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Artigos e Opinião, Mídia e Jornalismo

Os caminhos para um pós-jornalismo

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Jornalismo pós-industrial. Por: Andriolli Costa

Por Andrioli Costa

O repórter e o robô

Na manhã do dia 17 de março de 2014, o LA Times foi o primeiro jornal a veicular a notícia sobre um terremoto ocorrido minutos antes em Westwood, Califórnia. A matéria tinha como fonte apenas a base de dados do serviço de notificação de terremotos do U.S. Geological Survey e citava ainda outros tremores ocorridos na região nos últimos 10 dias — bem como todas as localidades afetadas. A postagem tinha tudo para ser apenas mais uma, que daria sequência a uma série de novas matérias produzidas pela redação ao longo do dia. Exceto, é claro, pelo conteúdo de seu último parágrafo: “este post foi criado por um algoritmo, desenvolvido pelo autor”.

O autor em questão é Ken Schwencke, editor de conteúdo digital do LA Times. Jornalista e programador, ele é o criador doQuakebot, um “robô” programado para escrever histórias baseadas em eventos sísmicos que preencham critérios de noticiabilidade previamente configurados. O bot posta automaticamente no servidor do jornal, gera uma imagem com base em mapas do Bing e informa os editores de que o texto está pronto para ser liberado. Além do Quakebot, Schwencke desenvolveu também o HomicideReport, um bot que publica um lead básico de todas as ocorrências de homicídio registradas em Los Angeles.

Já em abril, o periódico britânico The Guardian, que circulava nos Estados Unidos apenas em edição online, divulgou o lançamento de uma edição americana impressa e mensal totalmente produzida por bots. O #Open001 consiste em uma seleção de reportagens publicadas pelo Guardian ao longo da semana, escolhidas por algoritmos de acordo com sua aceitação nas redes sociais. Com a seleção feita, ARTHR, outro bot, diagrama as notícias nas páginas, cabendo ao editor apenas dar OK nas provas e enviá-las para impressão. O processo de fechamento completo leva cerca de uma hora e, de acordo com o desenvolvedor, poderá no futuro ser feito por qualquer pessoa — mesmo as sem conhecimento formal em jornalismo.

As notícias chamam a atenção inicialmente por seu caráter pitoresco, mas ganham especial relevância no sentido em que tensionam o jornalismo em um de seus fundamentos básicos: a notícia. Conteúdo jornalístico produzido com o auxílio de softwares é utilizado há mais de 50 anos, mas a elaboração autônoma de conteúdo é novidade. Muito se diz sobre o jornalismo não ser apenas “técnica”, e da importância da sensibilidade e da subjetividade do repórter, do “faro jornalístico” apurado, do traquejo do profissional ou mesmo do simples contato humano como determinantes para a construção social da notícia. Por outro lado, os bots e o assim chamado “jornalismo semântico” são exemplos extremos de quando esta é medida totalmente pela técnica.

O que isso representa para o jornalismo? Deontologicamente, muito pouco. A produção dos bots é o hard news puro, fundamentado em um lead básico para responder da forma mais simples possível às perguntas O quê? Quem? Como? Quando? Onde? e Por quê?. O trabalho de reportagem, investigação e contextualização social do acontecimento ainda seria imprescindível à atividade jornalística. Mas será que isso é feito de maneira adequada? Em um contexto de precarização das redações, levado a cabo por um círculo vicioso entre perda de anunciantes, quedas de audiência, dificuldade de monetização em ambiente virtual e reduções massivas de custo e equipes (os famosos “passaralhos”), sabemos que este tipo de material tem cada vez menos espaço nas organizações tradicionais.

As tensões que os bots evidenciam, desta forma, se dão no nível ontológico do jornalismo. Desconstroem, de início, a concepção antropocêntrica da própria produção noticiosa. É o que mostra o pesquisador Clister Clerwall, daKarstad University na Suécia, que realizou um estudo mostrando que a percepção de uma nota de “conteúdo autônomo” é indiscernível da escrita por um jornalista. A pesquisa apontou ainda que aspectos de qualidade como “clareza” e “leitura agradável” foram ligeiramente mais destacados em textos produzidos por humanos, enquanto “confiabilidade”, “informatividade” e “objetividade” se destacaram nos textos produzidos pelos algoritmos.

Clerwall resgata ainda que o jornalismo semântico é um braço do que é conhecido como “notícias algorítmicas”. São as matérias produzidas adaptadas à lógica dos pageviews e da otimização dos sistemas de busca. Ou seja, repórteres designados para reportagens inspiradas nas buscas populares no Google ou Yahoo. “Este tipo de notícia não se preocupa com o que o público precisa saber para tomar decisões e agir como cidadão na democracia, mas sim no que o público, em determinado momento, parece ‘querer’”. É tratar o leitor como consumidor, não como cidadão.

Muitos se perguntam se a máquina pode fazer melhor seu trabalho que um jornalista, mas, dentro da lógica acima, fica a provocação: ao servir à técnica, de que forma um humano produz melhor jornalismo que um robô? Quantas vezes, dentro das dinâmicas das horas de fechamento, não nos deixamos robotizar, produzindo sem introjeção ou reflexão, repetindo fórmulas, chavões e estereótipos? Para que e a quem serve um jornalismo como esse?

Jornalismo pós-industrial
A tecnologia do jornalismo produzido por algoritmos insere-se no contexto que o Tow Center, da Universidade de Columbia, nomeou em um relatório publicado em 2012 de jornalismo pós-industrial: adaptando-se ao presente. Escrito pelos pesquisadores C. W. Anderson, Clay Shirky e Emily Bell, o relatório, “parte pesquisa e parte manifesto”, retoma o termo utilizado no contexto jornalístico pela primeira vez por Doc Searls em 2001. Pós-Industrial, para ele, era aquele jornalismo não mais organizado de acordo com a lógica do maquinário de produção. Os autores, no entanto, propõem uma expansão do conceito para pensar também o papel do jornalismo no ecossistema midiático contemporâneo.

O relatório se debruça sobre o lugar ocupado pela imprensa e pelos profissionais de jornal em um mundo permeado por uma sociedade midiatizada; pela lógica conectiva das redes sociais; pela liberdade e alcance comunicativo do público (anteriormente “audiência”); por tecnologias e narrativas inovadoras criadas por startups ou por iniciativas midiáticas independentes ou mesmo sem fins lucrativos. Não é possível, afinal, olhar para mídias tão diferentes e ver algum tipo de unidade; seja no conteúdo, na linguagem, no modelo de negócios — ou mesmo na ausência dele.

Fala-se em um mundo em que jornalistas precisam “concorrer” com conteúdo produzido por atores humanos e não humanos, que ultrapassam os limites da antiga e coesa indústria de notícias. Isso se torna muito evidente na cobertura espontânea realizada durante protestos ou manifestações, como na Primavera Árabe — onde a imprensa oficial era impedida de noticiar os acontecimentos, mas as redes sociais tornaram-se a praça pública para a discussão, mobilização e ação social.

E no contexto nacional? Em um de seus artigos, Antonio Brasil, professor de Jornalismo da Universidade Federal de Santa Catarina, dá a ver uma imagem interessante: um mundo em que a cobertura feita por “ninjas nas ruas” coexiste com a de “drones no ar”. Narrativas Independentes, Jornalismo e Ação é a sigla do coletivo Mídia NINJA, braço do Fora do Eixo que emergiu com grande repercussão durante os protestos de junho passado. Seria possível compreender a cobertura pelos ninjas como jornalismo? Ou ainda, seria esta sequer uma pergunta relevante? Talvez mais importante seja pensar nos modos como ambas as mídias dialogam e tensionam uma a outra. O portalmidianinja.org, lançado em junho deste ano, é um grande exemplo desta relação.

De maneira semelhante e igualmente provocativa Anderson, Bell e Shirky perguntam: “seria o Facebook, do modo como é constituído hoje, uma empresa de notícias?”. A resposta, de acordo com o relatório de jornalismo pós-industrial, não seria nem sim, nem não, mas mu — que em linguagem de programação indica que a pergunta, como formulada, não tem resposta razoável. “O Facebook é fundamental para o ecossistema de notícias e, ainda que organizado de acordo com linhas fora de sincronia com qualquer coisa que reconheceríamos como organização jornalística, sua mera presença altera o contexto da pergunta.”

Pós-Jornalismo?

Para entender o que é e o que não é jornalismo, primeiramente é preciso definir sua estrutura e seus fundamentos. Dessa forma, é possível avaliar de maneira adequada as mudanças estruturais sem incorrer em neopatias, buscando na história da imprensa aquilo que é e permanece sendo essencial para a atividade.

Fato é que o jornalismo sempre executou uma série de funções, sendo a informativa apenas uma delas. No entanto, como bem aponta o relatório do Tow Center, nunca se teve muita urgência para defini-las. “No período em que o discurso público era escasso (o que quer dizer, toda a história até agora), jornalismo era simplesmente o que os jornalistas faziam”. Hoje, talvez mais do que nunca, ter claros estes conceitos torna-se imperativo para os estudos do campo.

Jornalismo pós-industrial é um termo que resolve de maneira bastante eficiente os desafios e perspectivas do jornalismo no tempo presente, e os estudos buscam mapear e explorar dilemas com os quais ainda estamos nos enfrentando. Seria possível, entretanto, vislumbrar a emergência de um possível pós-jornalismo? O prefixo “pós”, neste sentido, não tem necessariamente a conotação evolutiva ou linear, mas atópica.

Não é um novo jornalismo, ou um jornalismo superior, mas um novo lugar do qual lançar os olhos sobre o objeto jornalismo – e do qual este, por sua vez, também possa lançar os olhos sobre a sociedade. Um espaço onde as tensões homem x técnica, repórter x máquina, emissor x receptor se resolvam e deem origem a novas práticas, linguagens e organizações.

Fala-se em jornalismo pós-industrial, jornalismo líquido, funções massivas e pós-massivas, pós e protojornalismo. Fala-se em ciberacontecimentos e em jornalismo de multidões. Todos são conceitos que, cada um à sua forma, tentam compreender o que vivemos hoje e dão pistas sobre o que ainda está pela frente.

Vislumbrar este lugar do “pós”, buscando conhecer um panorama de diferentes visões sobre o assunto, é o objetivo desta edição da IHU On-Line. Ainda que seja difícil, a partir do presente, chegar a alguma conclusão sobre o que virá, não acreditamos que este seja um mero exercício de futurologia. Mesmo porque, ainda no século passado, o escritor William Gibson já nos lembrava: “o futuro já chegou. Só não está igualmente distribuído”.

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Sobre Andriolli Costa

Jornalista sul-mato-grossense em terras gaúchas. Atua principalmente nas áreas de jornalismo científico, cultural, rural e com estudos de Jornalismo.

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