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Nikolas Rose, um amigo crítico das ciências

Dos guetos judeus às Universidades de Londres, da mosca-da-fruta à biopolítica, o pesquisador de um dos maiores centros de formação médica da Europa propaga a amizade crítica entre os saberes em uma trajetória científica tão coerente quanto sua postura de vida

Por Andriolli Costa

Nikolas Rose, diretor do Departamento de Ciências Sociais, Saúde e Medicina do King's College de Londres. Foto: Andriolli Costa

Nikolas Rose, diretor do Departamento de Ciências Sociais, Saúde e Medicina do King’s College de Londres. Foto: Andriolli Costa

O ano é impreciso, mas nos aproximávamos da década de 1930, e o jovem Lionel Rosemberg tinha dificuldades em arranjar emprego. O primeiro de sua família a conseguir um diploma na Universidade de Londres, tendo cumprido todos os requisitos para o título de bacharel em Química, parecia incapaz de atingir os parâmetros exigidos pelas escolas que procurava. A dificuldade nada tinha a ver com sua formação ou conhecimento, mas com suas raízes. O nome, Rosemberg, entregava a ascendência de seus pais — judeus alemães e poloneses que deixaram seus países de origem para buscar nova vida na Inglaterra.

Neste período, havia cerca de 250 mil judeus espalhados pelo território inglês, especialmente nos subúrbios das metrópoles. O forte antissemitismo cobrou seu preço, e a assimilação da cultura local foi a saída encontrada pelas famílias. Assim, Lionel Rosemberg se tornou Lionel Rose — e conseguiu finalmente o emprego desejado. Não foram muitos anos até que ele, de sobrenome novo, conhecesse e se casasse com a jovem Ruth — cujo nome de batismo, para surpresa dos que a conheciam, também era Rose.

“Minha mãe, Ruth, não gostava do seu nome e resolveu trocá-lo. Foi um golpe de sorte, pois, caso contrário, depois de casada se chamaria Rose Rose”, brinca o sociólogo, biólogo e psicólogo britânico Nikolas Rose, ajeitando os cabelos grisalhos que lhe caem na altura dos ombros. Aos 67 anos de idade, Rose — o filho — recebeu a IHU On-Line no hotel, em São Leopoldo, RS, para relembrar elementos que, mesmo perdidos num passado recente, dizem muito sobre o presente do pesquisador.

Referência em sua área, Nikolas é hoje diretor do Departamento de Ciências Sociais, Saúde e Medicina do King’s College de Londres — um dos maiores centros de formação médica em toda a Europa. Este departamento, relativamente novo, investe na formação política, social e humana numa perspectiva interdisciplinar. Algo que o pesquisador busca fazer em todas as universidades em que passa. “Quando estive na Universidade de Brunel, em Londres, mesclamos o departamento de Biologia, Psicologia e Antropologia, produzindo um departamento de Ciências Humanas”, recorda. Algo semelhante ocorreu em Goldsmith e, com alguma dificuldade, na London School of Economics. Para Nikolas Rose, a divisão disciplinar é criação da Academia, mas o enfrentamento da realidade exige um diálogo aberto entre as ciências.

A abertura para outros saberes e o pensamento crítico foram os legados deixados por Lionel para os filhos, Nikolas e Steven Rose — um dos mais renomados bioquímicos da Inglaterra. Em seu site , Steven recorda-se de observar escondido o pai discursar em praça pública contra Oswald Mosley, responsável por fortalecer o fascismo na Inglaterra com a fundação da British Union of Fascists. Nikolas, nove anos mais jovem, não chegou a acompanhar a cena ao vivo, mas também recorre a ela para construir a imagem do pai. Foi ainda graças a Lionel, que tinha grandes amigos entre os militares, que a família pôde visitar e conhecer diversos países da Europa. Longe das temporadas de turistas, tinham contato com o povo. Desde cedo, o pesquisador soube dizer “sim ao estrangeiro”.

Discordâncias

Nem sempre, no entanto, reinou a concordância na casa dos Rose. Nikolas relembra que, mesmo seus pais não sendo exatamente judeus “fundamentalistas”, o casal era sionista. “Eram socialistas sionistas. Acreditavam na criação de uma terra para os judeus. Algo que tanto eu quanto Steven sempre fomos muito críticos”. Os irmãos Rose não aceitavam a ideia da imposição do Estado de Israel sobre o território palestino. De formas diferentes, se voltaram para o ateísmo. A crítica em questão não era ao judaísmo como religião ou prática de vida, mas contra a política adotada — e que hoje permanece igualmente truculenta.

Pelo próprio histórico de sua família, Nikolas reconhece os impactos causados pelo antissemitismo no povo judeu. E isso não se restringe apenas às dificuldades de seus pais de se adaptarem em Londres. “Dos parentes da minha avó materna, todos — exceto um — morreram em Auschwitz”, lembra ele. Desde criança, seus avós repetidamente lhe mostravam fotos dos campos de concentração. Um de seus tios, médico, acompanhou as tropas aliadas na libertação dos outros campos e sempre lhe contava relatos dos mais terríveis.

As recordações da infância são vivas, e dizem de um presente que não foi vivido, mas compartilhado pela experiência. A força deste retorno ao passado lhe embarga a voz, mas em nada muda sua opinião. Nikolas defende um estado conjunto, onde as religiões e etnias possam conviver harmoniosamente. Ao invés disso, os ataques mútuos culminaram, finalmente, na recente ofensiva israelense.

“Fico surpreso que o mundo tenha assistido passivo ao ataque contra a Palestina. Para mim, aqueles foram crimes de guerra.” Para ele, é certo que as ações terroristas do Hamas devem ser punidas, mas o terrorismo seria o reflexo óbvio da política de Israel. “Compreendo que os judeus, empunhando suas metralhadoras sob o peito, olham para trás dizendo ‘nunca mais’. Porém, esta não é a resposta.”

Ciência Radical

Rose em São Leopoldo/RS, durante o Simpósio Internacional IHU.  Foto: Andriolli Costa

Rose durante o Simpósio IHU. Foto: Andriolli Costa

O pensamento crítico de Nikolas ganhou espaço, definitivo, durante a graduação. Aos 18 anos de idade, já em 1965, deixou os subúrbios londrinos para cursar um joint degree em Biologia e Psicologia na Universidade de Sussex, em Brighton, uma cidade à beira-mar na costa sul da Inglaterra. “Era uma Universidade nova e bastante radical. Havia muita atividade política. Eram tempos empolgantes, aqueles.” Em noites regadas a bebida, folk music e muito Gramsci, um Nikolas Rose de cabelo comprido e barba farta se engajava no movimento marxista.

“Havia muitos protestos contra a Guerra do Vietnã, e eu lembro que quando ela acabou nós gritamos: ‘Vitória da FLN!’” — uma referência à Frente Nacional para a Libertação do Vietnã. “Isto é, passamos do pensamento de que deveríamos ter paz, para o argumento de que os comunistas do Sul deveriam vencer.” Em grupos de estudos da faculdade, lia Marx, Lenin e Mao.

No entanto, Nikolas não era um extremista. Definia-se como um “eurocomunista”, inspirado pelo pensamento gramsciniano e pela experiência na Red Bologna, na Itália, onde o partido comunista chegou ao poder sem o uso da violência. “Nós éramos contra a imposição totalitária de qualquer regime, e muito críticos à política da União Soviética.”

O que o grupo dos acadêmicos de Sussex acreditava era que a força da voz das ruas era tão forte que seria capaz de mudar o pensamento e as políticas governamentais. “Nós defendíamos um acesso universal à educação, melhoria no sistema de saúde e distribuição de renda”, pontua. “Para ser honesto, queríamos levar para a Europa muito daquilo que o Brasil tem conseguido nos últimos anos.”

Como não podia deixar de ser, toda a agitação política influenciou na pesquisa desenvolvida na universidade. “Meu professor, o brilhante biólogo John Maynard Smith, pesquisava a mosca-da-fruta. Mas eram os anos 60, havia todo aquele movimento nas ruas, e eu não acreditava que a Drosophila possuía a resposta para o que estávamos vivendo.” Foi assim que Nikolas Rose abandonou seu interesse pelo comportamento animal, para se voltar de vez para o comportamento humano, centrando-se na psiquiatria.

O espírito inquieto, no entanto, permanecia ativo. Nikolas questionava a visão normativa e impositiva da psiquiatria. “Nessa época o movimento antipsiquiatria era muito forte, e Foucault foi introduzido na Inglaterra — com a História da Loucura — como um antipsiquiatra. Ele era muito mais do que isso, e lê-lo foi uma experiência marcante.” Foi esta a semente que instaurou a biopolítica em sua produção acadêmica.

“Nós acreditávamos que mudanças a nível do pensamento possuíam grandes consequências políticas. Para agir diferente era preciso pensar diferente. E, para tanto, era preciso romper com o senso comum e com aquilo que lhe era posto como dado”, pontua. O marxismo não parecia mais capaz de dar as respostas que procurava, então Nikolas e seu grupo se voltou mais para o estruturalismo francês e o pensamento lacaniano. “Basicamente buscamos Foucault, e seguimos outra linha.”

Tempos de Mudança

Nikolas Rose desconcerta-se um pouco ao lembrar que, no fim da graduação, encontrou-se desempregado por um tempo. “Alguns anos, talvez.” Vivendo de trabalhos espaçados e aulas numa turma de “crianças desajustadas”, investiu na produção de revistas radicais que uniam discussões marxistas, feministas e críticas voltadas à questão psiquiátrica. Os movimentos encontravam eco em diversos pontos de Londres, e uma complexa rede de editoras e livrarias radicais distribuíam o material produzido por ele em todo o País.

Pouco depois, ingressou no mestrado no Institute of Education, da Universidade de Londres e, de lá, conseguiu emprego na Sociedade Nacional para a Prevenção da Crueldade contra Crianças. Seu primeiro trabalho como professor universitário, no entanto, não viria antes dos 34 anos de idade, em 1981, e apenas após a conclusão de seu doutorado — também no Institute. “Eu recebi bolsa de três anos para fazer o doutorado, mas demorei 10 anos para finalizar. Durante esse tempo, quando o dinheiro acabou, trabalhei de motorista de van ou carregador de malas”, recorda ele. O balanço final, entretanto, é positivo. “Eu não me envergonho e nem me arrependo de nada disso. Esses trabalhos me permitiram adquirir muitas habilidades interessantes e conhecer o mundo fora da academia. Conhecer pessoas com outra experiência de mundo, e me desarraigar da Universidade.” E finaliza: “Também tive muito apoio da minha namorada que, hoje, é minha esposa”.

O pesquisador continua, tamborilando suavemente os dedos sobre a mesa, sem fazer trepidar o gravador e nem arranhar a grossa aliança que carrega na mão esquerda. Na parte interna do anel, o nome da companheira que conheceu justamente durante a pós-graduação: Diana Rose. Hoje, marido e mulher são colegas no King’s College e dividem seu tempo entre aulas, conferências e férias em uma casinha do campo na França, próximo à Toulouse.

Diana Rose

Diana Rose, primeira professora de User Led Research do mundo

Diana é filósofa e psicóloga social, e dá aulas no departamento de Serviços de Saúde e Pesquisa de População. “Outra coisa que você precisa saber sobre minha adorável esposa é que ela foi diagnosticada com o que chamamos transtorno bipolar”, destaca o professor. Juntos há quase 40 anos, passando por momentos bons e “não tão bons”, Nikolas ressalta a trajetória da esposa com admiração. “Devido a sua condição, disseram que ela nunca deveria clinicar novamente. Ela então voltou à Universidade, fez mestrado, doutorado, desenvolveu suas pesquisas para dar voz a outros ‘sobreviventes psiquiátricos’.”

Este ano, o Instituto de Psiquiatria do King’s concedeu a Diana um título único em todo o mundo: professora em User Led Research . O termo indica um tipo especial de pesquisa sobre o tratamento de doença mental, guiada e orientada pelos próprios pacientes ou pessoas com histórico de condições psiquiátricas. “Consiste, basicamente, em aceitar que pessoas que vão passar por algum tipo de tratamento deveriam ter alguma voz sobre como isso será feito”, destaca Nikolas. Assim, Enquanto Foucault dizia que existe um monólogo sobre a loucura a partir da medicalização, experiências como essas do Reino Unido mostram que a loucura pode “falar de volta”. Pode dizer sobre esses serviços, e sobre como podem melhorar. “Se a psiquiatria afirma agir em benefício dos pacientes, deve ao menos deixá-los ter voz.”

Neuro

Movido, parte pelo histórico da esposa — que o colocou em contato com diversas pessoas com problemas mentais; dos próprios colegas da academia — sofrendo frequentemente de mental breakdows, e por sua própria inquietação natural, Nikolas tem dedicado os últimos anos de sua vida a pesquisar o cérebro humano. “Na década de 1990 eu desenvolvia um trabalho sobre governabilidade e que fazia muito sucesso. No entanto, eu fiquei entediado. Sentia como se já tivesse dito tudo o que podia e estava me repetindo”, esclarece o professor.

Começou então a buscar compreender a genealogia da psiquiatria contemporânea, e percebeu algo intrigante. Após os experimentos nazistas, durante quase 50 anos a psiquiatria se afastou da biologia. No entanto, recentemente, havia uma biologia psiquiátrica ganhando força. Este trabalho deu origem ao livro A política da própria vida – Biomedicina, Poder e Subjetividade no Século XXI. O livro mais recente foi uma progressão lógica — Neuro: The New Brain Sciences and the Management of Life tenta compreender a neurociência na contemporaneidade.

A virada no ramo de pesquisa dos últimos anos tornou a aproximar, em certa maneira, os irmãos Rose; ambos interessados, por caminhos diferentes, em pensar os novos poderes e significâncias da compreensão do cérebro — e suas implicações para nossa sociedade. Enquanto Nikolas discutia Marx com os colegas da Universidade, Steven já era doutor, assumindo como professor fundador de Biologia e Neurobiologia da Open University, uma grande universidade radical focada no ensino a distância. No entanto, não era apenas a idade e a fundamentação teórica que distanciava os irmãos, mas a própria visão ontológica da Ciência.

Steven Rose, renomado bioquímico, dedica-se a evidenciar o "lado negro" da Ciência

Steven Rose, renomado bioquímico, dedica-se a evidenciar o “lado negro” da Ciência

“Meu irmão é um homem brilhante e muito mais high-profile do que eu na Inglaterra”, destaca Nikolas. Conhecido inicialmente pelo livro The Chemistry of Life, Steven mais tarde se centrou na questão da memória, em que se tornou referência. No entanto, segundo Nikolas, o pesquisador aposentado sempre foi “muito, muito crítico sobre a grande ciência”. Ele ressalta: “Assim como eu, Steven é ciente da relação problemática da ciência com a política, sobre o uso de tecnologia para fins militares ou para promover a desigualdade. No entanto, ele parece dedicar sua atenção para repetidamente apontar o lado negro”.

O sociólogo compreende a importância de estar consciente sobre os problemas da ciência, assim como da existência daqueles que nos lembram disso. No entanto, apontar as coisas boas que se podem tirar dos avanços sempre foi uma preocupação de Nikolas. “Pela primeira vez na vida estamos nos mesmos comitês, nas mesmas conferências, e isso é um pouco engraçado”, diverte-se. “É um homem muito ‘adorável’, meu irmão.”

Ainda se recuperando do último livro, Nikolas Rose sente que está próximo para finalmente enfrentar o tema da psiquiatria na próxima publicação. “Quero entender do meu ponto de vista a experiência que meus amigos e familiares têm do ponto de vista deles.” O professor para por um tempo, alisando os botões da camisa. “Para ser honesto mesmo, penso que do ponto de vista deles é o mais importante. Quando me perguntam qual a grande evolução da psiquiatria nos últimos anos, eu não direi que é o avanço do conhecimento do cérebro, mas o diálogo com o paciente”, provoca. Promover esta mudança ainda se coloca como um desafio contemporâneo.

– E você ainda acredita que é possível mudar a vida a partir do pensamento?, pergunto eu.

“Eu espero que sim”, sorri. Talvez o otimismo não exista como antes, mas ainda são tempos empolgantes.

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Testemunhas invisíveis na América Latina

Publicado em 15/10/2013
Revista IHU On-Line
Autores: Andriolli Costa e Ricardo Machado

Frente - rafael - Cópia

Leia o começo da reportagem Mundo em Fuga

Eles chegam sem fazer alarde, quase que pedindo licença para entrar. São seis ao todo. De pele escura e modos contidos, o grupo entra entusiasmado pelas portas da Igreja Pompeia, em Porto Alegre/RS. Colombianos. Silenciosos e humildes, mas visivelmente felizes, exibem com satisfação os documentos recém-assinados junto à Polícia Federal brasileira. Hoje são oficialmente e legalmente considerados refugiados. E exatamente por isso terão suas identidades preservadas e seus nomes trocados nesta reportagem.

De acordo com dados do Comitê Nacional para Refugiados – Conare, o Brasil abriga mais de 4,5 mil refugiados de 77 nacionalidades diferentes — a maioria de origem colombiana. Isto, é claro, levando em conta apenas aqueles que tiveram o status reconhecido, e não aqueles que ainda são solicitantes de refúgio. A tragédia recente em Lampedusa voltou os olhos do Brasil e do mundo para a situação insustentável daqueles refugiados, mas por vezes esquecemos da própria insegurança vivida por nossos vizinhos.

Emílio, 35 anos, não tem como esquecer. O camponês traz no rosto as terríveis marcas da violência que toma conta do sul e sudeste da Colômbia. Após recusar-se a servir à Guerrilha, em um dos vários atentados que sofreu, estilhaços de granada laceraram parte do seu nariz. O homem registrou boletins de ocorrência de cada encontro com os guerrilheiros, e há três anos conseguiu um documento do governo colombiano que confirmava sua perseguição e solicitava proteção constante para ele, a mulher e os três filhos. A ajuda nunca veio.

“O governo espera que usemos o papel para parar as balas”, desdenha Ramón, 45 anos. Ele, que é marinheiro há mais de duas décadas, também foi abordado pelos guerrilheiros, mas por motivos de estratégia militar. “Queriam que levássemos pelo mar a droga da Colômbia até o México, e de lá trouxéssemos armas para o nosso país. É assim que a guerrilha se sustenta”, relata. Após a recusa inicial, o grupo matou o capitão do barco em que Ramón atuava como imediato e ofereceu a ele uma mala com 25 maços de 7 mil dólares cada. O homem nem chegou a pensar. Guardou a maleta e, quando o grupo retornou já com a rota planejada, devolveu todo o dinheiro.

“Com essa gente não se brinca, meu amigo. Ou você é um deles ou está contra eles”. O marinheiro teve um dia para escapar. Partiu de sua cidade e espalhou amigos e familiares para bem longe dali o mais rápido possível. Foi bem a tempo. “Explodiram a minha casa e destruíram minhas motos, que eu gostava tanto”, lembra ele. O arrependimento é momentâneo. “Isso se compra de novo. Segurança não se compra”.

Emílio e Ramón não se conheciam na Colômbia e também nunca haviam se visto no Equador, de onde solicitaram refúgio para o Brasil. Um vivia da terra, em sua fazenda, e o outro, do mar. Mundos e vidas totalmente diferentes, unidas hoje pela mesma tragédia.

A Guerrilha

Os conflitos internos na Colômbia começaram a ganhar a faceta atual a partir da segunda metade do século XX, quando a guerrilha camponesa, influenciada pela Revolução Cubana, deu origem à entidade conhecida hoje como as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia – Exército do Povo, ou Farc-EP. Fundado em 1964, o grupo recebeu apoio do Partido Comunista Colombiano, iniciando quase desde o começo suas frentes de atuação militares e políticas. Desde a década de 1980, as Farc utilizam tráfico de drogas, sequestros e “impostos” (vacuna) cobrados forçosamente de moradores, empresários e comerciantes da região para financiar suas ações.

Emílio foi uma das vítimas da vacuna. Em 2009, ele e a família moravam na zona rural de Santiago de Cáli, a terceira maior cidade da Colômbia, com mais de 2 milhões de habitantes. Natural de Buenaventura, a 145 km de distância, decidiu passar as férias com os familiares. Quando retornou, veio a surpresa: seu sítio havia sido reclamado pela Guerrilha. Para continuar nele era preciso pagar uma taxa que, ele sabia, aumentaria a cada mês. “Quando eu recusei, tentaram me convocar. Disseram que eu tinha porte físico, que podia chegar a um posto de comando. Eles partiram e me deram três dias para decidir”, relembra. A ideia era recrutar igualmente seus dois filhos mais velhos: Pablo, de 16, e Esteban, de 14 anos. Emílio também não chegou a cogitar outra alternativa. Tirou as crianças da escola e partiu imediatamente junto da esposa Maria, 38, e do caçula Adrian, de apenas três anos de idade. Quem fica para trás, ou é morto ou é escravizado pelos guerrilheiros, e é levado a fazer trabalhos forçados até o fim da vida.

Desde o início do ano, entrou em vigor uma lei que tem como meta devolver entre 1,5 e 2 milhões de hectares de terras àqueles desalojados durante os conflitos internos da Colômbia. A estimativa é que sejam indenizadas mais de 4 milhões de pessoas vítimas de grupos guerrilheiros, paramilitares e agentes da força pública desde 1985, e que as cerca de 400 mil famílias desalojadas desde 1991 sejam restituídas. Emílio não quis aguardar. “Aos mortos não pagam”, esclarece, lacônico.

“A Colômbia tem três problemas principais”, explica Ramón. “A Guerrilha, os Paramilitares e o Exército”. Para o marinheiro, a violência instituída praticada pelas forças armadas alimenta de forma permissiva os demais grupos. “Se você tem algum amigo, parente ou mesmo cliente que entra para a Guerrilha ou para a Milícia, o exército te acusa publicamente de também ser um partidário do grupo”. Isso faz com que a pessoa não apenas seja alvo de investigação, como também tenha que lidar com o assédio da força opositora. E os paramilitares de direita podem ser tão ou mais violentos quanto os próprios guerrilheiros.

Um relatório publicado este ano pela ONG Corporación Nuevo Arco Íris afirma que, desde 2008, as ações violentas realizadas a cada ano por grupos paramilitares e neoparamilitares têm ocorrido em maior número do que as realizadas pelas Farc. Outra estimativa apontada pelo documento é que tais grupos contariam com 11 mil membros em atividade, contra 8,5 mil das Forças Revolucionárias e 2,2 mil do Exército de Libertação Nacional – ELN — outro grupo guerrilheiro, de orientação guevarista. Em sua origem, os paramilitares eram grupos formados por ex-oficiais e policiais contratados e financiados por grandes empresários, fazendeiros ou políticos. Durante o governo Álvaro Uribe (2002-2010), foram realizadas diversas ações de desmobilização destes grupos. Hoje, reorganizados, formam os neoparamilitares e, tal como as Farc, lucram com o narcotráfico na região.

O refúgio

costas - rafael

Durante mais de dois anos, Emílio e sua família tornaram-se nômades dentro do próprio país. Não demorava muito e os guerrilheiros logo os localizavam novamente, e ele tinha que partir mais uma vez. “Já no primeiro contato, eles tomaram nossos documentos, para dificultar nossa circulação pelo país”, afirma ele. Foi só com o tempo que Emílio tomou conhecimento da condição de refugiado e fugiu para o Equador. Uma vez em Tulcán, na fronteira com a Colômbia, solicitou junto ao país o reconhecimento da condição de refugiado. Mesmo com todos os documentos que comprovavam a perseguição, a aprovação foi recusada.

Para dificultar ainda mais a história da família, mesmo em outro país, os cinco foram localizados pelos perseguidores. “A Guerrilha tem um grande sistema de informantes. Pode ser um policial, pode ser um comerciante, pode ser o seu familiar”, relata ele. Foi só então que os colombianos procuraram a Acnur, que mediou a saída do grupo do Equador. De lá para cá, foram nove meses de espera até a vinda definitiva para o Brasil.

Abraçada com as crianças, Maria conta que estava tão desesperada que pela primeira vez contemplou o suicídio. A guerrilha já havia assassinado sua irmã, e eles sabiam do que os guerrilheiros eram capazes. Além disso, a vida no Equador não era nada fácil. “Eu quase fiquei louca. Tudo isso que nós estamos recebendo agora não tivemos nada naquele país. Os equatorianos são pessoas muito más”, lamenta.

“Lá, se você é branco, eles te tratam muito bem. Mas quem é negro não tem direito a nada”, afirma Pablo, o filho mais velho do casal. Ramón, por outro lado, não teve problemas em sua estadia no país. A profissão de marinheiro é muito requisitada, e o homem conseguiu entrar no Equador com uma proposta de emprego. Uma vez lá, dirigiu-se para uma região onde havia mais negros e solicitou refúgio. Foi aprovado.

Karin Wapechowski , coordenadora do Programa Nacional de Reassentamento Solidário da Associação Antônio Vieira – ASAV , em Porto Alegre, afirma que a impressão da família tem razão de ser. “Já colhemos relatos de mulheres que foram obrigadas a parir na rua, em frente ao hospital. Não puderam entrar justamente porque eram colombianas”. Ela, que é uma das responsáveis pela vinda de Emílio e Ramón para o Rio Grande do Sul, esclarece que é da prerrogativa de cada país aceitar ou não os refugiados sem necessidade de justificativa. “No caso da mediação pela Acnur, a agência apresenta os casos para vários países. Quando há o aceite, inicia-se uma série de entrevistas para confirmar o status de refugiados”, esclarece. Ramón, por exemplo, conta que sua solicitação de abrigo foi aceita pelo Canadá, pela Noruega e pelo Brasil. Escolheu o Brasil, tanto pelo clima quanto pelo medo do preconceito.

Aqueles que são aceitos como refugiados e passam a fazer parte do programa de reassentamento recebem uma bolsa mensal durante um ano, que varia de acordo com o número de membros da família. Só no Rio Grande do Sul, são 268 pessoas reassentadas, de acordo com Wapechowski. Após quatro anos de estadia no país, o refugiado pode fazer uma nova solicitação e tornar-se apenas um estrangeiro residente no Brasil. “A diferença entre um migrante e um refugiado é que, com o refúgio, o país se compromete a fornecer proteção legal e física da pessoa”, esclarece. Durante o primeiro ano, a pessoa precisa se manter na cidade onde foi alocada, mas depois é livre para ir a qualquer parte do território nacional.

O futuro
Recém-chegado a uma cidade no interior do Rio Grande do Sul, Ramón afirma se sentir completamente à vontade no Brasil. No entanto, vai apenas esperar acabar o período necessário para buscar o mar. Afinal, é dele que depende o seu ofício de mais de duas décadas e de onde é capaz de tirar seu sustento. “Como marinheiro eu recebia 3,5 mil dólares por mês e usava camisas de 100 dólares. Hoje dependo de doações para ter o que vestir”, lamenta ele. Enquanto isso, colegas que aceitaram o convite da Guerrilha estão ganhando 300, 400 mil por mês. Se ele se arrepende? “Nem um pouco. Eu pelo menos posso dormir tranquilo”.

A vaidade pessoal não é o único motivo que incentiva o marinheiro a buscar uma fonte de renda própria. “Eu vivia no mar. Ficava meses, às vezes quase um ano longe das minhas filhas. Meu vínculo com a família era o dinheiro”, relembra. Hoje, sem os recursos de antes disponíveis na conta, Ramón sente a fragilidade do laço que havia construído e o peso da responsabilidade. Sem ser capaz de cumprir o papel de provedor do lar, ele reflete sobre uma nova aproximação. “Hoje elas dependem de mim tanto afetivamente quanto economicamente”, pondera.

menino - rafaelEmílio e a família, por outro lado, já decidiram ficar. Os garotos também gostaram da cidade, dizem que Porto Alegre parece com a Europa. A sorte, de qualquer forma, parece estar se voltando para o lado deles. Em menos de oito dias no Rio Grande do Sul, tanto Emílio quanto Ramón já possuem um emprego à vista. O próprio motorista da prefeitura da cidade onde estão alocados os indicou para um empresário amigo seu, que lhes ofereceu as vagas. “Não existe um sistema formal de incentivo à contratação de refugiados. O que existe é uma rede de solidariedade, totalmente informal e espontânea”, esclarece Karin. Tranquilidade, felicidade, vontade de seguir adiante. É tudo o que os seis colombianos esperam para o futuro.

Na sala da entrevista, o pequeno Adrian encontra e imediatamente desembrulha um pacote com um pequeno caminhão de brinquedo. “De quem é?”, pergunta a mãe, preocupada. “É de Deus, pode ficar”, responde uma das irmãs da Igreja Pompeia. Alheio às terríveis lembranças da família, o garoto brinca. Rola as rodinhas de plástico pela mesa; empilha os boizinhos multicoloridos na caçamba; faz barulho de buzina com a boca. É um dia de paz. A vida continua.

Serviço aos refugiados

Na Igreja Pompeia, onde o grupo de colombianos foi acolhido, funciona o Centro Ítalo-Brasileiro de Assistência e Instrução às Migrações – Cibai. Fundado em 1953 para atender as migrações do pós-guerra — especialmente italianos —, nos últimos anos passou a atuar principalmente no apoio aos imigrantes hispano-americanos. Refugiados e solicitantes de refúgio também recebem orientação e caridade. Mais sobre o Centro está disponível aqui: http://bit.ly/cibai2013.

Também em parceria com a ASAV e a ACNUR, outra forma de apoio é a desenvolvida pelo Grupo de Assessoria a Imigrantes e Refugiados – Gaire, que faz parte do serviço de assessoria jurídica universitária da UFRGS. Atuando desde 2007, o Gaire oferece assistência jurídica, psicológica e social todas as terças-feiras, das 10h às 12h. Além da advocacia, o grupo conta com alunos de Relações Internacionais, Direito, Psicologia, Ciências Sociais e Serviço Social. O trabalho é totalmente voluntário. Para 2014, a proposta é desenvolver um curso de formação de novos grupos como o Gaire em outras universidades que já contam com serviços de assistência judiciária gratuita. Há mais sobre o grupo no link http://bit.ly/GaireUFRGS.

Para discutir a questão dos refugiados no meio acadêmico, a Unisinos possui a Cátedra Sérgio Vieira de Mello, co-coordenada pelos cursos de Filosofia e Relações Internacionais, na figura dos professores Inácio Helfer e Gabriela Mezanotti. De acordo com a professora, a cátedra reúne a pesquisa e o ensino a uma prática social de proteção a estas pessoas. “Estamos trabalhando para desenvolver um centro de atenção a refugiados na Unisinos, que incluirá a participação direta de alunos de vários cursos em parceria com a ASAV”, relata Mezanotti. Para a professora, este trabalho engaja os participantes não apenas academicamente, mas também pela expectativa de agir diretamente na integração destas pessoas na sociedade brasileira. Mais informações estão disponíveis em http://bit.ly/CSVM2013.

Mundo em Fuga – A saga dos refugiados e a luta para recomeçar

Publicado em 15/10/2013
Revista IHU On-Line
Autores: Andriolli Costa e Ricardo Machado

Foto - Wikimedia Commons

Era maio de 2011, e as águas do Mediterrâneo estavam agitadas naquele dia. Uma falha no motor havia deixado o barco à deriva em meio à tempestade, fazendo as centenas de pessoas apinhadas na velha embarcação verem o sonho da nova terra cada vez mais distante. Eram refugiados; os boat people, como são conhecidos. Os relatos falam de quase 400 pessoas naquele barco, que deixaram a Líbia em busca de refúgio na ilha italiana de Lampedusa. Porta de entrada para a Europa, distante apenas cerca de 100 km da costa africana, a pequena ilha de menos de 20 km² tem sido inundada por refugiados vindos do mar nas condições mais precárias. Insolação, desidratação e mesmo intoxicação pela fumaça dos motores afligem aqueles que fazem a travessia clandestina. No entanto, estes não são os únicos perigos. O desespero evoca tradições antigas; é preciso aplacar a tempestade, afastar os demônios. Até o fim daquela viagem, 12 pessoas foram lançadas ao mar; sacrifícios humanos para acalmar o oceano.

O relato acima, colhido pela ONG Save the Children, repercutiu em toda a imprensa internacional — e era apenas uma das várias vezes em que tragédias envolvendo a ilha e os refugiados ganhariam as páginas dos jornais. A mais recente ocorreu na primeira semana de outubro deste ano, quando uma embarcação que transportava 500 pessoas naufragou pouco antes de chegar à ilha. Apenas 155 refugiados sobreviveram, e a busca pelos corpos ainda continua. A própria entrada dos barcos em território italiano tem sido questionada, e há inclusive denúncias de que a marinha do país esteja interceptando e impedindo a passagem dos refugiados, fazendo a situação da ilha ser comparada à da fronteira do México com os Estados Unidos. Vista pelos fugitivos como um paraíso prometido, Lampedusa hoje tem recebido outra alcunha: Inferno no Mediterrâneo.

Ainda assim, as viagens continuam ocorrendo. Afinal, uma vez na ilha, os refugiados passam a ter os direitos amparados pela legislação da Comunidade Europeia, e de lá são encaminhados para Roma ou outros destinos italianos. Segundo informações do Alto Comissário das Nações Unidas para Refugiados – Acnur, desde o início do ano cerca de 30 mil pessoas chegaram à Itália em embarcações vindas do norte da África e do Oriente Médio. Fogem dos constantes conflitos armados que sempre assolaram seus países, mas que tomaram novas proporções nos últimos anos. Um povo que deixou para trás suas casas, suas famílias e suas raízes para recomeçar a vida em terra estrangeira. A busca agora não é por oportunidades de trabalho ou renda, mas sim pela paz e segurança.

A chegada desse contingente imenso voltou à atenção do mundo para a questão dos refugiados. Como devolver a estas pessoas seus direitos básicos? Como lidar com suas necessidades? Como compreender as demandas sociais que acompanham o processo de globalização? Este é o tema da discussão desta semana da IHU On-Line.

Mudanças forçadas
afghanistan-refugees-home-300633-oExistem aproximadamente 43,4 milhões de pessoas na condição de refugiados ou que solicitaram refúgio em todo o mundo. Metade desse contingente vem de quatro países: Afeganistão, Somália, Síria e Sudão, de acordo com o relatório Tendências Globais, produzido pela ONU em 2012. Engana-se quem pensa que o destino da maioria dessas pessoas são os países mais ricos. Ao contrário, cerca de 80% dos refugiados são recebidos em regiões em desenvolvimento, sendo que o Paquistão é o país que mais os recebe.

Vale notar que todo esse forçoso movimento migratório ocorre em um período de “paz” — haja vista que não existem guerras mundiais declaradas como no século XX. Dizer “sim ao estrangeiro” (Oui à l’étranger), como propôs o filósofo Jacques Derrida, é, sem dúvida, o desafio das primeiras décadas do século XXI e que já começa a se desvelar. Pela primeira vez, um papa não europeu assumiu o pontificado, e é igualmente simbólico como, em sua viagem inaugural fora de Roma, foi escolhida justamente a ilha de Lampedusa para receber a visita papal de Francisco. O convite ao Vaticano foi feito por carta pelo padre Stefano Nastasi, pároco de Lampedusa.

Antes da viagem, logo após assumir o pontificado, o papa já havia aceitado o convite do padre jesuíta Giovanni La Manna para conhecer o Centro Astalli, uma iniciativa da Companhia de Jesus, localizado em Roma. Longe do Mediterrâneo, mas próximo à central de poder italiana, o Centro Astalli tornou-se ponto de referência de abrigo aos refugiados. “As mortes, no mar, de gente tentando vir até nós, fugindo da guerra, pesam em nossas consciências”, lamentou La Manna pelo Twitter. Atuante e engajado, o padre vem brigando por melhores condições para os refugiados, e foi isso que o incentivou a convidar o pontífice a conhecer o Centro que dirige há dez anos. “Papa Francisco nos lembra que não somos chamados a ser apenas testemunhas ou mestres. As pessoas estão cansadas de palavras bonitas”, escreveu também no microblog.

Desde 1981, o Centro abriu suas imponentes portas verdes de madeira para acolher imigrantes e solicitantes de refúgio, fornecendo alimentação, orientação, apoio espiritual e psicológico. Para estas pessoas, o Astalli torna-se o mais próximo possível de um “lar”, e não apenas no sentido figurado. Isto porque, para a formalização do status de refugiado, a União Europeia solicita uma série de documentos, inclusive um comprovante de residência. Como a maioria dos refugiados não possui mais estes dados à disposição, a via degli Astalli 14/A tornou-se a casa comunal de mais de 500 refugiados.

Além de fornecer assistência, o Centro, na figura do padre La Manna, tem se posicionado também politicamente sobre o assunto. “Outros refugiados chegaram por mar. Não esperem por outra tragédia e estabeleçam imediatamente canais humanitários seguros para aqueles que fogem da guerra”, apelou o diretor nas redes sociais. A presença do papa na ilha trouxe junto com ele os olhos do mundo, que passaram a dar mais atenção ao que ocorria lá. A expectativa é que essa atenção resulte em ações efetivas. “Que a tragédia de Lampedusa não se torne uma triste lembrança. O sacrifício destes refugiados levará à mudança de nossa política e da União Europeia”, previu La Manna.

Direito à vida
DN-SN-84-09740Atualmente, de acordo com as convenções internacionais, nenhuma organização pode incentivar uma pessoa a deixar seu país de origem. Aqueles que, em sua terra natal, são vítimas de perseguição por razões de raça, religião, grupo social, nacionalidade ou opinião política podem solicitar refúgio apenas quando já estiverem em terra estrangeira. Esta é uma das críticas apontadas pelo padre La Manna, que teme que a insegurança da trajetória da fuga continue a gerar tragédia em cima de tragédia — e não apenas no caso de Lampedusa.

No entanto, nem todos compartilham da política humanitária defendida pelo Centro Astalli. Desde o início do ano, mais de 15 mil boat-people chegaram à Austrália aportando na Ilha Christmas, localizada no Oceano Índico e mais próximo da Indonésia do que da Austrália. O fato levou o primeiro-ministro do país, Tony Abbott, a iniciar uma campanha contra a chegada dos refugiados, direcionando os recém-chegados para o repatriamento na Indonésia.

Para a professora de Relações Internacionais da Unisinos, Gabriela Mezanotti, a mobilidade humana faz parte da lógica da globalização tanto quanto a movimentação de bens, serviços e capitais. Para ela, catástrofes como a recente em Lampedusa apenas confirmam que a questão da migração, dos refugiados e da ação humanitária ainda tem muito que se desenvolver. “De quem é o dever de proteção dos direitos humanos? A resposta ainda é vaga e nossa realidade confirma que nós ainda não levamos os direitos a sério”.

Os conflitos armados, para a professora, são marcas do século XXI. Neste contexto, “os refugiados são o produto dos piores instintos da humanidade e a manifestação da instabilidade das relações internacionais”, pontua ela. “Eles são ao mesmo tempo invisíveis e testemunhas, seguindo a perspectiva de Giorgio Agamben. Não são vistos ou ouvidos, mas estão em todos os lugares. São testemunhas ao resistir, por existir”.

Durante a Segunda Guerra Mundial, foram mortos cerca de 53 milhões de pessoas, entre membros das forças Aliadas, do Eixo e civis. Outros milhares de sobreviventes, sobretudo judeus, eslavos e ciganos, se espalharam, inicialmente, pela Europa e depois para outras partes do mundo em busca de abrigo. Naquele momento, nenhum deles era legalmente considerado refugiado.

O termo, em sua conotação sociopolítica, surgiu na Convenção das Nações Unidas sobre o Estatuto dos Refugiados, em 1951, mas só entrou em vigor em 1954. Inúmeras guerras se sucederam nas décadas seguintes, o que criou regiões de conflito, levando os povos a migrações forçadas. O termo boat people, inclusive, foi utilizado pela primeira vez para se referir aos refugiados da Guerra do Vietnã, que preferiam partir para a incerteza do oceano a viver na insegurança da terra firme.

No Oriente Médio, a instabilidade social que leva às migrações forçosas que vemos hoje iniciou com conflitos internos, agravados com a intervenção estrangeira. Na segunda metade dos anos 1970, começa a Guerra Civil no Líbano e, em 1979, a Revolução Iraniana, que derrubou um regime monárquico pró-Ocidente, dando lugar a um governo voltado à tradição Islã. Nos anos 1990, os Estados Unidos invadem o Iraque durante a Guerra do Golfo, cena que se repetiu mais de uma década depois, em 2003, com a alegação de que o então presidente Saddam Hussein mantinha um arsenal de armas químicas que ameaçavam a paz mundial. Nenhuma arma foi encontrada, mas o ditador foi capturado, julgado e executado.

Recentemente, uma nova investida americana estava sendo planejada, sob a alegação de levar a “democracia” aos povos do Oriente Médio. Estados Unidos, Inglaterra e França defendiam uma intervenção militar na Síria, movidos pelos conflitos internos entre rebeldes e o exército do país, enquanto a Rússia entendia o contrário. O presidente sírio Bashar al-Assad, em acordo mediado por Estados Unidos e Rússia, comprometeu-se em entregar as armas químicas de seu exército caso não houvesse intervenção de outros países na Síria.

Enquanto os chefes de Estados se envolvem em imbróglios geopolíticos, ao menos 6,8 milhões de sírios necessitam de ajuda humanitária, segundo dados da ONU. Desse total, 3,1 milhões são crianças e 4,25 milhões são deslocados internos. Com aproximadamente 185 mil km², a Síria é menor que o território do Paraná. Até a primeira metade do mês de setembro, havia 2 milhões de refugiados sírios em países vizinhos do Norte da África.

Leia a continuação desta reportagem: Testemunhas Invisíveis na América Latina

Perfil: Sotera Sanches de Silva

Autor: Andriolli Costa
Livro Vozes do Artesanato
Páginas 246-251

Foto: Fábio PellegriniUm visitante desinformado poderia até não saber quem era o dono daquela casinha nos fundos de um terreno, nas imediações da Colônia Paraguaia de Campo Grande. No entanto, não teria como não perceber que ali morava alguém especial. Das colunas de madeira que sustentam o telhado da varanda brotam carrancas de bugres mais do que características. Rostos sulcados, de olhar firme e expressivo, quase como em desafio àquele que se aproxima do lugar. A madeira escura e trabalhada é o melhor cartão de visitas dos donos da casa. É lá que moram Sotera Sanches de Silva, e seu filho Mariano Antunes da Silva.

Se os frutos não caem longe da árvore, as raízes por vezes também se entremeiam. Sotera e Mariano fazem parte da família de Conceição dos Bugres, uma das mais famosas artesãs do Estado. Ela, sua nora, e ele, seu neto. Mariano, hoje, é o herdeiro dos bugres de Conceição, e replica o trabalho da avó com os mesmos formatos e materiais. Sotera foi além, e não se permitiu trabalhar à sombra de uma árvore que já havia crescido. Ganhou ela própria notoriedade com seus bugres, que esculpe nos totens enegrecidos com corante solúvel a base de água.

Com a arte que desenvolveu em 1974, Sotera ganhou notoriedade e reconhecimento – como o primeiro lugar no 5º Salão de Artes Plásticas do MS, em 1987 – e teve suas peças expostas e comercializadas em diversas partes do mundo como Turquia, Japão e Bélgica. Com o dinheiro do artesanato, chegou a comprar vários terrenos, inclusive o da casa, em que mora atualmente – e o único que lhe restou. Hoje, fazendo um balanço de tudo o que conquistou e perdeu, ela é taxativa. “Não dá mais para conseguir nada com o artesanato. Eu não espero mais nada, só continuar vivendo.”

Raízes emaranhadas
“Onde eu nasci? Sabe que eu não sei! Acho que foi em Ponta Porã, ou Pedro Juan (Caballero, no Paraguai). Bem perto dali”, relata ela, forçando a memória por mais detalhes. A fronteira está longe de ser um limite para os fronteiriços, e os territórios muitas vezes acabam se confundindo. E os irmãos? “Vixe Maria! Difícil lembrar. Já morreu quase tudo.” Eram dez no total, ela estima. Cinco homens e cinco mulheres.

Pouco parece ter ficado na lembrança de sua vida antes de chegar em Campo Grande, aos 16 anos, para trabalhar como auxiliar numa lanchonete na região da Cabeça de Boi. A pouca importância das memórias é justificável; se a vida na Capital nunca foi fácil, certamente foi menos complicada que o período na fronteira. “Minha mãe morreu quando eu tinha seis anos, e eu fui criada pelos parentes. A vida toda trabalhei de doméstica”, relembra Sotera.

Foi ainda na lanchonete que conheceu Wilson Antunes da Silva, o filho de Conceição. “Quando eu casei, minha sogra estava começando a fazer os bugres. Eu não me interessava por aquilo, não entendia. Nunca pensei que ia fazer artesanato”, assume. Ainda assim, ela não vê influência do trabalho de Conceição no seu. A vontade de modificar a madeira ela diz não ter certeza de onde veio. “Eu só estudei o 1º ano, e eu só assino o meu nome. Nasci no cafundó do Paraguai, no meio do mato, e nunca vi na minha vida um bugre de pau.” Para Sotera, sua inspiração é coisa de Deus. Coisa de outro planeta.

Mas o seu próprio contato com a madeira não veio direto com o artesanato. Wilson era motorista do Incra e, apesar de não ser artesão como a mãe, também fazia suas incursões pelo mundo do martelo e do formão – só que de maneira mais prática. “Meu marido fazia poltrona, mesa, porta e baú. Tudo rústico”, explica Sotera, que costumava ajudá-lo na produção das peças. Ela mesma começou a fazer e vender pilão de madeira, para ajudar no orçamento da casa.

Os trabalhos, nessa época, eram quase sempre utilitários. Vez ou outra, no entanto, ela juntava raízes de aroeira no mato e envernizava, e percebeu que tinha gente comprando. Expondo na Casa do Artesão desde 1973, foi só um ano depois – quando seus produtos já não estavam vendendo tão bem assim – que surgiu a inspiração para fazer os totens.

“Eu não fiz uma primeira escultura; fiz logo três de uma vez. Era só pescoço e orelha, pareciam um monte de velho. Uma coisa horrível!”, ri, em meio às lembranças. No entanto, não demorou uma semana para a Casa do Artesão retornar a ligação, informando que tudo já havia sido vendido – e pedindo mais!

Iguais aquelas primeiras peças, Sotera vendeu todas. Com o tempo, as carrancas foram se aperfeiçoando e o estilo foi modificando, mas ela se arrepende de não ter guardado ao menos uma. Anos depois, chegou a fazer uma nova peça parecida com aquela, que guarda junto do ateliê, que divide com o filho Mariano (ou Maninho, como ela o chama).

– E quanto custa?

“Não… Esse não está a venda”, informa ela um pouco sem graça. Em meio às dificuldades do dia a dia para sobreviver com o trabalho de artesão, esse é um dos poucos luxos que a artesã se permite. Ainda assim, ela evita protecionismos em relação a sua arte. “É o meu trabalho, mas eu não adoro nada disso. Para mim, por mais bonito que seja, é só um pedaço de pau.”

Madeira de construção

Foto: Fábio PellegriniHoje, tudo é material para Sotera e não há forma da madeira que ela não trabalhe. “Eu faço de galhada. Vários, um em cima do outro. É só cair um galho duma árvore boa que eu viro tudo em bugrinho.” Ipê, faveiro, aroeira ou peroba roxa são os principais materiais utilizados pela artesã na feitura de suas peças – tudo comprado em lojas de madeira de construção.

Mesmo que se quisesse, é impossível separar Sotera de Mariano. Mãe e filho dividem muito mais que a casa, mas também o trabalho. É ele quem serra as toras em pedaços menores, e entrega para a mãe entalhar. O contrário também é válido, e quando as encomendas de Mariano são muitas, é Sotera quem o ajuda na hora de encerar e lixar.

Quanto ao acabamento, os dois trabalham de maneira bastante semelhante. Com a madeira nas mãos, eles desenham as formas que pretendem liberar na peça com a maceta e o formão. Com cuidado crescente, vão tirando lascas e mais lascas até o rosto tomar forma no material. Quando preparadas as peças, Sotera finaliza tudo com xadrez preto e cera de chão. Já Mariano usa tinta preta e cera de abelha. As peças são então reservadas durante um dia inteiro para secar. “Depois de encerado eu lixo tudo para tirar o brilho, e depois encero de novo para fazer durar”, detalha Sotera. Para abreviar o tempo, a essa fase de finalização só passa quando têm várias peças prontas para serem enceradas ao mesmo tempo.

Das peças que mais lhe encheram de orgulho, ela aponta uma foto guardada num dos álbuns da família. É uma árvore inteira, toda negra, com cerca de um metro e oitenta de altura e inteiramente trabalhada em carrancas de bugre. “Essa aqui eu vendi para o Humberto Espíndola, para a minha filha casar. Comprei vestido de noiva, sapato e grinalda.” Mariano lembra bem dessa época, onde a mãe danou de fazer várias árvores e galhadas. “A cozinha aqui de casa era quase uma floresta”, brinca.

“Eu gosto de fazer peça grande. Árvore ou totem com três, quatro cabeças”, conta a artesã. “Mas esses vendem muito pouco. O que mais tem saída é o pequeno.” Pergunto dos preços, e ela relata que tem peças que saem por até R$ 1.000,00.

– E o mais barato?

“Não tem isso de mais barato. Quando você está apertado, vende até por R$ 10,00”, afirma categórica.

Sotera acredita que o artesanato teve sua fase áurea na década passada, principalmente 1996 e 1997, e hoje vive uma crise de identificação com o público. “Arte hoje em dia é para quem entende e conhece. Eu ouvi falar que teve um leilão de um bugre da minha sogra que foi comprado por R$ 30 mil. Deve valer né?”, questiona ela, também em dúvida. Em média, os bugres originais – e pequenos – de Conceição são vendidos por R$ 6 mil. Ela mesmo já chegou a ter cinco peças da sogra em seu ateliê, que vendeu por R$ 3 mil quando um comprador apareceu.

Espaços e Mercados
Gestor da Casa do Artesão de Campo Grande desde 2008, Oscar Veraldi é responsável por um espaço onde estão expostas peças de mais de 1.300 artesãos – inclusive Sotera e Mariano. Do contato direto com o setor, Oscar observa uma série de mudanças no mercado. “Uma delas é que a comercialização foi descentralizada. Hoje a Casa do Artesão é apenas uma das opções para vender a produção artesanal”, relata ele. Além do espaço, também há a feira permanente na Praça dos Imigrantes, os centros de economia solidária e as várias lojas particulares espalhadas pela cidade.

A oferta de produtos aliada à multiplicidade de pontos de comercialização pulverizaram também as vendas. É raro o artesão que consegue tirar toda sua renda de um único local. Mais comum é que ele receba pingado, recolhendo um pouco de cada local. Mais do que isso, como o maior número de vendas são realizadas para turistas – “cerca de 80%”, estima Oscar – a preferência é por peças de menor tamanho e, consequentemente, menor valor, reforçando a imagem do pagamento pulverizado. Peças grandes, como as árvores-totem de Sotera, são muito pesadas e de difícil transporte para quem vem de fora, e acabam esquecidas mesmo estando no centro da loja, confundidas com a mobília ou servindo de estante para as peças pequenas.

O transporte é um ponto fundamental na comercialização de peças dos artesãos de Mato Grosso do Sul. “Esse busto aqui, por exemplo, está vendido há quase um ano”, relata Oscar, apontando para uma peça de gesso feita por uma artesã. O busto de uma negra, cheio de detalhes e babados trabalhados, aguarda pacientemente até que sua compradora venha reclamá-lo em sua próxima viagem – desta vez de carro – de São Paulo até Campo Grande.

“As transportadoras não quiseram levar a peça, por que não queriam arcar com as despesas em caso de quebra”, relata o coordenador da Casa do Artesão. Negociações com os Correios também se provaram infrutíferas, e o destino da peça – assim como muitas outras – é esperar. “Já tivemos caso de um comprador que queria que a gente entregasse a peça na Alemanha. Mas é todo um processo de desembaraço aduaneiro que nós acabamos não conseguindo fazer”, relembra.

Se por um lado o mercado de vendas diretas diminuiu, Oscar Veraldi vislumbra outras oportunidades se abrindo para o artesanato. Uma delas é o oferecimento das peças como brindes corporativos para empresas que desejam presentear funcionários, ou homenagear personalidades com trabalhos que denotem regionalidade. Sotera e Mariano já foram contratados algumas vezes para preparar as peças para uma emissora de televisão e mais recentemente para um órgão do Poder Judiciário. “Sempre que as empresas nos procuram, nós passamos o contato direto do artesão para que os termos sejam negociados com eles. O papel da Casa do Artesão fica só em auxiliar nos trâmites financeiros, como para emitir nota fiscal”, esclarece Oscar.

O mercado de brindes corporativos vem sendo bastante incentivado pela gerência de artesanato Sebrae/MS, mas que esbarra em um ponto principal: a capacidade e logística de fornecimento do artesão. “O problema é só quando as pessoas pedem em cima da hora”, relata Sotera. “Uma vez pediram no domingo pra gente aprontar até terça, umas quarenta peças. Não dá! Tem que ser com pelo menos dois meses de antecedência.” O prazo estendido não é só para o tempo hábil de secagem e produção das peças, mas por que os anos já estão pesando no trabalho da artesã. “Deu quatro e meia da tarde e eu já não estou enxergando mais nada. Aí a gente para, né?”

Sincera e um tanto desacreditada, nada disso anima Sotera. Para a artesã, os tempos são outros, e o interesse das pessoas passou. Daqui para frente, não importa o mercado ou as novidades, as coisas vão ser cada vez mais difíceis. “Vai chegar o tempo em que nada mais vai valer nada. O artesanato já deu o que tinha que dar.”

África, a nova fronteira agrícola

Grupo brasileiro investe em tecnologia e sustentabilidade no agronegócio em terras africanas

Andriolli Costa/Rural Centro
Publicado em 12/04/2013

Foto: Levy Fonseca Neto

A terceira safra está sendo colhida agora e com grandes expectativas de lucro, mas quando o paranaense Gilson Pinesso chegou ao Sudão, em 2010, tinha uma complexa missão pela frente. Desta vez, não era apenas mais uma expansão comercial, como a que o grupo que leva seu sobrenome já havia feito no Centro-Oeste e no Nordeste brasileiro. Em uma parceria envolvendo tanto a iniciativa privada quanto o governo sudanês, o Grupo Pinesso se comprometia a levar sustentabilidade, desenvolvimento econômico e tecnologia ao agronegócio do país. Começava um novo desbravamento do continente africano, que cada vez mais vem ganhando espaço como a nova fronteira agrícola para o agronegócio mundial.

“São algo em torno de 300 milhões de hectares de terras cultiváveis, com um clima bom e solo fértil. A África é um novo horizonte e vários países estão percebendo isso”, afirma Pinesso. Atentos à carência no abastecimento de alimentos que o mundo deve enfrentar nas próximas décadas, países como China e Rússia têm investido no financiamento ao agronegócio africano. A proposta é incentivar a qualidade da produção intensiva e aproveitar melhor cada hectare disponível. É neste sentido que entra o agronegócio brasileiro, referência internacional em tecnologia de produção, e que no Sudão é representado pela criação da Brazilian Sudanese Agribusiness Company pelo próprio Grupo Pinesso.

Três anos depois o empreendimento já é considerado um sucesso. Os 600 hectares cultivados durante o projeto piloto se tornaram quase 25 mil espalhados entre Sudão e Moçambique. Há planos de chegar a 100 mil até 2014 e de iniciar projetos na Etiópia e na República Democrática do Congo. As culturas também se tornaram mais variadas e incluem algodão, milho, feijão-caupi e cultivos experimentais de soja (ainda buscando uma variedade adequada ao clima sudanês).

Gilson Pinesso

Gilson Pinesso

Os resultados se refletem em números positivos para a empresa. “O nosso faturamento na África em 2011 foi de U$ 40 milhões, o que compreende 20% do total faturado pelo grupo”, calcula Pinesso. Essa é apenas metade do que rende a colheita local, pois o restante é dividido com a sudanesa Agadi, empresa que articulou a parceria.

A produção de algodão é exportada para China, mas a de alimentos é toda voltada para o mercado interno – parte da responsabilidade social envolvida no acordo público-privado. Um montante da colheita de feijão-caupi (cultivar branca) foi inclusive distribuído entre os produtores nativos no ano passado, pois o grão é uma fonte rica em proteínas e barata de produzir.

Dados do Programa Mundial de Alimentos, da ONU, mostram que um em cada quatro sudaneses está em estado de insegurança alimentar. Para Pinesso, a transferência de tecnologia que a experiência na África proporciona é uma maneira de minimizar o problema da fome no continente. “Um produtor local produz 500, 600 kg de milho por hectare. Nós conseguimos produzir até 7 toneladas no mesmo espaço”.

Brasil volta olhares para a África
Foto: Levy Fonsceca NetoNão é somente a iniciativa privada que busca incentivar a produção agrícola na África. Em 2006, respondendo a um chamamento dos governos africanos, a Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária) iniciou uma cooperação técnica no continente. “Existe uma pressão crescente vinda da cidade para que o governo tome esse tipo de providência”, reflete o coordenador geral do programa da Embrapa em Moçambique, José Bellini Leite. “A África em 2030 será um continente urbano e essa população vai demandar muito alimento, e alimento barato”.

Bellini salienta que para caracterizar a agricultura do continente é preciso pensar em qual África estamos falando. A “África Árabe” (no Norte), rica em petróleo, teria um agronegócio mais desenvolvido, assim como a África do Sul. O restante da África Subsaariana, que compreende um grupo de 47 países, esta sim teria uma agricultura de baixa tecnologia e baseada na subsistência, que apresenta características do neolítico, onde o produtor corta, queima, explora a terra e depois a abandona e repete o processo em outra área.

Segundo o Banco Mundial, a produção agrícola ocupa mais de 60% da força de trabalho nos países africanos. No entanto, essa atividade ainda é feita de maneira não sustentável. “Em Moçambique, para você ter uma ideia, menos de 3% dos produtores usam adubo. Apenas 5% usam semente melhorada e a tração animal é rara. Somente 29% dos agricultores geram excedente comercializável”, informa Bellini. O trabalho desenvolvido pela Embrapa, segundo o coordenador, é proporcionar informação, tecnologia e organização para que o produtor tenha condições de sair dessa situação de insegurança. “O projeto não vai ficar aqui para sempre, então é preciso fundar as bases para deixar um legado que possa ser apropriado e incorporado por eles”.

Desafios e Perspectivas
Foto: Levy Fonseca NetoA pouca mão de obra especializada e uma cultura acostumada à produção com baixa tecnologia não são os únicos problemas a serem enfrentados por quem deseja investir no agronegócio africano. Coordenador geral da Brazilian Sudanese Agribusiness Company, Levy Fonseca Neto relata: “A maior dificuldade que nós encontramos na África é a mesma encontrada no mundo inteiro, que é ter acesso aos recursos no momento certo”.

Culturas como o algodão, por exemplo, não admitem o atraso nem mesmo de um dia para a aplicação de insumos, e boa parte desses produtos devem ser adquiridos no mercado externo. Outro problema, diretamente vinculado ao fornecimento, é a falta de estrutura na África Subsaariana. A estação de chuvas e a estação de seca são muito bem definidas, o que oferece aos produtores uma janela de apenas 30 dias para o plantio. “Nesse período devemos ter armazenados na fazenda todo o fertilizante, todo herbicida e todo inseticida que precisarmos, pois o acesso fica absolutamente comprometido”.

Um dos fatores que colabora para o isolamento da fazenda são os vertissolos da região, compostos por 80% de argila, diferente dos solos arenosos brasileiros, e que dificultam o trajeto dos caminhões. Fonseca Neto também esclarece outra questão em relação à fertilidade da terra no Sudão. “Existe um mito de que a terra entre o Nilo Azul e o Branco seria naturalmente fértil. Na verdade, ela tem boas características físicas, mas é quimicamente pobre. Precisamos fazer adubação com potássio, corrigir o enxofre e tomar uma série de providências antes de plantar”.

Ainda assim o investimento em terras africanas continua sendo vantajoso. Mesmo com a correção da terra, a quantidade de adubo necessária ainda é quatro vezes menor que a utilizada no Centro-Oeste brasileiro. O controle de pragas também é uma preocupação minimizada. No caso do algodão, no Brasil são necessárias até 18 aplicações de defensivos, enquanto no Sudão são apenas quatro ou cinco. A localização geográfica também é um ponto positivo, pois há muito mais facilidade em escoar a produção da África para o mercado asiático do que o Brasil, tornando o continente competitivo no mercado mundial.

Gilson Pinesso empolga-se com as possibilidades e vislumbra para o futuro uma integração direta entre os continentes. “Poderíamos abastecer a Ásia com algodão brasileiro no primeiro semestre e africano no segundo. Terminaríamos o plantio no Brasil e partiríamos para fazer lá. Então voltaríamos para a safrinha aqui e retornaríamos à África para colher…”, especula. “As terras estão praticamente abertas e num cenário futuro estaremos certamente produzindo no Brasil e na África ao mesmo tempo”

Perfil: Edson Alves da Cruz

Publicado no livro Vozes do Artesanato, 2012
Autor: Andriolli Costa

O endereço estava na internet. Na verdade, era uma das únicas coisas que o usuário que procurasse por aquele nome – ao lado das palavras Corumbá e artesanato – poderia encontrar. No entanto, a casa de Edson Alves da Cruz era mais fácil de ser localizada pelo Google do que pela reportagem. “Pergunte por Edson das Capivaras”, disse ele por telefone. “Todo mundo conhece!”. No caminho, os mototaxistas davam de ombros e os vizinhos torciam a cara em interrogação. Há mais de 30 anos dedicado a retirar da madeira as formas dos bichos do Pantanal – e há 25 morando no mesmo lugar – Edson balança a cabeça ao saber das dificuldades. “Todos esses anos no trabalho e ainda passamos por isso. Não é fácil, não é fácil”.

A chateação não acompanha Edson por muito tempo. Aos 63 anos de idade, ele que já é pai de nove filhos e avô de 12 netos pode não ter ficado rico. No entanto, tudo que tem até hoje – da casa de alvenaria na Avenida General Rondon, em Corumbá, até o Chevette 1984 que está reformando desde 2009 – foi conquistado graças a sua arte. Pantaneiro robusto, com o rosto emoldurado por um bigode grisalho e um par de óculos que amenizam-lhe as feições, o maior orgulho do artesão é ter criado sua família da melhor forma possível. “Filho pra mim não é bicho. A gente precisa dar estudo, comida, saúde… Hoje pra mim é um alívio saber que tão tudo crescido e bem”. Continuar lendo

Só por Hoje Evitarei a Primeira Aposta

Legalização de jogos de azar volta à discussão. Proposta promete empregos e lucro para MS, mas e quanto aos jogadores?

Matéria Publicada no Jornal Laboratório Projétil – Edição 63 (06/2009)
Autor: Andriolli Costa (Acadêmico)
“Véspera de Natal eu fui pro bingo. Dia das Mães? Bingo! O jogo tira todo seu sentimento de comunidade”

“Véspera de Natal eu fui pro bingo. Dia das Mães? Bingo! O jogo tira todo seu sentimento de comunidade”

No estacionamento do Cepol (Centro de Polícia Especializada de Campo Grande), os carros dividem o espaço da cobertura com centenas de máquinas caça-níqueis. Pedaços de madeira soltos, componentes eletrônicos arrancados e anos de poeira acumulada trataram de esconder seus botões coloridos; mas a velha forma do maquinário permanece inconfundível.

A situação não é muito diferente no gabinete do delegado Silvano Mota. Todo o lado esquerdo e a parte traseira da sala estão tomados pelas videoloterias. Os modelos variam bastante: do tradicional ao portátil, disfarçado em forma de mala, até os mais recentes, com tela de LCD e formato de um pequeno computador. Na sala, as formas, cores e estilos dos aparelhos podem variar, mas a procedência é a mesma: são todos frutos de apreensão da operação Las Vegas.

Iniciada em 20 de maio, e deflagrada pelo Gaeco (Grupo de Ação e Repressão ao Crime Organizado), com o apoio das polícias Federal e Militar, a operação prendeu 20 pessoas em Campo Grande e Corumbá. Também apreendeu 18 veículos e um avião particular, além de R$ 77 mil e US$ 1,7 mil. A ação desmantelou a quadrilha de jogos de azar liderada pelo major aposentado da PM, Sérgio Roberto de Carvalho. O militar já havia sido preso em 2007 durante a operação Xeque- Mate, que decretou o fim da era dos bingos na Capital. Outros dois policiais militares faziam parte da quadrilha: o capitão Paulo Roberto Xavier e o cabo Marco Massaranduba.

Durante a Las Vegas, foram fechados dois cassinos em Campo Grande: o Casarão, na Vila Planalto, e o Caju, no Jardim São Bento. No total, foram encontradas 97 computadores e máquinas caça-níqueis. De lá para cá, a perseguição às videoloterias se tornou cada vez mais frequente, e todas as apreensões são enviadas para a sede da Polícia Civil. As constantes movimentações da polícia na repressão ao jogo de azar reacenderam o antigo debate da legalização dos cassinos e bingos, abandonado desde 2004. Em 3 de junho, o site da Câmara Federal apontava a legalização dos jogos de azar como uma das pautas da Comissão de Finanças.

A proposta foi votada no dia 17 do mesmo mês, mas apenas os bingos foram legalizados. Cassinos permanecem na ilegalidade. O jogo tornou-se ilegal no país em 1946, durante o governo do marechal Eurico Gaspar Dutra, pelo Decreto-Lei nº 9.215. Nele, justifica-se a proibição considerando que “a tradição moral, jurídica e religiosa do povo brasileiro é contrária à prática e à exploração de jogos de azar”. Jogador e empresário da jogatina se enquadram na lei, que estabelece reclusão de três meses a um ano, podendo se estender a perda dos móveis da propriedade.

O delegado Silvano Mota ressalta: “As pessoas que jogam não apresentam perigo à sociedade. A máquina (caça-níquel) é a mais lesiva. Seu hardware é programado para só liberar o prêmio depois que juntar dinheiro suficiente para dar lucro ao empresário”. Defensores do jogo de azar afirmam que a legalização poderia ser a maneira de vistoriar as máquinas, tornando-as mais seguras. No artigo A Legalização dos Cassinos no Brasil e América Latina, publicado em 2006, o coordenador do Curso de Turismo da Universidade Positivo (PR), Dario Luiz Paixão, apresenta outro argumento a favor da legalização: “é voz corrente que em mais de 50% dos países do mundo, os cassinos se apresentam como eficaz meio de obtenção de divisas. Quem duvida que a reabertura dos cassinos no país representaria não só a construção de grandes e novos complexos hoteleiros e geraria milhares de empregos?”. O artigo cita diversas cidades que prosperaram devido ao turismo gerado pelos cassinos. Um exemplo clássico é o de Las Vegas, construída no meio do deserto de Nevada, e tornada uma potência turística mundial.

O projeto aprovado na Câmara Federal ainda precisa passar por outras instâncias para se tornar lei. Se aprovado, os estabelecimentos não poderão se localizar a menos de 500 metros de igrejas ou estabelecimentos de ensino e nem poderão ser visualizados da via pública. As apostas poderão ser feitas somente a vista, para evitar dívidas. É proibida a presença de menores de idade, assim como de pessoas viciadas em jogos de azar, que serão identificadas através da criação de um cadastro nacional de dependentes, que deverá ser criado em 180 dias após a aprovação da proposta.

Videoloterias empilhadas no estacionamento do Cepol

Videoloterias empilhadas no estacionamento do Cepol

Vidas por trás dos números
“Os anos que eu passei jogando, vivi um inferno muito grande”, relembra João*. “Eu comecei a jogar em 1994 e em oito anos eu estava completamente falido. Hoje, eu penso como é irracional um ser humano passar das 11h até a madrugada do dia seguinte no jogo, sem se preocupar com nada! Eu andava com o sapato furado, a roupa toda rasgada… Para você ver, na véspera do Natal eu fui pro bingo. No Dia das Mães? Bingo! O jogo tira de você todo o sentimento de comunidade…”.

João é um jogador compulsivo, daqueles que terão que se identificar caso o projeto de lei seja aprovado. Sem apostar desde o final de 2003, organizou em parceria com Cláudia*, em 19 de abril de 2004, a primeira reunião dos Jogadores Anônimos (J.A) de Campo Grande. Iniciado em Los Angeles, nos Estados Unidos, em 1957, baseado nos 12 passos do Alcoólicos Anônimos, o J.A busca ajudar pessoas a superar a dependência do jogo. “É um programa de recuperação”, explica João, “mas recuperação do que? De dinheiro? Não. Da dignidade, da autoestima, de uma vida familiar saudável”.

Todas as quintas-feiras, a campainha toca pontualmente às 19 horas, indicando o início da sessão. A neblina e o feriado de 11 de junho intimidavam, mas sete participantes estavam presentes. Sentada à mesa, Cláudia, a única jogadora na sala inicia a sessão. “Não somos filiados a nenhuma seita ou organização, nem combatemos ou defendemos nenhuma causa. Nosso propósito é um só: levar uma vida equilibrada e feliz”. A palavra passa para cada um dos presentes. Todos têm dez minutos para falar de sua recuperação. Sentados em círculo nas cadeiras de plástico, entre goles nervosos de café, eles ouvem em silêncio as histórias de seus companheiros. Diferem na etnia, classe social e religião, mas se identificam no relato dos colegas.

“O jogo na minha vida foi pior do que qualquer droga ou qualquer bebida poderia ter sido”, testemunha Cláudia. “Eu tinha uma loja, e bem do lado abriram um local que tinha uma maquininha de jogo. Um dia, fui lá com R$ 1 e voltei com R$ 40! É incrível como você sempre ganha na primeira! Você vê o quanto rendeu e pensa que vai ganhar sempre. Eu era dependente do meu marido e queria minha autossuficiência. Comecei a ir ao bingo, e só voltava para casa às 2 da manhã. Cheguei a deixar meus filhos para a diretora da escola levar para casa, porque eu ficava jogando”.

Matheus* também comenta sua recuperação e conta que na família só quem jogava era sua mãe. “Ela ia direto ao bingo e eu sempre ia buscá-la. Foram só dez anos depois que eu comecei a ir para jogar. Vintão, trintão, e isso aqui pode render? Beleza né!” E continua: “o pior do jogador é a mentira. Ela desgasta qualquer relacionamento. A gente mente para o chefe, mente para a mulher… Eu chegava a deixar uma camisa limpa no porta-malas do meu carro, mas não adiantava. Existe um cheiro do jogo. Aquele cheiro de cigarro impregnado naquele ambiente fechado não sai da gente. Minha esposa sempre sabia quando eu tinha ido jogar. Quase deu separação”.

Este é seu quarto retorno ao grupo. “O jogo é uma coisa muito forte em mim. Se eu não deixar ele estacionado, eu sei que ele volta”. Os períodos de abstinência dos participantes são variáveis: alguns anos, meses ou dias. Não importa. “O passado ficou para trás, e o futuro ninguém conhece. O importante é o hoje”, comenta Alberto*, sentado ao lado de sua esposa. Seus cálculos são precisos: “não aposto nada há dois anos, nove meses e 11 dias, nem mesmo par ou ímpar!”. Ainda assim, diz saber que possui um jogador compulsivo dentro de si. “Essa nossa doença é crônica, e o J.A é nosso remédio para a vida toda. Estou parado só até agora. São 24 horas de cada vez. Esse é nosso lema: Só por hoje, evitarei a primeira aposta”.

A primeira vez que João entrou num ambiente de jogo foi em 1994, na inauguração do Real Bingo. Curioso com a movimentação, perguntou aos seguranças do local do que se tratava. Era um ambiente festivo e cheio de luzes, onde desfilavam belas mulheres de vestido longo, empresário e deputados. “Só gente ricaça!”. Garçons circulavam constantemente pelas mesas, levando uísque e refrigerante de cortesia. “Parece que é aquilo que me fazia ser gente”.

Alberto não ligava para o ambiente do bingo. “Olha, eu nem sei o que me atraía. Não era o glamour, não era nem vontade de ganhar. Se eu ganhasse, ótimo, mas o negócio é que eu tinha prazer em jogar. Eu jogava porque eu ficava encantado quando o meu número aparecia no telão. Parecia que eu tinha um orgasmo quando via as figurinhas todas enfileiradas nas máquinas caça-níqueis, sabe? Nosso dinheiro parece que é só um pedaço de papel. Uma nota do Banco Imobiliário”.

A psicóloga Eleide Lopes Félix destaca que a compulsão ao jogo vem de uma busca para aliviar uma ansiedade ou uma carência. “O jogador compulsivo é uma pessoa emocionalmente fragilizada. O ambiente do cassino e a possibilidade de vitória mexem com a ideia de poder e onipotência”. É difícil saber quais pessoas têm tendência a se tornarem compulsivas, uma vez que, por vezes, a falta de contato com o jogo não permite que o vício latente se desenvolva.

O jogo patológico afeta cerca de 4% da população mundial, podendo chegar a até 17% em países como a Austrália, onde o jogo é legalizado. Os dados são da dissertação Jogos de Azar: Análise do Impacto Psíquico e Sócio Familiar do Jogo Patológico a partir das Vivências do Jogador, defendida na UCDB (Universidade Católica Dom Bosco) em 2007 por Sálua Omais. A autora cita estudos que mostram que em países que legalizaram os cassinos, como Estados Unidos e Canadá, houve grande aumento no número de pessoas viciadas em jogo. Muitas vezes, é o jogo social que acaba servindo como pontapé inicial para o jogo compulsivo.

A legalização dos cassinos e bingos no Brasil pode gerar empregos, promover o desenvolvimento turístico e trazer divisas para o Estado. No entanto, a exposição e a publicidade em torno dos jogos de azar deverão atingir um número maior de brasileiros com tendência ao vício, o que acabará gerando novos problemas para a população. Sálua Omais conclui sua pesquisa dizendo: “torna-se impossível aferir o tamanho real do impacto do jogo sobre o indivíduo, a família e a sociedade, tendo em vista que os prejuízos emocionais da identidade e da autoestima, a distância afetiva, as mágoas e as agressões extrapolam qualquer tentativa de se mensurar as reais dimensões desse problema”.

Como entidade, o J.A não se posiciona sobre nenhuma questão, mas, como envolvidos, seus participantes desaprovam fortemente a legalização dos jogos de azar. João se manifesta: “Eu vejo isso como uma aberração do ponto de vista humano! Não se pode saber quem é um jogador compulsivo. Pode ser um pai de família que passa o dia inteiro quebrando asfalto, ganha R$ 400, e vai acabar deixando tudo numa máquina de jogo”. Caso as previsões provem ser corretas ou não, João ressalta: “qualquer pessoa, não importa: idade, classe social, raça ou religião que tenha problema com qualquer tipo de jogo, que nos procure. Não só eles, como também seus familiares. Nós os receberemos com o coração aberto”.

“Vinte e quatro horas para todo mundo”

* Os nomes foram alterados para preservar a identidade das fontes.

Nas Fronteiras do Desemprego

Nas Fronteiras do Desemprego

Brasileiros e Bolivianos em situação de subemprego passam da informalidade à marginalidade após medidas protecionistas de Morales.

Matéria Publicada no Jornal Laboratório Projétil – Edição 62 (05/2009)
Autores: Andriolli Costa e Maurem Fronza (Acadêmicos)
Foto: Maurem Fronza

A corumbaense Indira Leigues comprou dois carros como “camelô de gasolina” Mudou de atividade com a proibição, mas permanece informal

Na divisa entre Corumbá (MS) e Puerto Quijarro, na Bolívia, o perigo convive com oportunidades. Através da fronteira, contrabandistas constroem verdadeiras fortunas assentadas sobre mortes, prostituição, tráfico de drogas, carros e até de pessoas. Ao mesmo tempo, acostumados a depender do dinheiro incerto dos subempregos, milhares de trabalhadores sobrevivem à custa de pequenos comércios ou prestação de serviços. Invisíveis nas estatísticas oficiais, essas pessoas são levadas ao mercado informal pela necessidade e pela falta de qualificação.

Para elas, a fronteira não é um limite, mas um meio de vida, não é uma barreira, mas um horizonte de expectativas e possibilidades. O desenvolvimento das duas cidades fronteiriças liga fortemente uma à outra. Corumbá, com 96 mil habitantes, está separada por oito quilômetros de estrada da fronteira onde fica Puerto Quijarro, com pouco menos de 13 mil moradores. O fluxo entre os países é intenso e ocorre nas duas direções. Por um lado, os bolivianos buscam em Corumbá atendimento médico, colégio para os filhos e assistência social. Por outro, os corumbaenses procuram em Quijarro combustível, eletroeletrônicos e toda sorte de produtos baratos.

Uma ponte seca com pouco mais de vinte metros facilita o tráfego entre os dois países sobre a linha divisória. No alto de uma pequena subida, o Control Fronterizo boliviano no mesmo tom bege da paisagem contrasta com o azul do novo e espaçoso prédio da Receita Federal brasileira. Casas baixas sem pintura revelam construções improvisadas à margem do asfalto empoeirado. Quando chove, embalagens e sacos plásticos descem por um córrego nas proximidades, levando a sujeira acumulada nas ruas.

A proximidade com o Pantanal traz calor e chuvas torrenciais a esse pedaço do Brasil quase misturado à Bolívia, mas também atrai turistas nacionais e estrangeiros, seduzidos pela pesca esportiva e contemplação ecológica. Muitos visitantes que vão a Corumbá aproveitam o passeio para conhecer a cidade boliviana e fazer compras. A moeda vizinha tem pouco valor comercial. São necessários três pesos bolivianos para comprar um real e seis para trocar por um dólar norte-americano.

Embora distante de Brasília e La Paz, esse território ambíguo é diretamente afetado pelos governos das duas nações. Desde 2006, quando tomou posse, o presidente boliviano Evo Morales vem adotando medidas para proteger a indústria local e diminuir os prejuízos da Receita. Para tanto, proibiu a comercialização de combustíveis fora dos postos de gasolina, bem como a importação e venda de carros antigos e roupas usadas, atividades que envolvem diretamente milhares de pessoas em toda Bolívia.

Sem estudo, qualificação, experiência e agora nem mesmo a possibilidade de continuar no emprego informal, restam poucas alternativas a esses trabalhadores.

Automóveis de Sobrevivência
O carro branco em frente ao ponto de táxi do lado boliviano da fronteira é um Toyota modelo antigo. Importado já usado quando veio da Ásia para a Bolívia no início da década passada, lembra pouco seus primeiros anos. A lataria está descascada, os retrovisores foram arrancados e as lanternas só se mantém unidas por uma grossa camada de fita adesiva. O veículo estala e chacoalha enquanto se aproxima, dando a impressão que vai se desmanchar na primeira curva. A porta se abre e o motorista Gustavo Ramirez anuncia timidamente: “Táxi?”.

Do lado de dentro, a nacionalidade estrangeira do veículo fica evidente. Originalmente, o volante japonês ficava do lado direito. Para trafegar no ocidente, foi arrancado e religado do lado oposto por um emaranhado de fios coloridos. Colados no para-brisa, santinhos revelam devoção a Santo Expedito, Nossa Senhora Aparecida e do Desterro. Na frente, o panda da WWF Bolívia e uma série de adesivos prateados, indicações oficiais de que o carro tem “condições de trafegar”.

O condutor, Gustavo Ramirez, é um boliviano de estatura baixa, pele muito morena e óculos que combinam com seus gestos contidos. Nascido em Potosi, há 55 anos, foi criado em Santa Cruz de La Sierra, onde cursou a Universidad Autónoma Gabriel René Moreno. No primeiro semestre, trocou os estudos pelo táxi. Mais tarde, mudou-se para Puerto Quijarro em busca de melhores oportunidades. É casado há dez anos com a corumbaense Regina da Silva, vinte anos mais nova. Hoje, a escadinha de seis filhos vai de uma adolescente de 17 anos a um bebê de apenas dois.

No domingo da entrevista, Gustavo é o único taxista no ponto em frente à fronteira com o Brasil, desafiando as nuvens pesadas que anunciam a chuva grossa. Na companhia do filho Luiz Gustavo, de 13 anos, espera por algum passageiro desgarrado que lhe garanta a renda do final de semana. A timidez inicial logo vira camaradagem e o motorista conversa animado sobre a vida e o trabalho.

Todos os dias, Gustavo trabalha das quatro da manhã às seis da tarde, com pequenos intervalos para almoçar e levar os filhos à escola em Corumbá. Nos dias de sorte, faz quatro corridas até a cidade vizinha de Puerto Suárez, e cobra oito reais por viagem. Em média, são 20 reais por dia. “É muita competência”, diz, logo acudido pelo filho: “É concorrência em português, pai!”.

Em parte, a concorrência é acirrada porque na Bolívia qualquer carro pode transportar passageiros informalmente, sem identificação. A polícia boliviana da fronteira explica que apenas os veículos sindicalizados possuem a placa vermelha indicativa da atividade de taxista. Via de regra, taxistas bolivianos não podem realizar corridas no Brasil e vice-versa. No entanto, a frota irregular do país vizinho dificulta o controle pelas autoridades brasileiras.

Gustavo calcula que existam aproximadamente 200 táxis somente na faixa de fronteira entre os dois países. Boa parte é de carros como o Toyota do taxista: importados da Ásia com pelo menos dez anos de uso. No entanto, essa realidade não se restringe apenas aos taxistas. O governo boliviano estima que a grande maioria dos 10 mil carros importados a cada mês pela Bolívia esteja nessas condições.

Em dezembro de 2008, Evo Morales proibiu a importação de veículos produzidos antes de 2004, alegando risco ambiental e de segurança. A frota barata e ultrapassada inibe o surgimento da indústria nacional, não oferece segurança para os passageiros, além de poluir o meio ambiente, devido ao enorme consumo de combustível. A reação dos importadores foi violenta e manifestações terminaram em morte em Santa Cruz. No entanto, o governo manteve-se irredutível.

Grande parte das ruas bolivianas não tem pavimentação. Os taxistas não têm interesse em comprar um carro mais novo, e por consequência mais caro, para que ele seja arruinado pela má condição das estradas. “Se aqui é difícil, imagina mais para dentro”, garante Gustavo referindo-se ao interior da Bolívia.

Foto: Andriolli Costa

Carros usados como o Toyota de Gustavo Ramirez estão com os dias contados

À noite o carro volta às ruas do lado boliviano. Vai buscar a filha mais velha, Jéssica, na universidade de Puerto Suárez, onde cursa Administração de Empresas depois de passar o dia inteiro vendendo CDs “Shopping Chão”, uma espécie de camelódromo boliviano.

A principal renda da família vem do táxi que carrega fregueses e leva as crianças para o colégio. Para reforçar a renda, o taxista construiu quatro quartos que aluga a 60 reais por mês para os comerciantes recém-chegados na cidade. Mas lamenta: “é muito barato, logo todos juntam um dinheirinho e fazem sua casa”.

Já o menino Luiz Gustavo afirma estar estudando bastante, pois sonha em ingressar na Marinha. Com todos os filhos registrados no Brasil para garantir mais direitos, a família costura a dupla identidade nacional trafegando sobre a fronteira em um automóvel vindo do outro lado do Oceano Pacífico.

Combustível Engarrafado
Taxista independente em Puerto Quijarro, Indira Valdivia Leigues trabalha pouco comparada a Gustavo Ramirez. Todas as manhãs, sai de casa às 5 horas, recolhendo passageiros até às nove. A essa hora, somou 50 ou 60 reais. “Já dá para o almoço”, calcula ela.

Aos 37 anos, a loira de olhos claros e serenos entrou no mercado de trabalho somente no ano passado e o táxi foi sua segunda opção. Corumbaense de nascimento, Indira mudou-se com a família para a Bolívia no início da adolescência. Foi casada dos 16 aos 27 com um boliviano, com quem teve três de seus seis filhos. Dona de casa por quase 20 anos, em 2008 recebeu o diagnóstico de depressão juntamente com o conselho médico de trabalhar fora para superar a doença. Com o ensino médio incompleto e sem experiência alguma no mercado, foi o que ela fez.

Durante seis meses, Indira trabalhou como “camelô de gasolina”, vendendo litros e mais litros de combustível boliviano separados em garrafas de Coca Cola. Em sua casa de três peças de cimento batido, com roupas estendidas no muro para secar, ela guarda ao lado do fogão os galões de 200 litros que enchia nos postos de gasolina.

Espalhados no quintal de terra vermelha, junto à pequena criação de patos e galinhas, recipientes menores que também costumavam ser cheios indicam que a procura era intensa.

Até o ano passado, os brasileiros aproveitavam para completar o tanque no país vizinho. Além da pureza do produto boliviano, sem mistura de álcool como no Brasil, o preço era sedutor. “A gasolina no Brasil custa 2,85 reais, aqui na Bolívia é 1,25. A gente revendia o litro por 1,60”, conta Indira. Na Bolívia, o combustível é subsidiado pelo governo, daí a diferença de preços entre os dois países. Até o fim deste ano, os gastos com subsídios deverão ultrapassar os 380 milhões de dólares para a economia boliviana.

Em 2006, o governo de Evo Morales começou a impor restrições. De início, limitou o consumo diário de combustível. Os carros de passeio, por exemplo, passaram a ser cadastrados e podiam abastecer até 53 litros se tivessem placa boliviana e 20 se ela fosse brasileira. As filas nos postos de gasolina eram tão grandes que os motoristas chegavam a dormir dentro dos carros.

Ao invés de interrompê-lo, a medida aumentou ainda mais o comércio paralelo de gasolina. Trabalhando das 7 da manhã às 8 da noite, Indira chegava a vender até mil litros de combustível por dia. “Na época da Piracema, as pessoas compravam muito para colocar nos barcos de turismo. Levavam 200 litros de uma só vez”. Alternando os postos de gasolina, ela abastecia até quatro vezes seguidas com a ajuda do filho Jeremias, de 14 anos. “A gente dava um dinheirinho para o frentista e ele completava o galão no banco de trás”, conta.

Dos recipientes, o combustível era dividido entre várias garrafas de refrigerante, e armazenado no porta-malas do carro. Sinalizando com o polegar para baixo, sinal conhecido entre os compradores, mãe e filho anunciavam o produto para turistas e moradores do outro lado da fronteira. De tanto carregar peso Jeremias contraiu problema na coluna e agora precisa de cuidados médicos.

Indira teve que deixar a atividade a partir do dia 13 de novembro de 2008, quando um decreto do governo de Evo Morales enquadrou o contrabando de combustível na legislação antidrogas. A pena estabelecida é de cinco a 25 anos de prisão em alta segurança e todos os que transportarem combustível em recipientes avulsos terão o veículo apreendido. Em outra medida, tomada em janeiro de 2009, motoristas estrangeiros passaram a pagar preço internacional ao abastecerem em postos até 50 km da divisa com a Bolívia. As atitudes do país vizinho buscam evitar o desabastecimento e proteger a economia local, que desperdiça milhões ao abastecer carros brasileiros com combustível subsidiado.

Como a atividade de camelô de gasolina passou da informalidade à marginalidade, Indira optou por outra igualmente informal: a de taxista. Usou o dinheiro do combustível para comprar dois carros usados. Um ela dirige; o outro aluga. Com seu português carregado de sotaque castelhano, ela conta que mesmo afastada da antiga atividade, ainda conhece os caminhos da venda ilegal. “Se você quiser, sei como conseguir gasolina barata!”

Roupas Usadas, Velhos Problemas

Foto: Andriolli Costa

Carlos Angel e sua esposa Angélica vendem 660 kg de “roupa americana” todos os meses

Do mesmo modo que o contrabando de gasolina, o comércio das chamadas “roupas americanas” causa dores de cabeça ao governo boliviano. São vestimentas usadas recolhidas como doação em países como Estados Unidos e da Europa que entram na Bolívia através de contrabando. Comercializadas dos dois lados da fronteira brasileira, calças, vestidos, camisas, toalhas, e todo tipo de confecções estrangeiras de qualidade são vendidas a preços baixíssimos: a partir de um real.

Em Puerto Quijarro, as roupas são expostas para venda completamente amarrotadas, como se o comerciante só tivesse o trabalho de tirar da sacola e jogar no mostruário. Os pontos de venda são casinhas discretas, longe da vista da maioria. No Brasil, a situação é outra. Não só as roupas usadas são dobradas e empilhadas, como também são vendidas abertamente em diversas barracas das feirinhas locais.

Montada cada dia num bairro diferente, a Feira Livre, uma das mais tradicionais de Corumbá, tem boa parte de suas barracas destinadas ao comércio de roupas. Destas, muitas pertencem aos vendedores de “roupa americana”. O corpulento Carlos Angel Solis, de 24 anos, e sua esposa Angélica Molina Rodrigues, de 28, expõem seus produtos nos oito metros que delimitam a última barraquinha da feira.

Receoso no início da entrevista, Carlos conta que começou a trabalhar cedo. Desde os 11 anos de idade ajudava o tio a cuidar de um bar em Santa Cruz. O que mais chamava a atenção do garoto em meio ao incansável movimento noturno era a Rockolla, uma máquina ao estilo jukebox que exibe videoclipes em troca de uma moeda de um real. Mais tarde, aconselhado por amigos, mudou-se para Quijarro em busca de oportunidade. Há três anos, herdou a barraca de roupas da mãe e foi trabalhar na feira.

De cada dez compradores de “roupa americana”, sete pertencem à classe média. Para encher sua banca, Carlos busca seis sacos de 55 kg de mercadorias duas vezes por mês em Santa Cruz de la Sierra. Os preços variam entre 100 e 250 dólares, dependendo da qualidade do tecido. Carlos compra o primeiro, e de cabeça calcula: “Dentro de um saco desses, deve ter uns 200 shorts”. Ele vende cada um por oito reais.

No ano de 2005, o Instituto Boliviano de Comércio Exterior (IBCE) e a Câmara Nacional de Indústrias (CNI) produziram um estudo chamado O Impacto da Importação de Roupa Usada na Bolívia, que revelou dados preocupantes. A pesquisa mostra que o comércio movimenta 40 milhões de dólares anualmente.

No entanto, o prejuízo acumulado na economia boliviana entre 2000 e 2005 superou 500 milhões de dólares, valor que equivale a 6% do PIB (Produto Interno Bruto) anual do país, calculado em 9,3 bilhões. Segundo o estudo, aproximadamente 15 mil pessoas trabalham com “roupa americana” na Bolívia. Durante os seis anos analisados, o país deixou de gerar 107 mil postos de trabalho. Mais de 20 mil fábricas de confecções foram fechadas em consequência da perda de mercado.

Quando chega de viagem, Carlos deixa sua mercadoria com uma boliviana que mora no lado brasileiro. A medida é fundamental para manter a atividade, uma vez que a legislação brasileira limita o trânsito de mercadorias na fronteira em 100 dólares diários e 300 dólares por mês no caso de bagagem turística. Em 2008, a Receita Federal de Corumbá realizou 432 apreensões com total de 6,5 milhões de reais.

Casta Suarez, de 56 anos, é a mulher que aluga a casa para os feirantes guardarem os produtos. Todos os dias, às 4 da manhã, já está acordada, sentada em sua cadeira de matriarca, esperando os vendedores que vão buscar os ferros de armação, os caixotes de verdura e as sacolas de roupas. No fim da tarde, o movimento retorna e a casa é novamente tomada por pilhas de artigos encaixotados. O aluguel é semanal e o preço depende do espaço ocupado. Pelos seis sacos de roupa americana, Carlos paga 12 reais todo o domingo.

Além do espaço para armazenamento, ela e a filha Fabíola, de 31 anos, preparam mais de 100 refeições por dias. O sucesso é tanto que muitas vezes mãe e filha ficam sem almoço. São comidas típicas como o marradito (carne desfiada com arroz) e a sopa de maní (amendoim), preparadas em uma cozinha espremida na parte dos fundos da casa. Tudo é comprado na Bolívia, já que os feirantes preferem o sabor da terra natal. Casta e a filha ganham a vida dando suporte ao subemprego na fronteira e, por isso, funcionam como base de sustentação para essas atividades informais.

Novamente na defesa da indústria nacional, o governo boliviano proibiu a importação de roupas usadas em abril de 2007. Dentro de um ano as “roupas americanas” deveriam deixar de ser comercializadas. No entanto, pressões dos comerciantes estenderam o prazo para março de 2009, e finalmente para março de 2010, data limite para a extinção da atividade no país.

O presidente da Associação dos Trabalhadores Autônomos em Feiras Livres de Corumbá e Ladário (AAFLCL), Francisco Ormond Filho é corumbaense e tem sua própria barraca de roupas na Feira Livre. Ele cobra que deveria haver maior cuidado com as roupas pela Vigilância Sanitária, visto que elas não possuem nenhuma esterilização e podem transmitir doenças.

Francisco brigou por 17 anos contra a venda de roupas usadas na Feira Livre: “Eu trabalhava só com confecções brasileiras. Tinha que pagar impostos, ter documentação, pagar passagem para buscar mercadoria em São Paulo. E aí sofria concorrência deles com mercadoria sem encargo nenhum!”. Hoje, ele vende mercadoria dos dois países, mas deixa clara a procedência de cada uma.

Com a proibição definitiva da venda das roupas usadas, muitos feirantes vão ter que repensar o meio de vida. Mesmo contrário à atividade, Francisco é cauteloso: “Se hoje tem muitos bolivianos trabalhando com produtos que não deveriam ser comercializados, não é por culpa deles. É do próprio poder público que foi permitindo.” E arremata: “como chegar para um pessoal que trabalha há 15, 20 anos vendendo produtos de outro país e dizer que agora não pode?”.

Foto: Andriolli Costa

Rockolla – Sonho de consumo de Carlos

Em uma declaração no site, o presidente do IBCE, Ernesto Antelo López, é categórico. Para ele, os vendedores de roupa americana tiveram “todo o tempo do mundo para mudar de emprego”. E finaliza: “este negócio deve parar, para que não se percam mais empregos no país”.

Taxistas independentes, camelôs de gasolina e comerciantes de roupa usada, são típicos trabalhadores informais da região de fronteira Brasil-Bolívia. O subemprego é a alternativa de renda que se coloca entre o desemprego e o trabalho formal. Ele quase sempre surge como uma solução temporária que acaba tornando-se permanente.

Levados ao mercado informal pela necessidade de sobreviver e sustentar a família, estes trabalhadores sem educação, preparo ou qualificação, encontram no subemprego sua única saída. Quando se perde até mesmo essa possibilidade, a tendência não é retornar ao mercado tradicional, mas procurar uma atividade também informal, como fez Indira, ou partir para a marginalidade.

Carlos já tem planos para quando a proibição chegar. Vai usar suas economias e montar um bar em Santa Cruz igual ao que trabalhava quando adolescente. “O bar é minha única profissão. Cresci vendo como ele funciona. Isso é tudo o que eu sei fazer”. Se tudo der certo, poderá até mesmo ter o seu próprio Rockolla.

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