em entregar as armas químicas de seu exército caso não houvesse intervenção de outros países na Síria.

Enquanto os chefes de Estados se envolvem em imbróglios geopolíticos, ao menos 6,8 milhões de sírios necessitam de ajuda humanitária, segundo dados da ONU. Desse total, 3,1 milhões são crianças e 4,25 milhões são deslocados internos. Com aproximadamente 185 mil km², a Síria é menor que o território do Paraná. Até a primeira metade do mês de setembro, havia 2 milhões de refugiados sírios em países vizinhos do Norte da África.

Leia a continuação desta reportagem: Testemunhas Invisíveis na América Latina

Perfil: Sotera Sanches de Silva

Autor: Andriolli Costa
Livro Vozes do Artesanato
Páginas 246-251

Foto: Fábio PellegriniUm visitante desinformado poderia até não saber quem era o dono daquela casinha nos fundos de um terreno, nas imediações da Colônia Paraguaia de Campo Grande. No entanto, não teria como não perceber que ali morava alguém especial. Das colunas de madeira que sustentam o telhado da varanda brotam carrancas de bugres mais do que características. Rostos sulcados, de olhar firme e expressivo, quase como em desafio àquele que se aproxima do lugar. A madeira escura e trabalhada é o melhor cartão de visitas dos donos da casa. É lá que moram Sotera Sanches de Silva, e seu filho Mariano Antunes da Silva.

Se os frutos não caem longe da árvore, as raízes por vezes também se entremeiam. Sotera e Mariano fazem parte da família de Conceição dos Bugres, uma das mais famosas artesãs do Estado. Ela, sua nora, e ele, seu neto. Mariano, hoje, é o herdeiro dos bugres de Conceição, e replica o trabalho da avó com os mesmos formatos e materiais. Sotera foi além, e não se permitiu trabalhar à sombra de uma árvore que já havia crescido. Ganhou ela própria notoriedade com seus bugres, que esculpe nos totens enegrecidos com corante solúvel a base de água.

Com a arte que desenvolveu em 1974, Sotera ganhou notoriedade e reconhecimento – como o primeiro lugar no 5º Salão de Artes Plásticas do MS, em 1987 – e teve suas peças expostas e comercializadas em diversas partes do mundo como Turquia, Japão e Bélgica. Com o dinheiro do artesanato, chegou a comprar vários terrenos, inclusive o da casa, em que mora atualmente – e o único que lhe restou. Hoje, fazendo um balanço de tudo o que conquistou e perdeu, ela é taxativa. “Não dá mais para conseguir nada com o artesanato. Eu não espero mais nada, só continuar vivendo.”

Raízes emaranhadas
“Onde eu nasci? Sabe que eu não sei! Acho que foi em Ponta Porã, ou Pedro Juan (Caballero, no Paraguai). Bem perto dali”, relata ela, forçando a memória por mais detalhes. A fronteira está longe de ser um limite para os fronteiriços, e os territórios muitas vezes acabam se confundindo. E os irmãos? “Vixe Maria! Difícil lembrar. Já morreu quase tudo.” Eram dez no total, ela estima. Cinco homens e cinco mulheres.

Pouco parece ter ficado na lembrança de sua vida antes de chegar em Campo Grande, aos 16 anos, para trabalhar como auxiliar numa lanchonete na região da Cabeça de Boi. A pouca importância das memórias é justificável; se a vida na Capital nunca foi fácil, certamente foi menos complicada que o período na fronteira. “Minha mãe morreu quando eu tinha seis anos, e eu fui criada pelos parentes. A vida toda trabalhei de doméstica”, relembra Sotera.

Foi ainda na lanchonete que conheceu Wilson Antunes da Silva, o filho de Conceição. “Quando eu casei, minha sogra estava começando a fazer os bugres. Eu não me interessava por aquilo, não entendia. Nunca pensei que ia fazer artesanato”, assume. Ainda assim, ela não vê influência do trabalho de Conceição no seu. A vontade de modificar a madeira ela diz não ter certeza de onde veio. “Eu só estudei o 1º ano, e eu só assino o meu nome. Nasci no cafundó do Paraguai, no meio do mato, e nunca vi na minha vida um bugre de pau.” Para Sotera, sua inspiração é coisa de Deus. Coisa de outro planeta.

Mas o seu próprio contato com a madeira não veio direto com o artesanato. Wilson era motorista do Incra e, apesar de não ser artesão como a mãe, também fazia suas incursões pelo mundo do martelo e do formão – só que de maneira mais prática. “Meu marido fazia poltrona, mesa, porta e baú. Tudo rústico”, explica Sotera, que costumava ajudá-lo na produção das peças. Ela mesma começou a fazer e vender pilão de madeira, para ajudar no orçamento da casa.

Os trabalhos, nessa época, eram quase sempre utilitários. Vez ou outra, no entanto, ela juntava raízes de aroeira no mato e envernizava, e percebeu que tinha gente comprando. Expondo na Casa do Artesão desde 1973, foi só um ano depois – quando seus produtos já não estavam vendendo tão bem assim – que surgiu a inspiração para fazer os totens.

“Eu não fiz uma primeira escultura; fiz logo três de uma vez. Era só pescoço e orelha, pareciam um monte de velho. Uma coisa horrível!”, ri, em meio às lembranças. No entanto, não demorou uma semana para a Casa do Artesão retornar a ligação, informando que tudo já havia sido vendido – e pedindo mais!

Iguais aquelas primeiras peças, Sotera vendeu todas. Com o tempo, as carrancas foram se aperfeiçoando e o estilo foi modificando, mas ela se arrepende de não ter guardado ao menos uma. Anos depois, chegou a fazer uma nova peça parecida com aquela, que guarda junto do ateliê, que divide com o filho Mariano (ou Maninho, como ela o chama).

– E quanto custa?

“Não… Esse não está a venda”, informa ela um pouco sem graça. Em meio às dificuldades do dia a dia para sobreviver com o trabalho de artesão, esse é um dos poucos luxos que a artesã se permite. Ainda assim, ela evita protecionismos em relação a sua arte. “É o meu trabalho, mas eu não adoro nada disso. Para mim, por mais bonito que seja, é só um pedaço de pau.”

Madeira de construção

Foto: Fábio PellegriniHoje, tudo é material para Sotera e não há forma da madeira que ela não trabalhe. “Eu faço de galhada. Vários, um em cima do outro. É só cair um galho duma árvore boa que eu viro tudo em bugrinho.” Ipê, faveiro, aroeira ou peroba roxa são os principais materiais utilizados pela artesã na feitura de suas peças – tudo comprado em lojas de madeira de construção.

Mesmo que se quisesse, é impossível separar Sotera de Mariano. Mãe e filho dividem muito mais que a casa, mas também o trabalho. É ele quem serra as toras em pedaços menores, e entrega para a mãe entalhar. O contrário também é válido, e quando as encomendas de Mariano são muitas, é Sotera quem o ajuda na hora de encerar e lixar.

Quanto ao acabamento, os dois trabalham de maneira bastante semelhante. Com a madeira nas mãos, eles desenham as formas que pretendem liberar na peça com a maceta e o formão. Com cuidado crescente, vão tirando lascas e mais lascas até o rosto tomar forma no material. Quando preparadas as peças, Sotera finaliza tudo com xadrez preto e cera de chão. Já Mariano usa tinta preta e cera de abelha. As peças são então reservadas durante um dia inteiro para secar. “Depois de encerado eu lixo tudo para tirar o brilho, e depois encero de novo para fazer durar”, detalha Sotera. Para abreviar o tempo, a essa fase de finalização só passa quando têm várias peças prontas para serem enceradas ao mesmo tempo.

Das peças que mais lhe encheram de orgulho, ela aponta uma foto guardada num dos álbuns da família. É uma árvore inteira, toda negra, com cerca de um metro e oitenta de altura e inteiramente trabalhada em carrancas de bugre. “Essa aqui eu vendi para o Humberto Espíndola, para a minha filha casar. Comprei vestido de noiva, sapato e grinalda.” Mariano lembra bem dessa época, onde a mãe danou de fazer várias árvores e galhadas. “A cozinha aqui de casa era quase uma floresta”, brinca.

“Eu gosto de fazer peça grande. Árvore ou totem com três, quatro cabeças”, conta a artesã. “Mas esses vendem muito pouco. O que mais tem saída é o pequeno.” Pergunto dos preços, e ela relata que tem peças que saem por até R$ 1.000,00.

– E o mais barato?

“Não tem isso de mais barato. Quando você está apertado, vende até por R$ 10,00”, afirma categórica.

Sotera acredita que o artesanato teve sua fase áurea na década passada, principalmente 1996 e 1997, e hoje vive uma crise de identificação com o público. “Arte hoje em dia é para quem entende e conhece. Eu ouvi falar que teve um leilão de um bugre da minha sogra que foi comprado por R$ 30 mil. Deve valer né?”, questiona ela, também em dúvida. Em média, os bugres originais – e pequenos – de Conceição são vendidos por R$ 6 mil. Ela mesmo já chegou a ter cinco peças da sogra em seu ateliê, que vendeu por R$ 3 mil quando um comprador apareceu.

Espaços e Mercados
Gestor da Casa do Artesão de Campo Grande desde 2008, Oscar Veraldi é responsável por um espaço onde estão expostas peças de mais de 1.300 artesãos – inclusive Sotera e Mariano. Do contato direto com o setor, Oscar observa uma série de mudanças no mercado. “Uma delas é que a comercialização foi descentralizada. Hoje a Casa do Artesão é apenas uma das opções para vender a produção artesanal”, relata ele. Além do espaço, também há a feira permanente na Praça dos Imigrantes, os centros de economia solidária e as várias lojas particulares espalhadas pela cidade.

A oferta de produtos aliada à multiplicidade de pontos de comercialização pulverizaram também as vendas. É raro o artesão que consegue tirar toda sua renda de um único local. Mais comum é que ele receba pingado, recolhendo um pouco de cada local. Mais do que isso, como o maior número de vendas são realizadas para turistas – “cerca de 80%”, estima Oscar – a preferência é por peças de menor tamanho e, consequentemente, menor valor, reforçando a imagem do pagamento pulverizado. Peças grandes, como as árvores-totem de Sotera, são muito pesadas e de difícil transporte para quem vem de fora, e acabam esquecidas mesmo estando no centro da loja, confundidas com a mobília ou servindo de estante para as peças pequenas.

O transporte é um ponto fundamental na comercialização de peças dos artesãos de Mato Grosso do Sul. “Esse busto aqui, por exemplo, está vendido há quase um ano”, relata Oscar, apontando para uma peça de gesso feita por uma artesã. O busto de uma negra, cheio de detalhes e babados trabalhados, aguarda pacientemente até que sua compradora venha reclamá-lo em sua próxima viagem – desta vez de carro – de São Paulo até Campo Grande.

“As transportadoras não quiseram levar a peça, por que não queriam arcar com as despesas em caso de quebra”, relata o coordenador da Casa do Artesão. Negociações com os Correios também se provaram infrutíferas, e o destino da peça – assim como muitas outras – é esperar. “Já tivemos caso de um comprador que queria que a gente entregasse a peça na Alemanha. Mas é todo um processo de desembaraço aduaneiro que nós acabamos não conseguindo fazer”, relembra.

Se por um lado o mercado de vendas diretas diminuiu, Oscar Veraldi vislumbra outras oportunidades se abrindo para o artesanato. Uma delas é o oferecimento das peças como brindes corporativos para empresas que desejam presentear funcionários, ou homenagear personalidades com trabalhos que denotem regionalidade. Sotera e Mariano já foram contratados algumas vezes para preparar as peças para uma emissora de televisão e mais recentemente para um órgão do Poder Judiciário. “Sempre que as empresas nos procuram, nós passamos o contato direto do artesão para que os termos sejam negociados com eles. O papel da Casa do Artesão fica só em auxiliar nos trâmites financeiros, como para emitir nota fiscal”, esclarece Oscar.

O mercado de brindes corporativos vem sendo bastante incentivado pela gerência de artesanato Sebrae/MS, mas que esbarra em um ponto principal: a capacidade e logística de fornecimento do artesão. “O problema é só quando as pessoas pedem em cima da hora”, relata Sotera. “Uma vez pediram no domingo pra gente aprontar até terça, umas quarenta peças. Não dá! Tem que ser com pelo menos dois meses de antecedência.” O prazo estendido não é só para o tempo hábil de secagem e produção das peças, mas por que os anos já estão pesando no trabalho da artesã. “Deu quatro e meia da tarde e eu já não estou enxergando mais nada. Aí a gente para, né?”

Sincera e um tanto desacreditada, nada disso anima Sotera. Para a artesã, os tempos são outros, e o interesse das pessoas passou. Daqui para frente, não importa o mercado ou as novidades, as coisas vão ser cada vez mais difíceis. “Vai chegar o tempo em que nada mais vai valer nada. O artesanato já deu o que tinha que dar.”

Perfil: Edson Alves da Cruz

Publicado no livro Vozes do Artesanato, 2012
Autor: Andriolli Costa

O endereço estava na internet. Na verdade, era uma das únicas coisas que o usuário que procurasse por aquele nome – ao lado das palavras Corumbá e artesanato – poderia encontrar. No entanto, a casa de Edson Alves da Cruz era mais fácil de ser localizada pelo Google do que pela reportagem. “Pergunte por Edson das Capivaras”, disse ele por telefone. “Todo mundo conhece!”. No caminho, os mototaxistas davam de ombros e os vizinhos torciam a cara em interrogação. Há mais de 30 anos dedicado a retirar da madeira as formas dos bichos do Pantanal – e há 25 morando no mesmo lugar – Edson balança a cabeça ao saber das dificuldades. “Todos esses anos no trabalho e ainda passamos por isso. Não é fácil, não é fácil”.

A chateação não acompanha Edson por muito tempo. Aos 63 anos de idade, ele que já é pai de nove filhos e avô de 12 netos pode não ter ficado rico. No entanto, tudo que tem até hoje – da casa de alvenaria na Avenida General Rondon, em Corumbá, até o Chevette 1984 que está reformando desde 2009 – foi conquistado graças a sua arte. Pantaneiro robusto, com o rosto emoldurado por um bigode grisalho e um par de óculos que amenizam-lhe as feições, o maior orgulho do artesão é ter criado sua família da melhor forma possível. “Filho pra mim não é bicho. A gente precisa dar estudo, comida, saúde… Hoje pra mim é um alívio saber que tão tudo crescido e bem”. Continuar lendo

A Arte dos Sacis Urbanos

Chega de mitos despolitizados! O folclore toma conta das grandes cidades em forma de crítica social

Em tempos de politicamente incorreto, não há adversário maior aos eufemismos da sociedade do que o Saci. O diabrete subversivo é negro e perneta com orgulho – ai de quem chamá-lo de deficiente! Mais do que isso, fumante inverterado, carrega todavida seu pito aceso e está sempre fumando em local proibido.

É com essa visão mais crítica, contemporânea  e – por que não – urbana desta criatura tão presente no imaginário coletivo do povo brasileiro que artistas de rua têm se apropriado de sua figura em suas intervenções. Com a metrópole como parque de diversões, o Saci tatua em pele de concreto críticas ao consumismo, a opressão e ao descaso do poder público.

O mais conhecido representante da lenda, reconhecido em toda cidade de São Paulo como “O” Saci Urbano é aquele criado pelo grafiteiro Thiago Vaz. Em seu traço, o negrinho abandonou o gorro por uma boina, a tanga por um short jeans e saltita pelos pelas ruas com o único pé calçado num tênis caprichado.

Nas próprias palavras do artista, o diabrete é fruto de uma inspiração política. “O Saci vem representar, no meio urbano, o pobre sofredor brasileiro. Não apenas o negro”, ressalta. As aparições da criatura pela capital paulista são registradas num blog (http://eosaciurbano.org/), e é especialmente na rede que elas proliferam, antes do negrinho ser encoberto por uma demão de tinta pela prefeitura.
O artista não se incomoda, afinal a própria arte do grafite é efêmera. Na verdade, até procura por isso. Em sua maioria, os sacis tomam forma em telas compostas por tapumes de madeira, muros de contenção, obras paralizadas. “São lugares que eu sei que em uma semana ele já não vai mais estar”, assume Thiago. Sete dias, no entanto, é tempo mais do que suficiente para o duende brasileiro dar seu recado.

Ao lado de terrenos baldios, cheios de animais peçonhentos, o Saci Urbano dispara pedradas contra cobras e ratazanas; se desespera ao atravessar uma avenida movimentada; leva flores ao túmulo da dignidade e é até mesmo abordado pela polícia embaixo de um viaduto. Noutras, mais inocentemente, solta pipa entre os fios de alta tensão, joga bola e pula corda numa perna só e – para não perder o costume – dispara mais tiros de estilingue, dessa vez contra outra ratazana, o Mickey Mouse.

A iniciativa inspirou, a pedido de muitos o Saci Urbano ganhou o Brasil e o mundo. Avistamentos da criatura juram que ele deu as caras em Minas Gerias, Rio de Janeiro e até Paris! Mas, e se ele viesse para Mato Grosso do Sul? Que traquinagens o diabinho perneta faria por aqui? Será que mudaria a hora do relógio da 14? Acenderia o cachimbo nas cinzas do velho Alhambra, na rua 26 de agosto? Faça o seguinte, conte pra gente nos comentários o que você acha que o Saci aprontaria em terras sul-mato-grossenses!

Publicado na Revista Poranduba
Autor: Andriolli Costa

Caçadores de Mitos

Grupo planeja a captura de monstros do imaginário mineiro, lançando novos olhares sobre o folclore regional

A notícia veio caminhando lá pelo meio de julho. Começou a aparecer aqui e ali nos jornais do interior do estado de Minas Gerais. A novidade ganhava a boca do povo, foi só questão de tempo, talvez um dia ou dois, para os âncoras dos principais telejornais brasileiros anunciarem: A Associação dos Caçadores de Assombração (ACAM) oferecia R$ 10 mil para quem fotografasse o Caboclo D’Água, uma criatura bastante conhecida no imaginário local.

O anúncio trouxe uma semana movimentada para o município de Mariana, a 114 km de Belo Horizonte, onde fica a sede da Associação. Contatos vieram dos Estados Unidos, da Inglaterra e até do Nepal. Um entra e sai de repórteres, cinegrafistas, produtores e até mesmo simples curiosos chegavam na cidade a procura dos fundadores do grupo: o jornalista Leandro Henrique dos Santos e o professor universitário Milton Brigoline.

Leandro é o diretor de um jornal local, O Espeto, e conta que os relatos de aparições de criaturas como o Caboclo D’Água sempre foram encarados como lendas e eram sempre retratados numa coluna própria, a Nossos Causos. Com o tempo, no entanto, as notícias tomaram um rumo diferente. “Assombrações e monstros começaram a atacar as pessoas, e muitos casos envolviam até mesmo a polícia militar e atendimento hospitalar!”, relata ele.

O mais alardeado destes ataques, de acordo com os fundadores da ACAM, foi realizado contra um rapaz, cujos testículos teriam sido arrancados por uma dentada da criatura. Estiveram presentes o Corpo de Bombeiros e a Polícia, e a conclusão, para Leandro Henrique, era previsível: atacado por um “animal”. Foi a gota d’água.

Mobilizando a equipe, e com apoio da Universidade Federal de Ouro Preto, o grupo não apenas ofereceu a alardeada recompensa pela fotografia, como também passou a tentar capturar a criatura. “Começamos a organizar caçadas e instalar armadilhas”, relembra Leandro. “Logo, decidimos expandir a busca por outros casos de assombrações e monstros que tem aparecido na região há cerca de 300 anos, mas nunca foram estudados”. A nova proposta rendeu novas matérias jornalísticas, divulgando perfis e “retratos falados” de diversos mitos e lendas mineiros pela internet.

Quando questionado, Leandro Henrique nega que a Associação tenha outro objetivo que não caçar as criaturas que assolam o povo. Ainda assim, é inegável como a iniciativa pode promover o turismo no município e lança um novo olhar sobre a cultura popular da região. Uma tradição que não faz parte de um passado distante, mas que está presente no cotidiano, que se manifesta concretamente na vida das pessoas. “Para mim, o folclore não tem que ser preservado, mas sim alimentado”, afirma o jornalista.

A Associação dos Caçadores de Assombração já colaborou na gravação de dois documentários sobre o Caboclo D’água. Mas Leandro garante que evita interferir na produção. O objetivo não é esse. “No município de Barra Longa existe uma festa para o Caboclo D’água. Até estátua para ele foi construída! Mais do que publicar livros ou fazer filmes, é esse ambiente cultural que temos que fomentar. É deixar as pessoas festejarem sua cultura”.

A grande missão da Associação, no entanto, ainda está por vir. Em janeiro haverá uma grande caçada com balsa, onde a equipe de caçadores ficará 10 dias percorrendo o Rio do Carmo para capturar o Caboclo D’água. Em nome da Revista Poranduba, boa caçada a todos!

Leandro Henrique dos Santos é jornalista e diretor do jornal O Espeto, membro fundador e assessor de comunicação da ACAM

Poranduba: Atualmente, quantos caçadores fazem parte da Associação? O que é preciso para integrar a equipe?
Leandro: São 56 caçadores e mais os colaboradores. Primeiro é preciso ser colaborador para depois poder se tornar um caçador. Para fazer parte é importante não ter medo de nada, precisa ter disponibilidade aos fins de semana e ser bastante curioso.

Poranduba: Qual a fonte de rendas da ACAM? Ela recebe auxílio do Poder Público ou está ligada a algum projeto de extensão?
A ACAM é mantida pela doação de colaboradores e caçadores. No entanto, a associação é secreta, e guarda em segredo o nome de seus participantes. Apenas a diretoria tem seus nomes divulgados. Desta forma, ela não pode ser registrada, ter CNPJ, receber verba pública ou ajuda financeira de quem não membro. Considerando esta implicação não nos relacionamos com qualquer outra instituição formalmente.

Ainda assim, a Associação tem como parceira a UFOP (Universidade Federal de Ouro Preto), que em diversas caçadas colaborou com material e permitiu que as pesquisas da ACAM sejam realizadas em seus laboratórios. Um exemplo de fruto desses estudos é a criação de um líquido com cheiro de bezerro que usamos para atrair o Caboclo D’água.

Poranduba: Alguém até agora já apareceu para tentar receber o prêmio dos R$ 10 mil pela foto do Caboclo D’água?
Sim, duas fotos foram apresentadas. Uma descartada e outra está em análise, mas o primeiro parecer de equipe técnica constatou que era foto de outra assombração, não do caboclo d’água.

Associação acompanha entrevista da Globo

Poranduba: Com a grande exposição na mídia das lendas mineiras a partir do trabalho da Associação, de que formas os municípios de Mariana e arredores poderiam se utilizar desta divulgação, com ações que valorizassem o turismo, por exemplo, a partir do imaginário?
Nós nos Preocupamos com a divulgação desses avistamentos como lendas apenas. Temos casos de pessoas que ficaram cegas por quatro dias por avistarem a Mãe do Ouro, uma bola em chamas grande que vem do céu e desce nos garimpos. Por causa dela, vários garimpos foram abandonados. Coisa que nem a Polícia Ambiental conseguiu fazer! Até a prefeita, Terezinha Ramos, já cuidou do seu irmão que foi atacado pela Mãe do Ouro. Ele ficou em casa sem poder ver a claridade por seis dias.

Tivemos avistamentos que foram perseguidos. No caso da Maria Sabão, por exemplo, ela entrou no rio e saiu na outra margem e as três pessoas que a seguiam não conseguiram atravessar o rio devido a fundura e correnteza! Outros já tentaram até mesmo seguir a Mulher de Branco, que foi direto para o cemitério.

Poranduba: Mitos e lendas são patrimônio imaterial de uma comunidade. Qual a importância que você vê em sua preservação?
Não falamos em preservar e sim em alimentar nosso folclore, nossa identidade, nossa cultura. Ao contar causos e lendas estamos também contamos parte de nossa história que faz parte da formação de nosso carácter. Muitas vezes a criançada cresce tendo como referência desenhos animados e filmes de outros países. Conhecer e valorizar outras culturas é importante, mas temos também nossa prória cultura, com nossos mitos e lendas que revelam de onde somos, como chegamos até aqui, e isso tem que ser alimentado.

Poranduba: A Associação age principalmente nos municípios de Mariana, Diogo Vasconcelos e Barra Longa. Você acha que é no interior que essas lendas estão mais vivas? Nas grandes cidades, elas ainda tem lugar?
Na cidade os perigos são outros, mas essas lendas são inerentes ao ser humano. Vou te dar um exemplo: quando os jornalistas vinham conhecer e filmar a história do caboclo d’água, a noite na beira do Rio do Carmo, nosso vice-presidente fazia questão de jogar uma pedra do rio. Com o barulho todos corriam! Se achavam que o Caboclo D’Água não existe, por que correram?

Poranduba: Você tem conhecimento das outras associações com objetivos semelhantes, como a dos Criadores de Lobisomem em Joanópolis (SP), dos Criadores de Saci no Paraná e dos Criadores de Mula Sem Cabeça (MG)?
Ainda não temos nenhum tipo de relação com essas associações, apesar de achar a idéia maravilhosa de alertar as pessoas sobre o perigo dessas assombrações com esse tipo de abordagem. Seus fundadores estão de parabéns. Aqui em Mariana e região preferimos caçar e expulsar as assombrações, numa luta sem fim.

Publicado na Revista Poranduba
Texto e arte:
Andriolli Costa

Sinhozinho – Em Busca do Profeta

Em meados da década de 40, a cidade de Bonito/MS era o teatro de dois fantásticos personagens que se arraigaram na cultura local. De um lado, o banditismo do bando de Silvino Jacques marcava uma época de terra sem lei — quase um western pantaneiro. Ao mesmo tempo, o profeta mudo Sinhozinho reunia devotos e pregava a palavra, realizando milagres e gerando lendas e histórias que permanecem até hoje no imaginário da cidade.

E foi numa busca por essas histórias que a repórter Laryssa Caetano garimpou seus depoimentos. Difícil mesmo foi separar real do fantástico, quando mito e memória se tornam uma coisa só. Sabemos que o Sinhozinho existiu, e que deixou presenças físicas na cidade. As cruzes espalhadas por Bonito, a Capela — até hoje zelada com carinho — e a memória daqueles que em sua juventude rezaram de joelhos em frente a figura religiosa deixam isso claro. No entanto, ele também deixou marcas imateriais na vida do povo daquele local, que repassa até hoje as histórias de “ouvi dizer”.

Dizem, por exemplo, que o profeta era a reencarnação de São João Batista. A vida regrada, os carneirinhos que o acompanhavam e a alimentação minimalista — água, peixe e mel (e a mandioca, para dar um tom brasileiro) — realmente lembram o personagem bíblico. Diferente do santo, porém, o Sinhozinho não batizava ninguém. Era mudo, e só se comunicava por senhas (gestos). Mais do que isso, deixava a mostra apenas um braço;  o outro vivia escondido. O povo conta que era todo atrofiado. Ainda assim, arrebanhava multidões para as pregações silenciosas, curando doentes e incentivando os fiéis a plantar e colher. Um diálogo direto com o movimento messiânico, com representantes como Padre Cícero, Beato João Maria ou Antônio Conselheiro.

Tal como os nomes citados acima, o Sinhozinho também teria chamado a atenção — negativa — do Estado, que teve que tomar suas providências. Dizem que a perseguição ao profeta foi incentivada por farmacêuticos, que viam seu negócio às moscas graças aos milagres realizados. Outros afirmam que a ação da prefeitura era inevitável, já que as pessoas estavam fora de sua razão e já nem trabalhavam mais, apenas rezavam dia e noite. Seja qual for a versão correta, certamente uma força capaz de reunir tantos seguidores fiéis ao seu redor não era nada interessante para governante algum.

Antes de morrer — ou desaparecer, como pregam alguns — o Sinhozinho realizou a sua maior façanha. O profeta teria prendido, numa gruta da cidade, uma gigantesca serpente. Para selar o monstro, plantou na frente do local uma santa cruz, e espalhou diversas outras pelas casas da cidade. A cobra um dia irá se soltar, mas o povo conta que onde a cruz do Sinhozinho estiver presente, a besta não poderá infligir nenhum mal.

Hoje, quase 70 anos depois, a maioria das cruzes já desapareceu. Foram se perdendo com o tempo, ou depredadas por novos moradores que iam chegando. A própria santa cruz em frente ao morro da cobra foi uma das mais avariadas. Mesmo com a partida do Sinhozinho, a fama de milagreiro permanece na cidade, e muita gente buscava uma lasca da cruz para preparar um chá ou remédio para curar as dores do corpo, até o ponto do objeto quase não se manter mais em pé. Se quando isso finalmente acontecer a serpente realmente irá sair para aniquilar a cidade não há como saber. O fato é que quando cair a última cruz do Sinhozinho, terá morrido para sempre um pedaço da história do município de Bonito.

Publicado na Revista Poranduba
Texto e edição:
Andriolli Costa
Captação:
Laryssa Caetano
Arte:
Alexandre Barroso

Festa da Farinha de Anastácio

Vídeos do VodPod não estão mais disponíveis.

Vídeo para a matéria Festa da Farinha de Anastácio: Reduto Nordestino em MS
Revista Eletrônica Poranduba
Filmagem: Laryssa Caetano
Edição: Andriolli Costa

Trilha: Xote da Inocência. (Lailton Araújo / Marisa Serrano ). Disponível em Overmundo.

Entrevista: Lobisomem Existe!

Revista Poranduba/Andriolli Costa
Publicado em 02/07/2011

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Dez anos atrás, os então acadêmicos de jornalismo Paiva Junior e Silvana Godoy surgiram com uma proposta diferente em seu trabalho de conclusão de curso na PUC de Campinas. Um livro-reportagem em que o personagem principal não seria ouvido em nenhum momento, mas sim descrito e apresentado em suas várias versões por cada um dos entrevistados. Um livro sobre lobisomens.

Joanópolis, no interior de São Paulo, foi o palco escolhido para o trabalho – caracterizado pelos autores como uma aventura jornalística. A cidade é considerada a capital nacional do Lobisomem desde a década de 80. A fama foi abraçada pelos habitantes da cidade, que se reinventou para aproveitar a oportunidade turística. Por todos os lados, artesãos oferecem peças inspiradas na criatura. Circulando pelo município é fácil encontrar bares e pousadas trocaram de nome para fazer referência ao licântropo. Mais do que isso, é lá que se encontra a Associação dos Criadores de Lobisomem, que organiza expedições de caça à besta, enquanto contam histórias que encantam os visitantes.

Silvana Godoy é jornalista formada pela PUC de Campinas, e desde a faculdade trabalha na agência Sygma Comunicação. Atualmente, atua principalmente em assessoria de imprensa e edição de conteúdos para publicações, especialmente livros didáticos.

Silvana Godoy é jornalista formada pela PUC de Campinas, e desde a faculdade trabalha na agência Sygma Comunicação. Atualmente, atua principalmente em assessoria de imprensa e edição de conteúdos para publicações, especialmente livros didáticos.

O livro, entitulado “Lobisomem Existe!” foi orientado pelo professor Celso Falaschi, um dos fundadores da Academia Brasileira de Jornalismo Literário, e ficou entre os cinco melhores trabalhos do Expocom 2001, recebendo uma menção honrosa. Hoje, tanto Silvana quanto Paiva trabalham em outras áreas do jornalismo, e não há previsão de o retomarem numa nova edição. O conteúdo porém, está disponível na íntegra na internet, e pode ser acessado aqui.

Confira abaixo a entrevista exclusiva da jornalista Silvana Godoy para a Revista Poranduba, e conheça um pouco mais da produção do livro-reportagem:

Poranduba: O que levou você e o jornalista Paiva Junior a escolherem o tema para o livro reportagem?
Silvana: Procurávamos um tema original e que, ao mesmo tempo, nos motivasse a produzir o livro, nos desse interesse e fôlego para cumprir a missão. O tema lobisomem/folclore representou isso e abraçamos a ideia. Estudantes de comunicação, especialmente de jornalismo, têm uma tendência de atuar em temas sociais, não que estes não sejam relevantes e interessantes, pelo contrário. Mas, sempre havia mão de obra excedente voltada para esses assuntos. Procurávamos algo diferente, mas que pudesse funcionar como resgate. Encontramos o lobisomem.

P: Como trabalhar jornalisticamente – isto é, com âncoras na realidade e objetividade – com um personagem, como o Lobisomem, que em sua essência está fundado no imaginário? Vocês tiveram alguma dificuldade para encontrar o caminho para o trabalho?
S: Está fundado no imaginário?! Diz isso porque não conheceu, pessoalmente, vários dos personagens que entrevistamos em Joanópolis! Jornalisticamente é possível trabalhar, desenvolver qualquer tema. Presos muitas vezes nas redações e nos acontecimentos cotidianos, nos esquecemos, do ponto de vista profissional, de outros assuntos que não sejam factuais. O texto jornalístico, principalmente nos dias atuais, permite diversas abordagens, incluindo a literária, que foi a que usamos no livro. Essa forma é, inclusive, um meio de lidar com temas como esse. É possível, entretanto, encontrar outros jeitos, pautados na realidade e na objetividade do jornalismo cotidiano. É possível (e um dever do jornalista) retratar as pessoas, as comunidades, suas tradições e crenças. Métodos não faltam.

Sobre dificuldades de encontrar um caminho, não tivemos. Tudo foi bastante simples. Tanto eu quanto o Junior já tínhamos experiência de redação, então localizar fontes e fazer abordagens a elas não foi difícil. Com a ótima orientação que tivemos do professor/orientador Celso Falaschi, também foi simples encontrar o estilo que pretendíamos trabalhar: um livro em que o lobisomem fosse o personagem central, com conteúdo leve e coloquial, baseado nas histórias que as pessoas tinham para contar.

P: O livro é descrito em sua apresentação como uma “aventura jornalística”. De fato, na narrativa, os próprios repórteres se tornam personagens em uma “busca” pelo lobisomem que revela os detalhes pela cidade. Incluir vocês mesmos no texto já foi pensado desde o início?
S: Na verdade não, foi resultado do estilo de texto que buscávamos e das experiências que vivenciamos. Queríamos uma obra que estimulasse o leitor a continuar a virar as páginas e que desse a ele a dimensão da busca por esse personagem, que o levasse junto nessa busca. Também tivemos várias aventuras, de fato, durante as entrevistas e na produção de imagens e, então, decidimos contá-las. Esse aspecto da narrativa nasceu, portanto, a partir das nossas experiências.

P: Qual a história de Joanópolis que mais lhe marcou durante a reportagem?
S: Não uma história em sim, mas o comportamento das pessoas. Algumas falavam do lobisomem com entusiasmo, não pensavam duas vezes em nos atender. Ficavam realmente satisfeitas por poder falar das suas lembranças, das suas crenças. Outras, porém, tinham aversão ao assunto, mesmo algumas pessoas ligadas a histórias conhecidas na cidade, histórias que eram relacionadas ao lobisomem. Isso demonstra as muitas reações que um mito pode despertar e as facetas da cultura popular.

17P: Com a sua experiência na cidade, você acredita que a cultura popular é um elemento efetivo que pode ser usado para o desenvolvimento da atividade turística de um local? Conhece outros exemplos de cidades assim?
S: Sem dúvida. Joanópolis, na época, tentava (e conseguia de vários maneiras), ser conhecida, desenvolver seu potencial turístico. Muito disso pelas histórias do lobisomem, mas muito também em razão da Casa do Artesão e da Associação de Criadores de Lobisomem (!), organizações que aparecem no livro e que foram criadas por pessoas interessadas na preservação folclórica e no desenvolvimento turístico local.

Na época em que estavamos produzindo o livro, houve até um evento bem engraçado e inusitado. O pessoal dessa associação uniu-se com a Associação de Criadores de Mula sem cabeça, de uma cidade mineira, chamada Barão de Cocais. Eles fizeram o casamento dos dois mitos e uma grande festa para comemorar. Nada mais que uma iniciativa para a cultura e o turismo locais. Isso foi notícia em um quadro do programa Fantástico, da Globo, chamado Me leva Brasil. Era apresentado pelo Maurício Kubrusly.

P: Lobisomem Existe teve alguma repercussão quando foi lançado? Ele chegou a ser publicado em formato impresso?
S: O Lobisomem existe foi finalista em um prêmio universitário nacional, conhecido no meio acadêmico de comunicação, o Expocom. Em 2001 a final foi em Campo Grande, MS, e viajei para lá. Não ficamos com o primeiro lugar, recebemos menção honrosa, mas já foi excelente termos sido selecionados entre os cinco melhores livros-reportagem do gênero no país.

Em março de 2010 o livro também foi citado pela revista Super Interessante. A seção Oráculo, cujo título era ‘Sobre espirros e lobisomens’, mencionou o livro para responder a uma dúvida de um leitor do Ceará. Foi uma breve menção, mas ficamos obviamente satisfeito dado o renome da revista e pelo fato de o livro ser citado tanto tempo depois de sua publicação.

O Lobisomem existe! foi publicado sim no formato convencional, mas com uma tiragem limitada (questão financeira de dois estudantes!). Inicialmente, a impressão era necessária para atender a uma exigência da faculdade. Tínhamos de apresentar o livro para a banca examinadora e fornecê-lo para arquivo e biblioteca da universidade. Os trabalhos produzidos são utilizados como base de pesquisa para os estudantes de jornalismo e outros que tenham interesse. Os outros 90% do montante impresso foram destinados a pessoas da cidade, amigos e apoiadores da ideia, entre outros tantos que tinham interesse em conhecer o livro.

No mais, a repercussão foi muito interessante, a começar quando decidimos pela produção de um livro-reportagem com o tema lobisomem. A reação das pessoas diante da nossa escolha era bem interessante. Alguns professores chegaram a criticar a escolha, mas, no final, eles próprios nos cumprimentaram pela iniciativa (e por que não dizer ousadia), de tratar daquele assunto.

P: Quando eu li o livro, percebi certos momentos em que a narração manifesta claramente a opinião dos repórteres, como em:

“Revezava: comendo pimenta que tirava de um vidro, daqueles grandes, antigos, de maionese, falando sobre o lobisomem, e de minuto em minuto comendo uma batatinha frita que, no percurso entre o prato e sua boca, tinha que balançar a danada para pingar o excesso de óleo. E que excesso. Era quase uma sopa. Ele podia até saber de lobisomem, mas não sabia fritar batatas.” (p.61)

Hoje, 10 anos depois, você considera essa exposição do ponto de vista do repórter prejudicial a obra ou necessária para a proposta? Tem algo que vendo o trabalho hoje você pensa em ter feito diferente?

S: Necessária para a proposta, certamente. As observações do jornalista, desde que feitas com adequação, ambientam o leitor, ajudam a entender o perfil do personagem. No estilo literário que escolhemos, observações assim, informais, coloquiais, em que buscávamos traçar uma ideia do entrevistado e do seu cotidiano, eram permitidas. Quando se fala de cultura popular é necessário mostrar as pessoas como elas são, na sua simplicidade ou não, no seu habitat.

Sobre fazer o trabalho diferente, penso que não. Naquele momento o Lobisomem existe estava contextualizado ao que vivíamos, estudantes, cheios de ideias e alimentados por uma proposta de um jornalismo pautado em uma linguagem literária, um estilo que começava a ganhar terreno. Hoje, talvez, com as novas vivências profissionais que temos, o livro teria outro perfil. Mas, foi ótimo tê-lo feito da forma como fizemos

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